A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 45 de 55

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A Cidadela

Capítulo 12

Um acontecimento veio distrair a atenção de

Andrew dos seus aborrecimentos domésticos. A Tribune noticiava que Richard Stillman, o famoso higienista americano, chegara a Londres e se hospedara no Brooks Hotel.

Noutros tempos Andrew teria corrido ao

encontro de Christine, todo alvoroçado, com o jornal na mão. E teria dito: «Olha Chris! Sabes quem chegou a Londres. O Richard Stillman. Lembras-te? Aquele americano com quem me correspondi durante tantos meses. Não sei se ele me quer ver. Mas, com franqueza, gostaria de me encontrar com ele.» Mas agora Andrew perdera o costume de correr para Christine. Em vez disso, leu pensativamente o jornal, satisfeito de poder aproximar-se de Stillman, não como simples médico assistente, mas como clínico vitorioso que tinha consultório na Welbeck Street. Sentou-se à máquina e escreveu cuidadosamente uma carta ao americano, na qual recordava a antiga correspondência e o convidava para almoçarem juntos, quarta-feira, no grill do Plaza.

Stillman telefonou-lhe na manhã seguinte. A

sua voz era tranquila, cordial, mas decidida.

- Gostaria de o encontrar, Dr. Manson. Aceito

com prazer o seu convite para almoçarmos juntos. Mas noutro lugar. Já não suporto o Plaza. Porque não vem almoçar comigo aqui, no Hotel?

Andrew encontrou-se com Stillman na saleta

de espera do seu apartamento, no Brooks, um hotel confortável e distinto, mas cujo sossego era um contraste humilhante para o Plaza com a sua confusão barulhenta. O dia estava muito quente. Andrew tivera uma manhã ocupadíssima e logo que viu Stillman quase se arrependeu de o ter procurado.

Era um homem de cinquenta anos, miúdo,

com uma cabeça demasiadamente grande para o corpo e o rosto chupado. A pele era rosada como a de uma criança, o cabelo ralo e castanho, de risco ao meio. Só quando viu os olhos, de um azul firme e frio, é que Andrew percebeu, quase com um choque, a força de alma e de acção que se continha naquela figura aparentemente inexpressiva.

- Espero que não tenha sido incómodo para si

vir até aqui disse - Richard Stillman, com a naturalidade de um homem disputado por muita gente. - Bem sei que, quase todos os americanos gostam do Plaza. - Sorriu humanizando-se. - Mas, vai tanta gente ali!... - um momento de silêncio. - E agora, que estamos juntos, quero felicitá-lo cordialmente pelo seu esplêndido trabalho sobre inalação. Não se aborreceu com o que eu lhe disse sobre serecita? Que tem feito ultimamente?

Desceram para o restaurante. O maitre d’hotel

foi pessoalmente atender Stillman.

- Que quer comer? Para mim sumo de laranja -

disse Stillman sem olhar para a lista em francês. - E duas costeletas de carneiro com ervilhas. Depois, café.

Andrew disse o que pretendia e voltou-se

para o companheiro num respeito crescente. Era impossível estar muito tempo perante Stillman sem sentir a atracção dominante da sua personalidade. A sua carreira, que Andrew conhecia nas suas linhas gerais, era verdadeiramente singular.

Richard Stillman provinha de uma velha

família de Massachusetts que dera várias gerações de advogados ao foro de Boston. Mas apesar dessa tradição forense, Stillman revelou desde muito novo uma grande vocação para a medicina, e aos dezoito anos conseguiu finalmente a licença paterna para começar os estudos na Universidade de Harvard.

Durante dois anos seguiu ali o curso médico.

Mas, nessa altura, o pai morreu de repente, deixando a mãe e a irmã de Richard em situação precária. O avô paterno, o velho John Stillman, que ficou com a família a seu cargo, insistiu para que o neto trocasse a medicina pelo direito para seguir a tradição. O velho era inflexível e não houve argumentos que o convencessem.

Richard viu-se forçado a tirar não o diploma

de médico, que tanto ambicionava, mas o de bacharel em Direito, depois de alguns anos de um curso que fora para ele uma estopada. Afinal, em 1906, foi para o escritório dos Stillman e durante quatro anos dedicou-se a advocacia.

Não era, no entanto, naquele trabalho que

estava a sua alma. Continuava a fasciná-lo a bacteriologia, principalmente a microbiologia a sua paixão desde os primeiros tempos de estudante. No sótão da casa montou um Pequenino laboratório, fez do seu auxiliar de escritório um assistente e em todas as horas vagas entregava-se à sua vocação. Aquele sótão, foi, na verdade, o começo do Instituto Stillman. Richard não era amador. Pelo contrário, não só revelou extraordinária habilidade técnica como também uma originalidade que tocava quase as raias do génio.

E quando, no Inverno de 1908, morreu de

tuberculose galopante sua irmã Mary, a quem queria do fundo do coração, todas as suas forças se concentraram na luta contra essa doença. Tomou como ponto de partida os trabalhos de Pierre Louis e do seu discípulo americano James Jackson.

A obra de Laennec sobre auscultação levou-o

ao estudo da fisiologia dos pulmões. Inventou um novo tipo de estetoscópio e, mesmo com os elementos modestos de que podia dispor, deu início às primeiras tentativas para produzir um soro.

Quando o avô morreu, em 1910, Richard já

havia conseguido curar a tuberculose em cobaias. Foi imediato o resultado desse duplo acontecimento. A mãe de Stillman vira sempre com simpatia a vocação científica do filho.

Não lhe foi difícil desfazer-se do escritório de

Boston e, com o que herdara do velho, comprar uma granja perto de Portland, no estado de Orégão, para se devotar ali ao verdadeiro sentido da sua vida.

Já que perdera tantos anos, não se dignou

trabalhar para obter o diploma de médico. Só tinha de ir para a frente, de obter resultados. Não demorou a produzir um soro extraído de cavalos e uma vacina bovina com a qual imunizou todo um rebanho de gado Jersey. Ao mesmo tempo ia aplicando ao tratamento dos pulmões atacados o método de imobilização, segundo as observações fundamentais de Helmholtz e Williard Gibbs, de Yale, e de pesquisadores mais recentes como Bisaillon e Zinks. Daí por diante lançou-se resolutamente na terapêutica.

Os métodos de cura do novo Instituto deram

logo fama a Stillman, conquistando maiores triunfos do que as suas vitórias de laboratório. Muitos dos seus doentes já haviam passado por uma série de sanatórios e eram considerados como casos incuráveis. Richard curou-os. E obteve com isso a hostilidade, o desprezo, a condenação da classe médica.

Começou então para ele o combate maior e

mais prolongado. Era a luta para que se aceitasse e se respeitasse o seu trabalho. Gastou tudo o que tinha na instalação do Instituto e defrontou as despesas pesadíssimas da sua manutenção. Tinha horror à publicidade e resistiu a todas as tentativas para comercializar a sua obra. Por vezes pareceu iminente o naufrágio, tal a soma das dificuldades materiais e das oposições violentas. Mas, com extraordinária coragem, Stillman venceu todas as crises e até mesmo uma grande campanha de imprensa desencadeada contra ele.

Passada a época da difamação, amainou

também a tempestade das controvérsias. Pouco a pouco, embora de má vontade, os adversários foram reconhecendo o seu valor. Em 1925, uma comissão de Washington visitou o Instituto e fez um relatório entusiástico dos métodos ali empregados.

A consagração chegou finalmente. Afluíram

grandes doações e auxílios de filantropos, de empresas e mesmo dos poderes públicos. Esses recursos destinou-os Stillman a desenvolver e aperfeiçoar o Instituto, que se tornou com a sua incomparável situação e o seu esplêndido apetrechamento, com os seus rebanhos de gado Jersey e os seus cavalos de puro sangue irlandês fornecedores de soro, uma das maravilhas do estado de Orégão.

É evidente que Stillman ainda conservava

inimigos.

Em 1929, por exemplo, as críticas de um

assistente demitido suscitaram novo escândalo. Mas, apesar de tudo, conseguira um ambiente de garantia e segurança para continuar os seus trabalhos. O triunfo não lhe modificou a personalidade. Era ainda o mesmo homem tranquilo e sóbrio que vinte e cinco anos antes montara um pequenino laboratório nas águas-furtadas de sua casa.

E agora, sentado no salão de jantar do Brooks

Hotel, olhava para Andrew com serena simpatia.

- É muito agradável - disse ele - estar na

Inglaterra. Gosto do seu país. O nosso Verão, lá na América, não é tão fresco como o daqui.

- Naturalmente veio fazer uma série de

conferências, não é verdade? - perguntou Andrew.

Stillman sorriu.

- Não! Já não faço conferências. Sem falsa

modéstia, posso dizer que os meus clientes, quando deixam o Instituto, se encarregam de fazer as conferências em meu lugar. Para lhe falar francamente, estou aqui por motivos particulares. O caso é este: o seu compatriota Sr. Cranston, o Herbert Cranston que fabrica esses automóveis magníficos, procurou-me nos Estados Unidos há coisa de um ano. O homem levou a vida inteira a sofrer de asma e eu... isto é, o Instituto conseguiu curá-lo. Desde então ele tem insistido comigo para que eu monte aqui uma pequena clínica segundo o modelo do nosso sanatório de Portland. Dei o meu acordo há uns seis meses. Os planos já foram elaborados e a clínica já está quase pronta. Vamos chamá-la «Bellevue». Fica lá para os lados de Chilterns, perto de High Wycombe. Vou inaugurá-la e entregarei depois a sua direcção a um dos meus assistentes, o Marland. Aqui para nós, considero o caso uma experiência, uma experiência muito promissora dos meus métodos, do ponto de vista climático e racial. O aspecto financeiro não tem a menor importância.

Andrew inclinou-se para a frente. - Isso interessa-me muito. De que se vai

principalmente ocupar? Gostaria de visitar o estabelecimento.

- Venha visitar-nos quando estiver pronto.

Vamos empregar ali o nosso sistema para a cura da asma. Cranston empenha-se nisso. Na clínica tratar-se-ão também, como insisti em especificar, alguns casos de tuberculose incipiente. Digo alguns porque - sorriu - bem sei que não passo de um homem que apenas conhece qualquer coisa do aparelho respiratório. Mas a verdade é que na América o que mais nos desorienta é a quantidade enorme de pessoas que quer ir para o sanatório... Que estava eu a dizer? ah, os casos de tuberculose incipiente... Uma coisa interessante para si: tenho um novo processo de pneumotórax. É de facto um processo científico.

- Refere-se ao método Kmile-Well? - Não, não. Muito melhor. Sem as

desvantagens das flutuações negativas. - A fisionomia de Stillman iluminou-se. - O senhor conhece a dificuldade que apresenta o aparelho fixo; aquele ponto em que a pressão intrapleural equilibra a pressão do fluido e o fluxo do gás cessa por completo. Pois bem, inventámos no Instituto uma câmara de pressão acessória, na qual podemos introduzir o gás numa pressão negativa determinada logo no começo. Mostrar-lhe-ei isso quando visitar a clínica.

- Mas não há o risco da embolia? - perguntou

Andrew depressa.

- Afastámos completamente esse perigo. Só

vendo! É uma coisa interessante e simples. Introduzindo um manometro de bromofórmio perto da agulha, evitamos a rarefacção. Uma flutuação de catorze centímetros só produz um centímetro cúbico de gás na ponta da agulha. Além disso, a nossa agulha tem um ajustamento quádruplo. É assim um pouco melhor do que a de Sangman.

Mau grado seu, mesmo na posição de médico

efectivo do Hospital Vitória, Andrew ficou impressionado.

- Bem, se de facto é assim, o senhor elimina

quase por completo o choque pleural. Com franqueza, Sr. Stillman, até me causa espanto que tudo isso se deva ao senhor. Desculpe-me, eu não me exprimi bem, mas compreende naturalmente o que quero dizer. São tantos os médicos diplomados que continuam a usar os aparelhos antigos...

- Meu caro doutor - respondeu Stillman com

um sorriso cordial - não se esqueça de que o primeiro homem que teve a ideia do pneumotórax foi Carson, um simples amador de fisiologia, sem nenhum diploma. Seguidamente entraram na discussão de aspectos técnicos. Discutiram apicólise e frenicotomia. Conversaram sobre os quatro pontos de Brauer, passaram ao oleotórax e aos estudos de Bernon em França injecções maciças interpleurais no enfisema tuberculoso. A conversa parou quando Stillman viu as horas e notou, com uma exclamação, que já estava com meia hora de atraso para um encontro marcado com Cranston.

Andrew deixou o Brooks Hotel cheio de

estímulo e de entusiasmo. Mas logo a seguir, numa estranha reacção, sentiu-se confuso, insatisfeito com o seu próprio trabalho «Ora, isto é impressão. Deixei-me levar por este sujeito», disse para si próprio, aborrecido.

Não foi, portanto, em muito boa disposição de

espírito que regressou a casa. Todavia, ao cruzar a porta, procurou fixar uma expressão que não revelasse o seu estado de ânimo. As suas relações com Christine exigiam agora essas precauções. Ela mostrava-se tão submissa e insignificante que, embora intimamente furioso, Andrew sentia a necessidade de aparentar um estado de espírito idêntico.

Parecia-lhe que ela entrara em si própria,

vivendo uma vida interior onde ele não podia penetrar. Christine lia muito, escrevia muitas cartas. Por mais de uma vez deu com ela a brincar com Florie jogos infantis, cartões com cromos coloridos. Começou também a frequentar a igreja, discreta, mas regularmente, e isso, sobretudo, exasperava-o.

Em Blaenelly ia todos os domingos à igreja, na

companhia da Sr.a Watkins e ele nunca encontrara motivo para protestar. Mas agora, de má vontade e afastado dela, considerava o caso como um ataque que ela lhe dirigia, como uma pirraça, com o fim de o fazer sofrer.

Naquela tarde, quando ele entrou na sala da

frente, Christine estava ali sentada sozinha, com os cotovelos fincados na mesa, com os óculos que comprara recentemente, a ler um livro. Sentiu-se subitamente irritado pelo abandono a que ela aparentemente o votava. Olhando por cima dos seus ombros, conseguiu descobrir o título do livro, antes que Christine tentasse escondê-lo. E leu no alto da página: O Evangelho de S. Lucas.

- Meu Deus! - ficou perturbado, quase

furioso. - Já chegaste a este ponto? Já andas metida com a Bíblia?

- Que tem isso? Antes de te conhecer eu já lia a

Bíblia.

- Ah! Lias, não?

- Lia, sim - uma expressão de sofrimento

estampou-se nos olhos dela. - Naturalmente os teus amigos do Plaza não gostam disso. Mas, pelo menos, é uma boa literatura.

- Pois olha! Se ainda não sabes é bom que te

avise: Estás a ficar uma neurasténica insuportável.

- Talvez, e o pior é que é esse o meu desejo.

Mas deixa-me dizer-te. Antes ser uma neurasténica insuportável e continuar espiritualmente viva do que ser um insuportável médico da moda, espiritualmente morto!

Ela parou de repente, mordendo os lábios,

contendo as lágrimas. Foi com grande esforço que se dominou. Fitando Andrew firmemente, com olhos dolorosos, disse, afinal, numa voz apagada:

- Andrew, não te parece que seria bom para

nós que eu saísse uns tempos de casa? A Sr.a Vaughan escreveu-me pedindo-me que fosse passar com ela duas ou três semanas. Ela está a veranear em Newquay. Vês algum inconveniente nisso?

- Sim! Vai! com os diabos! Vai! Voltou-lhe as costas e saiu.