A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 53 de 55

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A Cidadela

Capítulo 20

O golpe foi tremendo, esmagador. Durante

alguns dias Andrew não deu por viver. Se em momentos de lucidez ele se apercebia da presença de Emily, Denny e, uma vez ou duas, de Hope, passava o resto do tempo num atordoamento completo, fazendo com estranho automatismo tudo quanto lhe mandavam, profundamente mergulhado no fundo pesadelo do seu desespero. O sistema nervoso, já muito atingido, aumentava a sua tragédia criando no seu calado espírito negros e horrorosos remorsos. Acordava de repente, alagado em suor, gritando numa angústia delirante.

Foi através de uma nuvem confusa que

assistiu ao inquérito, ao processo tão banal e cheio de formalidades, ao depoimento das testemunhas que se permitiam o luxo de retalhes tão desnecessários. Não tirava os olhos da figura atarracada de Frau Schmidt, por cujas faces rechonchudas as lágrimas corriam sem parar.

- Estava tão alegre, ria tanto quando esteve lá

em casa! Não se cansava de repetir: «Depressa, por favor! Não quero que meu marido espere muito...».

Quando ouviu o juiz manifestar as suas

condolências pelo triste acontecimento, compreendeu que o caso estava encerrado. Levantou-se maquinalmente e viu-se na rua caminhando ao lado de Denny.

Nunca soube como se fizeram os preparativos

para o funeral. Tudo se passou, misteriosamente, fora do seu conhecimento. A caminho do cemitério de Kensal Green, o pensamento pairava longe de si, aqui e ali, principalmente no passado. E lá dentro, entre aqueles muros sombrios, lembrou-se das largas e claras perspectivas de Aberalaw, da montanha que ficava atrás do Vale View e onde pastavam, felizes, os potros selvagens. Ela gostava de passear por lá, de sentir o ar fresco da serra banhar-lhe o rosto e agora estava ali, sepultada naquele cemitério da cidade tão sombrio e fechado.

Naquela noite, sob a pressão da avassaladora

nevrose, procurou esquecer com o álcool. Mas o whisky só lhe excitou o desprezo de si mesmo. Ficou vagueando no quarto até altas horas da madrugada, resmungando, acusando-se numa voz de bêbado:

«Pensavas estar livre da punição. Pensavas

que não terias de pagar. Mas estavas muito enganado! Crime e castigo! És o único culpado de tudo o que aconteceu. Tens de sofrer!».

Saiu de casa sem chapéu e errou pela rua, a

cambalear.

Parou de olhos esbugalhados diante da loja

fechada de Vidler. Ao voltar, com as lágrimas escorrendo-lhe pela cara, resmungava ainda, amarguradamente: «com Deus não se brinca! Christine disse isso uma vez. Com Deus não se brinca, meu amigo!».

Subiu trôpegamente a escada, vacilou, entrou

no quarto, silencioso, frio, abandonado. Viu sobre o toucador a bolsa de Christine. Apanhou-a, encostou-a ao rosto e abriu-a com dedos trémulos. Tinha dentro algumas moedas, a conta de Frau Schmidt, um lenço. No compartimento do centro encontrou alguns papéis. Além de um retratinho deles um instantâneo já meio apagado, tirado em Blaenelly os cartões de agradecimento que os clientes de Aberalaw lhe haviam enviado pelo Natal. Ela guardara tudo isso, durante tantos anos, como verdadeiros tesouros! Um soluço enorme elevou-lhe o peito. Caiu de joelhos, junto da cama e desatou a chorar convulsivamente.

Denny não fez a menor tentativa para impedir

que ele bebesse. Andrew tinha a impressão de que Phillip estava quase sempre em casa. Não podia ser por causa da clínica, pois o Dr. Lowry já entrara em funções. Morava fora, mas vinha atender as consultas e as chamadas. Mas Andrew nada sabia nem queria saber do que se passava. Tinha os nervos em farrapos. O som da campainha da porta era o suficiente para que o coração lhe batesse loucamente. Se dava uma passada sentia as mãos inundarem-se de suor frio. Passava os dias sentado no quarto torcendo um lenço entre os dedos, enxugando de vez em quando as mãos húmidas, olhando o fogo da lareira, convencido de que mais uma noite de insónia teria de passar.

Uma manhã Denny apareceu-lhe e disse-lhe: - Estou finalmente livre, graças a Deus. Agora

podemos seguir.

Nem uma tentativa de recusa esboçou. Não

tinha o mínimo poder de resistência. Nem sequer perguntou aonde iam. Apático e silencioso, viu Denny arranjar a sua mala. Ao fim de uma hora já estavam na estação de Paddington.

Viajaram a tarde toda na direcção do

sudoeste. Fizeram transbordo em Newport e seguiram para Monmouthhire. Desceram em Abergavenny. Ali, ao saírem da estação, Denny alugou um automóvel. Atravessaram a cidade e penetraram em pleno campo, onde o Outono se manifestava nos seus tons mais belos. Ali Philip abriu-se:

- Há aqui um lugarzinho onde eu noutro

tempo costumava vir pescar: a abadia de Llantony. Suponho que nos convém.

Às seis horas chegaram ao destino. As ruínas

da abadia, com as suas enormes lajes cinzentas, polidas, erguiam-se sobre um terreno relvado. Ainda subsistiam algumas arcadas dos claustros. Perto havia um hotel modesto, construído inteiramente com as pedras provenientes da abadia. O leve murmúrio do regato que corria em frente era um constante convite ao repouso, e na tarde tranquila subia para o céu, muito azul e direito, o fumo de um fogão de lenha.

Na manhã seguinte, Denny arrastou Andrew

para um passeio. Era um dia fresco e estimulante, mas Andrew estava tão quebrado pela noite sem dormir, sentiu-se tão cansado logo à primeira subida, que quis voltar mal tinham dado alguns passos. Denny, todavia, insistiu energicamente e obrigou-o a andar oito milhas e dez no dia seguinte. No fim da semana já andavam vinte milhas por dia. Quando voltava para o quarto, ao anoitecer, Andrew mergulhava num sono de pedra logo que caía na cama.

Ninguém havia a perturbá-lo. Apenas alguns

pescadores, mas mesmo a época das trutas nessa altura estava a terminar. Comiam numa casa de pavimento lajeado numa comprida mesa de carvalho, em frente da lareira aberta onde ardia um bom fogo. A comida era boa e apetitosa.

Quase não conversavam durante as

caminhadas. As vezes andavam o dia todo sem trocar mais do que meia dúzia de palavras. A princípio, Andrew não olhava a paisagem, mas pouco a pouco, sem que ele disso se apercebesse, à medida que os dias iam passando a beleza dos bosques e das colinas floridas ia despertando os seus sentidos embotados.

O ritmo do seu restabelecimento não foi

rápido, mas ao fim do primeiro mês já suportava a fadiga das longas caminhadas, já comia e dormia normalmente, tomava banho frio de manhã e encarava o futuro sem temor. Compreendeu que Denny nada poderia ter escolhido de melhor para a sua convalescença do que aquele lugar isolado, aquela vida espartana e monástica. Quando caíram as primeiras geadas sentiu na alma uma alegria há muito não experimentada.

Começou de repente a conversar. De princípio

coisas sem importância. Como um atleta que se prepara com exercícios leves para mais rudes provas, o espírito de Andrew ainda se mantinha reservado ao aproximar-se da vida. Mas, imperceptivelmente, Denny ia-o pondo a par dos acontecimentos.

A clínica fora vendida ao Dr. Lowry, embora

com um pequeno abatimento no preço fixado por Turner, atendendo a que as circunstâncias não permitiram uma apresentação em regra do novo médico aos clientes. Hope completara enfim o tempo do seu contrato e estava agora em casa da família, em Birmingham. Denny também estava desocupado. Pedira a demissão antes de vir a Llantony.

A dedução era tão evidente que Andrew

levantou logo a cabeça e comentou:

- No começo do ano eu já devo estar apto para

o trabalho.

Começaram daí em diante a falar

praticamente e ao fim de uma semana já havia desaparecido a expressão dura e apática de Andrew. Parecia-lhe estranho e melancólico que o espírito humano pudesse sobrepor-se a um golpe tão profundamente mortal. No entanto, quisesse ou não, o seu restabelecimento era um facto. No começo arrastava-se com indiferença estóica, maquinalmente, mas agora aspirava com prazer o ar frio das manhãs, batia nas árvores com a ponta da bengala, arrancava a correspondência das mãos de Denny e invectivava o carteiro quando não lhe trazia o Medical Journal.

À noite os dois companheiros estudavam um

grande mapa. com o auxílio de um anuário fizeram uma lista de cidades com interesse para o fim em vista. Eram muitas, mas depois de uma selecção rigorosa só restavam oito: duas em Staffordshire, três em Northamptonshire e três em Warwickshire.

Denny partiu na segunda-feira seguinte e

esteve ausente uma semana. Durante esses sete dias, Andrew sentiu renascer, impetuosamente, o seu antigo desejo de trabalhar, mas trabalhar de facto de acordo com as suas ideias, fazendo coisas sérias em companhia de Hope e Denny.

Tomou-o enorme impaciência. Na tarde de

sábado foi a pé até à estação de Abergavenny para esperar o último comboio da semana. Quando voltava, decepcionado, convencido de que teria ainda de passar duas noites e um dia numa expectativa ansiosa, teve a surpresa de ver um Ford escuro estacionado em frente do hotel. Correu até à porta.

Entrou na casa de jantar. Denny e Hope,

sentados à mesa, banqueteavam-se com presunto, ovos, queijo e pêssego em compota.

Nesse fim de semana a casa estava

unicamente por conta deles. As informações de Denny, transmitidas no decurso do banquete, foram o entusiástico prelúdio de uma veemente discussão. A chuva e o granizo batiam nas vidraças.

O tempo estava horrível. Mas o facto nenhum

interesse tinha para eles. Duas das cidades visitadas por Phillip Franton e Standborough estavam, segundo a gíria de Hope, «em ponto de rebuçado» para cometimentos médicos. Eram duas cidades semiagrícolas, progressivas, onde algumas indústrias começavam a desenvolver-se. Em Standborough acabava de ser montada a indústria de pneumáticos. Franton tinha uma grande fábrica de açúcar de beterraba.

Novas casas estavam a ser construídas. A

população aumentava. Mas tanto numa como noutra os serviços médicos não acusavam o menor progresso. Franton tinha apenas um pequeno hospital e Standborough nem isso. Os casos graves eram levados para Coventry, a quinze milhas de distância.

Bastaram estas simples informações para os

alvoroçar tanto como o rasto de uma lebre alvoroça o faro de um cão de caça. Mas Phillip tinha informações ainda mais interessantes. Desdobrou uma planta de Standborough arrancada de um guia turístico.

- Tenho de confessar que roubei isto no

hotel de Standborough. Parece que começamos bem ali.

- Diga-me depressa - rogou impacientemente

Hope, que já não pensava em fazer graça - que significa este sinal?

- Isto - explicou Denny, quando todos se

debruçaram sobre o mapa - isto aqui é a praça do mercado. Pelo menos devia chamar-se assim. Mas eles lá dão-lhe o nome de «Círculo», não sei porquê. Vocês estão a ver como é: uma praça muito grande, com residências, lojas, escritórios, ao mesmo tempo zonas de moradia e de comércio. O conjunto produz um efeito jorgiano com os seus pórticos e as suas janelas baixas. É lá que mora o médico mais importante do lugar. Tive oportunidade de o ver. É gordo como uma baleia. Tem uma cara vermelha e usa suíças, com queixadas de carneiro. A propósito, o homem tem dois assistentes... - nessa altura a voz de Denny tomou um tom de irónico lirismo - defronte, do outro lado da encantadora fonte de granito que fica no meio do Círculo, há duas casas de fachadas decentes, casas grandes, bem assoalhadas e... para vender. Acho, portanto...

- Pelo que me diz respeito - disse Hope, quase

engasgado - devo declarar que nada me agradaria tanto como um laboratóriozinho em frente dessa fonte.

Continuaram conversando. Denny indicou

outros detalhes, detalhes muito interessantes...

- É claro - concluiu ele - que perdemos

completamente o juízo. Ideias como estas são realizadas às mil maravilhas nas grandes cidades americanas, à custa de muita organização e sem olhar a despesas. Mas aqui!... em Standborough!, e sem que qualquer de nós tenha muito dinheiro para gastar!... Além disso, vamos ter entre nós mesmos discussões tremendas. Mas, seja como for... Que Deus se compadeça do velho com queixada de carneiro! - exclamou Hope, levantando-se e estirando os braços.

No domingo o plano deu mais um passo na

senda do progresso. Ficou resolvido que Hope, ao regressar, no dia seguinte, faria um pequeno desvio na viagem para passar em Standborough. Andrew e Denny deveriam encontrar-se com ele ali na quarta-feira. E então sondariam discretamente o encarregado da venda das casas.

Tendo perante si a perspectiva de um dia

cheio, Hope partiu muito cedo, afrontando com o carrito o lamaçal, antes mesmo que os companheiros acabassem de tomar o café. O céu estava muito carregado e o vento soprava forte. A manhã era tempestuosa, mas estimulante. Depois de tomar o café, Andrew saiu sozinho para dar uma volta.

Como era bom sentir-se restabelecido, pronto

a enfrentar mais uma vez, com o seu trabalho, a grande aventura de uma nova clínica! Agora, que estava próxima a sua realização, é que compreendia quanto aquela ideia representava para ele.

Quando voltou, às onze horas, já tinha

chegado o correio, com cartas de Londres. Sentou-se à mesa, preparando-se para a leitura da correspondência. Denny lia o jornal junto da lareira.

A primeira carta que Andrew abriu era de

Mary Boland. Ao passar os olhos pelas várias páginas escritas numa letrinha cerrada, o rosto foi-se-lhe abrindo num sorriso.

Mary começava com expressões carinhosas,

fazendo votos porque ele já estivesse completamente refeito do penoso golpe. Depois, concisamente, dava informações sobre a sua saúde. Estava melhor, infinitamente melhor, quase boa de novo. Havia mais de um mês que a febre desaparecera. Andava já de pé e fazia agora um pouco de exercício. Aumentara tanto de peso que Andrew talvez tivesse dificuldade em reconhecê-la. Perguntava-lhe se não a ia visitar. Stillman voltara aos Estados Unidos, onde permaneceria alguns meses. Quem o substituía era Marland, o assistente, e Mary terminava com palavras de agradecimento por tê-la levado para Bellevue.

Andrew pôs a carta de lado e, com a

expressão animada pela ideia da cura de Mary, entregou-se ao exame do resto da correspondência. Desprezou toda uma série de circulares, o reclamos de preparados. Tomou depois outra carta. Era um sobrescrito de ofício grande, com aspecto solene de documento oficial. Abriu-o. Havia dentro uma folha de papel almaço.

O sorriso desapareceu-lhe de repente do rosto.

Ficou a olhar para a carta, sem acreditar no que lia. Os olhos arregalavam-se-lhe e tinha no rosto uma palidez de morte.

Durante mais de um minuto ficou imóvel,

fitando, espantado, o papel.

- Denny! - disse finalmente em voz baixa. Leia

isto.