A Cidadela
Capítulo 05
Na segunda-feira seguinte foi à casa de
Thomas Evans, em Cefan Row. Evans, um britador da pedreira de Aberalaw, tinha entornado uma chaleira de água fervente sobre o braço esquerdo. Era uma queimadura, muito extensa, com aspecto mais grave no cotovelo. Ao atender o doente, Andrew verificou que a enfermeira do distrito, que estava nas proximidades na ocasião do acidente, já havia feito um curativo com óleo de linhaça, continuando depois o seu giro.
Andrew examinou o braço, disfarçando a
repugnância produzida pelo unguento asqueroso. Furtivamente olhou a garrafa do óleo de linhaça, tapada com uma rolha de papel de jornal. Dentro havia um líquido esbranquiçado, onde quase se podiam ver cardumes de bactérias.
- A enfermeira Lloyd fez um serviço bem feito,
não é verdade, doutor? - disse Evans nervosamente.
Era um rapagão robusto, de olhos escuros. A
mulher, que estava perto, observava atentamente o médico e também parecia nervosa.
- Um serviço muito bem feito - concordou
Andrew com grande mostra de entusiasmo. - Eu dificilmente faria melhor. É claro que se trata apenas do primeiro curativo, de emergência. Agora devemos experimentar um pouco de ácido pícrico.
Sabia que se não aplicasse depressa um anti-
séptico seria quase certa uma infecção no braço. «E nesse caso», pensava ele, «só um milagre poderá salvar a articulação do cotovelo».
Evans e a mulher, desconfiados, fitavam
Andrew, enquanto ele, com escrupulosa delicadeza, limpava o braço e o enrolava em gaze embebida em ácido pícrico.
- Pronto. Não sente o braço mais à vontade? - Com franqueza, não sei - disse Evans. - Tem
a certeza, doutor, de que isto assim está bem?
- Absoluta! - Andrew sorriu
tranquilizadoramente. - Deixe que a enfermeira e eu tomemos conta disso.
Antes de sair deixou um bilhete para a
enfermeira do distrito violentando a sua vontade para mostrar-se atencioso, cheio de consideração pelas suas susceptibilidades.
Agradecia-lhe o esplêndido tratamento de
emergência e perguntava-lhe se, como precaução contra uma possível septicemia, não se importaria de continuar com as aplicações de ácido pícrico. Fechou o sobrescrito com todo o cuidado.
Na manhã seguinte, quando chegou à casa do
doente, as suas ligaduras embebidas em ácido pícrico tinham sido atiradas e o braço estava novamente enrolado com outra ligadura impregnada de óleo de linhaça. A enfermeira do distrito estava lá a tratar do braço, preparada para a luta:
- Tenho interesse em saber que história é essa,
Dr. Manson? Acha, então, que o meu trabalho não presta?
Era uma grossa mulher, de meia-idade,
cabelos grisalhos e mal arrumados, cara atormentada. Custava-lhe a falar, de tão ofegante.
Andrew desanimou. Fez um grande esforço
para dominar-se. Forçou um sorriso.
- Venha cá, enfermeira Lloyd. Não me
interprete mal. Porque não conversamos sobre o assunto na sala da frente?
A enfermeira levantou a cabeça e dirigiu os
seus olhares para Evans e a mulher, que, com uma garotinha de três anos agarrada à saia, estavam escutando, alarmados, os olhos muito abertos.
- Não, nada disso. Falaremos sobre o caso aqui
mesmo. Nada tenho que ocultar. A minha consciência está tranquila. Nasci e fui criada em Aberalaw, aqui frequentei a escola, casei-me, tive filhos, aqui perdi o meu marido e aqui tenho trabalhado durante vinte anos como enfermeira do distrito. E nunca alguém me disse que não aplicasse óleo de linhaça numa queimadura ou numa chaga.
- Ouça, enfermeira - argumentou Andrew -
óleo de linhaça talvez seja muito recomendável em certos casos. Mas aqui há o risco de contractura. - Distendeu o braço dela para demonstrar a explicação. - É por isso que quero que a senhora experimente o meu método.
- Nunca ouvi falar nessa droga. O velho Dr.
Urquhart não a emprega. Era o que estava a dizer ao Sr. Evans. E eu não confio nessas novidades de uma pessoa que está aqui há uma semana!
Andrew sentiu um nó na garganta. Ficou
abalado, constrangido, ao pensar em novos aborrecimentos, em toda a repercussão da cena, pois a enfermeira era uma pessoa perigosa para se ter como inimiga. Iria de casa em casa, dizendo em todas elas o que lhe vinha à cabeça. Mas ele não podia, não devia comprometer o doente com aquele tratamento antiquado.
- Se não quer fazer o curativo, enfermeira,
virei aqui, de manhã e à noite, e fá-lo-ei eu mesmo.
- Faça então. Pouco me importa! - respondeu a
enfermeira Lloyd, quase a chorar. - E Deus queira que Tom Evans escape com vida. E seguidamente precipitou-se pela porta fora.
Num silêncio de morte, Andrew tirou
novamente o penso do óleo de linhaça. Gastou perto de meia hora a limpar e tratar o braço ferido. Quando saiu prometeu voltar às nove horas.
Na mesma noite, ao entrar no consultório, a
primeira pessoa a aparecer foi a Sr.a Evans, muito pálida, os olhos amedrontados evitando os dele.
- Desculpe, doutor... gaguejou ela. Custa-me
incomodá-lo. Mas posso tirar o cartão de Tom?
Andrew desanimou. Levantou-se sem dizer
palavra, procurou o cartão de Tom e entregou-o à mulher.
- O doutor compreende... Já não precisa de
aparecer lá por casa.
Ele respondeu, desalentado:
- Compreendo, Sr.a Evans. - E quando ela já
estava à porta não resistiu a perguntar: - O óleo de linhaça está lá de novo?
Engasgada, ela afirmou com a cabeça e saiu. Depois do trabalho da clínica, Andrew, que
costumava marchar para casa a toda a pressa, arrastou-se aborrecidamente para Vale View. «Que triunfo», pensava com amargura, «para o método científico! E que sou eu, afinal?
Honesto ou desastrado? Desastrado ou
estúpido, estúpido e desastrado!».
Ficou muito taciturno durante o jantar.
Depois, em companhia de Christine, foi para a saleta, agora confortavelmente mobilada. Sentaram-se juntos no sofá, ao pé do fogo reanimador. Andrew deixou-se ficar com a cabeça encostada ao ombro de Christine.
- Oh! Minha querida - murmurou. - Estou a
estragar o nosso começo de vida.
Quando Christine o consolou, acariciando-lhe
a testa, Andrew tinha os olhos húmidos.