A Cidadela
Segunda Parte
01
O decrépito camião de Gwilliam John
chocalhava e fumegava pela estrada da montanha. Na parte de trás um velho oleado, que cobria as pranchas desmanteladas, a chapa de matrícula enferrujada e a lanterna sempre apagada, pendia para fora, deixando marcas na poeira da estrada. Tudo balançava e rangia ao ritmo do velho motor.
E na frente, no banco do condutor, apertados
alegremente com Gwilliam John, iam o Dr. Manson e a esposa.
Haviam casado de manhã. Aquela era a
carruagem nupcial. Sob o oleado estavam as poucas peças da mobília de Christine, uma mesa de cozinha comprada em segunda mão por vinte xelins, algumas panelas e caçarolas novas e a bagagem do casal. Sem pretensões, decidiram que a melhor maneira, a mais barata, de transportar para Aberalaw a «enorme» quantidade das suas riquezas e as respectivas pessoas era a lata velha de Gwilliam John.
O dia estava bonito, o céu muito azul e corria
uma leve brisa. Riam e chalaceavam com Gwilliam John, que os obsequiava de vez em quando com a interpretação, à sua maneira, do Largo de Haendel na buzina do camião.
Pararam numa vendazinha isolada de Ruthin
Pass, no alto da montanha, para que Gwilliam bebesse uma cerveja à saúde deles. Gwilliam John, um sujeito vesgo e meio desmiolado, brindou-os várias vezes e depois bebeu um gole de gin por sua própria conta. Dali em diante, a viagem foi realmente diabólica, numa descida vertiginosa, com duas curvas apertadíssimas a ladear perigosos precipícios.
Afinal, galgaram a última subida da estrada e
ao descer entraram em Aberalaw. Foi um momento de êxtase. A cidade estendia-se diante dos seus olhos, com as longas e ondulantes linhas dos telhados subindo e descendo pelo vale, com as lojas, igrejas e escritórios acastelados na parte alta e, em baixo, as minas e os trabalhos de mineração, as chaminés fumegando sem parar e tudo, tudo brilhando ao sol do meio-dia.
- Olha, Chris! Olha! - murmurava Andrew,
apertando-lhe o braço com força. Estava possuído de todo o alvoroço do cicerone. - É um sítio bonito, não é? Aquilo ali é a praça. Nós viemos pela parte de trás da cidade. E olha! Não há candeeiros de azeite, minha querida. Ali é a fábrica de gás. Gostava de saber onde fica a nossa casa.
Perguntaram a um mineiro que passava e logo
seguiram na direcção de Vale View, que ficava, como o homem informou, naquela mesma rua, à entrada da cidade. Num instante chegaram lá.
- Pronto! - disse Christine. - fi... é bonitinha. - Pois é, querida. Parece... Sim, parece uma
casa adorável.
- Deus do Céu! - manifestou-se Gwilliam John,
atirando o boné para a nuca. - Que casarão de aspecto estranho.
Vale View era, na verdade, um edifício
extraordinário. A primeira vista parecia uma coisa assim entre um chalé suíço e um pavilhão de caça escocês, com uma profusão de platibandas. A construção era de estilo rústico, no centro de um jardim maltratado, invadido por ortigas e ervas daninhas. Cortava o terreno um fio de água que ia esbarrando num tropel de latas velhas até que, no meio do seu curso, era atravessado por uma ponte rústica desmantelada. Embora ainda não tivessem consciência disso, Vale View era para Andrew e Christine a primeira manifestação dos diversos poderes, da multiforme sabedoria da direcção, que, no próspero ano de 1919, quando as contribuições estavam em maré alta, anunciou generosamente que queria construir uma casa, mas uma casa de facto bonita que fizesse honra à direcção, uma casa de estilo, um primor de arquitectura. Todos os membros da direcção tinham uma ideia própria e especial sobre o que podia ser um primor de arquitectura. Havia trinta membros. O resultado foi Vale View.
Entretanto, fosse qual fosse a impressão do
exterior, o certo é que eles se sentiram logo confortados quando entraram.
A casa era sólida, bem assoalhada, forrada de
novo a papel. Mas o número de divisões era alarmante. Compreenderam imediatamente, embora não trocassem uma palavra sobre o assunto, que as poucas peças do mobiliário de Christine só poderiam guarnecer, quando muito, dois desses amplos aposentos.
- Deixa-me ver, querido - disse Chris,
contando pelos dedos, quando voltaram ao hall, depois da primeira inspecção esbaforida da casa. - Aqui em baixo faço a sala de jantar, a sala de visitas, a biblioteca, ou então um escritório, ou seja lá como tu lhe queiras chamar... E ficam cinco quartos de dormir em cima.
- Está bem - Andrew sorriu. - Agora não me
admiro que eles quisessem um homem casado. - O sorriso transformou-se numa expressão compungida. - Sinceramente, Chris, sinto-me envergonhado com isso tudo. Eu, sem um traste que me pertença, a usar os teus lindos móveis. É como se eu estivesse a explorar-te como um parasita, achando que tudo assim está muito bem e arrastando-te para aqui de um momento para outro, sem quase te dar tempo para encontrares alguém que te substituísse na escola. Sou um animal muito egoísta. Devia ter vindo aqui primeiro e arranjado as coisas decentemente para quando chegasses.
- Andrew Manson! Se ousasses deixar-me em
segundo plano...
- De qualquer modo vou tratar de arranjar
isto. - E franziu a testa, obstinado. - Agora ouve, Chris...
Ela interrompeu-o com um sorriso. - Acho, querido, que devo ir fazer-te quanto
antes uma omelette. Uma omelette de acordo com as Indicações de Madame Poulard. Pelo menos, a noção de omelette que consta do meu livro de receitas.
Interrompido logo no começo, Andrew ficou a
olhar para Chris, boquiaberto. Então a ruga da testa foi-se desvanecendo.
Sorrindo de novo, acompanhou-a até à
cozinha.
Não se conformava com ficar longe dela. Sob
os seus passos, a casa vazia ressoava como uma catedral.
A omelette - Gwilliam John fora mandado
buscar ovos - saiu da frigideira bem quentinha, saborosa, de um amarelo delicado. Comeram sentados à beira da mesa da cozinha.
Andrew exclamou com entusiasmo: - Apre! Cozinhas bem! O calendário que eles
deixaram ali não está mau. Enfeita bem a parede. E gosto do cromo, destas rosas. Ainda sobrou omelette? Quem é Poulard? Parece nome de galinha. Obrigado, querida. Nem sabes como estou ansioso por começar a trabalhar. Deve haver boas oportunidades. Grandes oportunidades! - Calou-se de repente, pousando os olhos numa caixa de madeira envernizada que estava no canto, ao lado da bagagem. - Chris, que é aquilo?
- Oh, aquilo - Ela procurou dar à voz um tom
despreocupado. - Aquilo é o presente de casamento do Denny.
- Denny!
A fisionomia de Andrew mudou.
Phillip mostrara-se frio e ausente quando Manson o fora procurar para lhe agradecer a sua generosa acção no caso do novo emprego e para lhe anunciar o seu matrimónio com Christine.
Naquela manhã nem mesmo assistira à
partida do casal. Isso magoara Manson, fizera-o sentir que Denny era demasiadamente complicado, estranhamente incompreensível para continuar seu amigo. Andrew aproximou-se vagarosamente da caixa, um tanto desconfiado. Imaginou que talvez houvesse lá dentro uma botinha velha. Essa devia ser a ideia que Phillip tinha do humorismo. Abriu a caixa. Que surpresa deliciosa! Continha o microscópio de Denny, um precioso Zeiss, e este bilhete: «Eu de facto não preciso disto. Já lhe disse que sou um serrador de ossos, um carniceiro. Felicidades».
Andrew não encontrou palavras. Pensativo,
quase reconquistado, terminou a omelette, sempre com os olhos fixos no microscópio. Depois tomou-o com reverência e, acompanhado por Christine, carregou-o para a sala que ficava atrás da casa de jantar. Colocou o microscópio solenemente no chão, no centro da sala vazia.
- Isto aqui não é a biblioteca, Chris, nem a sala
de almoço, nem o escritório, nem nada disso. Graças ao nosso bom amigo Phillip Denny baptizo-o agora: «o Laboratório».
Andrew beijava Christine, para dar mais
efeito à cerimónia, quando o telefone tocou. O som insistente que vinha do hall vazio causou-lhes espanto. Olharam um para o outro, interrogando-se alvoroçados.
- Talvez seja um doente, Chris! Imagina só! O
meu primeiro caso em Aberalaw. - E precipitou-se para o hall.
Não era um doente. Era o Dr. Llewellyn, que
de sua casa, no outro extremo da cidade, lhes dava as boas-vindas.
A sua voz vinha pelo fio tão clara e afável que
Chris, nas pontas dos pés, com a cabeça encostada ao ombro de Andrew, podia ouvir perfeitamente a conversa.
- Olá, Manson! Como vai? Não se preocupe
por enquanto, desta vez ainda não é trabalho. Pretendo apenas ser o primeiro a desejar-lhe as boas vindas, e à sua esposa, a Aberalaw.
- Muito obrigado, muito obrigado, Dr.
Llewellyn. É muito gentil da sua parte. Mas ainda que seja trabalho, estou pronto.
- Não, não! Não pense nisso antes de estar
bem instalado. - Llewellyn expandiu-se. - E olhe, se nada tem para fazer hoje à noite, venha jantar connosco, o doutor e a sua senhora. Nada de cerimónias. Às sete e meia. Teremos muito prazer em vê-los. Poderemos conversar. Está combinado?
- Até logo.
Andrew pendurou o auscultador com uma
expressão feliz.
- Foi um gesto amável, não achas, Chris?
Convidar-nos desta maneira! É o médico-chefe, nota. Um homem de muitos títulos, posso garantir. Tirei informações dele. Praticou em hospitais de Londres, é do D. P. H.3, tem o M. D.4 e o P. R. C. S.5. Calcula! Todos esses títulos são de primeira ordem. E mostra-se tão amável. Creia-me, Sr.a Manson, vamos ter muito sucesso aqui.
Enlaçando-a pela cintura, Andrew começou
triunfantemente a valsar com Christine em torno da sala.
3 D. P. H. - Abreviatura por que é geralmente conhecido na Inglaterra o Departament of Public Healt, isto é, o Departamento da Saúde Pública. (N. do T.)
4 M. D. - Abreviatura de Doctor of Medicine. O titulo de doutor em Medicina só é conquistado pelos médicos ingleses depois da apresentação de teses julgadas pelas congregações das universidades. O médico, ao sair da faculdade, tem apenas o titulo de Bachelor of Medicine, ou bacharel em Medicina. (N. do T.) 5 Os títulos médicos e científicos na Inglaterra são conhecidos geralmente pelas iniciais. P. R. C. S. significa Fellow of the Royal College of Surgeons, é um dos mais importantes títulos para cirurgião, escala superior ao de M. R. C. S., Isto é, «Member of the Royal College of Surgeons». (N. do T.)
Naquela noite, às sete horas, atravessaram as
ruas movimentadas e cheias de vida, na direcção da residência do Dr. Llewellyn a Vila Glynmawr. Foi um passeio agradável.
Andrew passava revista, com entusiasmo, à
gente com quem ia viver.
- Vês, Christine, aquele homem que lá vem!
Depressa! Aquele homem que está ali a tossir.
- Sim, querido... Mas que tem ele?... - Oh! Nada, - disse - Ele com displicência.
Apenas, é bem provável que seja um futuro cliente.