A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 42 de 55

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A Cidadela

Capítulo 9

Mês e meio depois de assumir as funções no

Hospital, Andrew tomava o café da manhã, em companhia de Christine, quando abriu uma carta que trazia o carimbo de Marselha. De momento, olhou espantado, como se não acreditasse no que estava a ler. E depois exclamou:

- É do Denny. Cansou-se finalmente do

México. Está de volta, disposto a recomeçar a actividade aqui, diz ele. Só vendo acredito. Mas, meu Deus! Como será agradável vê-lo outra vez! Está longe há quanto tempo? Parece um século. Imagina que vem da China. Tens aí o jornal, Chris? Vê quando chega o Oreta.

A notícia deu também uma grande alegria a

Christine mas por diferentes motivos. Havia nela um forte instinto maternal, um estranho espírito de protecção, quase calvinísta, em relação ao marido, e ela sempre achara que Denny (e Hope, também, embora em escala menos elevada) exercia uma influência benéfica sobre Andrew.

Agora, especialmente, que ele, em virtude da

modificação que se operara no seu espírito, tanto precisava dessa influência, Christine mostrava-se ainda mais ansiosa e atenta. Após a chegada da carta, pensou logo em promover uma reunião dos três amigos.

Na véspera da chegada do navio, tocou no

assunto.

- Não sei se isso te agradará, Andrew... mas

estou a pensar que poderíamos dar um jantarzinho na semana que vem... Um jantar só para nós, o Denny e Hope.

Ele fitou-a surpreendido. com o ambiente de

constrangimento latente entre ambos era estranho que ela falasse em preparar uma festa. No entanto respondeu:

- Hope provavelmente está em Cambridge, e

Denny e eu podemos ir a qualquer lado. - Mas, olhando para ela, anuiu rapidamente. - Está bem. Trata do jantar para domingo. É o dia melhor para todos nós.

No domingo seguinte apareceu Denny. Mais

saudável de aparência, a cara mais vermelha do que nunca. Parecia mais velho, mas mais bem disposto e mais correcto de maneiras. Todavia, era ainda o mesmo Denny, como demonstrou ao saudar o casal:

- Isto aqui é um palácio! Com certeza,

enganei-me na porta. - E voltando-se solenemente para Christine. - A senhora, por favor, pode informar-me: este cavalheiro tão bem vestido é o Dr. Manson?

Um momento depois, já sentado, recusou um

aperitivo.

- Não! Agora sou amador de limonadas. Por

mais estranho que pareça, o facto é que estou disposto a assentar a vida de uma vez, aqui mesmo, neste país de tanta chuva. Já estou farto de girar por este vasto mundo. A melhor maneira de se querer a esta terra tão caluniada é passar uns tempos no estrangeiro.

Andrew fitou-o com afectuosa censura. - Deves realmente assentar a vida, Phillip.

Afinal de contas, já entraste na casa dos quarenta... E com a tua capacidade...

Denny dirigiu-lhe um olhar significativo por

baixo das sobrancelhas.

- Largue esse espírito, Sr. Professor. Ainda lhe

posso mostrar as minhas habilidades qualquer dia.

Contou que tivera a sorte de ser nomeado

cirurgião numa enfermaria do South Hertfordshire, com trezentas libras por ano sem descontos. Não podia considerar aquilo, é claro, como uma situação definitiva, mas havia muito trabalho para um cirurgião que quisesse pôr em acção a sua técnica operatória. Queria ver, afinal, o que ainda era capaz de fazer.

- Não sei como me deram essa situação -

observou Denny - Devem ter-se enganado. Confundiram-me com outra pessoa.

- Não - disse Andrew, com ar um tanto

doutoral. - Foi por causa do teu título de M. S. (doutor em cirurgia). Um título de primeira ordem como este pode levar-te a uma boa situação.

- Que tem ele, hem? - resmungou Denny. -

Nem parece o amigalhaço que me ajudou a dinamitar aquela rede de esgotos.

Nesse momento entrou Hope. Ainda não

conhecia Denny, mas, após cinco minutos, já se entendiam perfeitamente. Quando passaram para a sala de jantar, tinham feito uma alegre frente única para arreliar Manson.

- Naturalmente, Hope - disse Phillip, num tom

melancólico, ao agarrar no guardanapo - o senhor não deve esperar muita comida nesta casa. Oh! Não! Eu conheço esta gente há muito tempo. Conheci o professor muito antes de se tornar a coqueluche das finas rodas de Londres. Não sabia que este casal foi expulso da cidade onde vivia porque matava porquinhos da índia à fome?

- Eu costumo trazer um bocado de presunto

no bolso - disse Hope. - É um hábito que aprendi com o Billy dos Botões na nossa última expedição. Mas, infelizmente, não tenho ovos. As galinhas lá de casa estão agora no choco.

As graças continuaram durante o jantar. O

humorismo de Hope parecia provocado especialmente pela presença de Denny. Mas pouco a pouco a conversa descaiu para assuntos mais sérios. Denny contou algumas das suas aventuras na América do Sul, metendo uma ou duas histórias de negros que fizeram Christine rir a bom rir. Hope explicou detalhadamente as mais recentes actividades da Junta. Whinney conseguira finalmente promover as investigações sobre fadiga muscular que haviam estado tanto tempo no campo das teorias.

- É o que estou a fazer agora - disse Hope, com

melancolia. - Mas, graças a Deus, só me faltam nove meses para acabar o contrato. Nessa altura, farei alguma coisa que jeito tenha. Estou farto de trabalhar por conta alheia, com os velhos a moerem-me a paciência e modificando a voz numa agitação cómica: «Dr. Hope, que quantidade de ácido carbolático encontrou desta vez?». Quero trabalhar por minha própria conta. Quem me dera ter um pequenino laboratório só para mim!

Como esperava Christine, a conversa tornou-

se nitidamente científica. Terminado o jantar, que foi abundante, desmentindo assim as previsões pessimistas de Denny, e servido o café, Christine ficou à mesa, assistindo à discussão, muito embora Hope a prevenisse de que a linguagem não seria muito própria para uma senhora. Cotovelos fincados na mesa, mão no queixo, escutando em silêncio, esquecida de tudo, ela não tirava os olhos do rosto de Andrew.

A princípio Manson mostrou-se seco e

reservado. Embora estivesse alegre por ver novamente Phillip, tinha a impressão de que o velho amigo não dava muita importância aos seus sucessos, mostrando-se muito mais irónico do que entusiasmado. Afinal de contas tinha vencido de facto. Não tinha? E Denny, que fizera? Quando Hope insistira nas suas ironias, Andrew estivera a ponto de dizer aos dois, com toda a franqueza, que deixassem de brincar à sua custa.

Todavia, agora que conversavam sobre

assuntos profissionais, Manson foi deixando-se conduzir inconscientemente por eles e num dado momento foi contagiado pela tagarelice dos companheiros e começou também a falar com a vivacidade dos velhos tempos.

O assunto da discussão eram os hospitais. De

repente Andrew exprimiu a sua opinião sobre todo o sistema hospitalar.

- Querem saber o que penso a esse respeito? -

Soprou uma abundante fumaça. Agora já não era um cigarro barato, mas um bom charuto, tirado de uma caixa que apresentara distraidamente aos outros, sob o olhar sardónico de Denny. - Para mim, todo o sistema é anacrónico. Compreendam: não quero de forma alguma que pensem que estou menosprezando o meu próprio hospital. Gosto muito do Vitória e posso afirmar-lhes que lá trabalha-se de verdade. Mas o sistema é que não serve. Apenas o povo inglês, com a sua apatia, o pode tolerar. É o que acontece com as estradas do nosso país: o mesmo atraso, a mesma desorganização, o mesmo desmazelo. O Vitória é uma ruína. O S. João também. Muitos hospitais de Londres, talvez mais de metade, estão nas mesmas condições. E que fazemos nós para obviar a esse mal? Pedimos esmola. Afixamos cartazes nas fachadas dos hospitais. Pedimos auxílio como se anunciam produtos. «O Vitória está a cair!». «Comprem a Cerveja Brown, é a melhor!». Isto não tem graça? No Vitória, se a sorte nos ajudar, poderemos dentro de dez anos começar a construção de uma nova ala ou uma dependência para moradia das enfermeiras! Mas para que remendar uma velha carcaça? Que interessa um hospital para doentes pulmonares no centro de uma cidade barulhenta e húmida como Londres? Que diabo! É como se a gente levasse um doente com uma pneumonia para o fundo de uma mina de carvão. E em muitos outros hospitais e casas de saúde sucede o mesmo. Estão instalados nas ruas mais movimentadas e barulhentas, e até as camas tremem quando os camiões passam na rua. Mesmo que eu fosse com muita saúde para um desses hospitais, teria de tomar todas as noites um bom calmante para poder dormir. Imaginem os doentes, no meio dessa barulheira com uma grave infecção intestinal ou com uma febre alta provocada pela meningite! Qual é o remédio para isso?

Phillip franziu a testa perante essa inesperada

irritação.

- Uma junta hospitalar, contigo como

presidente?

- Não sejas idiota, Denny - respondeu

Andrew, impaciente. - O remédio é a descentralização. Não, isto não é uma frase feita; é o resultado do que observei desde que estou em Londres. Porque não poderiam os grandes hospitais ficar numa zona um pouco afastada, onde não houvesse barulho nem fumos de fábricas? Digamos, a umas quinze milhas da cidade. Talvez um lugar como Benham, por exemplo. Fica distanciado apenas a umas dez milhas, mas é como se fosse em pleno campo, arborizado, ar puro, sossego. E não julguem que seriam grandes as dificuldades de transporte. O metropolitano poderia fazer a viagem até Benham em menos de vinte minutos. E podia mesmo haver comboios privativos para o serviço do hospital. Quando penso que as nossas ambulâncias mais velozes gastam quarenta minutos pouco mais ou menos para transportar um doente de urgência, considero isso um progresso. Pode alegar-se que, transferindo os hospitais, a cidade ficaria sem serviços médicos. É uma tolice. Os dispensários podem ficar nos centros e nos bairros, longe dos hospitais. Já que tratamos do assunto, é preciso lembrar que essa laracha de zonas de serviço médico é uma verdadeira barafunda. Quando cheguei aqui verifiquei imediatamente que o único lugar para onde podia mandar os meus doentes da parte oeste de Londres era o hospital da parte leste. E voltando ao Vitória, temos ali doentes de todos os bairros. Não se procura circunscrever as zonas hospitalares. Toda a gente se dirige para os hospitais do centro da cidade. Para falar com franqueza, camaradas, a confusão é às vezes inacreditável. E que se faz? Nada, absolutamente nada. Continuamos no velho sistema, passeando pelas ruas as caixas das esmolas, organizando bandos precatórios, fazendo apelos, deixando os estudantes arrecadarem moedas nas festas de beneficência. Nos países novos da Europa, sim, parece que se faz alguma coisa, Juro por tudo: se pudesse arrasaria o Vitória e construiria um novo hospital para tuberculosos em Benham, com uma boa linha de comunicações para a cidade. E garanto-lhes! A média de curas subiria espantosamente!

Isso serviu apenas de introdução. A discussão

ampliou-se.

Philip trouxe à colação o seu velho ponto de

vista: a estupidez de pedir a um médico de clínica geral que trate de todas as doenças, a insânia de exigir que ele tome a responsabilidade de todos os casos, até o momento delicioso em que um especialista, a quem nunca se viu mais gordo, é chamado para declarar, pelo preço de cinco guinéus, que é demasiadamente tarde para se fazer alguma coisa.

Sem reservas nem eufemismos, Hope expôs o

exemplo de um jovem bacteriologista batido entre o comercialismo e a rotina. De um lado, os laboratórios que lhe querem pagar um ordenado para fazer especialidade, de outro lado uma junta de velhos caducos e cómicos.

- Suponham vocês - esganiçou-se Hope - os

irmãos Marx dentro de uma dona-elvira escangalhada, com quatro volantes independentes e uma quantidade enorme de buzinas. Pois assim é a Junta de Mineiros e Metalúrgicos.

A conversa seguiu até depois da meia-noite, e

nesse momento tiveram a agradável surpresa de encontrar a mesa posta com café e sanduíches.

- Quanto incómodo por nossa causa, Sr.a

Manson - protestou Hope, com uma cortesia que confirmava a definição de Denny a seu respeito: - «Um rapazinho de bons sentimentos». Como deve ter ficado aborrecida com a nossa conversa! E tem graça como uma discussão faz fome! Vou sugerir a Whinney um novo plano de investigações: o efeito do falatório sobre as secreções gástricas. Upa! Isso é uma asneira chapada!

Hope despediu-se entre afirmações veementes

de que passara uma noite agradabilíssima; Denny ainda se demorou mais um bocado, valendo-se do privilégio de uma amizade mais antiga, e quando Andrew foi ao telefone para chamar um táxi, Phillip apresentou a Christine, meio acanhado, um lindo xale espanhol.

- O professor provavelmente mata-me com

ciúmes - disse - mas isto é um presente para si. Não lho mostre antes que eu volte as costas. - Não permitiu que ela proferisse uma palavra de agradecimento, pois era a coisa que mais o embaraçava. - É curioso: todos esses xales espanhóis vêm da China. Comprei este em Xangai.

Calaram-se um momento. Ouviram os passos

de Andrew, que voltava do telefone. Denny levantou-se. Os seus olhos amigos evitaram os dela.

- Eu não queria perturbá-lo, o senhor sabe. -

Sorriu. - Mas devemos fazer um esforço. Temos realmente de o fazer voltar ao que era em Blaenelly.