A Cidadela
Capítulo 07
Uma tarde de Dezembro, quando voltava para
casa pelo caminho das traseiras, que seguia ao longo da encosta do morro, Andrew viu aproximar-se um jovem franzino, mas desempenado, pela sua idade mais ou menos. Reconheceu-o imediatamente. Era Richard Vaughan. O seu primeiro impulso foi atravessar para o outro lado, a fim de não se encontrar com o homem que vinha na sua direcção.
Mas resmungou, obstinado: «Porque iria para
o outro lado? Ele pode julgar-se importante, mas eu não faço caso».
Desviando o olhar, preparou-se para passar
por Vaughan.
Mas, com surpresa, ouviu o outro chamá-lo
num tom amigo, meio divertido.
- Olá! O senhor não é a «fera» que obrigou Ben
Chenkin a voltar para o trabalho? Não foi o senhor?
Andrew parou, olhou-o atento e desconfiado,
com uma expressão que queria dizer: «Que julga? Não o fiz intencionalmente!».
Se bem que o tivesse atendido com bastante
polidez, Andrew resmungava intimamente que não estava disposto a ser tratado como um protegido pelo filho de Edwin Vaughan. Os Vaughan eram virtualmente os donos da Companhia de Aberalaw, e possuíam, além disso, todas as acções das minas secundárias. Eram ricos aristocratas, inacessíveis.
Ao ir viver para uma propriedade perto de
Brecon, o velho Edwin passara ao filho a direcção de todos os negócios. Casado havia pouco tempo, Richard mandara construir para sua residência um palacete de arquitectura Moderna, que dominava a cidade.
Observando Andrew, enquanto passava os
dedos pelo bigode aparado, disse:
- Gostaria de ver a cara do velho Ben. - Pois nenhuma graça lhe achei. Perante essa demonstração do rígido orgulho
escocês, Vaughan torceu o lábio por trás da mão que alisava o bigode e disse com ar muito natural:
- Parece que o senhor é o meu vizinho mais
próximo. Minha mulher tenciona visitar a sua. Ela já voltou da Suíça, onde foi passar algumas semanas.
- Obrigado! - respondeu Andrew secamente,
despachando-o. À noite, contou o caso a Christine, ironicamente.
- Tanta amabilidade! Qual terá sido a sua
intenção? Nem com o próprio Llewellyn é assim... Quando o encontra na rua mal lhe concede um cumprimento de cabeça. Talvez julgue que consegue com as suas amabilidades que eu mande mais alguns homens para o trabalho dessas minas horríveis.
- Ora, não sejas assim, Andrew - protestou
Christine - É um defeito que tens. És desconfiado, demasiadamente. Desconfiado, com toda a gente.
- Parece-te que eu não tenho motivos para
desconfiar dele? Todo empertigado, nadando em dinheiro, uma amabilidade artificial espalhada na cara de macaco. E aquela história: «Minha mulher... foi passar algumas semanas à Suíça...» E tu aqui a trabalhar tanto nesta nossa casinha pobre! Qual! Não sei porque a mulher desse senhor quererá aproximar-se de nós, querida. E se fizer isso - tomou de repente um tom altivo - tem muito cuidado; não a deixes tratar-te com ares protectores.
Christine respondeu com as palavras mais
sacudidas que ele ouvira naqueles meses de ternura!
- Podes crer que sei perfeitamente como devo
proceder.
Contra as previsões de Andrew, a Sr.a
Vaughan visitou Christine e pareceu demorar-se mais tempo do que o exigido pela delicadeza convencional. Quando Manson regressou a casa, à noite, encontrou a mulher muito alegre, um tanto alvoroçada, com a aparência de quem passara uma tarde agradável. Mostrou-se cheia de reticências às gracinhas irónicas do marido, mas confessou que a visita fora um sucesso. Ele troçou:
- Naturalmente exibiste as pratas da família, a
porcelana mais fina, o samovar dourado... Ah! E com certeza os doces foram da Confeitaria Parry!
- Não. Comemos pão com manteiga -
respondeu ela no mesmo tom. - O chá veio no bule de louça.
Andrew levantou as sobrancelhas, sarcástico: - E ela gostou?
- Julgo que sim.
Depois dessa conversa, Andrew sentiu
qualquer coisa que o espicaçava intimamente, uma emoção que podia já ter experimentado, mas ainda não analisara. Dez dias mais tarde ficou muito abalado quando a Sr.a Vaughan telefonou para convidar o casal para jantar em sua casa.
Christine estava na cozinha, a preparar um
bolo, e foi ele quem atendeu ao telefone.
- Sinto muito - disse. - Receio não podermos
comparecer. Tenho trabalho na clínica todas as noites até quase às nove horas.
- Mas não no domingo, certamente - a voz
dela era cordial, encantadora. - Venham jantar no próximo domingo. Está combinado então. Ficamos à vossa espera.
Foi com Christine que ele estourou: - Esses tais teus amigos cheios de embófia
querem impingir-nos um jantar. Não podemos ir! Estou com um grande palpite de que vou ter um caso muito urgente na noite de domingo!...
- Ora ouve o que vou dizer-te, Andrew! Os olhos dela tinham adquirido um brilho
desusado quando tomara conhecimento do convite, e era severamente que passava uma lição ao marido.
- Deves acabar com essas tolices. Nós somos
pobres e toda a gente tem disso conhecimento. Usas fatos coçados e eu trabalho na cozinha. Mas isso não tem importância. Afinal de contas, és um médico, um bom médico, e eu sou a tua mulher. - A expressão de Christine suavizou-se por um momento. - Estás a ouvir o que digo? Sim, talvez seja uma surpresa para ti, mas fica sabendo que tenho comigo, bem guardadinha na gaveta, a minha certidão de casamento. Os Vaughan têm muito dinheiro, mas isso é apenas um detalhe. De resto é gente boa, inteligente e encantadora. Nós vivemos aqui numa felicidade maravilhosa. Mas, querido, também devemos ter relações. Porque não havemos de ser amigos deles, se eles querem ser nossos amigos? E não fiques envergonhado de ser pobre. Esquece essa história de dinheiro, de posição social e tudo o mais e aprende a aceitar as pessoas como elas realmente são!
- Está bem - resmungou ele.
Na noite de domingo lá foi com uma
fisionomia inexpressiva, mas aparentemente dócil. Observou apenas, falando por entre dentes, quando seguiam na alameda bem cuidada que conduzia à porta do palacete, ao lado de um novo campo de ténis:
- Provavelmente não me deixam entrar
quando virem que não estou em traje de rigor.
Ao contrário do que esperava, foram muito
bem recebidos. A cara feia e ossuda de Vaughan sorriu hospitaleiramente por cima de uma mesinha de chá que ele quase derrubou, não se sabe porquê. A Sr.a Vaughan acolheu-os com simplicidade que nada tinha de afectada. Havia mais dois convidados: o Prof. Challis e a mulher, que estavam a passar o fim de semana na companhia dos Vaughan.
Depois de um cocktail como nunca tinha
saboreado na sua vida, Andrew reparou no luxo da sala, toda atapetada, com flores, livros e móveis antigos de rara beleza. Christine conversava despreocupadamente com o casal Vaughan e a Sr.a Challis, uma velha bem-humorada, que tinha rugas em torno dos olhos. Sentindo-se isolado, pouco seguro, Andrew aproximou-se manhosamente de Challis, que, apesar da barba branca, esvaziava alegremente o terceiro cálice de vermute.
- O meu jovem e brilhante doutor quer ter a
bondade de proceder a uma investigação? - disse, sorrindo, a Andrew - É uma pesquisa sobre a função precisa da azeitona num cálice de Martini. Devo adverti-lo desde já de que tenho a minha opinião formada. Mas que pensa o doutor do assunto?
- Ora... - Andrew gaguejou. - Eu... Não sei
bem...
- Eis a minha teoria. - Challis tivera pena dele.
- Trata-se de um ardil imaginado pelos donos de bares e criaturas pouco hospitaleiras como o nosso amigo Vaughan. - Sob as sobrancelhas negras e abundantes os olhos piscavam maliciosamente. - Uma exploração do princípio de Arquimedes. Pela simples acção do deslocamento, têm, esperança de poupar o gin!
Andrew estava tão preocupado com o próprio
acanhamento que nem pôde sorrir. Não tinha prática de salões e nunca estivera numa sala tão luxuosa. Não sabia o que fazer com o copo vazio, com a cinza do cigarro e até mesmo, como naquele momento, com as próprias mãos.
Foi um alívio quando se encaminharam para o
jantar. Mas aí também se viu numa posição desvantajosa. A refeição era muito simples, mas esplendidamente servida. Um prato de sopa, salada de alface tenra, galinha, e carne muito macia, de aroma delicado e raro. Andrew ficou junto da Sr.a Vaughan.
- A sua mulher é encantadora, Dr. Manson -
comentou, ela, calmamente, quando se sentaram.
Era uma criatura alta, esbelta, elegante, com
uma aparência muito distinta. Nada tinha de bonita, mas os olhos eram grandes e inteligentes e as maneiras de distinção natural. A boca, com os cantos ligeiramente repuxados, tinha uma mobilidade que parecia sugerir requinte, o de espírito e de raça.
Começou a falar a Andrew sobre o trabalho
do médico, dizendo que o marido ouvira muitos elogios à sua competência. Esforçou-se gentilmente por pô-lo à vontade, perguntando de modo interessado o que achava que devia fazer-se para melhorar o exercício da medicina na região.
- Bem... eu não sei bem... - e entornou
desastradamente um pouco de sopa. - Suponho... Gostaria que se empregassem métodos mais científicos.
Acanhado, engasgado até com o seu assunto
predilecto com o qual prendia a atenção de Christine durante horas e horas Andrew não desviou os olhos do prato. Felizmente, para seu alívio, a Sr.a Vaughan entabulou conversa com Challis, que estava do outro lado.
Challis já então identificado como professor
de Metalurgia em Cardiff, lente da mesma cadeira na Universidade de Londres e membro da afamada Junta de Pesquisas sobre o Trabalho de Mineiros e Metalúrgicos era um conversador alegre e brilhante. Falava com o corpo, com as mãos, com a barba, discutindo, rindo, berrando, gargalhando, ao mesmo tempo que absorvia em profusão comida e bebida. Era uma caldeira a acumular pressão. Mas a sua conversa era interessante e os circunstantes pareciam apreciá-la. Andrew, no entanto, não queria atribuir valor à conversa.
E ficou apenas a ouvir, de má vontade,
quando ele se desviou para a música e os méritos de Bach, passando, num dos seus prodigiosos saltos, para a literatura russa. De nariz torcido, ouviu citarem os nomes de Tolstoi, Tchekov, Puchkin...
«Futilidades», dizia irritado consigo mesmo.
«Tudo futilidades para entreter. Este barbaças pensa que é alguém muito superior. Gostaria de vê-lo as voltas com uma traqueotomia... lá no fundo de uma cozinha do Cefan Row. Servir-lhe-ia de muito o tal Puchkin...
Christine, porém, estava verdadeiramente
encantada.
Observando-a de lado, Andrew viu a mulher
rindo para Challis e ouvia-a tomar parte na discussão. Não procurava exibir-se, era perfeitamente natural. Uma ou duas vezes referiu-se ao seu trabalho de professora na escola de Blaenelly.
Andrew ficou espantado por ver como
respondia bem ao professor, com que presteza e espontaneidade fazia valer as suas opiniões. Começou a contemplá-la como se a visse pela primeira vez e sob uma nova luz. «Parecia conhecer a fundo aqueles sujeitos da Rússia», resmungava ele intimamente, «e o mais engraçado é que nunca fala comigo acerca deles .
Um pouco mais tarde, quando Challis bateu
de leve na mão de Christine, num gesto de aprovação, Andrew irritou-se e resmungou com os seus botões: «Porque não encolhe este animal a patinha? E porque não vai bater na mão da mulher que lhe pertence?».
Por mais de uma vez surpreendeu o olhar de
Christine a procurar estabelecer com ele uma correspondência Intima. Nalgumas ocasiões, ela dirigiu a conversa em sua direcção.
Meu marido está muito interessado nos
trabalhadores das minas de antracite, professor Challis. Iniciou uma série de pesquisas sobre inalação de pó.
- Ah! Sim? - soprou Challis, lançando para
Manson um olhar cheio de curiosidade.
- Não é assim, querido? - Christine
encorajava-o. - Ainda uma noite destas me falaste a esse respeito.
- Não sei ainda - rosnou Andrew. -
Provavelmente não chegarei a resultados satisfatórios. Talvez mesmo o pó nada tenha a ver com esses casos de tuberculose.
Estava furioso consigo mesmo, é claro. Talvez
esse tal Challis pudesse ajudá-lo. Não é porque precisasse de assistência.
Isso não! Mas o facto de estar ligado à Junta
de Pesquisas sobre o Trabalho de Mineiros e Metalúrgicos talvez lhe proporcionasse uma oportunidade interessante.
Por qualquer razão incompreensível, a sua
raiva incidiu sobre Christine. Ao encaminharem-se para casa ele manteve um silêncio ensimesmado. No mesmo silêncio, acompanhou-a até ao quarto de dormir.
Conservou-se na mesma atitude
intencionalmente bisonha enquanto se despiam. E, no entanto, esse momento era habitualmente aproveitado para diálogos e comentários. Com os suspensórios caídos e uma escova de dentes na mão, ele costumava então comentar os acontecimentos do dia.
Quando Christine começou:
- Passámos uma noite muito agradável, não
foi, querido?
Ele respondeu com irónica aquiescência: - Oh! Uma noite maravilhosa! Na cama, anichou-se na beira do colchão,
longe dela.
E, percebendo um leve movimento de
Christine para se aproximar, começou a roncar ruidosamente.
Na manhã seguinte persistia entre ambos a
mesma sensação de constrangimento. Ele passou o dia a trabalhar com aspecto fechado numa estupidez que o fazia diferente de si mesmo. Pelas cinco horas da tarde, quando tomavam chá, tocou a campainha da porta da frente. Era o chauffeur dos Vaughan com uma pilha de livros e um grande ramo de narcisos.
- Da parte da Sr.a Vaughan, minha senhora -
disse ele sorrindo e levando a mão ao boné ao retirar-se.
Christine foi para a saleta com os braços
cheios e a fisionomia radiante.
- Olha, meu querido - exclamou alvoroçada. -
Não é o cúmulo da gentileza? Todas as obras de Trollope, emprestadas pela Sr.a Vaughan. Sempre tive vontade de ler toda a obra deste autor! E que flores lindas, lindas!
Ele levantou-se, empertigado e zombeteiro: - Muito bonito! Livros e flores da dama do
castelo! Naturalmente precisas dessas coisas para te ajudar a suportar a vida na minha companhia! Eu sou tão desinteressante para ti!... Não pertenço ao número desses papagaios faladores que parecias apreciar tanto ontem à noite! Eu não conheço a «prosopeia» russa! Sou apenas um desses tais médicos assistentes, muito ordinários, que andam por aí!
- Andrew! - O rosto de Christine estava
pálido. - Como podes dizer essas coisas!
- Não é a pura verdade? Eu vi muito bem,
enquanto suportava com sacrifício aquele maldito jantar. Eu tenho olhos na cara. Vejo que já estás cansada de mim. Só presto para andar por aí atolado na lama, encostando a cabeça em lençóis sujos, apanhando pulgas. Sou demasiadamente bruto para o teu gosto requintado.
Na face pálida de Christine os olhos estavam
sombrios e dolorosos, mas disse cem firmeza:
- Como podes falar dessa maneira?! Se eu
gosto de ti é porque és assim como és! Nunca poderia gostar de outra pessoa!
- Está a ver-se! - resmungou ele, e saiu
violentamente da sala.
Durante uns cinco minutos errou pela
cozinha, de um lado para outro, mordendo os lábios. De repente deu meia volta, precipitou-se na saleta, onde ela continuava de cabeça baixa, desamparada, com os olhos perdidos no fogo do fogão. Andrew tomou-a ardentemente nos braços.
- Chris, minha amada! - Gritou, num impulso
de arrependimento. Querida, querida! Perdoa-me, pelo amor de Deus! Nada sentia do que disse. Sou um idiota, desvairado pelo ciúme. Adoro-te.
Abraçaram-se louca, apaixonadamente. O
perfume dos narcisos flutuava no aposento.
- Tu não sabes - soluçou ela. - Tu não sabes
que eu não posso viver sem ti?
Mais tarde, quando ela se sentou, com o rosto
encostado ao dele, Andrew disse estendendo o braço para apanhar um livro:
- Quem é esse tal Trollope? Queres-me
explicar? Eu sou um tipo tão ignorante!