A Cidadela
Capítulo 15
A vaga de sucesso de Andrew continuava a
alastrar, era agora já uma onda irresistível, que o envolvia e o arrastava na sua violência estrondosa e borbulhante.
As relações com Hamson e Ivory eram cada
vez mais íntimas e mais rendosas. Além disso, Fredman pediu-lhe que o substituísse no Plaza enquanto ia passar uns dias em Lê Toucquet para jogar golf. Os honorários, é claro, seriam divididos. Era Hamson quem o substituía habitualmente no lugar de Deedman, mas Andrew desconfiava que os dois andavam de candeias às avessas.
Como era lisonjeiro para Manson descobrir
que podia entrar directamente na alcova de uma superdeslumbrante estrela de cinema, sentar-se sobre a colcha de cetim de sua cama, apalpar com as suas mãos calmas a sua anatomia insexuada e até mesmo, se havia tempo, fumar um cigarro na sua companhia!
Mais lisonjeira ainda era a protecção de
Joseph Le Roy. Naquele mês já almoçara com ele duas vezes. Sabia que ideias muito profundas estavam no cérebro do homem da Nova Zelândia. No último encontro, Le Roy dissera, a preparar o terreno:
- Sabe, doutor? Estou a pensar no
aproveitamento dos seus serviços. O plano que tenho em mente é muito vasto e terei necessidade de boas opiniões médicas. Não quero saber de jarrões falsificados. O velho Rumbold não vale absolutamente coisa alguma. Vamos pô-lo no olho da rua sem mais contemplações. Também não me interessa um grupo de pretensos especialistas, a provocar trapalhadas e a arrastar-me para festas e reuniões. O que quero é um orientador médico que saiba bem o que faz. Cheguei à conclusão de que é o doutor que me convém. Note bem; com os nossos produtos a preços populares, já conquistamos uma grande parte do público. Mas julgo sinceramente que já é tempo de desenvolver os negócios e começar a fabricar produtos mais científicos. Temos de separar os componentes do leite, electrificá-los, fazer comprimidos. Cremo com vitamina B, Cremofax e Lactocin para a desnutrição, o raquitismo, a neurastenia, a insónia. O doutor compreende-me, não é verdade? E depois, se conseguirmos tudo isso em bases clínicas mais ortodoxas, poderemos captar a colaboração e a simpatia de toda a classe médica. Faríamos de cada médico um possível vendedor, por assim dizer. Ora, doutor, isso exige naturalmente orientação e propaganda científicas e é nesse ponto que creio que um clínico moderno nos poderá ajudar muito. E quero também que pese bem as minhas palavras; tudo isso é negócio absolutamente limpo e científico. Estamos a procurar agora a elevação do nível dos nossos produtos e se tomar em consideração os extractos ordinaríssimos que os médicos recomendam... Umas coisas lamentáveis... Que diabo, procurando melhorar a qualidade dos nossos produtos, parece-me que estamos a contribuir para a prosperidade do país.
Andrew não se deteve a meditar que havia
provavelmente mais vitaminas num grãozinho de ervilha fresca do que em muitas latas de Cremofax. Mais do que o ordenado que poderia ganhar como orientador clínico da empresa, entusiasmava-o o interesse que parecia inspirar a Lê Roy.
Frances explicara-lhe como poderia tirar
proveito das especulações sensacionais do industrial. Ah! Como era agradável ir tomar chá em casa dela, sentir, num olhar provocante e num doce sorriso de intimidade, que aquela criatura tão refinada e atraente lhe dedicava uma atenção especial! A convivência com ela dava-lhe também maior distinção, confiança maior, polidez mais estudada. Ia adoptando, inconscientemente, a linha dela. Sob a sua influência aprendia a cultivar os requintes superficiais e a não se interessar com os aspectos profundos da vida.
Já enfrentava Christine com o maior
desembaraço.
Podia entrar em casa com ar inteiramente
natural logo depois de um encontro com Frances e nem mesmo se detinha para notar aquela transformação assombrosa. Se pensava nisso, por acaso, era para garantir a si mesmo que não amava a Sr.a Lawrence, que Christine de nada sabia, que todo o homem tem de passar por isso, mais cedo ou mais tarde. Porque havia de ser diferente dos outros?
Para de alguma maneira a compensar, dava-se
ao trabalho de mostrar-se amável com Christine, dirigindo-se-lhe gentilmente e até mesmo discutindo com ela os seus projectos.
Foi assim que ela ficou a saber que Andrew
estava com ideia de comprar a casa de Welbeck Street e que teria de abandonar Chesborough Terrace se o assunto fosse levado a bom termo. Christine agora já não discutia com o marido, não o censurava, e se tinha aborrecimentos nunca os demonstrava. Parecia completamente conformada e a vida de Andrew decorria agora com ritmo tão apressado que não lhe dava tempo para reflexões. A correria estimulava-o. Tinha uma falsa sensação de energia. Via-se forte, cada vez mais importante, no domínio de si mesmo e do próprio destino.
E de repente a tormenta desencadeou-se no
seu céu sem nuvens.
Na noite de 5 de Novembro procurou-o no
consultório de Chesborough Terrace a mulher de um modesto comerciante da vizinhança.
Era a Sr.a Vidler, uma mulherzinha de meia-
idade, mas de olhos vivos e espertos; uma dessas londrinas que nunca saem do bairro onde vivem. Andrew conhecia o casal. Logo que veio para Chesborough Terrace foi chamado para tratar do filhinho dos Vidler. Além disso, naquele tempo o médico ainda precisava de mandar pôr meias solas nos sapatos. Ora, os Vidler possuíam uma pequena loja de duas entradas na esquina da Paddington Street. Num lado consertava-se calçado; no outro estava instalada uma tinturaria.
E, embora a loja tivesse o nome pomposo de
Consertos em Geral, Lda., podia ver-se ali o Harry Vidler a trabalhar sem colarinho e em mangas de camisa. Era um homem robusto, mas pálido, que ficava a bater sola ou mesmo a passar fatos a ferro se os seus dois ajudantes não davam conta do trabalho na outra secção.
Era dele que falava agora a Sr.a Vidler: - Doutor - disse no seu modo alvoroçado, -
meu marido não anda bem. Há algumas semanas que está doente. Já fiz tudo o que era possível para o trazer aqui, mas ele não quer vir. O doutor podia ir vê-lo amanhã? Eu obrigá-lo-ei a ficar na cama.
Andrew prometeu ir.
No dia seguinte encontrou o sapateiro
deitado. Queixava-se de dores internas e de uma crescente obesidade. Nos últimos meses a barriga aumentara de uma forma extraordinária.
Como geralmente acontece com muitos
doentes que anteriormente gozaram de boa saúde, dava várias explicações para a sua doença. Atribuía-a ao abuso da cerveja ou talvez à vida sedentária.
Depois de o examinar Andrew viu-se
obrigado a refutar aquelas opiniões. Convenceu-se de que se tratava de um quisto. Embora não fosse um caso perigoso, exigia operação.
Manson fez o que pôde para tranquilizar
Harry e a mulher. Explicou-lhe toda a evolução de um simples quisto e como pode causar toda uma série de incómodos, que só terminam com a extirpação. Não tinha a menor dúvida quanto ao êxito da operação e aconselhou Vidler a entrar imediatamente num hospital.
Mas a Sr.a Vidler nessa altura levantou as
mãos para o céu.
- Não, doutor! Não quero que o meu Harry vá
para um hospital! - Procurava dominar a própria agitação. - Eu já previa que podia acontecer uma coisa dessas... Ele tem trabalhado demasiadamente na loja! Mas, graças a Deus, temos recursos para enfrentar a situação. Não somos ricos, o doutor bem sabe, mas felizmente temos algumas economias. Chegou a hora de as aplicar. Não deixarei que o Harry vá para uma santa casa, como um indigente.
- Mas, Sr.a Vidler, eu posso arranjar... - Não! O doutor pode levá-lo para uma casa
de saúde. Há muitas aqui nas proximidades. E também pode escolher um cirurgião de sua confiança para o operar. Pode ter a certeza, doutor, que enquanto eu estiver aqui nenhuma santa casa há-de albergar Harry Vidler.
Andrew compreendeu que a decisão da
mulher era inabalável.
Quando se compenetrou da necessidade de
ser operado, o próprio Vidler foi da mesma opinião. Queria ter o melhor tratamento possível.
À noite Andrew telefonou para Ivory. Agora
já era costume contar com Ivory quando tinha em mãos um caso que metia operação. Mas dessa vez era um caso especial.
- Eu gostaria que me fizesse um favor, Ivory.
Tenho aqui um caso de quisto abdominal que precisa de ser operado... É uma pessoa decente, trabalhadora. Mas não é rica, compreende? Receio que não possa ganhar grande coisa. Mas eu ficar-lhe-ia muito grato se você fizesse isso... digamos, por um terço do seu preço habitual.
Ivory foi muito gentil. Nada lhe dava mais
prazer que prestar qualquer serviço ao amigo Manson. Discutiram o caso por alguns minutos e, terminada a conferência, Andrew ligou para a Sr.a Vidler.
- Acabo de falar com o Dr. Charles Ivory, um
cirurgião do West End que é meu amigo particular. Irá comigo amanhã, para ver o seu marido. Às onze horas, Sr.a Vidler. Está bem? Ele disse-me... está a ouvir?... ele disse-me, Sr.a Vidler, que fará a operação por trinta guinéus. Atendendo a que ele costuma cobrar cem guinéus... talvez mais, parece-me que o preço é bem razoável.
- Pois sim, doutor, pois sim - a voz dela era
aflita, mas esforçava-se por parecer aliviada. - Estou muito agradecida ao doutor. Havemos de dar um jeito.
Na manhã seguinte, Ivory viu o doente na
companhia de Andrew e no outro dia Harry Vidler foi levado para a Casa de Saúde de Brunsland, em Brunsland Square.
Era uma casa asseada de estilo antigo, não
muito longe de Chesborough Terrace; uma das muitas casas de saúde do bairro, onde os preços eram modestos e as instalações deficientes. Os internados, na sua maioria, não tinham necessidade de cuidados médicos hemiplégicos, cardíacos crónicos, velhas que não se levantavam da cama e cujos males mais graves eram evitar as escaras produzidas pela longa permanência no leito. O edifício não fora construído para casa de saúde. Isso, porém, era vulgar! Todas as outras de Londres, que Andrew já visitara, eram também adaptações. Não havia elevador. A sala de operações fora outrora uma estufa. Mas a proprietária, Sr.a Buxton, era enfermeira diplomada e uma mulher activa. Apesar dos seus defeitos, a Brunsland era uma casa de limpeza absoluta. Não se via a menor mancha, a menor sombra de poeira nos cantos mais escusos do soalho forrado de oleado.
A operação estava marcada para sexta-feira e,
como Ivory não podia comparecer mais cedo, para uma hora especialmente tardia: entre a uma e as duas da tarde.
Embora Andrew fosse o primeiro a aparecer
na casa de saúde, Ivory chegou pontualmente acompanhado do anestesista. Foi o chauffeur quem transportou a pesada caixa de instrumentos, pois o operador não queria comprometer a delicadeza dos dedos, e, embora se depreendesse claramente que não tinha boa impressão da casa, a sua atitude continuou amável como sempre. Em menos de dez minutos tranquilizou a Sr.a Vidler, que ficara à espera na sala, e conquistou a simpatia da Sr.a Buxton e das enfermeiras; depois, posto o avental e calçadas as luvas, ficou serenamente pronto para agir.
O doente marchou para a sala com confiança e
decisão.
Lá dentro despiu o roupão que lhe dera uma
das enfermeiras e subiu para a mesa de operações. Compenetrando-se de que era indispensável a intervenção cirúrgica, Vidler resolvera enfrentá-la com coragem e sorriu para Andrew antes que o anestesista lhe colocasse a máscara: «Hei-de ficar melhor quando isso acabar».
Logo depois fechou os olhos e aspirou quase
avidamente as inalações do éter. A Sr.a Buxton tirou a ligadura. A área esterilizada pelo iodo apareceu extraordinariamente inchada, como uma bola lustrosa. Ivory deu início à operação. Começou com algumas injecções, espectacularmente profundas, nos músculos lombares.
- Combate o choque - explicou solenemente a
Andrew. - Emprego sempre isso.
E aí principiou o verdadeiro trabalho. Foi larga a incisão... E imediatamente, com
uma presteza quase cómica, o quisto apareceu. Esparramou-se pela abertura como uma bola de futebol molhada e muito cheia de ar. A confirmação do diagnóstico aumentou ainda mais, se possível, o alto conceito que Andrew formava de si próprio. Disse para si mesmo que Vidler voltaria a ser o que era dantes, quando arrancasse da barriga aquele acessório incómodo, e, já pensando noutro cliente, olhou disfarçadamente para o relógio.
Entretanto, no seu estilo magistral, Ivory
jogava com a bola de futebol, tentando com calma atingir os seus pontos de aderência e sempre fracassando imperturbavelmente. Cada vez que tentava dominar a bola, ela escapulia-se-lhe das mãos. Tentou umas vinte vezes.
Andrew lançou um olhar irritado a Ivory,
pensando intimamente: «Que está este homem a fazer? Não há muito espaço no abdómen, mas, que diabo!, há o suficiente. Tinha visto Llewellyn, Denny, uma dúzia de outros operadores no seu velho hospital, trabalhando com eficiência em espaço muito menor. A arte do bom operador estava nisto mesmo: manobrar bem em posições muito difíceis.
De repente, Andrew percebeu que aquela era
a primeira operação abdominal que vira Ivory fazer. Insensivelmente, meteu o relógio no bolso e foi-se aproximando da mesa, um pouco desconcertado.
Ivory procurava insistentemente passar a mão
por baixo do quisto, sempre calmo, proficiente, fleumático. Ao lado a Sr.a Buxton e uma jovem enfermeira permaneciam tranquilas, confiantes, numa inocência quase absoluta. O anestesista, homem idoso, de cabelos grisalhos acariciava contemplativamente o fundo da máscara de éter. A atmosfera da pequena sala envidraçada era de um sossego completo, sem nervosismos. Não havia tensão de nervos nem a expectativa ansiosa de um drama. Via-se apenas Ivory levantar um ombro, manobrar com as mãos enluvadas, tentar apanhar por baixo a bola escorregadia. Mas, apesar dessa tranquilidade, o corpo de Andrew era perpassado por um arrepio.
Surpreendeu-se de testa franzida, observando
nervosamente. Que receava? Nada havia a temer. Era uma operação normal. Dentro de poucos minutos estaria terminada.
Com um pálido sorriso, Ivory desistiu da
tentativa de encontrar o ponto de aderência do quisto. A jovem enfermeira lançou ao operador um olhar humilde quando ele lhe pediu o bisturi.
Ivory apanhou-o num gesto vagaroso,
medido. Talvez em toda a sua carreira nunca tivesse encarnado melhor do que naquele momento o tipo do grande cirurgião tradicional.
Empunhando o bisturi, antes que Andrew
percebesse as suas intenções, deu um generoso golpe no quisto luzidio e tudo se precipitou.
O quisto esvaziou-se subitamente projectando
uma densa massa coagulada de sangue venoso, vomitando o seu conteúdo na cavidade abdominal. Num segundo, a grande esfera túrgida transformara-se numa bolsa de tecidos flácidos, na confusão do sangue gorgolejante. Num gesto espontâneo, a Sr.a Buxton agarrou num molho de gase.
O anestesista pôs-se de pé abruptamente. A
enfermeira dava a impressão de que ia desmaiar. Ivory disse gravemente :
- Clamps, por favor. Andrew ficou horrorizado. Compreendeu o
desastre.
Não tendo conseguido apanhar o pedículo
para fazer a ligadura, Ivory rasgara o quisto cega e disparatadamente.
E era um quisto hemorrágico! - Gase, por favor disse o cirurgião, na sua voz
imperturbável.
Estava agora a querer dominar a
confusão, tentando pinçar o pedículo, empurrando gase para a cavidade cheia de sangue, entulhando o abdómen, absolutamente incapaz de deter a hemorragia. A verdade iluminou a razão de Andrew com uma luz de relâmpago e disse para consigo: «Deus do Céu! Ele não sabe operar! Não sabe, absolutamente!» com o dedo na carótida, o anestesista murmurou numa voz humilde como a desculpar-se:
- Ivory, receio que... Parece-me que o homem
está a morrer. Largando a pinça, Ivory entupiu a cavidade abdominal de gaze ensanguentada. Começou a suturar a sua grande incisão. Agora já não havia entumecimento. A barriga de Vidler estava encolhida, pálida, parecendo vazia, porque Vidler estava morto.
- Acabou-se! - disse finalmente o anestesista. -
O homem deu o derradeiro suspiro.
Ivory deu o último ponto meticulosamente e
voltou-se para colocar a pinça entre os seus instrumentos. Andrew estava mudo de horror. Com a fisionomia cor de cera, a Sr.a Buxton arrumava os sacos de água quente sem mesmo saber o que fazia. Só à custa de muita força de vontade é que parecia dominar-se. Saiu da sala. Sem saber o que acontecera o servente entrou empurrando a maca. Pouco depois o corpo de Harry Vidler era levado para o quarto.
- Foi uma pena - disse Ivory finalmente, numa
voz abafada, ao tirar o avental. - Creio que foi o choque. Não lhe parece, Gray?
O anestesista balbuciou uma resposta.
Ocupava-se na arrumação dos seus aparelhos.
Andrew ainda estava sem poder falar. No
torvelinho estonteante das suas emoções, lembrou-se de repente da Sr.a Vidler, à espera, lá em baixo. Teve a impressão de que Ivory lhe adivinhou o pensamento.
- Não se preocupe, Manson. Deixe a
mulherzinha por minha conta. Eu falarei agora mesmo com ela. Vamo-nos embora.
Instintivamente, como um homem incapaz de
resistir, Andrew via-se acompanhando Ivory, descendo as escadas, dirigindo-se para a sala de espera. Ainda estava atordoado, com náuseas, absolutamente incapaz de falar à Sr.a Vidler.
Foi Ivory quem enfrentou a situação,
mostrando-se quase à altura das suas grandes ocasiões.
- Minha querida senhora - disse, compadecido
e imponente, pondo a mão gentilmente sobre o seu ombro. - Infelizmente temos más notícias para lhe dar.
Ela juntou, torceu as mãos. Nos seus olhos
liam-se ao mesmo tempo terror e aflição.
- Que diz?
- Apesar de todos os nossos cuidados e
esforços, Sr.a Vidler, o seu pobre marido...
Quase a desmaiar ela caiu numa cadeira, a
face lívida, as mãos ainda apertadas na mesma crispação.
- Harry! - suspirou, num fio de voz que
cortava o coração. E repetiu: - Harry!
- O que posso garantir-lhe, minha senhora -
continuou Ivory melancolicamente - é que ninguém neste mundo poderia salvá-lo. É o que todos nós podemos atestar. Não só eu, como o Dr. Manson, o Dr. Gray, a Sr.a Buxton. E mesmo que resistisse à operação... - levantou os ombros, num gesto significativo. Ela ergueu os olhos para ele, compreendendo o sentido das suas palavras, dando valor, mesmo naquele momento, a todas as suas atenções, a toda a bondade do grande operador.
- Essa é a maior consolação que o doutor me
podia dar - disse entre soluços.
- Pedirei à directora que fique junto de si.
Tenha resignação para suportar o golpe. Não tenho palavras com que lhe manifeste o apreço pela sua coragem.
Saiu da sala e Andrew acompanhou-o ainda
desta vez.
No fundo do corredor ficava o escritório.
Estava vazio, mas com a porta aberta. Ivory entrou, acendeu um cigarro e tirou uma boa baforada. O rosto estava um pouco mais pálido do que de costume, mas o queixo era firme, a mão serena. Os nervos pareciam não ter sofrido o mais ligeiro abalo.
- Bem, o que lá vai lá vai - disse, friamente. -
Lamento muito, Manson. Não imaginava que o quisto fosse hemorrágico. Mas o senhor sabe que estas coisas acontecem aos melhores operadores.
No pequeno escritório só havia uma cadeira
debaixo da secretária. Andrew afundou-se no maple que estava encostado ao fogão. Pôs-se a contemplar com os olhos febris a planta do vaso colocado sobre a grelha vazia.
Sentia-se doente, desorientado, na iminência
de um colapso. Não lhe saía da ideia a imagem de Harry Vidler, dirigindo-se, cheio de esperança, para a mesa da operação.
Martelavam-no no ouvido as suas palavras:
«Hei-de ficar melhor quando isso acabar.» E dez minutos depois uma maca conduzia-o como um animal mutilado, estripado no matadouro. Rangeu os dentes, cobriu o rosto com as mãos.
- É claro... - disse Ivory, olhando para a ponta
do cigarro - É claro que não morreu na mesa da operação. Eu já tinha terminado o trabalho... Assim ficamos livres de qualquer complicação. Não há motivo para inquérito.
Andrew levantou a cabeça. Tremia,
enfurecido pela consciência da sua própria fraqueza naquela terrível situação, que Ivory defrontava com tanto sangue-frio. E explodiu num verdadeiro histerismo.
- Por amor de Deus, cale essa boca! Sabe
muito bem que matou o desgraçado. O senhor não é cirurgião. Nunca foi, nunca será cirurgião. O senhor é o mais feroz carniceiro que vi em toda a minha vida.
Houve um silêncio. Ivory lançou-lhe um olhar
frio e duro.
-Não acho bem que continue a falar assim,
Manson.
- Ah! O senhor não acha?! - Um soluço de dor,
quase agonia, fez estremecer Andrew. - Eu sei que o senhor acha! Mas é a dura verdade. Todos os casos que lhe entreguei antes deste eram brincadeiras infantis. Mas este, é o primeiro caso realmente sério que tivemos... Oh! Meu Deus! Eu devia-me ter informado... Sou tão culpado como o senhor!
- Tenha calma, domine-se, idiota! Podem
ouvir lá fora.
- E que me importa? - Um novo acesso de
cólera o arrebatou. - O que digo é só a verdade. E o senhor sabe isso tão bem como eu. Meteu os pés pelas mãos. Foi quase um assassínio!
Naquele momento pareceu que Ivory ia
derrubar Andrew com um soco. Não lhe seria difícil, com o seu peso e a sua força. Mas o médico fez um grande esforço e dominou-se. Não pronunciou palavra. Virou-lhe simplesmente as costas e saiu. Mas na sua expressão dura e fria transparecia uma expressão implacável e má de quem não perdoa.
Andrew não soube quanto tempo permaneceu
no escritório com a cabeça encostada ao mármore frio do fogão.
Mas levantou-se afinal, lembrando-se
desconsoladamente de que tinha de trabalhar. O tremendo choque do desastre atingira-o em cheio com a violência destruidora de uma bomba. Era como se ele também estivesse esventrado e vazio. Todavia foi caminhando como um autómato. Avançava como um soldado que, horrivelmente ferido, ainda cumpria, pela força da disciplina, a missão a que se considerava obrigado.
Foi nesse estado de espírito que executou o
seu restante trabalho. Depois voltou para casa, com o coração pesado como chumbo e a cabeça doendo-lhe horrorosamente. Chegou tarde, por volta das sete da noite. Já estava na hora de recomeçar o trabalho das consultas e do dispensário.
A sala da frente estava cheia, o dispensário
repleto.
Arrastadamente, como um moribundo, lançou
um olhar para a sala, calculando o número de clientes, que, apesar da linda noite de Verão, tinham vindo prestar homenagem à sua competência e à sua personalidade. Predominavam as mulheres, na maioria empregadas da Casa Laurier, que vinham há muitas semanas, animadas pelo seu sorriso, pela sua diplomacia, dominadas pela sua sugestão para que continuassem o remédio. «A gente de sempre», resmungava, apático, «a intrujice de sempre!»
Deixou-se cair na cadeira giratória do
dispensário e, com ares profissionais, deu início à representação habitual.
- Como passa? Sim, vejo que está um pouco
melhor. O pulso está mais firme. O remédio está a dar bom resultado. Espero que o gosto não lhe pareça muito desagradável, minha cara senhora.
E saía do dispensário, entregava o frasco vazio
a Christine, que esperava do lado de fora, atravessava o corredor, entrava no consultório, fazendo ali as mesmas perguntas banais, despendendo a mesma falsa simpatia; depois atravessava de volta o corredor, agarrava no frasco cheio e entrava novamente no dispensário. E completava assim o círculo infernal da sua própria danação.
Estava uma noite sufocante. Andrew sofria
muito, mas continuava a movimentar-se, um pouco para se atordoar muito porque não podia estacar naquela íngreme ladeira que era agora a sua vida. Girando de um para o outro lado, num vaivém desesperado, não se cansava de perguntar a si mesmo: «Até onde chegarei, meu Deus, até onde?»
Finalmente mais tarde do que de costume,
quase às dez, foi-se o último cliente. Fechou a porta da rua do dispensário e encaminhou-se para o gabinete da frente, onde, como de costume, Christine o esperava, pronta para o ajudar a fazer as contas do dia.
Pela primeira vez depois de muitas semanas,
Andrew observou-a com atenção, fitando
intensamente o rosto de Christine, que, de olhos baixos, apreciava a lista que tinha na mão. Andrew sentiu-se chocado pela mutação do seu rosto. A expressão era estática e sem vida, a boca tinha um ar de cansaço. Embora Christine não levantasse a cara, havia nos seus olhos uma tristeza mortal.
Sentado à secretária, diante do «Caixa»,
Manson sentia uma dor interior. Mas o enervamento de que estava possuído impediu que a dor se manifestasse por um soluço. Antes que ele pudesse falar, Christine começou a fazer as contas em voz alta.
E Andrew continuava a escrituração... Uma
cruz em cada visita, um círculo em cada consulta, fazendo a soma da sua cupidez. Quando a concluiu, Christine perguntou numa voz cuja mordaz ironia ele só agora observava:
- Muito bem! Qual foi o lucro hoje? Andrew não respondeu, não pôde responder.
Christine saiu. Ele escutou os seus passos na escada, a caminho do quarto; ouviu o som de uma porta que se fechava mansamente e encontrou-se sozinho, vazio, desnorteado, estupefacto.
«Para onde vou eu por este caminho, meu
Deus?» De repente os olhos fixaram a caixa de charutos, cheia de dinheiro, com toda a receita do dia, e, tomado novamente de súbito desespero, agarrou na caixa e atirou-a de encontro à parede. Ela caiu com um rumor surdo.
Andrew levantou-se. Sentia uma sufocação,
não podia respirar. Abandonando o consultório, foi para o pátio da casa, um abismo de sombra sob as estrelas, apoiou-se dèbilmente ao muro e começou a vomitar violentamente.