A Cidadela
Capítulo 10
Durante uma semana Andrew andou irritado
com a derrota, num desânimo cheio de azedume. Na manhã de domingo, habitualmente dedicada a um longo e agradável repouso, desabafou subitamente:
- Não é o dinheiro, Chris! É uma questão de
princípio. Quando penso nisso... É de endoidecer! Porque não posso deixar que as coisas continuem assim? Porque não gosto de Llewellyn? Ou, melhor, porque gosto dele agora e detesto-o daí a bocado? Diz-me sinceramente, Chris. Porque me rojo a seus pés? Serei invejoso? Que será?
A resposta dela surpreendeu-o: - Sim, acho que és invejoso.
- Como?
- Não me atormentes os ouvidos, querido.
Pediste-me que te falasse com sinceridade. És invejoso, terrivelmente invejoso. E porque não havias de ser? Nunca tive a pretensão de querer um santo para marido. Esta casa é bem clara e não preciso que tragas um resplendor em volta da cabeça.
- Continua - rosnou - Andrew. Mostra-me
todos os meus defeitos, já que começaste. Desconfiado! Invejoso! Devias ter notado isso antes de casar. Ah! E também demasiadamente novo, pelo que vejo. O octogenário Urquhart também me censurou essa circunstância.
Houve uma pausa, durante a qual esperou a
resposta para prosseguir na discussão. Depois disse irritadamente:
- Porque havia de ter inveja de Llewellyn?
Porque ele é extraordinariamente hábil no seu trabalho, sabe muito, e... principalmente porque tem todos os títulos de primeira ordem. Enquanto eu tenho apenas este, muito insignificante: formado em Medicina por uma universidade escocesa. Deus do Céu! Agora sei o que pensas de mim. - Furioso saltou da cama e começou a andar às voltas pelo quarto, de pijama. - Afinal, que importância têm os títulos? Uma fantasia! O que vale é o método, a habilidade clínica. Eu não acredito nessas fantasias que eles impingem nos livros. Creio é no que ouço nas pontas do meu estetoscópio. E se não sabes, fica sabendo que eu ausculto realmente. Estou a começar a descobrir coisas interessantes na minha investigação sobre a antracite. Talvez lhes faça uma surpresa qualquer dia, minha cara senhora. Diabo! As coisas vão bem quando um cidadão se levanta num domingo para ouvir a mulher dizer que ele não sabe coisa alguma!
Sentada na cama, Christine agarrou o estojo e
começou a tratar das unhas, esperando que ele se acalmasse.
- Eu não disse isso, Andrew. - A calma dela
ainda mais o exasperou. - Só quis dizer... Querido, não deves ser assistente até ao fim da vida. Tu queres ter quem te ouça, quem preste atenção aos teus trabalhos, às tuas ideias... Oh! Compreendes bem o que quero dizer. Se tivesses um título de real mérito um M.D. ou... o M.R.C.P.6, isso ajudar-te-ia muito na tua carreira.
- O M.R.C.P. - repetiu ele inexpressivamente.
Depois pensou: «Ah! Ela tem estas ideias na cabeça. O M.R.C.P. Oh! Tirar um título desses numa clínica de operários! Deveria aniquilá-la com o sarcasmo.» E como resposta aos seus pensamentos: - Não compreendes que eles só concedem esses títulos às testas coroadas da Europa?!
Bateu com a porta e foi à casa de banho, para
fazer a barba. Cinco minutos depois reapareceu com uma face rapada e a outra ainda com sabão. Estava arrependido, excitado.
6 M.R.C.P. - abreviatura de Member of the Royal Colleges of Physicians. É um título médico que só pode ser conquistado mediante curso de provas. (N. do T.)
- Achas que eu posso fazer isso, Chris?! Tens
toda a razão. Precisamos de novos ornatos para a nossa placa se quisermos ir para diante. Mas o M.R.C.P.... é o mais difícil dos exames de medicina, de todos os pontos de vista. E... é de matar! Bem... Ainda assim... Tenho de tomar informações...
Sem acabar de expressar o que pensava
atirou-se pela escada abaixo e correu ao Almanaque Médico. Voltou desolado, no auge da decepção.
- Naufragou tudo! - resmungou, desanimado.
Tudo por água abaixo! Eu disse-te que era impossível. Há uma prova preliminar de línguas. Quatro idiomas. Latim, francês, grego e alemão. E duas dessas línguas são obrigatórias. Isso antes de começar o diabo do exame propriamente dito. Eu não sei línguas. Todo o latim que sei é... Ora, One. E quanto ao francês...
Christine não respondeu. E Andrew nada
mais disse.
Ficou junto da janela, contemplando
carrancudamente a paisagem. Por fim voltou-se, de testa franzida, ar preocupado, disposto talvez a não desistir.
- E porque não poderia eu... com mil
demónios! Chris... porque não poderia eu aprender essas línguas para o exame?
Espalhando no chão os artigos de toilette de
que se estava a servir ela saltou da cama e abraçou-o apertadamente.
- Oh! Era isso que eu queria que dissesses,
querido! Isso, sim, é que mostra bem o teu valor. Eu posso... Eu posso talvez auxiliar-te. Não te esqueças de que a tua velha mulher é uma professora aposentada!
Passaram o dia todo fazendo planos
alvoroçadamente. Atiraram Trollope, Tchekov e Dostoiewski para um dos quartos vazios. Dispuseram a saleta para campo de operações.
E, naquela noite, Manson foi à escola na
companhia dela. A mesma coisa aconteceu na noite seguinte... e na seguinte...
Às vezes Andrew sentia todo o sublime
humorismo da situação e ouvia, vindo de muito longe, o riso zombeteiro dos deuses. Assentado a uma mesa nua junto da mulher, numa longínqua cidadezinha mineira de Gales, a repetir com ela: caput-capitis, ou Madame, est-ll possible que?... E lá vinham declinações, verbos irregulares, leituras em voz alta de Tácito...
De vez em quando recostava-se subitamente
na cadeira, com certa vaidade.
- Ah! Se Llewellyn pudesse assistir a isto!...
Que cara faria! E pensar que isso é apenas o princípio, que hei-de conquistar mais tarde todos os títulos médicos!
No fim do mês seguinte, pacotes de livros
começavam a chegar periodicamente a Vale View, vindos da filial de Londres da Livraria Médica Internacional. Andrew retomou os estudos no ponto onde os deixara ao sair da universidade.
Descobriu então que os abandonara antes
do tempo. Ficou impressionadíssimo ao verificar o avanço da bioquímica na terapêutica. Travou conhecimento com glândulas suprarrenais, ureia no sangue, metabolismo basal e a falibilidade do exame de albumina. Quando essa pedra angular dos seus dias de estudante caiu na terra, gemeu em voz alta:
- Chris! Sou um ignorante. E todas essas
matérias me matam!
Tinha de atender ao trabalho da clínica. Só
dispunha das noites para estudar. Sustentado por café bem forte e por uma toalha molhada em torno da cabeça, continuou a batalhar, estudando até de madrugada. Quando caía na cama, exausto, às vezes não conseguia dormir. Noutras ocasiões, quando adormecia era para acordar de repente, encharcado em suor, num pesadelo, com a cabeça atordoada com termos, fórmulas e algumas imbecilidades pretensiosas do seu francês que ainda não passava das bases.
Fumava de mais, emagreceu, o rosto
adelgaçou. Mas Chris estava a seu lado, constante e silenciosa, procurando oportunidade para ele falar, desenhar diagramas, explicar numa língua cheia de termos difíceis e extraordinária, a espantosa, a impressionante acção selectiva dos canalículos renais. Ela também admitia que o marido gritasse, gesticulasse e, quando os nervos se destrambelhavam, que dissesse disparates.
As onze horas, quando Christine trouxe o
café, Andrew estava com vontade de discutir.
- Porque não me deixas em paz? Que
xaropada é essa que trazes aí? Cafeína... É uma droga venenosa. Sabes que me estou a matar, não sabes? E tudo por tua causa. És terrível! Terrivelmente rude. És uma autêntica carcereira, andando para cima e para baixo a vigiar o preso! Nunca hei-de conseguir esse amaldiçoado título. Há centenas de sujeitos das clínicas elegantes de Londres e dos grandes hospitais a tentar a mesma coisa. E eu... eu, de Aberalaw! Ah! Ah! - Era um riso histérico. - Eu, assistente da velha e querida Sociedade de Auxílios Médicos! Oh! Meu Deus! Estou tão cansado e tenho a certeza de que me vão arrancar de casa esta noite para esse parto nos confins do Cefan Row e...
Christine era melhor combatente do que ele.
Possuía o senso do equilíbrio que os sustentava nessas crises. Tinha também os seus nervos, mas sabia dominá-los. Fez sacrifícios, recusou todos os convites dos Vaughan, deixou de ir aos concertos no Temperance Hall. Fosse qual fosse a hora a que se deitasse estava sempre de pé desde cedo, arranjada, com o primeiro almoço de Andrew pronto para quando ele descesse, arrastando-se, sem a barba por fazer, o primeiro cigarro do dia entre os lábios.
De repente, quando já haviam decorrido seis
meses de preparação para os exames, a tia de Christine, que morava em Bridlington, adoeceu com uma flebite e escreveu pedindo-lhe que fosse vê-la. Ao mostrar a carta ao marido, declarou imediatamente que era impossível deixá-lo. Mas, curvando-se sobre o prato de presunto com ovos, ele resmungou :
- É preciso que vás, Chris! Quero que vás.
Estudando desta maneira eu me arranjarei melhor sem ti. Com os nossos nervos destroçados demos ultimamente para nos zangarmos. Desculpa... mas... parece-me que é a melhor coisa a fazer.
Ela partiu, contra vontade, no fim da semana.
Antes de um dia passado, Andrew compreendeu o erro. Com Christine ausente a casa era um tormento. Embora tudo fizesse de acordo com as instruções cuidadosamente determinadas por Christine, Jenny era uma calamidade permanente. Mas não era a comida de Jenny, não era o café requentado, nem a cama mal feita que o irritavam. Era a ausência de Christine. Era saber que ela não estava em casa, não poder chamá-la, não sentir a sua presença. Surpreendia-se a olhar tristemente para os livros, perdendo horas e horas com ela no pensamento.
Ao fim de quinze dias Christine telegrafou
prevenindo que ia voltar. Andrew desprezou tudo e preparou-se para recebê-la. Nada havia que prestasse, que produzisse o efeito desejado para o momento da recepção. O telegrama não lhe dera muito tempo, mas ele pensou com rapidez e correu à cidade para fazer extravagâncias. Comprou primeiro um ramo de rosas. Na peixaria de Kendrick teve a sorte de encontrar uma lagosta fresquinha. Arrebatou-a apressadamente, antes que a Sr.a Vaughan a quem Kendrick dava preferência para essas preciosidades pudesse telefonar para lhe tomar a conquista. Comprou gelo em quantidade e verduras ao homem do lugar e, finalmente, sempre trepidante, encomendou uma garrafa de Moselle, que Lampert, o merceeiro da Praça, lhe garantira ser excelente.
Depois do chá disse a Jenny que podia retirar-
se, pois já sentia o olhar da criadinha, cheia de curiosidade, voltado para ele. Pôs-se então a trabalhar e preparou amorosamente uma salada de lagosta. Transformou o balde de zinco da despensa, cheio de gelo, numa excelente vasilha para refrescar o vinho. Para as flores apresentou-se-lhe uma dificuldade imprevista, pois Jenny havia fechado o guarda-louça, onde estavam guardadas as jarras, e parecia ter escondido a chave. Mas venceu até mesmo esse obstáculo, colocando metade das rosas no jarro da água e o restante no copo dos dentes, da casa de banho. Isso dava até uma curiosa impressão de variedade.
Finalmente acabou os preparativos: as flores, a
comida, o vinho no gelo. Andrew passava revista a tudo com intensa alegria. Depois do trabalho nocturno do consultório, por volta das nove e meia, correu para a estação, a fim de esperar Christine.
Era como se estivesse de novo apaixonado,
com o coração dos primeiros dias. Foi com ternura que a conduziu à sua festa de amor. A noite estava quente e silenciosa, a Lua brilhava no alto. Andrew esqueceu todas as complicações do metabolismo basal. Disse a Christine que poderiam supor estar na Provença, ou noutro qualquer lugar semelhante, onde houvesse um castelo esburacado sobre o rio. Acrescentou que ela era uma garota bonita e interessante e que ele tinha sido muito grosseiro com ela, mas que daí por diante, até ao fim da vida, seria um capacho não vermelho, pois ela não gostava dessa cor, estendido no seu caminho. Pronunciou ainda mais frases românticas, mas no fim dessa semana já lhe pedia que lhe trouxesse as chinelas.
Agosto apareceu poeirento e abrasador.
Chegado ao fim do seu programa de estudo, Andrew viu-se a braços com a necessidade de recapitular os exercícios práticos, especialmente de histologia. E era aparentemente uma dificuldade intransponível na situação em que se achava. Foi Christine quem pensou no Prof. Challis e na sua posição na Universidade de Cardiff. Quando Andrew lhe escreveu, Challis respondeu imediatamente, afirmando, com muitas frases, que poderia contar com a sua influência junto da secção de patologia. Encontraria ali, na pessoa do Dr. Glyn-Jones, acrescentava ele, um companheiro de primeira ordem. Concluía a carta pedindo afectuosamente notícias de Christine.
- Devo-te isto, Chris! Sempre vale alguma
coisa ter bons amigos. E quase que perdi a oportunidade de me encontrar com Challis não querendo ir, naquela noite, a casa dos Vaughans. O velho é fanfarrão, porém decentíssimo! Mas, de qualquer modo, tenho horror a pedir favores. E que história é essa de te mandar recomendações tão meigas?
No meado do mês apareceu em Vale View
uma motocicleta, marca Red Indian, em segunda mão. A máquina era baixinha, fora de moda, mas o proprietário anterior garantia ser «muito veloz». Na época morta do Verão havia três horas durante a tarde que Andrew podia considerar virtualmente como suas. E todos os dias, logo depois do almoço, um bólide vermelho corria pelo vale, na direcção de Cardiff, que ficava a uma distância de trinta milhas.
E todos os dias, por volta das cinco da tarde, o
mesmo bólide vermelho, um pouco mais empoeirado, vinha na direcção oposta, parando em Vale View.
Durante algumas semanas foi aquele esforço.
Correrias diárias de sessenta milhas, num calor de rachar, com uma hora apenas de intervalo para trabalhar entre os espécimes e as lâminas de Glyn-Jones, segurando às vezes o microscópio com as mãos ainda trémulas das vibrações do guiador. Para Christine a parte mais inquietante de toda aquela aventura era vê-lo partir com fisionomia morta de cansaço e esperar ansiosamente o primeiro sinal do seu regresso, temendo nesse interim que pudesse acontecer alguma coisa ao marido, curvado sobre o guiador daquela máquina infernal.
Embora andasse sempre acelerado, ele
encontrava tempo para trazer, de vez em quando, alguns morangos de Cardiff. Guardavam a fruta para depois do trabalho no consultório. À hora do chá Andrew aparecia sempre sujo de poeira e com os olhos vermelhos, conjecturando preocupadamente se o seu duodeno não iria ficar inflamado por causa da água da cisterna que bebera no caminho, perguntando a si mesmo se não poderia atender antes das consultas nocturnas as duas chamadas recebidas durante a sua ausência.
Mas realizou afinal a última viagem. Glyn-
Jones já nada mais tinha para mostrar-lhe. Conhecia de cor todas as lâminas e todos os espécimes. Só restava agora inscrever-se e pagar as pesadas taxas de exames.
No dia 15 de Outubro, Andrew tomou
sozinho o comboio para Londres. Christine levou-o à estação. Agora, que estava em vésperas do grande acontecimento, dominava-o uma estranha tranquilidade. Os anteriores esforços, com todas as reacções histéricas, tinham levado o cérebro a um estado que lhe dava a impressão de que tinha a cabeça oca, de que nada sabia.
No entanto, na manhã seguinte, quando
começou a fazer a prova escrita do exame, que se realizava na Faculdade de Medicina, surpreendeu-se a desenvolver o questionário com verdadeiro automatismo. Escreveu, escreveu, sem olhar para o relógio, enchendo folhas e folhas a ponto de sentir a cabeça estonteada.
Tomara um quarto no Museum Hotel, onde
Christine e ele tinham ficado na sua primeira visita a Londres. O hotel era modestíssimo, mas a comida infame, proporcionando a oportunidade para que a sua digestão perturbada redundasse numa dispepsia. Obrigou-se a uma dieta mais rígida, tomando somente leite. O seu almoço consistia apenas num copo de leite, tomado numa confeitaria do Strand. No intervalo das provas vivia num verdadeiro atordoamento. Nem lhe passava pela cabeça a ideia de se distrair. Quase não saía à rua. Só uma vez, por acaso, deu um passeio de autocarro para desanuviar o cérebro.
Logo depois das provas escritas começaram as
práticas e orais. Andrew sentiu-se ainda mais amedrontado diante destas últimas do que das primeiras. com ele concorriam uns vinte candidatos, todos mais velhos do que ele e qualquer deles com ar inconfundível de confiança e boa situação. O candidato que estava a seu lado, por exemplo, um tal Harrison, com quem conversara uma ou duas vezes, era formado por Oxford, tinha um cargo no hospital do governo e consultório num dos bairros de nomeada.
Quando Andrew comparou as maneiras
encantadoras e o desembaraço de Harrison com o seu provincianismo desajeitado, compreendeu serem muito diminutas as suas possibilidades de provocar boa impressão nos examinadores.
Na prova prática, efectuada no hospital da
zona sul de Londres, foi muito bem, segundo imaginava. O caso que teve de desenvolver era bronquite num rapazito de catorze anos. Como conhecia intimamente assuntos pulmonares fora realmente bofejado pela sorte. Tinha a impressão de ter feito uma boa prova, mas quando começou a oral a sorte pareceu mudar completamente. As provas orais na Faculdade de Medicina tinham as suas peculiaridades.
Durante dois dias cada candidato era arguido
por dois professores sucessivamente. Se ao fim da primeira sessão o candidato fosse considerado incompetente, era-lhe entregue um bilhete, em termos polidos, avisando-o de que não devia voltar no dia seguinte. Na perspectiva desse fatal aviso, Andrew ficou apavorado quando lhe coube por sorteio para primeiro examinador um homem sobre quem ouvira falar com viva apreensão: o Dr. Maurice Gadsby.
Gadsby era um homem franzino e chupado,
com olhinhos miúdos e bigode preto retorcido. Recentemente eleito para a congregação, nada tinha da tolerância dos examinadores mais velhos. Pelo contrário, parecia disposto a reprovar todos os candidatos que perante ele compareciam.
Encarou Andrew de testa enrugada e pôs seis
lâminas na sua frente. Cinco dessas lâminas foram identificadas correctamente pelo examinando, que não conseguiu identificar a sexta. E foi exactamente nesta que se concentrou a atenção de Gadsby. Durante cinco minutos perseguiu Andrew. Era, ao que parecia, um óvulo de um parasita obscuro da África Ocidental. Depois disso, displicentemente, sem manifestar interesse, passou o candidato ao outro examinador, sir Robert Abbey.
Andrew levantou-se e atravessou a sala,
pálido e de coração opresso. Toda a lassidão, toda a inércia que experimentara no começo da semana tinham desaparecido agora. Sentia um desejo quase desesperado de ser bem sucedido. Mas estava certo de que Gadsby o reprovaria.
Levantou os olhos e viu Robert Abbey a
contemplá-lo com um sorriso amável, meio divertido.
- Que há? - perguntou Abbey
inesperadamente.
- Nada, Sr. Professor - murmurou Andrew. -
Parece que não me saí bem com o Dr. Gadsby. Só isso.
- Não se preocupe. Lance uma vista de olhos
para estes espécimes. E depois diga-me qualquer coisa sobre eles.
Abbey sorria encorajadoramente. Era um
homem de cerca de sessenta anos, cara raspada, compleição um tanto rude, testa alta, boca larga e bem humorada. Embora Abbey fosse talvez nessa época um dos três médicos mais ilustres da Europa, havia conhecido muitas provações e dificuldades no começo da sua vida profissional. Vindo da aldeia natal, apenas com o esteio de uma reputação provinciana, teve de enfrentar em Londres toda a espécie de preconceitos e oposições. Enquanto fitava Andrew e dissimuladamente observava o seu fato mal feito, a camisa pobre, o colarinho mole, a sua gravata ordinária com o nó muito mal dado, a expressão de esforço no rosto fatigado, voltaram à memória de Abbey os dias da sua juventude provinciana. Instintivamente, o seu coração inclinou-se para aquele candidato, diferente dos outros. Percorrendo a nota dos resultados já obtidos verificou com satisfação que as classificações do rapaz, especialmente na prova prática, estavam acima da média.
Entretanto, com os olhos fitos nos recipientes
de vidro diante dele, Andrew ia mastigando melancolicamente os seus comentários sobre os espécimes.
- Basta - disse Abbey subitamente. Tomou um
espécime era de um aneurisma de aorta ascendente e começou a interrogar Andrew de modo amigável. As perguntas, simples no começo, foram-se tornando mais complicadas e mais difíceis, até chegarem finalmente a abranger um novo tratamento específico, por inoculação da malária. Mas a atitude simpática de Abbey deixou Andrew à vontade e respondeu bem.
Por fim, pondo de lado o espécime, Abbey
perguntou:
- Sabe alguma coisa sobre a história do
aneurisma?
- Ambrose Pare - respondeu Andrew, e Abbey
já começara a fazer um sinal de aprovação - é o pretenso descobridor do aneurisma!
Abbey fez uma cara de espanto. - Como pretenso, Dr. Manson? Foi
precisamente Pare quem descobriu o aneurisma.
Andrew ficou vermelho e depois empalideceu
quando desenvolveu o assunto:
- Bem, Sr. Professor, é de facto o que dizem os
livros. Encontrará isso em qualquer deles. Eu mesmo me dei ao trabalho de verificar tal afirmação em seis obras Respirou apressadamente. Mas, por acaso, estive a ler Celsus, para repassar o meu latim... que precisava de facto de ser repassado, Sr. Professor... e deparou-se-me a palavra aneurismus. Celsus conhecia o aneurisma. Ele descreve-o minuciosamente. E isso foi uns treze séculos antes de Pare!
Houve um silêncio. Andrew levantou os
olhos, preparado para receber uma censura afável. Abbey encarava-o com uma expressão estranha nas feições simpáticas.
- Dr. Manson - disse afinal. - O senhor é o
primeiro candidato nesta sala de exames que me diz qualquer coisa de original, de verdadeiro, e que eu ignorava.
Andrew ficou de novo vermelho. - Diga-me mais uma coisa. É uma questão de
curiosidade pessoal. Que considera o senhor como princípio dominante, quero dizer... Qual a ideia fundamental que lhe acode ao espírito quando está no exercício da sua profissão?
Houve uma pausa durante a qual o cérebro de
Andrew funcionou desesperadamente. Por fim com a impressão de que ia estragar todo o bom efeito que tinha produzido, respondeu um pouco ao acaso:
- Creio... Creio... O que afirmo sempre a mim
mesmo é que coisa nenhuma devo considerar como definitiva.
- Obrigado, Dr. Manson.
Quando Andrew deixou a sala, Abbey pegou
na pena. Sentia-se jovem outra vez e perigosamente sentimental. Pensou: «Se ele me tivesse dito que a medicina é um sacerdócio, que só cogitava em curar os enfermos de socorrer a humanidade sofredora, palavra de honra que me vingaria dessa decepção dando-lhe um zero». Mas, contente com a resposta, Abbey traçou em frente do nome de Andrew a nota máxima - o famoso 100 de que nunca houvera exemplo. E, sem dúvida, se pudesse «passar da conta» como pensava no seu foro íntimo, gostaria de dobrar aquele número.
Algum tempo depois, Andrew desceu a
escada com os outros candidatos. Em baixo, ao lado de uma mesinha forrada de couro, um porteiro de libré levantara-se com uma pilha de sobrescritos. À medida que os candidatos iam passando entregava um deles a cada um. Harrison que seguia ao lado de Andrew, rasgou o sobrescrito apressadamente. A expressão alterou-se-lhe. Disse devagar:
- Parece que não me querem cá amanhã. E
depois com um sorriso forçado: - E o senhor como foi tratado?
Os dedos de Andrew tremiam. Quase não
podia ler.
Atordoado, ouviu Harrison felicitá-lo. As suas
esperanças ainda se podiam manter. Foi até à leitaria e bebeu um copo de leite pasteurizado. E pensava, no auge da tensão nervosa: «Se depois de tudo isso eu não passar... eu... atirar-me-ei para debaixo de um carro.» O dia seguinte foi de arrasar os nervos. Mais de metade dos candidatos já tinha sido eliminada e constava que o restante também já estava condenado. Andrew não fazia a menor ideia se estava bem ou mal. Sabia apenas que a cabeça lhe doía horrivelmente, que os pés estavam gelados e que sentia um vazio dentro de si.
Afinal terminaram as últimas provas. Às
quatro da tarde Andrew saiu da sala, exausto, melancólico, endireitando nervosamente o casaco. Então, percebeu que Abbey estava ali, em frente do fogão do hall. Fez menção de passar, porém Abbey, não sabia porquê, estava de mão estendida, sorrindo, falando, dizendo-lhe... dizendo-lhe que fora aprovado.
Graças a Deus! Tinha passado! Conquistara o
título!
Sentiu-se outra vez cheio de vida,
maravilhosamente cheio de vida. A dor de cabeça desaparecera. Todo o cansaço desaparecera. Todo o cansaço passara. E quando correu para o posto do correio mais próximo, o coração cantava, cantava loucamente. Fora aprovado, ganhara o título, tendo saído não da zona elegante de Londres, mas de uma remota cidade mineira. Todo ele era exaltação esfuziante.
Afinal de contas sempre valera a pena o
grande esforço, aquelas noites intermináveis, aquelas correrias loucas a Cardiff, aquelas horas fatigantes de estudo. E corria pelas ruas, dando encontrões a toda a gente, os olhos fuzilando numa correria doida, na ânsia de telegrafar a Christine a comunicar o milagre.