A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 13 de 55

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A Cidadela

Capítulo 13

Lembrando-se da alegria e do verdadeiro

entusiasmo que o caso Morgan lhe produzira e que algumas palavras reles de Blodwen haviam transformado numa coisa sórdida, Andrew, indignado, perguntava a si mesmo se não devia levar a questão para diante, escrever a Joe Morgan, e exigir da velha mais do que uma simples desculpa. Mas abandonou a ideia considerando-a mais digna de Blodwen do que dele. Por fim decidiu-se pela instituição de caridade mais pobre do distrito. E, num acesso de amargura, mandou os cinco guinéus, pelo correio, ao secretário, pedindo-lhe que remetesse o recibo a Aneurin Rees. Depois disso sentiu-se melhor. Mas gostaria de ver Rees tomar conhecimento daquele recibo.

E então, compenetrado de que o seu trabalho

ia terminar no fim do mês, começou imediatamente a procurar outra colocação, esmiuçando as páginas de anúncios do Lancet e respondendo a todos os que pareciam aceitáveis.

Havia muitos, na coluna de «Assistentes -

Precisa-se»...

Enviou cartas bem redigidas com cópias de

todos os seus atestados e até mesmo o retrato, como era frequentemente exigido. Mas passou a primeira semana, veio a segunda, esta acabou e nada de resposta. Estava desiludido e atónito.

Foi então que Denny lhe explicou nesta frase

dura:

- O senhor já esteve em Blaenelly... Andrew compreendeu afinal, numa crise de

desalento, que era uma condenação estar exercendo clínica naquela cidade mineira perdida no País de Gales. Ninguém queria assistentes vindos daqueles sítios. Tinham má reputação.

Quando expirou a primeira quinzena do

prazo que marcara para deixar o emprego, Andrew começou de facto a inquietar-se. Que havia de fazer? Ainda devia mais de cinquenta libras à Dotação. É claro que poderia suspender esse pagamento. Mas, mesmo assim, se não encontrasse outra colocação, como iria viver? Não tinha em dinheiro mais do que duas ou três libras. Não tinha instrumental, nada possuía. Desde que viera para Blaenelly não comprara sequer um fato, e os que havia trazido estavam bastante coçados. Tinha momentos de verdadeiro terror quando se via mergulhado na miséria.

Presa de dificuldades e incertezas, ansiava por

Christine.

Era inútil escrever. Não tinha talento para

traduzir no papel os seus sentimentos. Tudo o que poderia escrever daria sem dúvida impressão falsa. Entretanto, ela não estaria de volta a Blaenelly antes da primeira semana de Setembro. Lançou um olhar desesperado para o calendário contando os dias que faltavam. Doze dias ainda tinham de passar. Sentiu, num crescente abatimento, que seria o mesmo se já tivessem passado, pois deles nada mais esperava.

Na noite de 30 de Agosto, três semanas depois

de ter notificado à Sr.a Page, já começava, sob o aguilhão da necessidade, a enfrentar a ideia de procurar um emprego de encarregado de dispensário. Quando caminhava, desanimado, por Chapei Street, encontrou Denny. Haviam ficado os dois em termos da mais cerimoniosa cortesia durante as últimas semanas e Andrew estranhou quando o outro o fez parar na rua.

Batendo o cachimbo no salto do sapato,

Phillip parecia concentrar toda a sua atenção nesse cuidado.

- Ando um pouco triste, porque o senhor se

retira, Manson. O senhor há-de fazer falta aqui. - Hesitou. - Ouvi dizer hoje de tarde que a Sociedade de Auxílios Médicos de Aberalaw anda à procura de novo assistente. Aberalaw fica a trinta milhas daqui, do outro lado do vale. Comparado com o nível daqui, é uma sociedade muito decente. Suponho que o médico principal, Llewellyn, é uma pessoa capaz. E como se trata de uma cidade do vale, eles nada têm a opor a um homem do vale. Porque não experimenta?

Andrew fitou-o, indeciso. As suas esperanças

nos últimos tempos tinham subido tão alto e caído tão desesperadamente que perdera toda a confiança na sua capacidade de êxito.

- Bem, pode ser - concordou arrastadamente. -

Se é assim, não há mal em fazer uma tentativa.

Minutos depois já estava a caminho de casa,

debaixo de um aguaceiro, para propor-se ao lugar.

Em 6 de Setembro realizou-se uma reunião da

direcção da Sociedade de Auxílios Médicos de Aberalaw, a fim de escolher o sucessor do Dr. Leslie, que se demitira recentemente para ocupar uma situação nas plantações de borracha das ilhas da Malásia. Havia sete candidatos e a todos mandaram um aviso para se apresentarem.

Era uma linda tarde de Verão e o relógio do

grande armazém da Cooperativa marcava quase quatro horas.

Passeando para cima e para baixo na calçada

dos escritórios da Sociedade, em Aberalaw Square, lançando olhares nervosos aos outros seis candidatos, Andrew esperava impacientemente a primeira badalada das quatro. Agora, que as suas ideias derrotistas não se confirmavam e que estava ali em igualdade de circunstâncias com os outros para a obtenção do lugar, desejava de todo o coração sair vitorioso. Pelo que tinha podido observar da cidade, Aberalaw agradava-lhe. Situada na extremidade do vale de Gethly, a cidade estava mais na montanha do que no vale.

Num plano elevado, compacta, bem maior

que Blaeneily tinha perto de vinte mil habitantes com boas ruas e casas de comércio, dois cinemas, dava ainda uma sensação de largueza pelos campos verdes que a cercavam. Comparada com um buraco sufocante como Blaeneily, Aberalaw parecia a Andrew um paraíso.

«Mas esse emprego não é para mim»,

resmungava aflito, a andar de um lado para outro. «Nunca, nunca. Não teria tanta sorte!» Todos os outros candidatos tinham ar mais triunfante do que ele, melhor apresentação, tom mais confiante.

O Dr. Edwards, especialmente, irradiava

segurança. Andrew surpreendeu-se a odiar Edwards, um homem maduro, robusto, próspero, que um momento antes confessara abertamente, numa conversa colectiva à porta do escritório da Sociedade, que passara a sua própria clínica no vale a fim de concorrer àquele lugar. «Diabo que o carregue», praguejava Andrew intimamente. «Ele não iria desfazer-se de uma situação segura se não tivesse a certeza de conseguir esta aqui!».

Acima e abaixo, de um lado para outro,

cabeça baixa, mãos enterradas nos bolsos, Andrew atormentava-se. Se fracassasse, que pensaria dele Christine? Ela devia voltar a Blaenelly naquele dia ou no seguinte. Na carta que lhe escrevera não dera a certeza. A escola de Bank Street reabria na segunda-feira e, embora ele nada lhe tivesse escrito a respeito do que ia tentar, o fracasso significaria encontrá-la bem triste, ou pior ainda, com uma animação postiça. E isso exactamente quando ele queria, acima de tudo no mundo, dispô-la bem, conquistar o seu sorriso sereno, franco, inspirador.

Quatro horas da tarde, finalmente. Quando se

encaminhou para a entrada do edifício, uma linda limousine entrou silenciosamente na praça e parou diante dos escritórios da Sociedade. Dela saiu um homem baixinho e esperto, a sorrir aos candidatos, animado, afável, mas com certo ar de indiferença superior. Antes de subir as escadas reconheceu Edwards e cumprimentou-o:

- Como vai, Edwards? - Em voz baixa, só para

ele: - «Suponho que tudo correrá bem».

- Obrigado. Desde já muito obrigado, Dr.

Llewellyn - sussurrou Edwards numa deferência exagerada.

«Pronto», disse Andrew para si mesmo, com

azedume.

No andar de cima, no fim de um pequeno

corredor, que dava para a sala da direcção, estava a saleta de espera, mal mobilada, com cheiro a bafio. Andrew foi o terceiro a ser ouvido. Entrou na grande sala da direcção com uma disposição nervosa, aborrecida. Se o lugar já estava previamente concedido não ia adular alguém inutilmente.

Ofereceram-lhe uma cadeira e ele sentou-se

sem deixar transparecer na fisionomia o que lhe ia no Intimo. Enchiam a sala cerca de trinta mineiros, sentados, todos a fumar. olhando-o com uma curiosidade rude, mas sem hostilidade. Junto de uma mesinha, num canto, via-se um homem pálido e tranquilo, de cara inteligente e sensível que, a julgar pela pele manchada, parecia já ter sido mineiro. Era Owen, o secretário. Recostado a um canto da mesa, o Dr. Llewellyn sorria acolhedoramente a Andrew.

A inquirição começou. com voz tranquila,

Owen explicou as condições do cargo.

- É como o senhor vê, doutor. Pelo nosso

sistema os operários de Aberalaw pagam à Sociedade uma certa quantia, que é descontada nos seus salários semanais. Existem aqui no distrito duas minas de antracite, uma fundição e uma hulheira. com o dinheiro de todos esses trabalhadores, a Sociedade custeia os serviços médicos necessários e mantém um bom hospitalzinho, dispensários, fornece remédios, etc. A Sociedade contrata os médicos: o Dr. Llewellyn, chefe da clínica e cirurgia, quatro assistentes e um dentista. Estes recebem um tanto por cabeça, de acordo com o número de homens inscritos nas suas listas. Creio que o Dr. Leslie estava fazendo umas quinhentas libras por ano quando nos deixou. - Fez uma pausa. - Nós todos achamos que o sistema é bom. - Houve um murmúrio de aprovação vindo dos trinta membros da direcção. Owen levantou a cabeça e encarou-os. - E agora, meus senhores, têm alguma pergunta a fazer?

Começou um dilúvio de perguntas sobre

Andrew, que tentou responder calmamente, sem exagero, com sinceridade.

Marcou um tento de certa vez. - Fala o dialecto de Gales, doutor? - Quem

perguntou foi um mineiro, jovem e teimoso, chamado Chenkin.

- Não - disse Andrew. - O que conheço desde

criança é o dialecto da Alta Escócia.

- Que interesse tem isso aqui? - Sempre interessa. É muito útil para praguejar

contra os meus doentes - disse Andrew com frieza.

E toda a gente se riu à custa de Chenkin. A penitência acabou finalmente. - Agradeço-lhe muito, Dr. Manson - disse

Owen.

E Andrew voltou à saleta bolorenta, com ar de

enjoado, e pôs-se a observar os outros candidatos que iam entrando.

Edwards, o último chamado, demorou-se

muito tempo.

Voltou com um sorriso aberto, e o seu olhar só

faltava dizer: «Sinto muito, companheiros, mas o lugar já aqui canta no bolso».

Seguiu-se uma interminável espera.

Finalmente abriu-se a porta da sala da direcção e de uma nuvem de fumo emergiu o secretário Owen, com um papel na mão. Os seus olhos, como se procurassem alguém pousaram finalmente em Andrew, com real simpatia.

- Quer vir aqui por um momento, Dr.

Manson? A direcção gostaria de o ouvir outra vez.

Com os lábios brancos, o coração a saltar no

peito, Andrew seguiu o secretário até à sala da direcção. Não podia acreditar, não, não podiam estar interessados nele.

Voltando à cadeira da penitência, só

encontrou sorrisos e cabeças que se inclinavam animadamente para o seu lado. O Dr. Llewellyn, entretanto, não olhava para ele, Owen, o orador da reunião, começou:

- Dr. Manson, sejamos francos. A direcção tem

uma certa dúvida. Na verdade, por conselho do Dr. Llewellyn, a direcção estava muito inclinada a favor de outro candidato que possui uma grande experiência de clínica no vale Gethly.

- É demasiadamente gordo esse tal Edwards -

interrompeu um membro da direcção, grisalho, lá do fundo. - Eu queria ver esse gordalhufo trepar até às casas do morro Mardy.

Andrew estava demasiadamente preocupado

para sorrir.

Sem respirar, estava suspenso das palavras de

Owen.

- Mas - prosseguiu o secretário - devo dizer

que os presentes ficaram muito bem impressionados com o doutor. - A direcção, como ainda há pouco se expressou poeticamente o Tom Kettles, quer homens novos e activos!

Gargalhadas, gritos de «Silêncio! Silêncio!» e

«É bom este velho Tom.

- Além disso, Dr. Manson - continuou Owen, -

devo confessar-lhe que a direcção ficou muito bem impressionada com duas referências, devo esclarecer duas referências não solicitadas pelo doutor, o que ainda as torna mais valiosas aos olhos da direcção. Só chegaram às nossas mãos hoje de manhã, pelo correio. São de dois médicos da sua própria cidade, isto é, de Blaenelly. Uma é do Dr. Denny, que tem o M. S.2, um título muito importante, como reconhece o próprio Dr. Llewellyn, entendido na matéria. A outra, que veio com a do Dr. Denny, é assinada pelo Dr. Page, de quem penso que o senhor é agora assistente. Bem, Dr. Manson, a direcção tem bastante experiência de recomendações. E estas duas a seu favor estão

 

2 M. S. - Master In Surgery. (N. do T.) redigidas em termos tão sinceros que a direcção ficou muito impressionada.

Andrew mordeu os lábios e baixou os olhos,

comovido com a iniciativa generosa de Denny.

- Só há uma dificuldade, Dr. Manson. - Owen

parou meio embaraçado, brincando com a régua na mesa. - Embora a direcção esteja unanimemente inclinada em seu favor, esse emprego com as suas responsabilidades... é mais ou menos emprego para homem casado. O senhor compreende: além de os homens preferirem que seja um médico casado que atenda as suas famílias, existe ainda uma casa, Vale View, aliás uma boa casa, reservada para o médico. Ela não seria... sim, não seria muito própria para um homem solteiro.

Um silêncio sepulcral. Andrew respirou

profundamente.

No seu pensamento fixou-se uma luz muito

clara e brilhante, a imagem de Christine. Estavam todos, mesmo o Dr. Llewellyn, com os olhos voltados para ele, aguardando a resposta. Sem raciocinar, as palavras vieram-lhe aos lábios espontaneamente. Ouviu-se a si mesmo a declarar calmamente:

- Para usar de franqueza, senhores, estou

noivo de uma jovem em Blaenelly. Eu estava... estava mesmo à espera de uma colocação satisfatória... para isso... para me casar!

Owen bateu com a régua na mesa em sinal de

satisfação.

Todos aprovaram manifestando-se

ruidosamente com os sapatões pesados. E o irreprimível Kettles exclamou: :

- Bravo, meu rapaz! Aberalaw é um

lugarzinho ideal para lua-de-mel! Verifico então que todos os senhores estão de acordo. - A voz de Owen sobressaiu no rumor geral. - O Dr. Manson foi nomeado por unanimidade.

Houve um cordial murmúrio de assentimento.

Andrew sentiu uma sensação de triunfo.

- Quando começa, Dr. Manson? A opinião da

direcção é que seja o mais depressa possível.

- Poderei começar na próxima semana -

respondeu Manson. Mas logo arrefeceu ao pensar: «E se Christine não me quiser? Perco-a e perco com ela este emprego estupendo?

- Está combinado, então. Obrigado, Dr.

Manson. Estou certo de que a direcção lhe deseja... e também à futura Sr.a Manson, é claro... o maior sucesso no seu novo lugar.

Aplausos. Todos agora o felicitavam. Os

membros da direcção, Llewellyn, e, com um cordial abraço, Owen. Ao retirar-se atravessou a saleta de espera procurando ocultar o seu contentamento, esforçando-se por não notar a expressão ainda incrédula, mas de crista caída, de Edwards Mas era em vão, absolutamente em vão. Quando atravessava a praça, no caminho da estação, a alma exultava no frémito da vitória. O passo era firme e ágil. Ao descer a colina, viu à direita um pequeno jardim público, todo verde, com um repuxo e um coreto. E o único esboço de paisagem que havia em Blaenelly eram montículos de escórias de minério. Que bom também aquele cinema ali em frente. E grandes lojas e as ruas bem calcetadas. Não eram aquelas pedras lascadas da sua cidade. E Owen também não tinha dito qualquer coisa sobre um hospital, um bom hospitalzinho? Ah! Pensando no que o hospital significaria para o seu trabalho, Andrew soltou um longo suspiro de satisfação. Refastelou-se no banco de um compartimento vazio do comboio de Cardiff que o levou num delírio de entusiasmo.