A Cidadela
Capítulo 11
A sala do 57 da Welbeck Street deu a Andrew
uma nova sensação de triunfo. «Estou aqui», exultava no íntimo, «estou aqui finalmente!».
Embora não fosse ampla, a sala era clara e
ventilada, com uma pequena janela. Ficava no andar térreo, o que era uma vantagem evidente, pois muitos clientes não gostavam de subir escadas. Além disso, embora a sala de espera fosse comum a outros médicos, o gabinete era só dele.
No dia 19 de Abril, ao receber as chaves,
Andrew foi acompanhado de Hamson quando foi tomar posse da sala. Freddie mostrara-se utilíssimo em todas as circunstâncias preliminares e arranjara para ele uma enfermeira competente, amiga da que empregava na Queen Anne Street. A enfermeira Sharp nada tinha de bonita. Era de meia-idade, com ar de pessoa capaz, porém carrancuda, um tanto ríspida. Freddie justificou a escolha de modo conciso:
- Nada pior do que uma enfermeira bonita.
Sabes o que eu quero dizer, meu velho. Brincadeira é brincadeira. Mas negócio é negócio. Não se podem combinar as duas coisas. Nenhum de nós está aqui para se divertir. E um sujeito duro de cabeça como tu sabe disso muito bem. A propósito, creio que vamos ficar cada vez mais íntimos agora que estamos perto um do outro.
Quando Freddie e Andrew discutiam o
arranjo da sala, apareceu inesperadamente a Sr.a Lawrence. Ia passando e entrara, alegremente, para ver se o consultório era bom.
Frances tinha um ar encantador, de saia e
casaco pretos e uma pele cara à volta do pescoço. Demorou pouco, mas deu ideias e sugestões para a decoração e para as cortinas da janela, para que tudo ficasse mais elegante do que segundo as ideias sem gosto de Freddie e Andrew.
Perdida a sua esfuziante presença, a sala
pareceu subitamente vazia. Freddie desabafou:
- Nunca vi um tipo de tanta sorte como tu! Ela
é um encanto. - E numa expressão de inveja: - Faz lembrar as palavras de Gladstone, em 1890, a respeito do meio mais eficiente de fazer avançar um homem na sua carreira.
- Não sei o que queres dizer. Mas quando a instalação ficou pronta,
Andrew teve de concordar com Freddie e também com Frances, que viera ver a materialização das suas ideias. A sala dava exactamente a impressão que se idealizara: elegante, mas com aspecto perfeitamente profissional. Em tal ambiente, a tabela de três guinéus por consulta parecia justa e razoável.
A princípio não teve grande assistência mas à
força de escrever cartas amáveis a todos os médicos que lhe enviavam doentes ao hospital - cartas em que dava informações sobre esses doentes e sintomas da doença foi estendendo uma rede de conhecimentos por toda a cidade e não demoraram a aparecer os primeiros clientes particulares. Andrew era agora um médico muito atarefado.
A sua nova limousine corria de casa para o
hospital, do hospital para o consultório da Welbeck Street. E havia ainda uma lista compacta de chamadas a atender, além do serviço no velho dispensário, onde muitas vezes tinha de ficar até depois das dez da noite.
O sucesso era como um fortificante correndo
pelas suas artérias como um precioso estimulante de energias. Ainda tinha tempo para ir ao Rogers e encomendar três fatos novos, assim como para ir ao camiseiro de Jermyn Street, recomendado por Hamson. A reputação no hospital aumentava.
É verdade que tinha menos tempo para se
dedicar aos doentes, mas dizia para si mesmo que o pouco que lhes dedicava era compensado pela competência. Mesmo com os amigos se acostumou a falar com o tom brusco de homem ocupado. E dizia com um sorriso insinuante: «Tenho de me retirar, meu velho. Já estou atrasado».
Numa tarde de sexta-feira, umas cinco
semanas depois de aberto o consultório, foi procurá-lo uma senhora idosa, doente da garganta. Tratava-se de uma simples laringite, mas a mulher era nervosa e estava ansiosa por conhecer a opinião de outro médico. Um tanto magoado, Andrew pensou para quem a devia de mandar. Era ridículo imaginar que fosse roubar tempo a um homem como Robert Abbey. De repente, a fisionomia de Andrew alegrou-se.
Lembrara-se de Hamson, ali muito perto.
Freddie tinha sido gentilíssimo nos últimos tempos. Era justo que lhe fizesse ganhar aqueles três guinéus, em vez de mandar a senhora para um desconhecido qualquer. E Andrew enviou-a a Freddie, com um bilhete.
Três quartos de hora mais tarde, a doente
estava de volta, muito mais bem disposta, amável, desfazendo-se em desculpas, satisfeita consigo mesma, com Freddie e principalmente com Andrew.
- Desculpe-me incomodá-lo, doutor. Só lhe
quero agradecer os seus cuidados. Falei com o Dr. Hamson e ele confirmou tudo o que o doutor disse, e ele... ele garantiu-me que o remédio que o doutor me deu era o que há de melhor.
Em Junho foram cortadas as amígdalas de
Sybil Thornton.
Estavam um pouco inflamadas e um
articulista do Medical Journal havia admitido que a absorção das toxinas pelas amígdalas se relacionava com a etiologia do reumatismo.
Ivory fez a operação de modo tão lento que
até se tornou aborrecido.
- Prefiro trabalhar devagar nesses tecidos
linfáticos - explicou a Andrew, quando lavaram as mãos. - Conheço operadores que arrancam amígdalas apressadamente. Mas eu não opero dessa maneira.
Quando Andrew recebeu, pelo correio, mais
um cheque de Ivory, Freddie estava junto dele. Trocavam agora frequentes visitas nos consultórios. Hamson retribuiu prontamente a gentileza, enviando a Andrew uma boa gastrite em troca da laringite que recebera. E daí para o futuro, alguns clientes fizeram a viagem, com bilhetes de recomendação, entre os dois consultórios.
- Ouve, Manson - observou Freddie. - Fiquei
satisfeito porque acabaste com aquela tua atitude de querer endireitar o mundo. Mas mesmo assim - mirou o cheque, por cima do ombro de Andrew - ainda não estás a tirar todo o sumo da laranja, meu velho. Façamos um acordo, compincha, e acharemos a fruta muito mais suculenta.
Andrew soltou uma gargalhada. À noite, ao voltar para casa, sentia-se com um
bom humor extraordinário. Verificando que não tinha cigarros, parou o carro em frente de uma tabacaria de Oxford Street. Ao entrar, viu de repente uma mulher parada junto da montra. Era Blodwen Page.
Reconheceu-a imediatamente. Mas como
estava mudada! Nem parecia a patroa autoritária de Bryngover. Emagrecera e emanava dela cansaço e abatimento. Quando Manson a cumprimentou, fitou-o com olhar apático, mortiço.
- Não é a Sr.a Page? - disse ele, aproximando-
se. - Perdão, naturalmente devo chamá-la agora Sr.a Rees. Não se lembra de mim? Sou o Dr. Manson.
Ela examinou-o, notou o seu aspecto elegante
e próspero. Suspirou.
- Lembro-me perfeitamente, doutor. Desejo
que passe bem. - E então, como se receasse demorar-se, dirigiu o olhar para um homem comprido e calvo que a esperava impacientemente um pouco adiante. E disse, com ar preocupado: - Tenho de ir, doutor. Meu marido está à espera.
Andrew notou a pressa dela em ir-se embora,
viu os lábios finos de Rees prepararem-se para resmungar: «Que história é essa? Estou à espera!». Blodwen baixava a cabeça, submissa. Por um momento, Andrew sentiu dirigido inexpressivamente para o seu lado o frio olhar do gerente de banco. Depois, o par foi andando e perdeu-se na multidão.
A cena não saía da cabeça de Andrew.
Quando chegou a casa encontrou Christine na sala da frente a tricotar. Numa bandeja, o chá que ela mandara servir assim que ouvira na rua o ruído do carro. Andrew olhou para ela com vivacidade, como a adivinhar a sua disposição. Queria contar-lhe o encontro e sentiu de repente o desejo de terminar com a atmosfera de constrangimento. Entretanto, mal aceitara uma xícara de chá, Christine falou antes dele, apressadamente:
- A Sr.a Lawrence telefonou hoje de tarde
novamente. Não deixou recado.
- Ah! - Andrew corou. - Que queres dizer com
esse... novamente?
- É a quarta vez que ela telefona nesta semana. - E que tem isso?
- Nada. Não estou a fazer comentários. - Mas é como se os fizesses... Não posso
impedir que ela me telefone.
Christine ficou calada, os olhos fixos no seu
trabalho.
Se ele soubesse o tumulto que havia dentro
daquele silêncio não teria dado ocasião à cena que se seguiu.
- Pelo que me parece acabarás imaginando
que eu sou um bígamo. Ela é uma mulher decentíssima. E o marido, um dos meus melhores amigos. É uma gente encantadora, pelo menos têm a vantagem de ser uma gente alegre que não anda a espiar pelos cantos com lamúrias tolas e mórbidas. Que diabo!
Engoliu o resto do chá e levantou-se. Todavia,
mal saiu da sala, ficou arrependido. Entrou no consultório, acendeu um cigarro e pôs-se a pensar desalentadamente que as coisas iam de mal a pior entre ele e Christine.
A desinteligência em aumento deprimia-o,
irritava-o. Era uma nuvem escura no claro céu do seu sucesso.
Christine e ele haviam conhecido uma
felicidade perfeita na vida conjugal. O inesperado encontro com a Sr.a Page acordara no espírito de Andrew as doces recordações do seu namoro em Blaenelly. Decerto, agora não dedicava a Chris a mesma adoração de outrora, mas... que diabo! Tinha-lhe amor! Talvez a tivesse magoado uma ou duas vezes nos últimos tempos. Ao chegar a esse convencimento sentiu o súbito desejo de entender-se com ela, de agradar-lhe, de a acariciar. Pensou muito. De repente, a fisionomia iluminou-se. Olhou para o relógio e verificou que a Casa Laurier ainda devia estar aberta.
Meteu-se imediatamente no automóvel e foi
ver a menina Cramb.
A menina Cramb, a quem explicou o seu
desejo, pôs-se logo ao seu dispor com o maior entusiasmo. Tiveram uma, troca de impressões e depois dirigiram-se para a secção de peles, onde alguns modelos foram apresentados ao Dr. Manson. A menina Cramb acariciava-os com os dedos competentes, salientando o brilho, a qualidade, tudo o que podia apreciar-se numa pele cara. Por mais de uma vez discordou delicadamente da opinião de Andrew, indicando com honestidade o que era bom e o que não era.
Por fim ele fez uma escolha que teve a sua
aprovação cordial. Depois foi à procura do Sr. Winch. Voltou imediatamente para declarar com alegria.
- O Sr. Winch diz que ao doutor fará um preço
especial. - Naquela casa não se empregava em qualquer circunstância a palavra «abatimento». - São cinquenta e cinco libras, doutor. E eu garanto-lhe que a compra não pode ser melhor. As peles são lindas. Sua mulher terá orgulho em usá-las.
No sábado seguinte, às onze horas, Andrew
levou a caixa verde-escuro, com a prestigiosa marca Laurier artisticamente impressa na tampa e entrou em casa.
- Christine! - chamou. - Chega aqui num
instante!
Ela estava em cima, ajudando Emily a
arrumar os quartos, mas desceu logo, um pouco alvoroçada e surpresa pelo tom com que o marido a chamara.
- Olha, querida! - Agora que chegava o
momento decisivo, Andrew sentia-se num grande embaraço. - Comprei isto para ti. Eu sei... sei que ultimamente temos andado de candeias às avessas. Mas, quero mostrar-te...
Não terminou a frase. E, com acanhamento de
colegial, entregou-lhe a caixa. Christine estava muito pálida. As mãos tremiam-lhe ao desatar a fita. E então soltou um gritinho de alvoroço:
- Mas que peles tão bonitas! Como são
bonitas!
Na caixa, envolto em papel de seda, havia um
par de raposas prateadas; duas peles finíssimas ligadas elegantemente numa só. Andrew tirou-as apressadamente, alisou-as como havia feito a menina Cramb. A sua voz estava animada agora.
- Gostas das peles, Chris? Põe-nas ao pescoço,
para ver o efeito. A boa Half-Back ajudou-me a escolhê-las. São de primeira qualidade. Não pode comprar-se coisa melhor. E de luxo, também. Vê como brilham... E repara no tom prateado do lombo. Era isto mesmo que querias?
Corriam lágrimas nos olhos dela. Voltou-se,
atónita, para Andrew.
- Gostas de mim, não gostas, querido? É só o
que desejo neste mundo.
Acalmada afinal, experimentou as peles. Eram
magníficas. Andrew não se cansava de as admirar. Quis completar a reconciliação. Sorriu.
- Olha, Chris. Podemos celebrar o
acontecimento enquanto dura o entusiasmo. Vamos almoçar fora. Encontro-me à uma hora no grill do Plaza.
- Sim, querido. - Ela ainda tentou objectar. -
Mas eu fiz hoje para o almoço umas empadinhas... daquelas que gostas tanto.
- Não, não! - Há muito tempo que o sorriso de
Andrew não era tão alegre. - Nada de ficar em casa. A uma hora. Encontrar-te-ás no Plaza com o cavalheiro elegante e formoso. Não é preciso combinar sinal. Ele reconhecer-te-á pelas peles.
Passou o resto da manhã satisfeitíssimo. Que
idiota fora em não se lembrar de Christine! Não há mulher que não goste de receber carinhos, de sair, de se divertir.
O grill do Plaza era o lugar mais indicado.
Londres em peso, ou pelo menos a parte de Londres que interessa, podia ser vista ali, da uma às três.
Fora do seu costume, Christine tardava em
chegar.
Ao esperá-la, no pequeno vestíbulo do grill,
Andrew ia ficando um pouco inquieto ao ver pela vidraça que as melhores mesas já estavam a ser ocupadas. Pediu o segundo aperitivo. Ela só apareceu à uma e vinte, esbaforida, atordoada pelo movimento, pela gente que entrava e saía, pela criadagem de libré e principalmente por ter gasto meia hora esperando o marido num local diferente do que tinha combinado.
- Desculpa-me, querido - estava ofegante. -
Nem calculas o que aconteceu. Esperei um tempo enorme. E só por fim compreendi que estava na entrada do restaurante e não na do grill.
A mesa que puderam obter não era grande
coisa. Ficava encostada a uma coluna. A sala estava muito cheia, com as mesas tão juntas umas das outras como se os clientes estivessem amarrados. Os criados moviam-se como contorcionistas de circo. O calor era tropical e o barulho tão grande como o de colegiais no recreio.
- Vamos, Cris. Que escolhemos? - disse
Andrew com ar superior.
- Escolhe tu, querido - respondeu ela,
acanhada.
Andrew escolheu um almoço caro: caviar,
sopa Príncipe de Gales, galinha, espargos, uma compota para sobremesa e uma garrafa de Liebfraumilch de 1929.
- Não podíamos ter dessas coisas no nosso
tempo de Blaenelly - disse ele a rir, disposto a mostrar-se bem humorado. - Nada há como passar-se bem.
Ela procurou corresponder corajosamente às
disposições de Andrew. Elogiou o caviar, fez um esforço heróico para engolir a sopa de luxo, fingiu-se interessada quando ele apontou Glen Roscoe, o astro da tela, Mavis York, uma americana famosa por já ter casado seis vezes, e outras personalidades igualmente célebres. Mas Intimamente repugnava-lhe a elegante vulgaridade do ambiente. Os homens eram efeminados, penteadíssimos, demasiadamente bem vestidos. A única mulher que podia ver da sua mesa era loura, vestida de preto, muito pintada, com um desembaraço um pouco atrevido.
Daí a pouco Christine sentiu a cabeça tonta.
Começou a perder o domínio de si mesma. As suas reacções eram sempre normais, mas ultimamente os seus nervos sofriam de forte tensão. Sentiu o contraste entre as suas peles de luxo e o seu modesto vestido. Teve a impressão de que as outras mulheres a observavam, percebeu que estava ali tão impropriamente como uma humilde margarida do campo numa cesta de orquídeas.
- Que tens? - perguntou Andrew de repente. -
não te sentes bem?
- Sinto bem, sim, naturalmente - protestou ela,
tentando sorrir. - Mas os lábios não obedeceram. O máximo que pôde fazer foi engolir, com repugnância, o pedaço de galinha excessivamente condimentado que tinha no prato.
- Não ligas importância ao que eu digo -
murmurou ele ressentido. - Não bebeste uma gota de vinho. Que diabo! Quando se leva uma mulher a almoçar fora...
- Queres dar-me um pouco de água? - pediu
Christine com uma voz que mal se ouvia. Sentia vontade de chorar.
Aquele meio era-lhe estranho. O seu cabelo
não estava penteado como devia, não pintara o rosto... Não era de admirar que os próprios criados estivessem a olhar para ela. Nervosamente, apanhou um espargo. Mas a ponta do espargo partiu-se e, escorrendo gordura, caiu sobre as peles de Christine.
A loura platinada da mesa vizinha voltou-se
para o companheiro com um sorriso trocista. Andrew notou aquele sorriso. Não tentou mais conversar. O almoço terminou num silêncio triste.
Voltaram para casa ainda mais tristes. Logo
depois ele saiu, sem mais expansões, para fazer as suas visitas. Ainda ficaram mais afastados do que anteriormente. Christine sofria profundamente. Começava a perder a confiança em si mesma, a perguntar-se se seria na verdade a mulher que convinha a Andrew.
A noite, quando ele voltou, recebeu-o com um
beijo e um abraço, agradecendo-lhe ainda o presente e o almoço.
- Ainda bem que gostaste - disse ele
secamente. E foi para o quarto.