A Cidadela
Quarta Parte
1
Começaram em busca de uma clínica. Uma
verdadeira montanha russa. As esperanças subiam ao céu, para caírem logo depois no mais profundo abismo. Estimulado pela consciência de três derrotas sucessivas pois era assim que considerava a saída de Blaenelly, de Aberalaw e da J. M. M., Andrew aspirava a uma desforra. Mas, embora aumentado pela rigorosa economia dos últimos meses de ordenado burocrata, todo o seu dinheiro não ia além de seiscentas libras. O casal não saía das agências médicas e não deixava passar qualquer oportunidade vislumbrada nas colunas do Lancet. Mas a quantia era insuficiente para a compra de um consultório londrino.
Andrew e Christine lembravam-se da
primeira tentativa: o Dr. Brent, de Cadogan Gardens, retirava-se da actividade profissional e oferecia consultório e clientela substancial para médico de reputação firmada. Receando que alguém se lhes antecipasse para arrebatar-lhes a pechincha, fizeram a extravagância de tomar um táxi e correram para o Dr. Brent. Era um homenzinho de cabeça branca, agradável, com ares quase humildes.
- Sim - disse enfaticamente o Dr. Brent. - A
clínica é óptima. A casa também é bonita. Quero apenas sete mil libras pelo trespasse. Tenho um arrendamento por quarenta anos e a renda é apenas de trezentas libras anuais. Quanto à clínica... O preço do costume... isto é, a renda correspondente a dois anos. Que tal, Dr. Manson?
- Muito justo! - Andrew concordou, com ar
sisudo. Também me dará uma boa recomendação para os clientes, não é assim? Obrigado, Dr. Brent. Vamos pensar no caso.
Pensaram sobre o negócio enquanto tomavam
chá numa modestíssima confeitaria.
- Sete mil libras! - Andrew soltou uma
gargalhada. Atirou o chapéu para a nuca. Franziu a testa e fincou os cotovelos na mesinha de mármore. - Isto está terrível, Chris! Esses velhos agarram-se à situação com unhas e dentes. E para os sacar de lá só com muito dinheiro. A culpa é da nossa organização médica. Mas se o sistema é esse, tenho de me conformar. Verás! Para o futuro também vou tomar a sério essa questão de dinheiro!
- Não faças isso - disse ela, sorrindo. - Temos
sido muito felizes na nossa pobreza.
Andrew resmungou:
- Não dirás a mesma coisa quando tivermos
de mendigar pela rua: uma esmolinha, por amor de Deus!
Confiando nos seus títulos médicos,
contentava-se com um dispensário barato, sem luxo. Queria livrar-se da tirania do sistema de cartões. Mas, passadas semanas, já aceitava com prazer qualquer coisa que lhe fornecesse um meio de existência. Viu clínicas em Talse Hill, Islington, Brixton e até em Cambden Town, onde lhe mostraram um consultório com um buraco no tecto. Depois de discutir muito com Hope, que considerava o caso um suicídio por causa da insignificância do capital, Andrew já estava decidido a alugar uma casa e pôr uma placa na porta à espera que os clientes aparecessem.
Mas ao fim de dois meses, quando já estavam
no auge do desespero, a Providência teve compaixão deles e levou suavemente para o além o Dr. Foy, de Paddington. Quatro linhazinhas no Medical Journal que noticiavam o facto caíram sob os olhos de Andrew. Embora sem esperança.
Foram ao n.º 9 do Chesborough Terrace.
Viram a casa. Era um casarão sepulcral, cor de chumbo, com um pequeno gabinete lateral como dispensário e, nos fundos, uma garagem de tijolos. Verificaram pela escrituração que o Dr. Foy fazia perto de quinhentas libras por ano, provenientes principalmente de consultas, com remédios a uma média de três xelins e seis pence. Falaram com a viúva, que lhes assegurou timidamente ser muito boa a clínica do defunto. Fora mesmo excelente durante uma certa época. Não faltavam, então, os «clientes distintos», que entravam pela «porta da frente».
Agradeceram e saíram sem animação. - Apesar de tudo, não sei... - Andrew reflectia,
preocupado. - São muitas as desvantagens. Tenho horror a dispensários. A zona não é boa. Não notaste todas essas pensões horríveis aqui perto? Em compensação, pouco mais adiante, a vizinhança é decente. E a casa é de esquina. A rua tem movimento. O preço está de acordo com os nossos recursos. Um ano e meio de prazo para o pagamento... Ela foi correcta, incluindo na venda a mobília do consultório e do dispensário. E tudo em condições para se começar a trabalhar. É a vantagem de uma vaga por motivo de morte. Que te parece, Chris? Ou agora ou nunca mais. Devemos tentar?
Christine fitou-o longamente, sem se decidir.
Londres já perdera para ela todo o encanto da novidade. Gostava do campo, e ali, naquele ambiente desagradável, sentia crescer a vontade de voltar para a província. Mas se ele estava resolvido a fazer clínica em Londres não tinha coragem para o dissuadir. Acabou por concordar...
- Se queres assim, Andrew... No dia seguinte Manson ofereceu ao
procurador da viúva Foy seiscentas libras em lugar das setecentas e cinquenta pedidas. A oferta foi aceite e o cheque foi entregue.
E no sábado 10 de Outubro o casal tirou a
mobília do depósito e entrou na posse da nova residência.
No domingo ainda estavam assoberbados
com a arrumação e bastante apreensivos com a nova vida. Andrew aproveitou a ocasião para impingir um dos seus sermões, raros, mas insuportáveis, que o transformavam num verdadeiro frade.
- Chris, tudo aqui é contra nós. Gastámos o
último vintém que possuíamos. Temos de viver com o que ganhamos. E só Deus sabe o que poderemos ganhar. Mas temos de avançar. Trata de apertar, Chris; economiza...
Passou pelo desgosto de a ver desatar a
chorar, muito pálida, no meio da grande e sombria sala da frente, ainda desarrumada.
- Por amor de Deus! - soluçava Christine. -
Deixa-me sozinha aqui. Economiza! Eu não economizei sempre o dinheiro? Eu custo-te alguma coisa?
- Chris! - exclamou ele, espantado. Ela continuou freneticamente: - Que diabo de casa! É uma coisa que não
compreendo. Esta cave, estas escadas, esta porcaria...
- Isso não tem importância! O que interessa é a
clínica.
- Podíamos arranjar uma clinicazinha na
província, em qualquer lugar.
- Ah! Sim! E com um jardinzinho na frente da
casa. Era só o que faltava!
Ao fim e ao cabo, Andrew pediu desculpas
pelo sermão.
Depois, de braço dado, foram estrelar ovos na
inóspita cave. Para a divertir Andrew disse que aquilo não era uma cave, mas um trecho do túnel de Paddington. Ela forçou-se a sorrir a essa tentativa de humorismo, mas na verdade só prestara atenção ao encanamento roto da copa.
No dia seguinte Andrew abriu o dispensário
às nove horas em ponto. Não abriu mais cedo para que não pensassem que estava com muita pressa. O coração batia-lhe excitadamente com uma ansiedade maior, muito maior, do que naquela manhã, quase esquecida, em que Manson atendeu as primeiras consultas em Blaenelly.
Passou meia hora. A expectativa era grande.
Como o pequeno dispensário, cuja entrada dava para a rua lateral estava ligado por um corredorzinho ao resto da casa, podia observar dali o consultório propriamente dito, que ocupava a sala da frente do andar térreo. Não estava mal mobilado: a secretária do Dr. Foy, um sofá, um pequeno gabinete. Segundo explicara a viúva, ali eram atendidos os «clientes distintos», que entravam pela porta da frente, tinha, assim, uma dupla clientela. E Andrew esperava o primeiro cliente com a mesma atenção nervosa com que o pescador aguarda o peixe no anzol.
Contudo, ninguém apareceu. Eram quase
onze horas e nem sinal de cliente. Junto dos carros em fila do outro lado da rua, os chauffeurs também esperavam fregueses.
Ao lado da do Dr. Foy, toda amachucada,
brilhava no portão a placa do novo médico.
De repente, quando já estava desanimado,
retiniu a campainha da porta do dispensário e entrou uma velha embuçada num xale. Bronquite crónica, percebeu logo Andrew, pela respiração opressa, antes mesmo que ela pronunciasse palavra. Suavemente, muito suavemente, ele fê-la sentar e auscultou-a. Era uma velha cliente do Dr. Foy. Falou-lhe. Preparou-lhe o remédio num cubículo, que fazia de farmácia, a meio caminho do corredor, entre o dispensário e a sala da frente. Voltou com o remédio.
E então, quando já se preparava, todo trémulo
para lhe dizer o preço, a mulher pagou espontaneamente a consulta: três xelins e seis pence.
Que emoção nesse momento! Que alegria!
Que estranho alívio! Como brilhavam na palma da mão aquelas moedazinhas de prata! Dir-se-ia o primeiro dinheiro que ganhava em toda a sua vida. Fechou o dispensário, correu para Christine e atirou-lhe as moedas para o colo.
- A primeira cliente, Chris. Afinal de contas, a
velha clínica talvez não fosse tão má como isso. De qualquer maneira, o almoço está garantido!
Nenhum doente havia para visitar, pois o
velho médico, falecido havia quase um mês, não deixara substituto até à chegada de Andrew. Devia esperar até que surgissem novas chamadas. Nesse interim, percebendo, pelos modos de Christine, que ela queria enfrentar sozinha os seus afazeres domésticos, Manson aproveitou a hora vaga, antes do almoço, num passeio pelo bairro, distribuindo prospectos, observando as barbearias, a longa série de pensões baratas, os estábulos transformados em garagens, e as melancólicas praças arborizadas. Ao voltar a esquina da North Street surgiu aos seus olhos um aspecto característico das zonas pobres e sórdidas: casas de penhores quiosques, tabernas.
Reconheceu que o bairro era velho e
decadente. Mas embora sombrio e sujo, apresentava aqui e ali indícios de vida nova: um grupo de boas residências em construção algumas lojas bonitas, escritórios e, no fundo de Gladstone Place, a famosa Casa Laurier. Até ele, que nada conhecia de modas femininas, já ouvira falar na Casa Laurier. E se ainda duvidasse do seu prestígio, ali estava, para atestá-lo, a longa fila de automóveis de luxo ao longo do imponente edifício de mármore. Parecia estranho que a Casa Laurier ficasse tão fora de mão, entre aqueles prédios velhos. No entanto, a sua presença ali era tão indiscutível como a do polícia no meio da praça.
Depois do almoço completou a primeira
excursão pelo bairro visitando os colegas da vizinhança. Fez ao todo oito visitas. Só três médicos lhe deixaram boa impressão: o Dr. Ince, de Gladstone Place, um homem moço; o Dr. Reeder, de Alexandra Street; e um velho escocês chamado McLean, da esquina da Royal Crescent. Sentiu-se, porém, um tanto diminuído pelo tom com que disseram: «Ah! Foi a clínica do pobre do Foy que o colega arranjou?». Porquê este «arranjou»?, perguntava a si mesmo, meio zangado. E dizia com os seus botões que dentro de seis meses talvez eles o tratassem de outro modo. Embora já tivesse trinta anos e conhecesse a vantagem da modéstia, tinha pela piedade alheia o mesmo horror que o gato tem por água fria. À noite apareceram três clientes no dispensário. Dois deles pagaram os três xelins e seis pence da consulta. O terceiro prometeu voltar no sábado para lhe pagar. Ganhara a soma de dez xelins e seis pence no primeiro dia de clínica.
Mas o dia seguinte nada rendeu. E o outro
apenas sete xelins. Quinta-feira foi um bom dia. Na sexta, uma consulta somente. A manhã de sábado passou em branco, mas à noite o dispensário rendeu dezassete xelins e seis pence, muito embora não tivessem voltado na segunda-feira para pagar os clientes a quem fiara.
No domingo, sem nada dizer a Christine,
Andrew pôs-se a examinar tristemente a semana decorrida. Teria feito um erro crasso tomando aquela clínica falida, enterrando as suas economias naquele casarão mal assombrado? Porque não avançava? Estava com trinta anos. Sim... já passara dos trinta... Além do grau de médico, possuía dois títulos importantes: doutor em Medicina, com distinção, e membro do Royal College of Physicians. Era competente e tinha a recomendá-lo um bom trabalho de investigação clínica. No entanto, ali estava todo atrapalhado, ganhando apenas o suficiente para não morrer de fome. «A culpa é do sistema profissional», pensava, indignado. «Já não é para o nosso tempo. Devia existir uma organização melhor, uma oportunidade para todos. Devia haver mesmo a fiscalização do Estado. Mas, lembrando-se do Dr. Bigsby e da Junta, resmungou com raiva: «Que diabo, isso também não serve. É a burocracia, a morte da iniciativa individual. Morreria sufocado ali. Mas devo vencer, que diabo!
- Tenho de vencer!
Era a primeira vez que se impunha assim o
aspecto financeiro da carreira médica. E para o convencer das necessidades materiais nada mais eficiente se poderia aconselhar do que esses verdadeiros protestos do estômago (era dele mesmo o eufemismo) que sentia em muitos dias da semana.