A Cidadela
Capítulo 8
O Inverno passou. Andrew tinha agora mais
um incentivo com o seu trabalho sobre a inalação do pó. Para começar, planeou e levou a efeito um exame sistemático de todos os trabalhadores da mina de antracitte inscritos na sua lista.
Eram mais agradáveis que nunca as noites
que passavam juntos, Christine e ele. Christine ajudava-o, passando a limpo as suas notas, perto do fogo, sempre alimentado pelo melhor carvão. Uma das vantagens da zona era que podiam ter sempre o carvão que quisessem a preço módico.
Nas longas palestras que tecia com Christine,
Andrew ficava assombrado com a extensão dos conhecimentos da mulher e a sua familiaridade com os livros - coisas, aliás, que ela nunca procurava ostentar. Além disso, Andrew começou a descobrir nela uma agudeza de instinto, uma intuição que tornava sempre excepcionalmente exactas as suas opiniões sobre literatura, música, e sobretudo o carácter das pessoas.
- Sim, senhora! - procurava arreliá-la. - Só
agora é que principio a conhecer a minha mulherzinha. Se está cansada, poderemos dispor de meia hora, para lhe dar uma trepa no piquet.
Tinham aprendido o jogo com os Vaughan. Quando os dias se tornaram mais longos,
Christine pôs-se a tratar do jardim abandonado sem falar nisso a Andrew. Jenny, a criada, tinha um tio-avô, de quem muito se orgulhava, como seu único parente. Era um velho mineiro aposentado, que se tornou ajudante de Christine, com um pequeno ordenado. Andrew encontrou-os lá em baixo, no leito do riacho, iniciando uma ofensiva contra as latas velhas atiradas para ali.
- Ô lá de baixo! - gritou Andrew da ponte. -
Que estás fazendo aí? A dar cabo da minha pescaria?!
Ela respondeu à troça com um gesto animado
de cabeça.
- Espera e verás.
Em poucas semanas, Christine tirou toda a
lataria enferrujada e desentupiu as passagens obstruídas. O leito do riacho estava limpo, as margens sem ervas e bem tratadas. À entrada do valado construiu-se um novo muro feito com pedras apanhadas aqui e além. John Roberts, jardineiro de Vaughan, decidira aparecer de vez em quando, trazendo bolbas e estacas e dando conselhos. Foi com sensação de triunfo que Christine levou Andrew pelo braço para lhe mostrar os primeiros narcisos.
No último domingo de Março, Denny veio
visitá-los de surpresa. Correram ao seu encontro de braços abertos, desorientando-o no alvoroço das boas-vindas. Foi um grande prazer para Manson ver de novo aquela figura atarracada, aquelas sobrancelhas ruivas. Depois de mostrarem a Denny toda a casa, de o regalarem com o que havia de melhor e de instalá-lo na poltrona mais confortável da saleta, pediram-lhe animadamente notícias da terra.
- Page apagou-se - anunciou Phillip. - Sim, o
pobre, homem morreu há coisa de um mês. Outra hemorragia. E para ele foi um bem! - Tirou o cachimbo com a habitual expressão de cinismo falseando no olhar. - Blodwen e o seu amigo Rees parece que estão de casamento tratado.
- Bodas de ouro, para começar - disse Andrew
com acentuado azedume. - Pobre Edward!
- Page era boa pessoa. E competente -
comentou Denny. - Sabe o horror que eu tenho a esta palavra «clínico»... e a tudo que fica por trás dela. Mas Page carregou o fardo com decência.
Houve um silêncio. Ficaram pensando em
Edward Page, o Edward Page que durante tantos anos se arrastara sobre as escórias de Blaenelly, sempre a sonhar com a ilha de Capri, os seus passarinhos, a luz do seu sol.
- E que nos conta de si, Phillip? - perguntou
Andrew afinal.
- Eu sei lá... Estou a ficar inquieto. - Denny
sorriu amargamente. - Blaenelly não parece a mesma depois que vocês saíram de lá. Parece-me que estou decidido a fazer uma viagem a qualquer parte. Talvez me torne médico de bordo... se houver um cargueiro vagabundo que precise de mim.
Andrew ficou calado, entristecido mais uma
vez pensar naquele homem inteligente, cirurgião de verdadeiro valor, que gastava ingloriamente a sua vida numa espécie de sadismo contra si mesmo. Contudo, Denny estaria realmente esbanjando a sua vida? Conversara várias vezes com Christine sobre Phillip, tentando decifrar o enigma da sua carreira. Sabiam vagamente que se casara com uma mulher de situação social superior à sua e que ela procurara amoldá-lo às exigências de uma clientela aristocrática para a qual de nada valia fazer operações durante quatro dias da semana se o cirurgião não passasse os outros três em festas e caçadas. Depois de cinco anos de esforços da parte de Denny, a recompensa que ela lhe deu foi abandoná-lo displicentemente por outro homem. Não era de admirar, portanto, que Denny tivesse fugido para a província, desprezando convencionalismos e odiando ortodoxias. Talvez voltasse um dia à civilização.
Conversaram a tarde toda e Phillip só se
retirou no último comboio. Mostrou-se interessado com as explicações de Andrew sobre as condições da clínica de Aberalaw.
E quando este aludiu, indignado, à questão da
percentagem que Llewellyn arrancava do salário dos assistentes, Phillip disse com um sorriso intencional:
- Julgo que o senhor não tolerará isso por
muito tempo!
Quando o amigo partiu, Andrew foi pouco a
pouco, à proporção que os dias passavam, tomando consciência do vácuo, do estranho vácuo que se formara em torno do seu trabalho. Em Blaenelly, com Phillip perto dele, sempre havia sentido um laço comum, um propósito definido que era partilhado entre eles. Mas em Aberalaw não havia esse laço, nenhum propósito de união sentia entre os colegas médicos.
O Dr. Urquhart, seu companheiro da clínica
Oeste, era um bom homem, mesmo com todo aquele modo desabrido de falar. Todavia, era um velho, escravo da rotina absolutamente sem interesse. Embora a longa experiência o habilitasse a farejar pneumonia no momento em que «enfiava o nariz» no quarto do doente, embora fosse hábil na aplicação de ligaduras e emplastros e um mestre em espremer furúnculos, embora gostasse de demonstrar, uma vez por outra, que podia fazer algumas pequenas operações, era, no entanto, desoladoramente antiquado de muitos pontos de vista. Encarnava perfeitamente, aos olhos de Andrew, o velho tipo de bom médico de aldeia definido por Denny: um doutor experiente, consciencioso, esperto, sentimentalizado pelos doentes e pelo público em geral, mas que passa vinte anos sem abrir um livro de medicina e está quase sempre perigosamente atrasado nos seus conhecimentos. Ainda que Andrew estivesse sempre pronto para uma discussão sobre assuntos médicos com Urquhart, o velho nunca dispunha de tempo para «conversar sobre negócios». Quando terminava o serviço diário, engolia a sua sopa de conserva preferia a de tomate, polia o seu novo violino, passava revista às suas velhas porcelanas, e em seguida escapulia-se para o Club Maçónico a fim de jogar xadrez e fumar.
Os dois assistentes da clínica Leste eram
igualmente desalentadores. O Dr. Medley, o mais velho, era um homem de cerca de cinquenta anos, de fisionomia inteligente e sensível, mas infelizmente surdo como uma porta.
Não fora aquele defeito, que de certo modo
divertia certa gente da terra, Charles Medley teria tido, sem dúvida, uma situação muito superior à de simples assistente naquela região mineira. Como Andrew, ele era um clínico por excelência, notável no diagnóstico, mas não conseguia ouvir uma palavra do que lhe diziam os doentes. Não havia dúvida de que tinha muita prática em compreender as palavras pelo movimento dos lábios, mas estava sempre atemorizado porque a sua surdez levava-o muitas vezes a enganos humorísticos. Causava dó ver os seus olhinhos cansados acompanhando, numa espécie de investigação desesperada, o movimento da boca do seu interlocutor.
Porque estava sempre com medo de cometer
um erro grave, só receitava doses mínimas de qualquer remédio. Não se retirava da actividade profissional porque tinha a vida atrapalhada e sustentava muita gente da família. Desde que enviuvara havia-se tornado uma criatura inutilizada, estranha e patética, num constante pavor de que o Dr. Llewellyn e a direcção lhe tirassem de repente o emprego.
O outro assistente, o Dr. Oxborrow, era um
tipo bem diverso do pobre Medley. Andrew não gostava tanto dele.
Oxborrow era um gordo de dedos grossos e
de cordialidade espasmódica. Manson pensou muitas vezes que o seu colega, com um pouco mais de agressividade, daria um óptimo bookmaker. Era Oxborrow, acompanhado pela mulher, quem tocava no harmónio portátil, levado por ele mesmo nas tardes de sábado para a cidade vizinha de Fernley era o motivo por que desaparecia aos sábados de Aberalaw. Ali, na praça principal, subia a um estradozinho atapetado e realizava uma sessão religiosa ao ar livre.
Oxborrow era um evangelizador. Como
idealista, acreditava numa potência suprema que dirige o mundo. Andrew poderia ter admirado aquele fervor. Mas Oxborrow Deus do Céu! era emotivo ao ponto de desorientar uma pessoa. Chorava de repente e rezava de modo ainda mais desconcertante. Uma vez, quando se viu a braços com um parto difícil, que exigia mais do que a sua habilidade, caiu subitamente de joelhos aos pés da cama e, desfeito em lágrimas, implorou ao Senhor que fizesse um milagre para salvar a pobre mulher. Urquhart, que detestava Oxborrow, contou a Andrew essa história. Foi Urquhart quem, chegando nesse momento, avançou para o leito e terminou o parto com sucesso, tirando a criança a ferros.
Quanto mais considerava os seus colegas
assistentes e o método que seguiam no trabalho tanto mais desejava Andrew reuni-los num entendimento geral. Na situação existente não havia unidade, espírito de cooperação e muito menos solidariedade entre eles. Integrado no sistema de concorrência estabelecido geralmente no exercício da medicina em todo o país, lutavam uns com os outros, procurando cada qual conseguir o maior número possível de clientes. A consequência eram desconfianças terríveis e sentimentos hostis. Por exemplo, quando um doente de Oxborrow transferia o seu cartão para o consultório de Urquhart, Andrew via este último tomar das mãos do homem o frasco do remédio receitado pelo colega, tirar-lhe a rolha, cheirá-lo com desprezo e explodir em seguida:
- Era isto que Oxborrow lhe estava a dar?! O
diabo o carregue! Estava a envenená-lo aos poucos!
Entretanto, aproveitando-se da falta de
coesão, o Dr. Llewellyn ia tirando calmamente o seu quinhão do ordenado de todos os assistentes. Andrew andava indignado, ansioso por estabelecer uma combinação diferente, instituir um novo e melhor entendimento, que permitisse aos assistentes segurança e auxílio recíprocos sem alimentarem a ganância de Llewellyn. Mas os seus próprios aborrecimentos, a consciência de ser ainda um novato no lugar e, acima de tudo, os mal-entendidos em que se vira envolvido no começo da actividade na sua própria zona, aconselhavam-lhe prudência. Só depois do seu encontro com Boland é que se decidiu a fazer a grande tentativa.