A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 5 de 55

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A Cidadela

Capítulo 5

Às onze horas da noite, Denny e ele saíram

juntos, acompanhados do cão, e foram até ao fim de Chapei Street.

Estava muito escuro. O vento sibilava e uma

chuvinha miúda salpicava-lhes o rosto. Denny já havia traçado o plano e calculado cuidadosamente em quanto tempo poderiam realizá-lo. O último turno de trabalhadores saíra havia uma hora. Alguns rapazolas ainda rondavam pela porta da venda de peixe do velho Thomas, mas o resto da rua estava deserto. Os dois homens e o cachorro foram andando calmamente.

No bolso do pesado sobretudo Denny levava

seis delgados pacotes de dinamite, que Tom Seager, o filho da dona da casa onde morava, roubara para ele, naquela tarde, do depósito de explosivos da pedreira. Andrew transportava seis latas de cacau, todas com um furo na tampa, uma lanterna eléctrica e um rolo de rastilho. Inclinado para a frente, com a gola do sobretudo levantada, lançando olhares desconfiados para um lado e para outro, o espírito perdido num torvelinho de emoções que se chocavam, era apenas por monossílabos que respondia às rápidas observações de Denny. Imaginava apreensivamente o que pensaria dele, vendo-o envolvido nessa comprometedora aventura nocturna, o Prof. Lamplough, o suave professor da ortodoxia médica.

Logo acima de Glydar Place chegaram à

abertura principal da rede de esgotos; um tampão de ferro sobre uma base de cimento carcomido. Ali lançaram mãos à obra.

Havia muitos anos que ninguém mexia

naquela cobertura roída pela ferrugem, mas depois de muito esforço conseguiram levantá-la. Então, Andrew projectou a luz da lanterna, discretamente, para as profundezas mefíticas, onde a torrente de imundícies se escoava lentamente sobre as lajes já desmanteladas.

- Lindo, não? - rosnou Denny. - Lance um

olhar para as fendas naquele ponto. Lance um último olhar, Manson.

Nada mais foi dito. Inexplicavelmente mudou

o estado de espírito de Andrew, já então dominado por uma exaltação repentina e selvagem, uma resolução igual à do próprio Denny. Muita gente estava em riscos de morrer por causa daquela peçonha abominável e a burocracia mesquinha não tomava providências. Não era o momento de proceder como se estivessem à cabeceira dos doentes, com carinhos e remédios.

Começaram a preparar rapidamente as latas

de cacau, metendo em todas elas um pacote de dinamite. Cortaram rastilhos de comprimentos graduados, ligando-os ao explosivo.

Um fósforo brilhou na escuridão, iluminando

de repente a face branca e impassível de Denny e as mãos trémulas de Andrew. O primeiro rastilho crepitou. Uma por uma as latas foram escorregando para o fundo da corrente nauseabunda, começando por aquelas que tinham rastilhos mais compridos. Andrew não podia ver claramente.

O coração pulsava-lhe célere, excitadíssimo.

Podia não ser medicina ortodoxa, mas era o momento de maior intensidade que tinha vivido. Quando a última lata desceu, com o seu curto rastilho já aceso, Hawkins teve a infeliz ideia de caçar uma rata. Foi um momento de agonia. O cão latia e com a ameaça terrível de uma explosão debaixo dos pés, os dois homens tiveram de correr até o alcançar.

Depois disso, o tampão enferrujado foi

reposto no lugar e eles correram loucamente, subindo a rua, até uns trinta metros de distância. Mal tinham alcançado a esquina da Radnoor Place, parando aí para olhar para os lados, uma primeira lata explodia.

- Deus do Céu! - Andrew arfou, exultante. -

Está concluída a nossa obra, Denny!

Tomava um ar de camaradagem com o outro.

Queria segurá-lo pelo braço e gritar bem alto.

E então, rapidamente, maravilhosamente,

seguiram-se as explosões abafadas, duas, três, quatro, cinco e a última, afinal, uma gloriosa detonação que deve ter ecoado pelo menos até um quarto de milha na extensão do vale.

- Ah! - murmurou Denny, numa voz abafada,

como se toda a amargura secreta da sua vida se escapasse naquela simples palavra. Isto é o fim de uma imundície vergonhosa!

Quase não tinha falado antes da explosão.

Portas e janelas escancararam-se, projectando luz sobre a escuridão da rua. Muita gente saiu de casa. Num momento a rua ficou cheia. A princípio dizia-se que fora uma explosão na mina. Mas essa versão foi logo posta de parte.

Os estampidos tinham vindo do vale.

Surgiram discussões e aventuraram-se hipóteses. Um grupo de homens saiu com lanternas para ver o que havia. A algazarra e a confusão enchiam a noite. Protegidos pela escuridão e pelo alvoroço, Denny e Manson esgueiraram-se até às suas casas, tomando desvios. Havia uma aleluia de triunfo na alma de Andrew.

Na manhã seguinte, antes das oito, chegou de

automóvel o Dr. Griffiths, com o seu rosto balofo, tomado de pânico, arrancado da sua fofa cama pelo conselheiro Glyn Morgan, à custa de muita blasfémia. Griffiths podia ignorar os apelos dos médicos locais, mas não havia recusa possível para a ordem enfurecida de Glyn Morgan. E, na verdade, Glyn Morgan tinha razão para estar irado. A nova vivenda do conselheiro, que ficava a meia milha do vale, fora cercada durante a noite por uma enxurrada de imundícies. Durante meia hora o conselheiro, acolitado pelos seus auxiliares, Hamar-Davies e Deawen Roberts, disse ao subdelegado de saúde, em voz que podia ser ouvida por toda a gente, tudo o que pensava dele.

No fim da descompostura, Griffiths limpou o

suor da testa e dirigiu-se a Denny, que, em companhia de Manson, estava no meio da multidão curiosa e esclarecida. Andrew quase desfaleceu ao ver aproximar-se o médico. Uma noite de inquietação tinha esfriado um pouco o seu entusiasmo.

À luz fria da manhã, assustado com o pavor

de uma carreira em perigo, viu-se outra vez perturbado e nervoso.

Mas Griffiths não estava em condições de

alimentar suspeitas.

- Que desastre! - disse gaguejando para

Phillip. - Temos de fazer agora quanto antes a nova rede de esgotos por que o doutor tanto se interessava.

A fisionomia de Denny continuou impassível. - Há muitos meses que eu o avisei - respondeu

ele glacialmente. - Não se lembra?

- Sim, sim, sem dúvida! Mas como podia eu

adivinhar que essa maldita coisa ia explodir dessa maneira? Não sei como foi isto possível. Para mim é um mistério.

Denny encarou-o com frieza. - Para que servem os seus conhecimentos,

doutor? Não sabe que os gases dos esgotos são altamente inflamáveis?

A construção da nova rede de esgotos

começou na segunda-feira seguinte.

Três meses depois, numa linda tarde de

Março, a aproximação da Primavera perfumava a doce brisa que vinha das montanhas, onde vagos indícios de verde desafiavam a fealdade dominante da paisagem nua das pedreiras. Sob o céu de límpido azul até mesmo Blaenelly era bonita.

Ao sair para atender uma chamada, que

acabava de receber para a Riski Street, 3, Andrew sentiu o coração alvoroçar-se com o encanto do dia. Começava a aclimatar-se àquela estranha cidade, primitiva e solitária, sepultada entre montanhas, sem casas de diversões, sem um único cinema, nada mais do que as suas minas sombrias, as suas pedreiras e as suas fábricas metalúrgicas, a série de capelas e o conjunto triste das casas. Era uma comunidade estranha que vivia isolada do mundo.

A gente do lugar também não era banal.

Embora se sentisse bem diferente dela, Andrew queria-lhe bem. Com excepção dos comerciantes, os pastores do culto e mais umas poucas pessoas, só havia ali empregados da companhia.

À entrada e à saída de cada turno de

trabalhadores, as ruas adormecidas despertavam subitamente, ressoando os sapatos ferrados, povoando-se inesperadamente de um exército de figuras em marcha. As roupas, o calçado, as mãos, mesmo o rosto dos que trabalhavam na mina de hematite estavam impregnados da poeira avermelhada do minério. Os homens das pedreiras usavam reforços de oleado nos joelhos. Os metalúrgicos distinguiam-se pelas suas calças de riscas azuis.

O povo de Blaenelly falava pouco, e muito do

que dizia era no dialecto de Gales. com o seu ar distante e compenetrado, dava a impressão de formar uma raça à parte. No entanto, era boa gente, e simples as suas distracções.

Os centros de reunião eram os próprios lares,

os templos, o modesto campo de rugby no alto da cidade. Se tinha paixão por alguma coisa era pela música. Não pelas melodias vulgares em voga, mas pela música superior: clássica e severa.

Ao passear de noite, Andrew ouvia

frequentemente o som de um piano vindo de uma pobre casa: uma sonata de Beethoven ou um prelúdio de Chopin, optimamente executado, a flutuar na atmosfera silenciosa, subindo para além das montanhas inescrutáveis.

A situação da clínica do Dr. Page era agora

bem clara para Andrew. Edward Page nunca mais trataria de qualquer doente. Mas os clientes não queriam prescindir do médico que os atendera devotadamente em mais de trinta anos. Empregando modos afáveis e mistificações para com Watkins, o director das minas, por intermédio do qual se liquidavam as cotizações dos operários, para pagamento ao médico, a esperta Blodwen conseguira manter Page na lista da Companhia e estava assim gozando uma choruda renda, da qual só uma sexta parte em benefício de Manson, que fazia todo o trabalho.

Edward Page inspirava a Andrew profunda

pena. Era uma alma simples e gentil este pobre Edward, que se casara com a pequenina Blodwen, gorduchinha, afectada e petulante. Ao tirá-la do emprego numa casa de chá em Aberyswyth estava longe de saber o que havia por detrás dos botõezinhos negros e buliçosos dos seus olhos. Agora, alquebrado, preso a uma cama, estava inteiramente à sua mercê, sujeito a um tratamento misto de blandícia e de uma espécie de brutalidade jovial. Não que Blodwen não o amasse. À sua maneira especial era louca por Edward.

Ele, o Dr. Page, pertencia-lhe. Se entrava no

quarto quando Andrew estava ao lado do doente avançava sorrindo, mas exclamava com um estranho espírito de exclusivismo:

- Que é isso? Vocês dois aí a conversar? Era impossível deixar de querer bem a

Edward Page, tão evidentes as suas qualidades de sacrifício e renúncia.

Ficava ali abandonado no leito, acabrunhado,

submisso diante de todas as atenções inoportunas da esposa impaciente, atrevida, de fisionomia mal-humorada, sempre vítima das explorações e da sua impertinência constante e petulante. Não havia razões para permanecer em Blaenelly e ansiava por ir morar em clima mais quente e suave. Uma vez, quando Andrew perguntou:

- Que lhe agradaria, doutor? Ele suspirou:

- Eu gostaria de sair daqui, meu filho. Li umas

coisas sobre aquela ilha... Capri... onde vão fazer uma reserva para os passarinhos.

E então voltou o rosto para o outro lado do

travesseiro. O acento da sua voz era de melancolia infinita.

As crianças irritavam-no. Nunca falava da

clínica, a não ser para murmurar uma vez por outra, numa voz cansada:

- Parece-me que não entendo muito disso.

Contudo, fiz o que pude.

Passava horas estirado na cama, em absoluta

mudez, espiando o peitoril da janela onde todas as manhãs Annie colocava piedosamente pedacinhos de miolo de pão, fiapos de presunto e coco raspado. Aos domingos, antes do meio-dia, vinha visitá-lo um velho mineiro, Enoch Davies, muito empertigado no seu fato preto lustroso e na sua camisa com o peitilho de borracha. Os dois homens ficavam observando os pássaros em silêncio. Certa vez Andrew encontrou Enoch, que descia as escadas todo excitado.

- Nem queira saber - exclamou o velho

mineiro. - Tivemos uma manhã estupenda. Dois pintassilgos passaram uma hora brincando no peitoril da janela. Mesmo junto de nós.

Enoch era o único amigo de Page e tinha

grande influência entre os mineiros. Afirmava com energia que nenhum homem sairia da lista do doutor enquanto ele fosse vivo. Nem imaginava o prejuízo que a sua lealdade causava ao pobre Edward.

Outra visita frequente na casa era a de

Aneurin Rees, gerente do Western Counties Bank, um homem comprido, seco e calmo, de quem Andrew desconfiou logo à primeira vista. Rees era um cidadão altamente respeitável mas que nunca fitava alguém de frente. com o Dr. Page ficava apenas uns cinco minutos por mera formalidade e logo depois fechava-se com Blodwen uma hora larga. Essas entrevistas eram de um decoro irrepreensível. Tratava-se apenas de dinheiro. Julgava Andrew que a Sr.a Page aplicara uma grande quantia em negócios no seu próprio nome, e assim, sob a administração admirável de Aneurin Rees, ela ia aumentando astuciosamente os seus cabedais.

Nesse tempo dinheiro nada significava para

Andrew. Contentava-se em saldar regularmente as suas obrigações para com a Dotação. Sobravam-lhe ainda alguns miúdos para os cigarros. Fora disso o trabalho preenchia-lhe a existência. Agora, mais do que nunca, compreendia quanto o serviço da clínica era importante para ele. Animava-o a consciência do trabalho, uma certeza íntima, sempre presente, que o alimentava quando se sentia cansado, deprimido, desorientado. Na verdade, perturbações estranhas dominavam ultimamente o seu espírito e desorientavam-no.

Em questões de medicina havia começado a

pensar por sua própria conta. Talvez o principal responsável por isso fosse Denny, com o seu ponto de vista radicalmente demolidor.

As teorias de Denny eram literalmente

opostas a tudo o que fora ensinado a Manson. E todas poderiam resumir-se no lema: «Eu não creio». Formado pelo padrão da Faculdade de Medicina, Manson encarara sempre o futuro com a confiança bem explícita nos manuais. Adquirira leves noções de Física, Química e Biologia pelo menos tinha aprendido a dissecar e estudar as minhocas, e depois disso haviam-lhe metido dogmàticamente na cabeça as doutrinas consagradas. Conhecia todas as doenças, com os seus sintomas catalogados, e os remédios correspondentes. Por exemplo, o caso da gota. Devia ser curada com o emprego de cólquico. Ainda estava a ouvir o Prof. Lamplough pontificando suavemente na aula:

«Vinum colchlci, meus senhores, em vinte ou

trinta doses mínimas, é o específico absoluto da gota». Mas seria de facto? Eis a pergunta que Andrew fazia agora a si próprio.

Um mês antes ministrara cólquico até o

máximo do limite permitido num caso típico grave e doloroso de gota. E o resultado fora um fracasso desanimador.

E que dizer de metade ou mesmo de três

quartas partes dos outros remédios da farmacopéia? Dessa vez a voz que ouviu foi a do Dr. Elliot, lente de Terapêutica: «E agora, meus senhores, passemos ao eleni, uma substância resinosa, cuja origem botânica é indeterminada, mas que provavelmente é uma Canarium Commune; importada em geral de Manilha, essa substância é empregada em forma de unguento na base de um para cinco, constituindo estimulante e desinfectante admiráveis para as afecções da pele, como a herpes».

Tolice! Sim, tolice absoluta, sabia agora. Teria

Elliot experimentado alguma vez o unguento de eleni? Estava convencido de que não. Todas as noções eruditas foram passando de um livro para o outro, sempre assim provavelmente desde a Idade Média. A palavra «herpes», tão arcaica e anacrónica, confirmava este ponto de vista.

Denny zombara dele na primeira noite, por

vê-lo manipular ingenuamente um remédio. Denny zombara sempre dos mestres de tempero, dos cozinheiros de remédios. Sustentava que só meia dúzia de drogas era de alguma utilidade.

As restantes classificava-as cinicamente de

«porcarias».

No ponto de vista de Denny, discutido aquela

noite, transparecia um espírito desiludido cujas ramificações Andrew por enquanto só podia distinguir vagamente.

Meditava dessa maneira quando chegou a

Riskin Street e entrou no n.º 3. O doente era uma criança de nove anos, Joe Howells, que apresentava erupção de sarampo benigno, próprio da estação. O caso em si nada tinha de alarmante, mas preocupava-o a mãe de Joe, dada a sua falta de recursos.

O pai Howells, que trabalhava nas pedreiras,

não ia ao trabalho havia três meses, com uma pleurisia, nada recebendo durante a doença. E a Sr.a Howells, uma mulher de compleição delicada, que já trabalhava como enfermeira particular, além de fazer a limpeza da Capela Bethseda, tinha agora de enfrentar mais a trabalheira da doença da criança.

Ao terminar a visita, quando conversava com

ela à porta de casa, Andrew observou, compadecido:

- A senhora está sobrecarregadíssima. É uma

pena que tenha de tirar Idris da escola. - Idris era o irmão mais novo de Joey. A criatura resignada, de mãos vermelhas e dedos inchados de tanto trabalhar, levantou a cabeça com vivacidade.

- Mas a professora diz que não há necessidade

de o pequeno deixar de ir à escola.

Apesar da sua solicitude Andrew sentiu-se

um pouco sobressaltado.

- Ah, sim? E quem é a professora? - É a menina Barlow, da escola de Bank Street

- respondeu de boa fé a Sr.a Howells. - Ela veio aqui esta manhã. Ao perceber quanto eu estava apoquentada consentiu que Idris continuasse a ir à escola. Só Deus sabe o trabalhão que havia de ter se ele também ficasse aos meus cuidados!

Andrew teve ímpetos de dizer-lhe que devia

obedecer às suas indicações, e não às de uma professorazita intrometida; no entanto logo compreendeu que a Sr.a Howells não era culpada. No momento não fez qualquer comentário, mas quando se despediu e desceu a Riskin Street trazia na testa uma ruga de ressentimento. Odiava interferência, principalmente no seu trabalho, e sobretudo tinha horror a mulheres importunas. Quanto mais pensava no caso mais aumentava a sua fúria. Conservar Idris na escola quando o irmão estava atacado de sarampo era uma infracção bem clara do regulamento sanitário. E subitamente resolveu procurar essa menina Barlow, tão amiga de se meter em assuntos que não lhe diziam respeito, e debater o assunto com ela.

Cinco minutos mais tarde já subia ele a ladeira

da Bank Street na direcção do edifício da escola. Ali, depois de se informar junto do porteiro, chegou à sala de aula que procurava. Bateu à porta e entrou.

Era uma sala ampla, bem ventilada, com um

fogão aceso a um canto. Todos os alunos pareciam ter menos de sete anos. Como Andrew entrou na hora da merenda, cada um dos garotos tinha diante de si um copo de leite benefício que fazia parte do plano de assistência infantil de uma associação de beneficência.

O olhar de Andrew fixou-se logo na

professora. Esta estava ocupada a escrever algarismos no quadro negro, de costas para ele, e no primeiro momento não deu pela sua presença. Mas subitamente voltou-se.

Ou por ser tão diferente do tipo de mulher

intrometida criado na sua Imaginação ou talvez pela surpresa estampada nos olhos castanhos da jovem, o caso é que Manson hesitou e perturbou-se. Corou um pouco e disse:

- É a menina Barlow?

- Sou, sim.

Tinha uma figura esguia, com saia castanha,

meias de lã e grossos sapatos.

«Deve ter a minha idade», conjecturou

Manson. «Não, deve ser mais jovem, vinte e dois anos mais ou menos».

Ela também o examinou, um pouco confusa,

sorriu ligeiramente, como se, cansada da aritmética infantil acolhesse de boa vontade qualquer distracção nesse dia delicioso de Primavera.

- E o senhor não é o novo assistente do Dr.

Page?

- Sou. sim, mas isso não importa. Sou o Dr.

Manson e sei que a senhora tem aqui um elemento de contágio, Idris Howells. A senhora deve saber que o irmão dele está com sarampo.

Houve uma pausa. Ainda com expressão

interrogativa, o olhar dela continuava amistoso. Limpando o cabelo sujo de giz, respondeu:

- Sim, sei.

O facto de a jovem não dar grande

importância à sua visita irritava-o.

- Não compreende então que mantê-lo aqui é

uma infracção ao regulamento?

Ouvindo as suas palavras a jovem corou e

perdeu o ar de camaradagem. Andrew não podia deixar de admirar a frescura da pele da professora e o sinalzinho castanho, exactamente da cor dos seus cabelos, no alto da face direita. Parecia bem delicada na sua blusinha branca e ridiculamente jovem para professora. Na ocasião a sua respiração estava um pouco alterada, mas foi com voz pausada que disse:

- A Sr.a Howells estava sem saber o que fazer.

Muitas crianças daqui já tiveram sarampo. As que não tiveram ainda hão-de tê-lo mais cedo ou mais tarde. Se Idris não viesse à escola sentiria a falta do leite que lhe faz tanto bem.

- Não se trata de leite - interrompeu Andrew, -

a criança deve ser isolada.

Ela respondeu obstinadamente: - Mas eu isolei-o... de uma certa maneira. Se

não acredita veja com os seus próprios olhos.

Manson seguiu o seu olhar. Idris, um

garotinho de cinco anos, numa pequena carteira só para ele, perto do fogo, parecia extraordinariamente satisfeito da vida. Os olhos, de um azul-pálido, arregalavam-se de contentamento sobre o copo de leite. Esse quadro irritou mais Andrew.

Riu com sarcasmo.

- A sua noção de isolamento pode ser esta,

mas com certeza não é a minha. A senhora deve mandar esta criança para casa imediatamente.

Os olhos da professora faiscaram. - Parece que o senhor esquece que sou eu a

responsável por esta classe. O senhor pode dar ordens a pessoas mais importantes. Mas aqui quem manda sou eu.

Ele encarou-a com dignidade enfurecida. - A senhora está a infringir a lei. Não pode

conservá-lo aqui. Se fizer isso, terei de participar.

Seguiu-se um curto silêncio. Andrew podia

ver que ela apertava o pedaço de giz que tinha na mão. Este sinal de emoção ainda lhe aumentou a raiva contra a professora e talvez contra si mesmo. Ela disse desdenhosamente:

- Pois então participe. Ou mande prender-me.

Não tenho dúvida de que isso lhe dará uma grande satisfação.

Furioso, ele não respondeu, sentindo-se numa

posição falsa. Procurou aprumar-se, encarando-a com firmeza e tentando fazê-la baixar os olhos, que fuzilavam agora. Por um momento os dois defrontaram-se tão perto um do outro que Manson pôde ver a leve pulsação do colo dela, o brilho dos seus dentes entre os lábios entreabertos. Foi Christine Barlow quem rompeu o silêncio:

- Nada mais temos a tratar, não é verdade? - E

voltando-se bruscamente para a classe: - Levantem-se meninos, e digam: boas-tardes, Dr. Manson. Obrigado pela sua visita.

As cadeiras foram arrastadas e os garotos, de

pé, repetiram o irónico cumprimento. Ardiam as orelhas de Andrew quando a jovem o acompanhou até à porta. Sentia-se exasperadamente constrangido e tinha a inquietante suspeita de haver procedido muito mal perdendo toda a calma enquanto ela soubera admiravelmente dominar-se Manson procurou encontrar uma frase esmagadora, uma réplica final de intimidação. Mas antes que a achasse já a porta se fechara calmamente nas suas costas.