A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 12 de 55

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A Cidadela

Capítulo 12

Havia mais de uma semana que Christine

deixara Blaenelly em gozo de férias. Andrew, porém, estivera tão ocupado com o caso Morgan que só conseguiu vê-la alguns momentos no dia da partida. Nem chegou a falar-lhe. Mas agora, longe dela, andava cheio de saudades.

O Verão estava insuportável na cidade.

Transformaram-se num amarelo sujo os últimos verdes da Primavera.

As montanhas tinham um ar febril e quando

ecoavam na amplidão abrasada os estampidos das minas e das pedreiras pareciam cobrir o vale com uma abóbada de sons ardentes.

Os operários saíam da mina com o rosto

impregnado de pó de minério que dava a impressão de ferrugem.

Crianças brincavam descuidadamente.

Thomas, o velho cocheiro, foi atacado de icterícia e Andrew teve de fazer a pé as suas visitas. Ao arrastar-se pelas ruas sufocantes, lembrava-se de Christine. Que estaria fazendo? Pensaria nele um pouco que fosse? E que pensaria do futuro, quais os seus projectos, as perspectivas de felicidade que podiam ter juntos?

Então, quando menos esperava, recebeu um

recado de Watkins, pedindo-lhe que fosse vê-lo aos escritórios da Companhia.

O director da mina recebeu-o de modo

agradável, convidando-o a sentar-se e oferecendo-lhe cigarros.

- Olhe, doutor - disse num tom de amigo. - Há

tempo que quero falar-lhe e é melhor entendermo-nos antes que eu faça o meu relatório anual. Parou um momento, para tirar da ponta da língua um resto de tabaco. Esteve aqui um grupo de trabalhadores, com o Emlyn e o Ed Williams à cabeça, pedindo-me que incluísse o seu nome como médico titular na lista da Companhia.

Andrew aprumou-se na cadeira, invadido por

uma onda de calor e de alegria.

- Quer dizer... Trata-se de passar para mim a

clínica do Dr. Page?

- Não, não é bem isso, doutor - explicou

Watkins vagarosamente. - Compreenda que a situação é delicada. Tenho de atender as exigências dos operários. Não posso tirar da lista o Dr. Page. Há um certo número de homens que não admitiriam isso. O que eu queria fazer em seu favor era encaixá-lo habilmente na lista da Companhia. Assim, quem quisesse podia transitar da clínica do Dr. Page para a sua.

A expectativa ansiosa foi desaparecendo da

fisionomia de Andrew. Franziu a testa, ainda emocionado.

- Mas o senhor deve compreender que não

posso fazer isso. Vim para aqui como assistente do Dr. Page. Se me colocasse em oposição a ele... Não, nenhuma pessoa decente pode fazer uma coisa dessas!

- Mas não há outro meio.

- Porque não me deixa ficar com a clínica

dele? - insistiu Andrew. - Pagaria de boa vontade uma indemnização, uma percentagem sobre todas as quantias recebidas. É uma outra saída.

Watkins sacudiu a cabeça, francamente em

desacordo.

- Blodwen não concordaria com isso. Já lhe

expus o caso. Ela sabe muito bem que está numa situação sólida Quase todos os trabalhadores mais velhos daqui, como Enoch Davies, por exemplo, querem o Dr. Page. Acredita que ele ainda regressa à clínica. Eu teria de enfrentar uma greve se tentasse substituí-lo. - Parou um momento - Dou-lhe um prazo de um dia para pensar. Amanhã tenho de enviar a nova lista para o escritório central de Swansea Depois de a lista seguir, só daqui a um ano poderei voltar ao assunto.

Andrew ficou a olhar o soalho por um

momento e depois fez um vagaroso gesto de recusa. As suas esperanças, em tão elevado plano ainda há pouco, estavam agora por terra.

- É inútil. Não posso fazer isso. Mesmo que

ficasse pensando semanas inteiras.

Doeu-lhe muito chegar a esta decisão e

sustentá-la diante da parcialidade de Watkins em seu favor. Contudo, não podia abstrair do facto de que entrara em Blaenelly como assistente do Dr. Page. Colocar-se numa posição contrária, mesmo nessas circunstâncias excepcionais, era inconcebível. Admitindo que, por sorte improvável, voltasse à actividade... com que cara havia de fazer concorrência ao velho? Não, não podia e não queria essa situação.

No entanto, durante o resto do dia, sentiu-se

melancólico e abatido, magoado com a extorsão descarada de Blodwen, certo de que estava numa posição absurda, lamentando até que lhe tivessem feito aquele oferecimento.

À noite, por volta das oito horas, foi fazer uma

visita a Denny. Desde algum tempo que não o via. E no seu desânimo sentiu que lhe faria bem uma conversa com Phillip, talvez uma confirmação de que procedera acertadamente.

Chegou a casa de Phillip pouco depois das

oito, e, como já era seu costume, entrou sem bater. Foi à saleta. Phillip estava estirado no sofá. A princípio havia pouca luz teve a impressão de que ele estava descansando de um penoso dia de trabalho. Mas Phillip nada fizera naquele dia. Ficara estendido ali, com a respiração opressa, um braço por cima do rosto, completamente embriagado. Ao voltar-se, Andrew deu com a dona da casa, que o observava de banda, com ar preocupado.

- Ouvi o Sr. Doutor entrar. Ele está assim há

muito tempo. Nada comeu. Não sei que fazer.

Andrew não encontrou palavras para

responder. Ficou a observar a face parada do amigo, a recordar o cinismo do primeiro comentário de Denny na noite da sua chegada.

- Há dez meses que não se embebedava assim

- continuou a dona da casa. - Mas quando começa já não pára. Agora o desastre ainda é maior, porque o Dr. Nicholls está fora, de férias. Parece que será bom mandar-lhe um telegrama.

- Mande Tom cá acima - disse Andrew, afinal.

- Vamos levá-lo para a cama.

Com a ajuda do filho da Sr.a Seager, um

jovem mineiro que parecia achar graça ao caso, despiram Phillip e vestiram-lhe um pijama. Mole e pesado como um saco, foi levado até o quarto.

- O que deve fazer-se antes de tudo é vigiá-lo

para que mais nada beba. Feche a porta por fora se for necessário - recomendou Andrew à mulher, quando voltaram à saleta. - E agora é melhor dar-me a lista das visitas de hoje.

Numa ardósia pendurada na parede estavam

mencionadas as visitas que Phillip deveria fazer naquele dia. Andrew copiou-a e saiu. Andando depressa, poderia despachar a maior parte antes das onze horas.

Na manhã seguinte, logo depois do seu

trabalho do consultório, foi ver Denny. A dona da casa veio ao seu encontro torcendo as mãos.

- Não sei onde ele arranjou bebida. Eu não lha

dei. Tenho feito por ele o melhor que tenho podido.

Phillip estava ainda mais embriagado do que

na véspera, pesado, insensível. Depois de o sacudir várias vezes e de esforçar-se por reanimá-lo com uma xícara de café bem forte - café que afinal entornou todo na cama - Andrew copiou novamente a lista das visitas. Amaldiçoando o calor, as moscas, a icterícia de Thomas e Denny também, enfrentou mais um dia de trabalho dobrado.

No fim da tarde, esgotado, aborrecido, voltou

disposto a acabar com a bebedeira de Denny. Dessa vez encontrou-o espapaçado numa poltrona, de pijama, ainda embriagado, fazendo um longo sermão a tom e à Sr.a Seager. Quando Andrew entrou, Denny calou-se imediatamente e dirigiu-lhe um olhar sombrio, sarcástico. Falou-lhe com uma voz empastada.

- Ah! É o bom samaritano! Já soube que o

doutor me substituiu no trabalho. Que gesto nobre! Mas porquê esse interesse? Porque foi esse maldito Nicholls gozar a vida atirando para cima de nós todo o trabalho?

- Não sei. - A paciência de Andrew estava por

um fio. - Só sei que o trabalho seria mais fácil para nós dois se Denny colaborasse.

- Eu sou cirurgião. Não sou desses

desgraçados de clínica geral. Clínica geral! Ora... Que significa isso? Já fez a si próprio essa pergunta? Não fez ainda? Bem, eu explico-lhe. É o anacronismo mais completo e acabado, o pior, o mais estúpido sistema criado pelo homem desde que Deus o pôs na Terra. Velho e querido clínico geral... Velho e ingénuo público britânico! Ah! - ria com sarcasmo. - O público ingénuo que criou esse tipo de médico. E gosta dele. E chora por ele. - Inclinou-se para um lado da poltrona.

Os seus olhos congestionados exprimiam

outra vez amargura e desilusão. E numa voz arrastada continuou a objurgatória:

- Que pode fazer o pobre diabo? Ah! O clínico

geral! Tem de ser pau para toda a obra! Admitamos que tem vinte anos de formado. Como pode entender de medicina, de obstetrícia e bacteriologia, de todos os últimos progressos da ciência e da cirurgia também? Sim! Não deve esquecer-se a cirurgia. De quando em quando pratica numa operaçãozita feita em casa. - Voltou ao tom sardónico. - Um caso de mastoidite, por exemplo. Duas horas e meia contadas pelo relógio. Quando encontra pus, é um salvador da humanidade. Quando não encontra, a vítima vai para o cemitério. - Levantou a voz. Estava indignado, terrivelmente indignado. - Só mandando tudo para o Inferno, Manson. Há séculos que é a mesma coisa. Será possível que eles não queiram mudar de sistema? Para que lutar? Para quê, pergunto-lhe. Dê-me outro whisky. Estamos todos naufragados. E parece que estou bêbado também.

Durante alguns minutos reinou o silêncio.

Afinal, contendo a irritação, Andrew falou:

- Não acha que deve voltar agora para a

cama? Venha, nós ajudamos.

- Deixe-me em paz! - respondeu Phillip de

mau humor. - Que diabo! Não venha para cá com esses malditos cuidadozinhos de cabeceira de doente. Já usei esses processos. Sei muito bem como é.

Levantou-se abruptamente, a cambalear, e,

agarrando a Sr.a Seager pelo ombro, atirou-a para a poltrona. Balançando o corpo numa caricatura da mais requintada cortesia, dirigiu-se à mulher, amedrontada:

- Como passou o dia, minha querida senhora?

Um poucochinho melhor, pelo que vejo. Com o pulso um bocadinho mais forte. Dormiu bem? Ah! Temos então de receitar um calmantezinho...

Na cena de farsa havia uma nota estranha,

alarmante: a figura de Phillip, com a barba crescida, de pijama e chinelos, a caricatura de um médico mundano, inclinando-se numa servil reverência diante da esposa do mineiro, que se encolhia toda na cadeira. Tom rompeu num acesso nervoso de riso. Num relâmpago, Denny investiu contra ele.

- Está contente! Ria! Ria, seu desgraçado, até

quando quiser! Mas gastei cinco anos da minha vida nessas coisas! Meu Deus! Quando penso nisso sinto vontade de morrer.

Passou o olhar por todos os lados, agarrou

numa das jarras que estavam sobre o fogão e espatifou-a no soalho. A seguir pegou noutra e atirou-a contra a parede. E dos seus olhos brotavam relâmpagos avermelhados, nos quais se lia a ânsia da destruição.

- Misericórdia! - choramingou a Sr.a Seager, -

Segurem este homem!

Andrew e Tom Seager atiraram-se a Phillip,

que lutava, sem reconhecer ninguém, no paroxismo da intoxicação alcoólica. Depois, ao capricho da embriaguez, de repente relaxou a atitude e tornou-se sentimental, melacento.

- Manson - choramingou, pendurando-se no

ombro de Andrew. - Você é um bom tipo. Gosto de si como um irmão Você e eu... Se nos uníssemos firmemente podíamos salvar esta nossa maldita profissão.

Estava de pé, com o olhar distante, perdido.

Depois a cabeça descaiu. O corpo vergou. Deixou que Andrew o levasse para o quarto e para a cama. Rolando a cabeça no travesseiro, fez o seu último pedido de ébrio:

- Prometa-me uma coisa, Manson! Por amor

de Deus, não se case com mulher importante.

Na manhã seguinte estava mais embriagado

do que nunca. Andrew desanimou. Embora Tom Seager jurasse que não, Andrew estava desconfiado de que era ele quem, às escondidas, fornecia as bebidas a Denny.

Durante toda aquela semana, Andrew

enfrentou trabalho dobrado atendendo também os clientes de Denny. No domingo, depois do almoço, foi visitar o amigo. Phillip estava de pé, barbeado, vestido, irrepreensível na aparência. Embora abatido e trémulo, não tinha sinais de embriaguez.

- Parece que o senhor trabalhou por mim toda

a semana.

Fora-se a intimidade dos últimos dias. A sua

atitude era contrafeita, de uma correcção gelada.

- Não teve importância - respondeu Andrew

embaraçado.

- Pelo contrário, deve ter sido um trabalho dos

diabos.

A atitude de Denny era tão distante que

Andrew corou. Nem uma palavra de gratidão, nada mais que uma arrogância mal disfarçada.

- Se tem de facto interesse em saber -

desabafou Andrew - confesso: tive um trabalho infernal por sua causa.

- Indemnizá-lo-ei. Pode estar certo. - Quem pensa o senhor que eu sou?! -

respondeu Andrew, exaltado. - Pensa que sou um miserável cocheiro à espera de uma gorjeta? Se não fosse eu a Sr.a Seager teria telegrafado ao Dr. Nicholls e o senhor estaria no olho da rua. O senhor é um tipo pretensioso, arrogante e malagradecido. E precisa de levar uns sopapos.

Denny acendeu o cigarro com dedos tão

trémulos que mal podiam segurar o fósforo, e com ar de escárnio respondeu :

- Que bela oportunidade escolheu para querer

medir forças comigo. Verdadeiro tacto escocês! Noutra ocasião terei muito gosto.

- Oh! Cale a boca, desgraçado. Eis aqui a sua

lista de visitas. As que estão marcadas com uma cruz devem ser feitas na segunda-feira.

Saiu furioso da casa do amigo. «Vá para o

diabo que o carregue!», resmungou com raiva. «Parece que se julga dono do mundo. Dá a impressão de que me prestou um favor, permitindo que eu fizesse o seu trabalho».

Mas a caminho de casa a irritação foi

diminuindo progressivamente.

Estimava muito Phillip e via agora mais claro

na sua alma desorientada. Era tímido, de uma sensibilidade excessiva, vulnerável. Era só por isso que se revestia de uma capa de orgulho e rudeza. A lembrança da sua recente recaída no vício e dos espectáculos que dera durante a crise devia torturá-lo horrivelmente.

Mais uma vez Andrew ficou impressionado

com o paradoxo daquele homem inteligente enterrando-se em Blaenelly para romper com todas as convenções. Phillip tinha qualidades excepcionais de cirurgião. Encarregado de dar o anestésico, Andrew vira-o certa vez executar uma ressecção da vesícula biliar, na mesa de cozinha da casa de um mineiro, com o suor a escorrer do rosto avermelhado e dos braços cabeludos. Um primor de rapidez e segurança.

Um homem capaz de fazer dessas coisas

merecia especial apreço.

No entanto quando chegou a casa ainda não

estava refeito do golpe que recebera com a frieza de Phillip.

Assim, quando transpôs a porta e pendurou o

chapéu no cabide, não estava com muita disposição para ouvir a voz da Sr.a Page, exclamando:

- Ah, é o senhor, Dr. Manson? Preciso de falar-

lhe

Andrew não se dignou responder-lhe.

Voltando-se, preparou-se para subir as escadas na direcção do seu quarto. Mas quando pôs a mão no corrimão, ouviu de novo a voz de Blodwen, mais aguda, mais estridente.

- Doutor! Dr. Manson! Preciso falar-lhe. Andrew deu meia volta e viu a Sr.a Page

irromper na saleta, com a fisionomia muito pálida, os olhos negros falseando, possuída de violenta emoção, vindo ao seu encontro.

- O senhor é surdo? Não me ouviu dizer que

precisava falar-lhe?

- Que há, Sr.a Page? - perguntou ele, irritado. - Ora, o que há! - ela quase não podia respirar.

- Estou a gostar de o ver. O senhor a fazer-me perguntas! Eu é que lhas quero fazer, meu prezado Dr. Manson!

- Que é então? - fuzilou Andrew. O seu modo impaciente parecia excitá-la

acima das suas forças.

- É isto. Sim, meu esperto doutorzinho! Poderá

ter a bondade de me explicar o que quer isto dizer?

Do seio gorducho tirou um pedaço de papel e

agitou-o ameaçadoramente diante dos seus olhos. Ele reconheceu o cheque de Joe Morgan. Então, levantando a cabeça, viu Rees por trás de Blodwen, esgueirando-se à entrada da saleta.

- Ah, pode olhar à vontade - continuou

Blodwen. - Vejo que o reconhece. Mas é melhor que nos diga depressa como foi este dinheiro parar ao banco em seu nome, quando pertence ao Dr. Page e o senhor sabe isso muito bem.

Andrew sentiu o sangue subir-lhe à cabeça.

As orelhas ardiam.

- É meu. Foi uma dádiva de Joe Morgan. - Uma dádiva! Oh! Oh! Esta é boa. Ele não está

aqui para confirmar.

Manson respondeu de dentes cerrados: - A senhora pode escrever-lhe para ter a

certeza se não confia na minha palavra.

- Tenho mais que fazer do que escrever cartas.

- Completamente fora de si, berrou: - E de facto não confio na sua palavra. O senhor pensa que é muito esperto, hem? Sim, senhor. Vem para cá e já se lhe meteu na cabeça que pode ficar com a clínica por sua conta, quando devia trabalhar para o Dr. Page! Mas isso mostra muito bem quem o senhor é. É um gatuno. Isso mesmo! Um gatuno muito ordinário.

Lançou-lhe o insulto em cara. Deu meia volta

para procurar apoio em Rees. À porta da saleta, com a fisionomia mais pálida que nunca, o gerente do banco emitia sons estranhos que deviam ser apelos de moderação. Naturalmente Andrew viu em Rees o instigador de toda a questão. O homem passara alguns dias indeciso antes de levar a novidade a Blodwen. Manson desceu os dois degraus da escada e avançou para eles, fitando com ameaçadora atitude a boca fina e sem sangue de Rees. Estava louco de raiva e ansioso por um conflito.

- Sr.a Page - disse num tom pausado - a

senhora acaba de fazer uma acusação contra mim. Se dentro de dois minutos não a retirar e não pedir desculpas, processá-la-ei por difamação e exigirei uma indemnização. Terá de ser apresentada em juízo a origem da sua calúnia. Não tenho dúvidas de que a direcção do banco do Sr. Rees estará interessada em saber como se viola o sigilo profissional.

- Eu... eu fiz apenas o meu dever - gaguejou o

gerente do banco, já sem uma gota de sangue.

- Estou à espera, Sr.a Page! - As palavras

vinham-lhe em catadupas, sufocando-o. - Se não se apressar darei ao gerente do seu banco a maior tunda que ele levou em toda a sua vida.

Ela viu que fora demasiadamente longe, que

falara mais, muito mais, do que tinha intenção. A ameaça de Andrew e a sua atitude indignada amedrontaram-na. Era quase possível seguir as reflexões vertiginosas da cabeça de Blodwen: «Indemnização! Uma indemnização pesada! Oh, meu Deus, poderia arrancar-me o meu dinheiro!».

Engasgou, mastigou, gaguejou: - Eu... eu retiro o que disse. Peço desculpa. Era quase cómico ver a gorducha, há pouco

tão valente, súbita e inesperadamente subjugada. Mas Andrew não achou a menor graça ao caso. Compreendeu num momento, com profunda amargura, que chegara ao extremo limite da sua paciência. Não podia mais com aquela criatura impertinente, irascível. Respirou profundamente. Esqueceu tudo, menos a sua aversão por aquela mulher. Era numa alegria louca e selvagem que ele se deixava arrastar pelo próprio impulso.

- Sr.a Page, há uma ou duas coisas que preciso

de lhe dizer. Em primeiro lugar, sei que a senhora está a tirar uma renda anual de mil e quinhentas libras à custa do meu trabalho. Desse dinheiro todo a senhora reserva para mim só umas miseráveis duzentas e cinquenta libras, e além disso faz o que pode para me cercear os alimentos. Talvez lhe interesse saber também que a semana passada uma delegação de trabalhadores procurou o director da mina e este convidou-me para fazer parte da lista da companhia. Ainda deve saber que por motivos da ética, coisa de que a senhora possivelmente não tem a mais leve noção, recusei terminantemente. E agora, Sr.a Page, estou tão absolutamente enojado da sua pessoa que não posso continuar aqui. A senhora é uma cadela mercenária; cúpida e mesquinha. Na verdade a senhora é um caso patológico. Notifico-a desde já de que só trabalharei até ao fim do mês.

Ela abriu a boca e os seus olhinhos como

botões pareciam saltar das órbitas. Então, de repente, gritou :

- Não, isso não! Tudo é mentira. O senhor não

foi convidado para entrar na lista da Companhia. E está despedido, fique sabendo. Ainda não houve assistente que me notificasse de que ia deixar o emprego. Que ideia, que descaramento, que desaforo falar-me dessa maneira! Fui eu quem falou primeiro. Está despedido, está, fique sabendo, despedido, despedido, despedido...

A explosão foi estridente, histérica,

degradante. No auge do desabafo, interrompeu-se. Lá em cima a porta do quarto de Edward abriu-se lentamente, e um momento depois o próprio Edward apareceu, como um fantasma, mostrando as pernas mirradas sob a camisa de dormir. Esta aparição foi tão estranha e inesperada que a Sr.a Page parou fulminada, no meio da frase. Olhou para cima. o mesmo fizeram Rees e Andrew. E o doente, arrastando a perna paralítica, veio vagarosa, dolorosamente, até o alto da escada.

- Não posso ter sossego? - Embora agitada, a

sua voz era severa. - Que há?

Blodwen tomou fôlego, iniciou uma acusação

chorosa contra Manson e concluiu:

- E perante isto... perante isto, disse-lhe que

estava despedido.

Manson não contradisse a sua versão do caso. - Quer dizer que ele se vai embora? -

perguntou Edward, todo trémulo pela agitação e pelo esforço de se conservar de pé.

- Sim, Edward - choramingou. - De qualquer

maneira em breve voltarás ao trabalho.

Houve um silêncio. Edward desistiu de tudo o

que queria dizer. Os seus olhos demoraram-se em Andrew numa desculpa muda, voltaram-se para Rees, passaram rapidamente por Blodwen e repousaram tristemente no vazio.

Uma expressão de desespero, mas também de

dignidade, foi toldando o seu rosto parado.

- Não - disse ele, afinal. - Não mais voltarei a

exercer clínica.

Nada mais disse. Voltou-se lentamente,

apoiando-se na parede, e arrastou-se de novo para o quarto. A porta fechou-se em silêncio.