A Cidadela
Capítulo 21
Dois meses antes, quando Andrew deixou a
enfermeira Sharp na estação de Notting Hill, ela tomou o metropolitano e saltou em Oxford Circus. Daí seguiu a pé, muito apressada, para a Queen Anne Street. Tinha um encontro marcado com a enfermeira Trent, que trabalhava com o Dr. Hamson. Combinara com a amiga irem juntas aquela noite ao Queen"s Theatre. Mas como já eram oito e quinze e o espectáculo começava às oito e quarenta e cinco, havia muito pouco tempo para se encontrar com a companheira e chegarem ao teatro. Fazia parte do programa um jantar num restaurante da vizinhança. Teriam de contentar-se com uma sanduíche mastigada à pressa, ou talvez nem isso. A enfermeira ia furiosa. Sentia que fora vítima de uma exploração infame. Quando relembrava os acontecimentos daquela tarde refervia de zanga e indignação.
Subiu os degraus da entrada do 170 e tocou
nervosamente a campainha. Foi a enfermeira Trent quem lhe abriu a porta, mas com uma expressão de censura. Antes que pudesse reclamar, a amiga disse-lhe apressadamente, segurando-lhe o braço.
- Perdoa-me, minha querida, mas se soubesses
que dia tive! Contar-te-ei mais tarde. É só um momento para me arranjar um pouco. Se não perdermos tempo chegaremos a tempo.
Nesse momento, enquanto as duas
enfermeiras conversavam no patamar, Hamson desceu as escadas todo flamante, de casaca. Parou ao vê-las. Freddie nunca resistia a qualquer oportunidade de patentear o encanto da sua pessoa. Fazia parte da sua técnica captar simpatias para depois colher os benefícios dessa atitude.
- Olá, enfermeira Sharp - disse jovialmente ao
abrir a cigarreira de ouro. - Parece abatida. Porque estão as duas tão atrasadas? Não tencionavam ir ao teatro? Ouvi falar nisso.
- Sim, doutor - disse a Sharp. - Mas... fiquei
presa por um dos casos do Dr. Manson.
- Sim? - na voz de Freddie havia apenas uma
ponta de interrogação, mas nada mais foi preciso para a enfermeira Sharp. Reclamando sempre contra as injustiças de que era vítima, antipatizando com Andrew e admirando Hamson, desatou logo a falar. - Nunca vi semelhante coisa em toda a minha vida, Dr. Hamson. Nunca! Tirar uma doente do Hospital Vitória e levá-la para esse lugar que chamam Bellevue, e eu presa pelo Dr. Manson, enquanto fazia um pneumotórax com um homem que nem sequer é formado... - Mal contendo as lágrimas de ressentimento, a enfermeira contou a história com todos os pormenores.
Houve um silêncio quando concluiu. Uma
expressão estranha brilhava nos olhos de Freddie.
- Foi desagradável, enfermeira - disse
Hamson, afinal. - Mas espero que não perca o teatro. Pode tomar um táxi, que pago eu. Trent, inscreva isso na lista das despesas. Agora, se me dão licença, vou indo.
- Este, sim, é o que se chama um cavalheiro! -
murmurou a enfermeira Sharp, acompanhando-o com o olhar. - Vamos, minha querida, vamos de táxi.
Freddie seguiu pensativo para o clube. Desde
a zanga com Andrew, via-se forçado a calar o próprio orgulho e voltar a aproximar-se mais intimamente de Fredman e Ivory. Iam jantar juntos naquela noite e menos por malícia do que pelo desejo de interessar os companheiros a renovar a antiga intimidade, Hamson comentou fortuitamente, durante o jantar:
- Parece que o Manson anda a praticar belas
acções desde que nos abandonou. Ouvi dizer que arranja agora doentes para esse tal Stillman...
- Quê? - Ivory largou o garfo. - ...e que colabora com ele, pelo que me
disseram. - E Hamson esboçou uma versão espirituosa da história.
Mal acabou de falar, Ivory perguntou-lhe num
tom brusco:
- Isso é verdade?
- Meu caro - respondeu Freddie num tom de
protesto. - Quem me informou foi a própria enfermeira ainda não há meia hora.
Ivory baixou os olhos e continuou a comer,
mas sob a sua calma aparente havia um júbilo selvagem. Nunca perdoara a Manson aquela observação final sobre a operação do Vidler. Embora não fosse muito susceptível, Ivory tinha o orgulho feroz do homem que conhece o seu ponto» fraco e faz tudo para o esconder. No fundo ele bem sabia ser um cirurgião incompetente. Mas nunca alguém lhe dissera de cara a cara e com violência tão causticante até onde ia a sua incapacidade. Odiava Manson por essa amarga verdade.
Freddie e Fredman puseram-se a conversar
por alguns momentos, quando, de repente, Ivory levantou a cabeça e perguntou com ar de desinteressado:
- Você tem o endereço dessa enfermeira do
Manson?
Interrompendo o que dizia a Fredman,
Hamson olhou astuciosamente para Ivory.
- Claro que tenho.
- Parece-me - opinou Ivory com frieza - que se
deveriam tomar providências sobre o assunto. Aqui entre nós, Freddie, nunca simpatizei com esse Manson. Mas isso não vem ao caso; o que me interessa exclusivamente é o lado moral da questão. Ainda uma noite destas, numa reunião, o Gadsby esteve a falar comigo acerca desse Stillman. Os jornais já começaram a falar desse americano. Um idiota qualquer arranjou uma lista de pessoas que pretendem ter sido curadas por esse sujeito depois de passarem inutilmente pelas mãos dos médicos. Você conhece essa velha história... Gadsby está indignado. Parece que Cranston, o fabricante de automóveis, foi cliente dele antes de o trocar pelo curandeiro. E agora pergunto: que será de nós, médicos, se não reagirmos contra esses charlatães estrangeiros?
- Que diabo! Todas as vezes que penso nisso o
caso parece-me progressivamente mais grave. Vou entender-me com Gadsby imediatamente. Rapaz! Vê se o Dr. Maurice Gadsby está no clube. Se não estiver diz ao porteiro que telefone para saber se está em casa.
Pela maneira como ajeitou o colarinho via-se
que Hamson também estava preocupado. Não alimentava rancor nem má vontade contra Manson, a quem sempre quisera bem no seu estilo frívolo e egoísta. Murmurou:
- Não me meta nisso.
- Não seja idiota, Freddie. Devemos então
admitir que esse tipo suje a nossa reputação e ainda por cima faça impunemente coisas dessas?
O mandarete voltou com a notícia de que
Gadsby estava em casa.
- Receio, colegas, que não possamos jogar hoje
o nosso bridge. A não ser que o Gadsby tenha qualquer compromisso.
Mas Gadsby nessa noite não estava
comprometido e pouco depois Ivory apareceu em sua casa. Embora não fossem amigos íntimos, as suas relações iam ao ponto de autorizar que Gadsby oferecesse a Ivory um cálice de bom vinho do Porto e um charuto de classe. Estivesse ou não informado da reputação de Ivory como operador, Gadsby conhecia pelo menos a sua posição social e isso era mais do que suficiente para que o operador fosse tratado com a devida consideração por Maurice Gadsby, que aspirava ao prestígio mundano.
Quando Ivory explicou a razão da sua visita,
Gadsby não precisou de fingir para mostrar-se muito interessado. Ficou sentado na borda da poltrona, sem tirar os olhos do cirurgião, escutando atentamente.
- Com mil demónios! - exclamou, com
veemência desusada, ao ouvir o remate da história. - Conheço esse Manson. Esteve connosco, por pouco tempo, na Junta de Mineiros e Metalúrgicos, e posso garantir que foi um alívio para nós vê-lo pelas costas. Um sujeito sem a menor educação, com ares de vagabundo. E isso é de facto autêntico? Ele tirou realmente uma doente ao Thoroughgood? Vamos conhecer a opinião de Thoroughgood sobre o assunto.
- Ele não só levou a doente para Stillman
como também ajudou na operação.
- Se isso é verdade - disse Gadsby cauteloso - é
um caso para ser julgado pelo G.M.C.11.
- Bem... - Ivory fingiu-se hesitante. - Era esse
exactamente o meu ponto de vista. Mas recuei um pouco. Compreende... Durante certo tempo as minhas relações com esse tipo foram mais estreitas
11 General Medical College. - Conselho Geral dos Médicos. do que as suas. Acho que não me qualificava bem se apresentasse eu a denúncia.
- Apresentá-la-ei eu - disse Gadsby, com
autoridade. - Se o que me contou foi realmente como as coisas se passaram eu mesmo o denunciarei. Considerar-me-ia em falta para com a minha consciência se não providenciasse imediatamente. O que está em causa é uma questão vital, Ivory. Esse Stillman é um perigo, não tanto para o público, como para a nossa profissão. Creio que lhe contei, naquela noite, o meu caso com esse sujeito. É uma ameaça para os nossos direitos, os nossos diplomas, a nossa tradição. É uma ameaça a tudo que temos de salvaguardar, e o nosso único recurso é negar-lhe qualquer cooperação. Assim, mais cedo ou mais tarde, o homem terá de naufragar por causa da questão da certidão. Veja bem, Ivory! Graças a Deus, isso é um privilégio da profissão. Só nós é que podemos assinar uma certidão de óbito. Mas compreenda... Se esse Manson e outros como ele lhe garantem a colaboração médica, então estamos perdidos. Felizmente o G.M.C, tem procedido sempre com o máximo rigor em assuntos como esse. O caso do Jarvis, que se passou ainda não há muitos anos. Lembra-se? Um profissional prestou-lhe serviços como anestesista, mas foi imediatamente banido do Registo Médico. Quanto mais penso nesse estrangeiro pretensioso mais decidido fico a fazer dele um exemplo. Dê-me licença por um momento. Vou telefonar ao Thoroughgood e amanhã entender-me-ei com a enfermeira.
Levantou-se e telefonou ao Dr.
Thoroughgood. No dia seguinte, em presença do médico do hospital, fez a enfermeira Sharp assinar uma declaração. E tão concludente foi o seu depoimento que Gadsby procurou imediatamente os seus advogados. Detestava Stillman, é claro. Mas também antegozava a vantagem que poderia alcançar apresentando-se perante a opinião pública como paladino da moralidade médica. Enquanto Andrew convalescia em Llantony, sem saber nada do que se passava, o processo ia seguindo o seu curso.
É verdade que Freddie, muito impressionado
ao ler no jornal a notícia do inquérito sobre a morte de Christine, telefonou a Ivory para evitar a acusação. Mas já era demasiadamente tarde. A denúncia fora apresentada.
A comissão disciplinar tomou a queixa em
consideração e, dando o seu parecer, foi enviada a Manson uma intimação para comparecer à reunião de Novembro do conselho médico, a fim de defender-se. Era essa intimação que tinha agora nas mãos, trémulo e emocionado, considerando o libelo formulado na velha fraseologia jurídica: «Que vós, Andrew Manson, sabendo e querendo, em 15 de Agosto, prestastes assistência a Richard Stillman, pessoa que exerce a medicina sem diploma nem Registo Médico, e que vos associastes com a fé do vosso grau ao citado Stillman na exploração de tal exercício. E que, em consequência disto, estais acusado de conduta desonesta no ponto de vista profissional.»