A Cidadela
Capítulo 7
No começo de Outubro, Manson julgou-se em
condições de autorizar Christine a reformar a mobília da casa.
Depois do trabalho da manhã, disse-lhe com
uma naturalidade cheia de ênfase, que era a sua nova maneira de se exprimir:
- Gostaria que fosses hoje à cidade, Chris. Vai
à Casa Hudson, ou à Casa Ostley, se preferires. Vai à melhor casa de móveis e compra tudo o que precisamos. Talvez duas mobílias de quarto, uma de sala de visitas, o que entenderes.
Ela olhou-o em silêncio, enquanto Andrew
acendia um cigarro, sorridente.
- É uma das vantagens de ganhar dinheiro:
poder dar-te tudo o que necessitas. Não penses que sou mesquinho. Acredita que não sou. Tens sido uma boa companheira, Chris, em todos os momentos difíceis. Agora estamos a começar a gozar os bons tempos.
- Comprando móveis caros e... conjuntos
estofados da Casa Ostley.
Ele não percebeu a amargura das suas
palavras. Riu.
- Isso mesmo, querida. Já chegou a hora de
nos desfazermos dos velhos trastes da Casa Regency.
Lágrimas despontaram nos olhos de Christine.
Explodiu :
- Em Aberalaw não achavas que fossem
trastes... E de facto não são. Oh! Aquele tempo, sim, aquele é que foi um tempo feliz! - Abafando um soluço, virou as costas e saiu da sala.
Ele seguiu-a com o olhar, espantado. Christine
andava ultimamente com uns modos estranhos. Nervosa, deprimida, com repentinas crises de inexplicável mau humor.
Andrew sentiu que se afastavam um do outro,
que desaparecia aquela misteriosa união, aquele secreto laço de camaradagem que sempre existira entre ambos. Ora! A culpa não era dele. Fazia o que podia. Mais não era possível.
Furioso dizia consigo mesmo: «O meu triunfo
nada vale para ela!» Mas não podia perder tempo a incomodar-se com a incompreensão, a injustiça do procedimento dela. Tinha um grande número de chamadas a atender e era esse precisamente o dia em que costumava passar pelo banco.
Duas vezes por semana, regularmente, ia ao
banco para depositar mais algum dinheiro na sua conta. Achava uma imprudência acumular dinheiro em casa. Não podia deixar de comparar aquelas agradáveis visitas com a sua triste experiência bancária em Blaenelly, quando, como simples assistente sem importância, fora humilhado por Aneurin Rees. O Sr. Wade, gerente do banco londrino, dirigia-lhe sempre um sorriso de respeitoso acolhimento, e de vez em quando convidava-o para fumar um cigarro no seu gabinete.
- Permita que lhe diga, doutor, e não veja
nisso qualquer intromissão na sua vida: o doutor vai muitíssimo bem. Nós aqui estamos em condições de orientar perfeitamente um médico em franco progresso, que já conta com a sua independência, como o doutor, por exemplo. E agora, quanto àqueles títulos da Southern Railway, de que já tivemos ocasião de falar...
A deferência de Wade não era mais do que
uma amostra da consideração geral. Andrew via agora que os outros médicos do bairro o cumprimentavam cordialmente quando os automóveis se cruzavam. Na reunião do Outono da secção distrital da Associação Médica, na mesma sala onde fora tratado com tão pouca consideração quando lá aparecera pela primeira vez, foi acolhido com afecto, recebeu muitas provas de apreço e até mesmo um charuto do Dr. Ferrie, o vice-presidente.
- Tenho muito prazer em vê-lo aqui, doutor -
disse com cordialidade o Dr. Ferrie, um homenzinho de cara avermelhada. - Está de acordo com as linhas-mestras do meu discurso? Temos de usar de energia nessa questão de honorários. Principalmente nas chamadas nocturnas. Estou disposto a não ser condescendente. Ainda uma noite destas bateram à minha porta. Um petiz de doze anos, calcule! «Venha depressa, doutor», choramingou. «O papá está no trabalho e a mamã está muito mal.» Ora o senhor sabe como são essas conversas das duas da madrugada e eu nunca tinha visto em toda a minha vida o garoto nem mais gordo nem mais magro. «Meu filho», disse eu. «A tua mãe não é minha cliente. Vai buscar o meio guinéu da chamada. Então irei». É claro que não voltou. É o que lhe digo, doutor, esta zona é terrível.
Uma semana depois dessa reunião telefonou-
lhe a Sr.a Lawrence. Andrew achava sempre um encanto a graciosa tagarelice das suas conversas pelo telefone. Nesse dia, porém, depois de explicar que o marido fora pescar na Irlanda e era possível que também fosse mais tarde para lá, convidou-o para almoçar com ela na sexta-feira. Dirigiu-lhe o convite como se fosse uma coisa sem maior significação.
- A Toppy vem. E mais uma ou duas pessoas.
Acho que são mais interessantes do que essa gente que se costuma encontrar nesses almoços. E talvez lhe possam ser úteis.
Andrew desligou o telefone, entre satisfeito e
irritado.
No íntimo, estava aborrecido porque Christine
não fora também convidada. Mas, reflectindo, achou que se tratava de uma questão mais de negócio do que de vida social.
Devia aparecer em bons meios, travar relações
com pessoas importantes como as que compareciam ao almoço, tanto mais que Christine poderia ignorar o facto. Quando chegou a sexta-feira, contou-lhe que combinara um almoço com Harrison e pulou para o automóvel com a consciência tranquila. E não se lembrou que não tinha feitio para mentir.
A residência de Frances Lawrence ficava em
Knightbridge, numa rua muito sossegada entre Hans Place e Milton Crescent. Embora não fosse esplêndida como a casa de Lê Roy, o seu bom gosto e a sua elegante sobriedade transmitiam a mesma sensação de opulência. Andrew chegou atrasado. Já lá se encontrava a maioria dos convidados: Toppy, a novelista Rosa Keane, Sir Dudley Rumbold-Blane, clínico famoso, M.D., F.R.C.P.10 e membro do conselho de administração dos produtos Cremo; Nicol Watson, explorador e antropologista, e várias outras pessoas menos importantes.
À mesa, Manson sentou-se ao lado da Sr.a
Thornton, que, segundo o informou, morava em Leicestershire, mas vinha periodicamente a Londres, passando curtas temporadas no Brown Hotel. Embora já se sentisse suficientemente calmo durante o cerimonial das apresentações a tagarelice da mulher deu-lhe tempo para retomar o domínio completo de si mesmo. Ela discorria maternalmente sobre uma torcedura de pé que sofrera, numa partida de hóquei, a filha Sybil, internada num colégio de Roedean.
Mesmo prestando atenção à Sr.a Thornton,
que interpretava o silêncio como interesse pela narrativa, Manson ainda conseguia ouvir alguma coisa da suave e espirituosa palestra que se desenrolava na mesa as piadinhas agressivas de Rosa Keane e a descrição extraordinariamente fascinante de Watson sobre uma expedição ao Paraguai em que tomara parte
10 F. R. C. P. - Abreviatura de Fellow of the Royal College of Phylicians, recentemente. A Admirou também a facilidade com que Frances mantinha a animação da conversa, encorajando ao mesmo tempo o pedantismo de Sir Rumbold, que se sentara ao seu lado. Uma ou duas vezes Andrew sentiu os olhos dela a procurá-lo, meio sorridentes, notando neles uma interrogação.
- Não resta dúvida - Watson concluiu a
narrativa com um sorriso de quem pede desculpa - de que o incidente mais lamentável foi voltar para casa e apanhar logo uma gripe.
- Ah! - exclamou Sir Rumbold. - Então
também pagou o seu tributo!
Aclarando a voz e recorrendo às lunetas, que
encaixou no volumoso nariz, conseguiu atrair a atenção de toda a mesa. Sir Rumbold sentiu-se à vontade em tal situação. Desde há muitos anos que era uma figura a que o grande público rendia culto. Foi Sir Rumbold quem, havia coisa de um quarto de século, assombrara a Humanidade com a declaração de que uma certa parte do intestino era não só inútil, mas também provadamente prejudicial. Centenas de pessoas correram logo a cortar a parte perigosa. E embora Sir Rumbold não pertencesse a esse número, a fama da operação, que
título superior ao M. R. C. P. (N. do T.) os cirurgiões denominaram «incisão Rumbold-Blane», firmou para sempre a sua fama de autoridade em assuntos de dieta. Desde então, estava sempre em relevo conseguindo pleno sucesso com as suas recomendações à população de vários alimentos exóticos e fermentos lácteos. Mais tarde inventou o sistema de mastigação Rumbold-Blane, e agora, além das suas actividades em conselhos de administração de muitas companhias, redigia os menus da famosa cadeia de restaurantes Railey. Os anúncios diziam assim: «Venham, senhoras e cavalheiros! Sir Rumbold-Blane, M.D. e F.R.C.P., ajudará os clientes na escolha dos alimentos de mais calorias!» Entre os elementos mais conscienciosos da profissão não faltava quem resmungasse baixinho, insinuando que Sir Rumbold já devia ter sido expulso há muito tempo do Registo Médico. Mas a resposta era bem simples: que seria do Registo sem Sir Rumbold!
Pontificava agora, olhando paternalmente
para Frances:
- Um dos aspectos mais interessantes desta
epidemia de gripe é o efeito terapêutico, verdadeiramente espectacular, do Cremogen. Ainda na semana passada tive ocasião de dizer a mesma coisa na reunião do conselho de administração. Infelizmente, não há cura para a gripe. E nesse caso o único recurso para enfrentar a invasão perigosa do bacilo consiste em desenvolver no mais alto grau a capacidade de resistência, a defesa vital do organismo contra a infiltração da doença. Aproveitei o ensejo para dizer e orgulho-me de o ter feito com certa proficiência que realizámos experiências concludentes... não em cobaias, ah! ah.!, como os nossos amigos dos laboratórios, mas em seres humanos. São experiências que provam o poder fenomenal do Cremogen na organização e no reforço da defesa vital do organismo contra os micróbios.
Watson voltou-se para Andrew, com o seu
estranho sorriso:
- Que lhe parecem os produtos Cremo,
doutor?
Apanhado desprevenido, Andrew respondeu
inadvertidamente :
- Valem tanto como outros quaisquer à base
de leite desnatado.
Com um olhar furtivo de aprovação, Rosa
Keane cometeu a maldade de rir. Frances riu também. Repentinamente Sir Rumbold passou à descrição da sua recente visita a Trossacks, a convite da Associação Médica do Norte. O almoço decorreu, no entanto, na melhor harmonia.
Mais de uma vez Andrew participou
desembaraçadamente da conversa geral. Na sala de visitas, antes que ele se retirasse, Frances proporcionou-lhe mais duas oportunidades de conversar.
- O doutor é realmente encantador -
murmurou ela. A Sr.a Thornton nem esperou pelo café para me falar a seu respeito. E tenho um pressentimento de que o senhor a «pescou» - não é assim que se diz? - para cliente.
Com essa boa notícia acariciando-lhe o
ouvido, Manson voltou para casa sob a impressão de que a aventura fora óptima para ele e Christine dela não tomara conhecimento.
Na manhã seguinte, porém, teve uma
surpresa desagradável. Freddie telefonou, para lhe perguntar, alvoroçado:
- Então como se passou o almoço de ontem?
Como é que eu soube? Ora, meu velho! Não leu hoje a Tribune?
Alarmado, Andrew voltou, rápido, à saleta,
onde costumavam ficar os jornais, depois de lidos por ele e Christine. Correu os olhos novamente pela Tribune, um dos matutinos ilustrados de maior circulação. Estremeceu de repente. Como não vira aquilo antes? Na secção de notícias mundanas, uma fotografia de Frances Lawrence com uma pequena nota sobre o almoço da véspera. O nome de Manson estava entre os convidados.
Aborrecido, arrancou a página do jornal, fez
uma bola de papel e atirou-a ao fogo. Lembrou-se então de que Christine já havia lido a Tribune. Franziu a testa num acesso de inquietação. E embora se convencesse de que ela não tinha dado pela maldita notícia, foi muito carrancudo para o consultório.
Mas Christine lera a notícia. Depois de um
momento de espanto, sentiu o coração ferido. Porque não lhe falara Andrew nisso? Porquê? Porquê? Não se teria incomodado por ele comparecer àquele almoço idiota. Procurou tranquilizar-se: era uma coisa tão sem importância que nem lhe devia causar tanta mágoa e ansiedade. Mas, com a cabeça a estalar, compreendeu que no fundo o facto não era sem importância.
Quando Andrew voltou das suas visitas,
Christine tentou continuar com o serviço de casa como se nada tivesse acontecido. Mas não pôde. Andava do consultório para a outra sala sempre com o mesmo peso no coração. Com o espanador limpava nervosamente o dispensário. Junto da secretária via-se a antiga maleta do médico, a primeira que ele possuíra, a que usara em Blaenelly, que levava pelos bairros operários, e com que descia às minas nos casos de emergência. Afagou-a com uma estranha ternura. Andrew tinha agora uma maleta nova, de preço. Fazia parte da sua nova clínica, da clínica de luxo que cultivava agora tão febrilmente e que inspirava tão profunda aversão a Christine.
Ela sabia que era inútil tentar explicar-lhe as
suas discrepâncias sobre a conduta dele. Andrew andava tão melindroso... Isso era bem a marca do seu próprio conflito interior. Uma palavra dela irritá-lo-ia provocando uma discussão. Devia agir de outro modo.
Era sábado e Christine prometera a Florie
levá-la na sua companhia quando saísse para fazer compras. A filha da criada, toda bonitinha no vestido novo, já estava à sua espera no alto da escada da cave. Era uma boa menina, a Florie, e Christine afeiçoara-se-lhe muito. Aos sábados saíam quase sempre juntas. Christine sentiu-se melhor quando se viu fora de casa, ao ar livre, com a garota pela mão, a passear pelo mercado, conversando com os vendedores de que era freguesa, comprando frutas e flores, procurando encontrar alguma coisa que pudesse agradar a Andrew. Mas a ferida continuava aberta. Porquê, porque não lhe participara? E porque não fora convidada também?
Lembrou-se da primeira vez em que tinham
ido a casa dos Vaughans, em Aberalaw. Fizera tudo, então, para arrastá-lo consigo. Como agora a situação era diferente!
E a culpa era dela? Estaria mudada, recolhida
dentro de si mesma, transformada de certo modo numa criatura desprezível? Achava que não. Gostava ainda de se dar com pessoas amigas, travar relações amigáveis, sem ligar à importância social que pudessem ter. A amizade com a Sr.a Vaughan ainda perdurava numa troca constante de correspondência.
Mas, embora magoada e diminuída, Christine
preocupava-se muito menos consigo do que com o marido. Ela bem sabia que a gente rica também cai doente e que se pode ser tão bom médico na zona mais aristocrática de Londres como na zona operária de Aberalaw. Não exigia a continuação daqueles esforços heróicos dos velhos tempos das grandes marchas a pé e das corridas de motocicleta.
No entanto sentia com toda a alma que
naquele tempo o idealismo de Andrew fora puro e maravilhoso, iluminando a vida de ambos com uma luz forte e clara. Agora, a chama tornara-se amarelada e o vidro da lanterna estava sujo de fumo.
Ao entrar na casa de Frau Schmidt procurou
eliminar da fisionomia os indícios da preocupação. No entanto percebeu que a velha a observava atentamente.
- Anda sem apetite, minha filha. Não está com
boa cara. Todavia possui agora um lindo automóvel, dinheiro, tudo. Olhe! Tem de provar isto. É muito saboroso.
Com a longa faca afiada, cortou uma lasca do
seu famoso presunto defumado e obrigou Christine a comer uma sanduíche de pão de forma. Ao mesmo tempo ofereceu a Florie sorvete e um pastel. Frau Schmidt não se calava.
- Agora, um pouco de Libtauer. O doutor já
tem comido muito deste queijo e nunca se farta. Qualquer dia destes vou pedir-lhe um atestado para pregar aí na montra. Foi este queijo que me deu fama... E Frau Schmidt continuou a discorrer alegremente até Christine se retirar.
Ao saírem, Christine e Florie ficaram paradas
no passeio à espera que o sinaleiro - era o velho amigo Struthers quem estava de serviço - desse sinal para poderem atravessar. Christine segurava com força o braço da impulsiva Florie.
- Deves prestar sempre atenção ao trânsito
desta esquina aconselhou. Que diria tua mãe se fosses atropelada?
Com a boca cheia do resto do pastel, Florie
achou graça ao dito.
Quando finalmente chegaram a casa,
Christine começou a desembrulhar as compras e ao dirigir-se à sala da frente, para pôr numa jarra os crisântemos que trouxera, sentiu-se outra vez possuída de tristeza.
Nisto o telefone tocou. Foi atender com andar
pesado, a fisionomia abatida.
Demorou-se uns cinco minutos. E voltou com
a expressão transfigurada. Os olhos, de excitados, brilhavam. De vez em quando olhava pela janela, ansiosa pela volta de Andrew, esquecida do próprio desalento na alegria da boa notícia que recebera. Sim, uma notícia muito importante para Andrew, muito importante para ambos. Ela estava certa, tinha a convicção de que não poderia ter acontecido coisa melhor naquela ocasião. Nenhum antídoto mais eficaz para o veneno do sucesso fácil. E, impaciente, Christine correu à janela, mais uma vez.
Quando Manson chegou, ela não se conteve,
não soube esperar. Correu ao encontro dele, até à porta da rua.
- Andrew! Tenho um recado para ti. De Sir
Robert Abbey. Ele falou-me há pouco pelo telefone.
- Ah! Sim? - A fisionomia de Andrew, que ao
ver a mulher assumira de repente um ar compungido, animou-se de novo.
- Sim! Foi ele mesmo quem falou. Queria falar
contigo. Eu disse-lhe que não estavas... Oh! Ele foi tão gentil... Ih! E eu estou a contar tudo isto tão mal! Meu querido! Foste nomeado para a clínica externa do Hospital Vitória. Podes tomar posse imediatamente!
A satisfação foi pouco a pouco manifestando-
se no olhar de Andrew.
- É verdade... Que boa notícia, Chris! - Não é? - exclamou ela, entusiasmada. -
Agora podes voltar ao trabalho que sempre apreciaste... com oportunidades para pesquisas... tudo o que ansiavas e não pudeste conseguir na Junta...
Envolveu-o nos braços e apertou-o contra o
peito.
Andrew fitou-a, extraordinariamente tocado
pelo seu amor, pelo seu desprendimento e pela sua generosidade. Teve um rebate de consciência.
- Que alma boa tens, Chris! E como eu sou
idiota e ingrato!