A Cidadela
Capítulo 18
Na manhã seguinte Andrew levantou-se cedo,
depois de uma noite bem dormida. Sentiu-se retemperado e pronto para a acção. A primeira providência foi uma telefonadela para a agência Pulger & Turner, especializada em transacções entre médicos, confiando-lhe a venda da clínica.
Gerald Turner, o chefe actual da antiga e
conceituada firma, atendeu pessoalmente e, a pedido de Andrew, veio imediatamente a Chesborough Terrace. Depois de um exame dos livros, assegurou-lhe que não teria a menor dificuldade em arranjar comprador.
- É claro, doutor, que temos de mencionar nos
anúncios uma justificação para a venda - disse gentilmente o Sr. Turner, batendo nos dentes com a extremidade do lápis. - Qualquer pretendente terá desejo de saber a razão por que um médico abandona uma mina de ouro como esta. Desculpe-me a liberdade, mas é mesmo uma mina de ouro. Há muito tempo que não me passa pelas mãos uma clínica tão rendosa. Podemos alegar motivos de doença?
- Não - respondeu Andrew, abruptamente. -
Diga a verdade. Diga... - conteve-se - basta dizer: por motivos particulares.
- Muito bem, doutor. - E o Sr. Gerald Turner
escreveu no livro de notas: - «Transferência por motivos particulares e alheios à clínica».
Andrew concluiu:
- E não se esqueça: não exijo uma fortuna.
Quero apenas um preço razoável. É bem possível que muitos clientes não queiram continuar com o meu sucessor.
À hora do almoço, Christine entregou-lhe dois
telegramas. Andrew pedira a Denny e a Hope que lhe telegrafassem assim que recebessem as cartas enviadas na véspera.
O primeiro, de Denny, era bem simples:
«Impressionado. Espere-me amanhã à noite».
O segundo declarava num estilo bem
característico: «O meu destino é esbanjar a vida no meio de doidos. Parece que falou em laboratório. Contribuinte indignado.»
Depois do almoço Andrew correu ao hospital.
Não era a hora da visita de Thoroughgood, mas isso convinha-lhe admiravelmente. Queria evitar discussões e aborrecimentos, principalmente com o colega mais antigo, que sempre o tratara muito bem, apesar da teimosia e da consideração que dedicava aos cirurgiões-barbeiros de outrora.
Sentado na beira da cama de Mary, Andrew
explicou-lhe o que pretendia fazer.
- Para começar, devo dizer que a culpa foi
minha - e bateu-lhe no ombro, tranquilizadoramente. - Eu devia ter previsto que este lugar não te servia. Verás a diferença quando fores para Bellevue. Não calculas, Mary! Mas todos aqui foram muito amáveis para contigo e não há necessidade de magoar alguém. Deves dizer apenas que queres sair na próxima quarta-feira, deixar o hospital. Se te acanhas em dizer isso, direi a teu pai que escreva ordenando a tua saída. Há muita gente à espera de vaga e eles não levantarão dificuldades. Então, na quarta-feira, eu mesmo irei levar-te a Bellevue. Está tudo combinado, até falei a uma enfermeira para ir connosco. Nada mais simples... nem melhor para ti.
No regresso, Andrew tinha a impressão de
haver realizado alguma coisa de útil, sentia que estava a pôr novamente em ordem a sua vida, que deixara tombar em tão horrível confusão. Naquela noite, no dispensário, resolveu despedir severamente os clientes crónicos, não se importando de sacrificar a sua fama de sedutor. Em menos de uma hora teve de declarar, firmemente, mais de dez vezes:
- Não deve voltar mais à consulta. Já cá vem
há muito tempo. Não padece de qualquer doença. E não continue a tomar remédios!
Estava admirado do alívio que sentia depois
de pronunciar estas palavras. Ter essa franqueza, essa honestidade, era um prazer que não experimentava desde muito tempo. Quando foi para junto de Christine tinha uma animação quase juvenil.
- Agora já não me julgo tanto um charlatão de
feira! - E resmungando: - «Meu Deus! Como posso falar assim!... Ía-me esquecendo do que aconteceu... Vidler... tudo o que eu fiz!».
Neste momento o telefone tocou. Christine foi
atender. Andrew teve a impressão de que ela se demorou muito para voltar. Quando a viu a sua expressão pareceu novamente perturbada.
O telefone é para ti.
- Quem é?... - De repente adivinhou que se
tratava de Frances Lawrence. Houve um silêncio na sala. Depois, Andrew falou precipitadamente: - Diz-lhe que não estou. Diz-lhe que me fui embora. Não, espera! - tomou um ar decidido e caminhou com passo firme. - Deixa que eu falo.
Ao voltar, uns cinco minutos depois,
encontrou-a sentada, a fazer tricot num canto da sala onde a luz era mais intensa. Olhou-a disfarçadamente, desviou logo a vista e encaminhou-se para a janela. Ficou ali, aborrecido, olhando para a rua, com as mãos nos bolsos. O leve ruído das agulhas de Christine comunicava-lhe uma impressão estranha, constrangedora. Era como se fosse um cachorrinho triste e vulgar voltando para casa de cauda caída e pêlo arrepiado depois de uma escapada com os cães vadios.
Num determinado momento, não se conteve.
Ainda de costas disse para ela:
- Isso também acabou. Talvez te interesse
saber que não passou de uma tola questão de vaidade... Sim, de vaidade, de egoísmo e de ambição. Nunca deixei de te querer um só instante. - E numa explosão repentina: - C"os diabos, Chris! O verdadeiro culpado fui eu. Essa gente não sabe o que é decência, mas eu devia saber. Não é justo que procure desculpar-me com tanta facilidade. Mas fica sabendo também, Chris, que já me libertei do Roy. Aproveitei estar perto do telefone e liguei para ele, desistindo do emprego que me prometera. Não quero saber mais das suas porcarias. Afastei-me de toda aquela cambada. Definitivamente!
Ela não respondeu, mas o leve ruído das suas
agulhas era agora, na sala silenciosa, mais vivo, mais animado.
Andrew deve ter ficado ali muito tempo.
Intimamente envergonhado, olhando o movimento da rua, vendo os últimos vestígios do sol apagarem-se no crepúsculo do Verão. Por fim, quando se voltou, as sombras da noite já tinham invadido a sala, mas Christine continuava sentada ali, meio invisível na penumbra da sua poltrona: uma figurinha quase apagada, a fazer tricot.
Naquela noite Andrew acordou alagado em
suor, aflito, procurando-a às cegas na cama, ainda sob a impressão terrível do pesadelo.
- Chris, onde estás? Perdoa-me, Chris, perdoa-
me. Juro que para o futuro procederei honestamente contigo. - E depois, já tranquilizado, quase adormecido. - Vamos gozar umas férias quando vendermos isto aqui. Meu Deus! Como os meus nervos estão destroçados. E pensar que já te chamei neurasténica! Quando voltarmos e nos instalarmos seja onde for, terás um jardinzinho, Chris. Eu sei que gostas de flores. Lembras-te..., lembras-te de Vale View, querida?
Na manhã seguinte Andrew voltou para casa
com um grande ramo de crisântemos. Esforçava-se com o afecto de outrora por demonstrar todo o seu carinho, não com a generosidade ostensiva que ela detestava. Ficava arrepiado só de pensar naquele almoço do Plaza. Era com o carinho dos velhos tempos, simples, modesto, sincero.
À hora do chá trouxe um bolo de que ela
gostava muito. Não contente foi buscar para ela as chinelinhas de andar por casa. Christine levantou-se da cadeira, franzindo a testa, protestando afectuosamente:
- Não, querido, não faças isso! Vou pagar caro.
Daqui a uns dias arrancarás os cabelos e tratar-me-ás aos berros... Como costumavas fazer antigamente.
- Chris! - exclamou ele, magoado, sentido. -
Não vês que tudo mudou? De hoje para o futuro só pensarei em te ser agradável.
- Está bem, está bem, meu querido. - Sorria,
mas nos seus olhos havia lágrimas. E com uma decisão repentina de que Andrew não a julgaria capaz: - Tudo me serve quando há verdadeira união entre nós. Não quero que corras atrás de mim com mimos. Só te peço que não corras atrás de mais alguém.
Como prometera, Denny chegou naquela
noite, ainda a tempo de jantar. Trazia um recado de Hope, que lhe telefonara de Cambridge, avisando que não podia vir a Londres naquele dia.
- Diz que não pode vir por causa de negócios -
declarou Denny, enchendo o cachimbo. - Mas desconfio muito de que o nosso amigo Hope anda namorando e quer casar. Está romanticamente apaixonado, o nosso bacteriologista.
- Ele nada disse sobre a minha ideia? -
perguntou Andrew, ansioso.
- Disse, sim. Está animadíssimo. A paixão não
impede. Podemos contar com ele. Eu também estou muito animado.
Denny desenrolou o guardanapo e serviu-se
de salada.
- Não sei mesmo como um plano tão razoável
surgiu numa cabeça como a sua. E eu a imaginar que estava receitando perfumarias para a clientela aristocrática! Conte-me pormenores.
Andrew explicou tudo, com todos os detalhes,
numa eloquência crescente. Começaram a discutir o plano nos seus aspectos práticos. Já tinham falado muito quando Phillip disse:
- Na minha opinião, não devíamos optar por
uma cidade grande. Uma cidadezinha de vinte mil habitantes seria o ideal. É onde podemos fazer coisas interessantes. Consulte um mapa de West Midlands. Encontrará ali uma porção de cidadezinhas industriais com uns quatro ou cinco médicos que se detestam cordialmente, cada um procurando atrapalhar a vida dos outros. Têm de fazer tudo e acabam nada fazendo de aproveitável. É num lugar assim que temos de tentar a experiência do nosso sistema de cooperação especializada. Não convém comprar qualquer clínica. É só chegar e pôr mãos à obra. Meu Deus! Já estou a ver a cara dos médicos da terra!... É claro que teremos de enfrentar uma tremenda campanha de insultos. Poderemos até ser assassinados. Mas voltando ao realizável, do que precisamos é de uma clínica central e, como diz, de um laboratório anexo, para o Hope. Podemos ter mesmo uns dois ou três quartos para doentes no andar superior. Para começar, uma coisa modesta. O problema é apenas de adaptar, e não de construir, um edifício. E tenho a impressão de que triunfaremos. - Nisto, dando pelo interesse animado com que Christine seguia as suas palavras, Phillip sorriu. - Que lhe parece isto tudo, minha senhora? Uma loucura, não é verdade?
- Sim, uma loucura - respondeu ela com a voz
um pouco tomada. - Mas são as loucuras que contam.
- Muito bem dito, Chris! Por Deus! São as
loucuras que contam.
Andrew deu um murro na mesa que fez os
talheres tinirem.
- O plano é bom! Mas o que vale de facto é o
ideal que o anima! Uma nova interpretação do juramento de Hipocrates: absoluta fidelidade ao ideal científico, nada de empirismo, nada de charlatanices, nem de explorações de clientes, nem preparados de reclame, nem xaropadas para enganar neurasténicos, nem... Upa! Por amor de Deus, dá-me qualquer coisa que se beba! A minha garganta está seca de tanta conversa. Preciso de um alto-falante!
Ficaram a trocar impressões até à uma da
manhã.
O entusiasmo intenso de Andrew contagiava
até o próprio Denny, tão frio habitualmente. Este já não podia apanhar o último comboio. Phillip teve portanto de ocupar o quarto de hóspedes e, no dia seguinte, ao sair apressado, logo depois do café, prometeu voltar a Londres na sexta-feira seguinte. Nesse intervalo falaria com Hope e, prova suprema do seu entusiasmo!, compraria um mapa grande de West Midlands.
- A coisa vai, Chris! A coisa irá para a frente! -
Andrew voltava triunfante da rua. - Phillip está entusiasmado. Não se expande muito, mas eu conheço-o.
Nesse mesmo dia começaram a aparecer os
primeiros pretendentes à compra da clínica. Gerald Turner acompanhava pessoalmente os candidatos mais prováveis. O corretor expressava-se fluente e elegantemente, e discorria com optimismo até mesmo sobre a arquitectura da garage.
Na segunda-feira o Dr. Noel Lowry apareceu
duas vezes sozinho de manhã e acompanhado pelo corretor à tarde.
Pouco depois Turner telefonava para Andrew,
numa suave confidência:
- O Dr. Lowry está interessado; posso dizer
mesmo muito interessado. Insiste muito para que não fechemos o negócio com qualquer outro pretendente antes que sua mulher venha ver a casa. Ela está numa praia de banhos, com as crianças. Chegará na quarta-feira.
Era o dia combinado para levar Mary a
Bellevue, mas Andrew achou que o assunto, entregue a Turner, estava em boas mãos. Tudo correra no hospital como previra. Mary deixaria o Vitória às duas da tarde. Ele esperá-la-ia na porta com a enfermeira Sharp.
Chovia muito quando, à uma e meia, o carro
parou em frente do consultório de Welbeck Street, para conduzir a enfermeira. A mulher estava de mau humor e esperava-o de aspecto carrancudo. Desde que Andrew a avisara de que dispensaria os seus serviços no fim do mês, mostrava-se ainda mais sombria e ríspida. Respondeu com um resmungo ao cumprimento do médico e entrou no automóvel.
Felizmente tudo correu bem no hospital. Mary
apareceu à porta da rua assim que o carro parou em frente do Vitória. Instalou-se no banco traseiro na companhia da enfermeira, bem agasalhada, com um saco de água quente nos pés. Entretanto, Andrew não tardou a arrepender-se de haver trazido aquela enfermeira carrancuda e desconfiada. Era evidente que ela considerava a viagem como um trabalho fora das suas obrigações e Manson não sabia explicar como a suportara tanto tempo.
Às três e meia chegaram a Bellevue. Já não
chovia e o sol começava a aparecer por entre as nuvens. Mary inclinava-se para a frente, a examinar com olhos inquietos, talvez mesmo de apreensão, o sanatório que lhe haviam descrito com tanto entusiasmo.
Andrew encontrou Stillman no escritório.
Estava ansioso para que ele observasse a doente quanto antes, pois a questão do pneumotórax não lhe saía da cabeça. Falou-lhe a esse respeito, enquanto fumavam um cigarro e bebiam chá.
- Muito bem - concordou Stillman, quando o
outro concluiu. - Vamos examinar a doente agora mesmo.
Guiou Manson ao quarto de Mary. Ela já
estava deitada, abatida pela viagem e ainda apreensiva, a observar a enfermeira Sharp, que arrumava as suas roupas num canto do aposento. Assustou-se um pouco quando viu Stillman entrar.
Este examinou-a meticulosamente. Foi um
exemplo para Andrew: exame sereno, silencioso, absolutamente preciso.
Não tomava ares importantes e convencionais.
Não procurava impressionar. Nem mesmo parecia um médico em exercício. Era como um técnico a examinar uma determinada máquina que não funcionava bem. Embora empregasse o estetoscópio, era pelo tacto que fazia a maior parte das pesquisas, apalpando os espaços intercostais e supraclaviculares, como se pudesse conhecer, pelos dedos subtis, a verdadeira condição das células vivas dos pulmões.
Quando terminou o exame, nada disse a
Mary, mas fez sinal a Manson para que o acompanhasse.
- Pneumotórax disse. Não há dúvida
alguma. É uma coisa que já devia ter sido feita há muitas semanas. Vamos tratar disso imediatamente. Vá e avise a pequena.
Enquanto o americano saía para tratar dos
preparativos, Andrew voltou ao quarto e avisou Mary. Procurou tranquilizá-la com as palavras mais animadoras, porém era evidente que a perspectiva da intervenção imediata a perturbava.
- É o senhor quem vai fazer? - perguntou ela
nervosamente. - Prefiro que seja o senhor.
- É uma coisa muito simples, Mary. Não
sentirá a menor dor. Eu estarei lá, para ajudar. Pode ter a certeza de que tudo correrá bem.
Era sua intenção deixar tudo a cargo de
Stillman. Mas a doente estava tão nervosa, tinha tanta fé nele, e sentia-se também tão responsável pela sua presença ali, que resolveu entrar na sala dos tratamentos e oferecer a sua assistência ao americano.
Dez minutos depois estavam prontos para a
acção. Quando Mary chegou, Andrew aplicou-lhe a anestesia local.
Depois, enquanto Stillman introduzia
habilmente a agulha, colocou-se perto do manómetro, fiscalizando o fluxo, na pleura, do azoto esterilizado. O aparelho era extraordinariamente delicado e Stillman um mestre incontestável na técnica. Manobrava a cânula com admirável destreza, sem desviar os olhos do manómetro, pois o estalido final anunciaria a perfuração da pleura parietal. Stillman tinha um método próprio de manipulação profunda para prevenir qualquer manifestação de enfisema cirúrgico.
Depois da primeira fase de intenso
nervosismo, a inquietação de Mary ia cedendo gradualmente. A confiança foi crescendo no decurso da operação e por fim a doente já sorria para Andrew, completamente tranquila. Ao voltar ao quarto disse-lhe:
- Tinha razão. Não sinto coisa alguma. Nem
parece que sofri uma operação.
- Ah, sim? - levantou as sobrancelhas. E num
sorriso: - É assim que deve ser... Nada de encenação; nada que possa impressionar o doente. Eu gostaria que todas as operações fossem assim! Mas, com toda essa calma, conseguimos imobilizar o seu pulmão. Vai entrar em repouso agora. Quando voltar de novo a respirar, estará curado. Posso garantir!
Mary olhou-o demoradamente, após o que
passeou a vista pelo quarto alegre, pela janela donde se desfrutava uma linda paisagem.
- Creio que vou gostar disto aqui, apesar de
tudo. Ele não procura ser agradável... Falo do Sr. Stillman... Mas, assim mesmo, dá uma óptima impressão. Posso tomar chá?