A Cidadela
Capítulo 02
Não tiveram dificuldade em encontrar
Glynmawr uma sólida vivenda dentro de um terreno bem tratado pois o belo automóvel de Llewellyn estava do lado de fora e no portão de ferro batido via-se a placa reluzente do médico, com todos os seus títulos gravados em pequeninas letras brancas. Subitamente nervosos com tanto aparato, tocaram a campainha e apresentaram-se, O Dr. Llewellyn veio da sala de espera para recebê-los mais gentil do que nunca, de sobrecasaca e a camisa engomada com botões de punho de ouro. A expressão exprimia cordialidade.
- Entrem, entrem! Esplêndido! Encantado por
conhecê-la, Sr.a Manson. Espero que goste de Aberalaw. A cidade não é má, posso garantir-lhe. Venha para aqui. Minha mulher vem num instante.
A Sr.a Llewellyn veio a seguir, tão acolhedora
como o marido. Era uma mulher de cabelos arruivados, de cerca de quarenta e cinco anos, um tanto descorada e sardenta.
Depois de cumprimentar Manson, voltou-se
para Christine com expansões afectuosas.
- Oh! Minha senhora, que pedacinho adorável
que é! Declaro-lhe que já me conquistou o coração. Tenho vontade de a beijar. Não se incomoda, querida?
Sem mais delongas abraçou Christine e pôs-se
a examiná-la com encantamento. Um gongo soou no fundo do corredor e foram jantar.
Foi um jantar excelente - sopa de tomate, dois
assados com recheio, salsichas e pudim. O doutor e a Sr.a Llewellyn desfaziam-se em atenções com os convidados.
- O senhor não tardará muito a integrar-se no
ambiente - daqui dizia Llewellyn. - Sim, sem dúvida. Eu o ajudarei em tudo que puder. A propósito, fiquei satisfeito porque esse tal Edwards não conseguiu o lugar. Eu não podia de forma alguma apoiar a sua pretensão, embora tivesse prometido dizer qualquer coisa em seu favor. Que estava eu a dizer? Ah, sim! Bem, ficará na clínica Oeste... é lá para os seus lados... com o velho Dr. Urquhart, um camaradão, e Gudge, o farmacêutico. No lado de cá, na clínica Leste, temos o Dr. Mendley e o Dr. Oxborrow. São todos bons companheiros. Há-de gostar deles. Não joga o golf? Podemos ir algumas vezes a Fernley Course. Fica apenas a nove milhas daqui. Naturalmente, tenho sempre muito que fazer. Sim, é claro. Não me ocupo pessoalmente das clínicas. Cuido do hospital. Trato dos casos de acidentes de trabalho para a Companhia. Sou o médico oficial da cidade, tenho o meu cargo na fábrica de gás. Sou o cirurgião da Santa Casa e também chefe do serviço de vacinações. Faço todas as peritagens em casos judiciários. Ah! e sou o médico legista também. Além disso - os seus olhos brilharam sem malícia - também atendo, nas horas vagas, uma clínica particular bem boazinha.
- É muita coisa - disse Manson. Llewellyn iluminou-se.
- Devemos combinar os nossos esforços, Dr.
Manson. Aquele carrinho que viu lá fora custa a bagatela de mil e duzentas libras. E quanto ao... bem, isso não vem para o caso. Não vejo motivo para que o senhor não tire uma boa renda aqui. Vamos dizer... Umas trezentas ou quatrocentas libras, por sua conta, se trabalhar com vontade e souber aproveitar. - Fez uma pausa. E numa sinceridade irritada: - Há uma coisa que acho do meu dever explicar-lhe. Os médicos assistentes combinaram pagar-me um quinto dos seus honorários. - E continuou animada, inocentemente: - Isso é porque eu tomo conta dos casos mais bicudos. Quando se vêem atrapalhados, recorrem a mim. E posso garantir-lhe que isso tem sido bom para eles.
Andrew levantou os olhos, um pouco
surpreendido.
- Isso não consta da organização dos Auxílios
Médicos.
- Bem, de modo formal não entra - disse
Llewelly, franzindo a testa. - Foi tudo arranjado pelos próprios médicos já há muito tempo.
- Mas...
- Dr. Manson! - a Sr.a Llewellyn chamou-o
suavemente da outra ponta da mesa. - Estou a dizer à sua querida mulherzinha que nos devemos encontrar com frequência. Ela deve vir tomar chá comigo uma tarde destas. O doutor pode ceder-ma algumas vezes, não é verdade? Qualquer dia iremos a Cardiff de automóvel. Vai ser agradável, não vai, minha querida?
- Sem dúvida - prosseguiu Llewellyn
untuosamente - quem estava no lugar onde o senhor vai mostrar quanto vale era um pobre diabo... Leslie, seu antecessor, era um médico lastimável, quase tão ruim como o velho Edwards. Nem ao menos sabia aplicar bem um anestésico. Espero, doutor, que seja um bom anestesista. Quando tenho em mãos um caso importante, compreende, preciso de contar com um bom anestesista. Mas, valha-me Deus! Não vamos falar nisso por enquanto. O senhor mal chegou ainda e não é justo que eu o incomode.
- Idris! - gritou a Sr.a Llewellyn para o marido,
com ar de quem dá uma notícia sensacional. - Eles só se casaram hoje de manhã! A Sr.a Manson acabou de me explicar. Ela é uma noivinha! Calcula! Os inocentinhos!
- Muito bem! Muito bem! - expandiu-se
Llewellyn.
A Sr.a Llewellyn bateu na mão de Christine: - Minha pobre pequena! Que trabalheira vai
ter até se instalar naquele lastimável Vale View! Preciso de ir lá, um dia destes, para lhe dar uma ajudazinha.
Manson corou ligeiramente, procurando
coordenar as ideias. Parecia-lhe que ele e Christine se tinham tornado numa bola de brinquedo que os Llewellyn atiravam um para o outro, com destreza e facilidade. Contudo, julgou propícia a última observação.
- Dr. Llewellyn - decidiu-se a dizer, meio
nervoso - a sua senhora tem razão. Estive a pensar... Não gosto de pedir isso, mas eu gostaria de passar dois dias fora, para levar minha mulher a Londres, a fim de ver essa história da mobília e mais uma ou outra coisa.
Viu Christine arregalar os olhos,
surpreendida. Mas Llewellyn estava já concordando generosamente com a cabeça.
- Porque não? Porque não? Depois de começar
o trabalho não lhe será tão fácil afastar-se daqui... Aproveite amanhã e depois, Dr. Manson. Está a ver? É nessas coisas que eu lhe posso ser útil. Aliás, eu sou sempre útil para os assistentes. Eu falarei à direcção sobre o seu pedido.
Andrew não teria dúvidas em falar
pessoalmente à direcção, ou mesmo a Owen. Mas deixou passar.
Beberam o café na sala de visitas, como
acentuou a Sr.a Llewellyn, em xícaras «pintadas à mão». Llewellyn ofereceu cigarros da sua cigarreira de ouro.
- Olhe para isto, doutor! É um presente,
repare. Um cliente agradecido. Pesada, não é? Vale no mínimo umas vinte libras.
Por volta das dez horas, o Dr. Llewellyn olhou
para o seu magnífico relógio. Na verdade, sorriu para o relógio, pois ele tinha o mérito de contemplar até mesmo objectos inanimados, especialmente quando lhe pertenciam, com aquela cordialidade meiga que era tão sua. Por um momento Manson pensou que ele iria entrar em confidências sobre o relógio. Mas Llewellyn disse apenas:
- Tenho de ir ao hospital. Uma operação
gastroduodenal que fiz esta manhã. Que lhe parece ir comigo de automóvel para ver o caso?
Andrew levantou-se animado. - Pois não. Com o maior prazer, Dr. Llewellyn. Como Christine foi também incluída no
convite, desejaram as boas noites à Sr.a Llewellyn, que da porta da rua acenava ternas despedidas, e instalaram-se no carro, que seguiu com silenciosa elegância pela rua principal, virando depois à esquerda.
- Faróis poderosos, não é verdade? - comentou
Llewellyn. Foi acendendo-os para causar impressão. - Luxite! Especiais! São extra. Mandei pô-los de encomenda.
- Luxite! - disse Christine subitamente, numa
voz melíflua. - São com certeza muito caros, não são, doutor?
- São de facto! - confirmou Llewellyn,
enfaticamente, grato pela pergunta. - Custaram-me trinta libras.
Metido em si mesmo, Andrew não ousava
trocar olhares com Christine.
- Cá estamos - disse Llewellyn, minutos mais
tarde. - Isto aqui é o meu lar espiritual.
O hospital era um edifício de tijolos
vermelhos, bem construído, ao qual levava um caminho de saibro, ladeado de loureiros. Desde a entrada, começaram a brilhar os olhos de Andrew. Embora pequeno, o hospital era moderno, com óptima aparelhagem. Quando Llewellyn lhes foi mostrando o anfiteatro, a sala de raios X, a dos curativos, as duas enfermarias confortáveis e arejadas, Andrew pôs-se a pensar entusiasticamente que tudo era perfeito... e tão diferente de Blaenelly! Como seria bom tratar ali os seus doentes!
No decorrer da visita, encontraram a
enfermeira-chefe, uma mulher alta e ossuda, que ignorou Christine, cumprimentou Andrew sem entusiasmo e logo se pôs em adoração diante de Llewellyn.
- Conseguimos tudo com a maior facilidade,
não é verdade, enfermeira? - disse Llewellyn. - É só pedir à direcção. Sim, com efeito, é boa gente. Todos são decentes sem excepção. Como vai a minha gastroenterostomia, enfermeira?
- Vai muito bem, Dr. Llewellyn - murmurou a
chefe das enfermeiras.
- Bem! Verei isso daqui a pouco.
E acompanhou Christine e Andrew, de volta
ao vestíbulo.
- Confesso, Manson. Tenho certo orgulho
neste hospital. É como se fosse meu. E ninguém me pode censurar Por isso. o senhor saberá o caminho para sua casa? E, ouça, quando estiver de volta, na quarta-feira, telefone-me. Eu posso precisar de si para uma anestesia.
Abandonando o hospital a caminho de casa,
os dois ficaram em silêncio por um momento e Christine pendurou-se no braço de Andrew.
- E então? - indagou ela.
Andrew percebeu o seu sorriso no escuro. - Gostei dele - disse apressadamente. - Gostei
dele. Reparaste também na enfermeira? Como se fosse beijar a fímbria do seu manto... Mas, que hospitalzinho! Que maravilha! E também que rico jantar nos deram! Não são miseráveis... Só o que não percebo é porque lhe hei-de pagar um quinto dos meus honorários! Isso não me parece justo, nem mesmo decente! E, seja como for, tenho a impressão de ser amimado e festejado com a condição de proceder como um bom menino.
- Foste realmente um menino encantador por
teres pedido esses dois dias. Mas, com franqueza, meu querido, como é que vamos fazer? Não temos dinheiro para gastar em móveis. Como vai ser?
- Espera e verás - respondeu ele
enigmaticamente.
As luzes da cidade já lhes ficavam para trás e
um misterioso silêncio caiu sobre eles quando se aproximaram de Vale View. O contacto da mão dela no braço de Andrew era uma delícia. Envolveu-o uma grande onda de amor.
Pensou nela, casando-se tão precipitadamente
num vilarejo mineiro, conduzida num camião desconjuntado através das montanhas, atirada para uma casa meio vazia, onde a caminha dela de solteira tinha de ser o leito nupcial, e suportando todas essas provações e embaraços com coragem e risonha ternura. Ela amava-o, tinha fé e confiança nele. Uma grande resolução o dominou. Havia de a recompensar de tudo isso, havia de lhe mostrar, pelo trabalho, que a confiança era merecida.
Atravessou a ponte de madeira. O murmúrio
do ribeiro, com as suas margens mal tratadas ocultas na suave escuridão da noite, era doce aos seus ouvidos. Manson tirou a chave do bolso e enfiou-a na fechadura.
O hall estava na penumbra. Quando fechou a
porta, Andrew voltou-se para onde ela estava à sua espera. A fisionomia de Christine parecia iluminada. A sua ligeira figura era expectante, mas indefesa.
Andrew pôs os braços em torno dela,
gentilmente, murmurou num tom estranho:
- Como te chamas, querida?
- Christine - respondeu ela, espantada. - Christine de quê?
- Christine Manson.
A respiração dela era opressa, mais, cada vez
mais. E os lábios de Andrew sentiam-na quente.