A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 55 de 55

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A Cidadela

Capítulo 22

O caso devia ser julgado em 10 de Novembro

e Andrew chegou a Londres com uma semana de antecedência. Viera sozinho, pois pedira a Hope e Denny que deixassem o caso por sua própria conta, e com melancolia amarga hospedou-se no Museum Hotel.

Embora aparentemente calmo, Andrew estava

num verdadeiro desespero íntimo. Oscilava entre crises de amargura e de emocionada incerteza, originadas não somente nas dúvidas sobre o futuro como também na intensa recordação de todos os momentos já vividos da sua carreira médica. Seis semanas antes essa crise encontrá-lo-ia ainda ferido pela angústia da morte de Christine, sem energia para lutar, indiferente ao que acontecesse. Mas agora, restabelecido, pronto e ansioso por recomeçar o trabalho, o golpe atingiu-o em cheio cruelmente. compreendeu, com o coração oprimido, que não valeria a pena viver se perdesse de novo as esperanças renovadas.

Esses e outros pensamentos dolorosos

atormentavam-lhe incessantemente a cabeça, originando por vezes um estado de exasperante confusão. Não podia acreditar que ele, Andrew Manson, estivesse naquela situação horrível, defrontando realmente o que constitui o pesadelo de todos os médicos. Porque era chamado perante o conselho? Porque queriam eliminá-lo do Registo Médico? Nada fizera de comprometedor. Nenhuma desonestidade praticara, nenhum delito. Salvara apenas a vida de Mary Boland.

A sua defesa foi confiada a Hopper & C.a,

uma firma de advocacia muito recomendada por Denny. À primeira vista, Thomas Hopper não despertava grande confiança. Era um homenzinho de cara vermelha, óculos de ouro e atitudes nervosas. Devido a qualquer deficiência de circulação de sangue, corava a todos os instantes. E isso dava-lhe certo ar de satisfação própria que não contribuía, evidentemente, para inspirar confiança. Contudo, Hopper tinha pontos de vista muito firmes sobre o caminho que devia seguir na defesa. Quando Andrew, no primeiro desabafo da sua indignação furiosa, quis apelar para Sir Robert Abbey, o único amigo de influência que contava em Londres, Hopper lembrou, num aparte, que Abbey era membro do conselho, assim como discordou inteiramente, apesar da insistência aflita de Andrew, da ideia de mandar um telegrama a Stillman, pedindo-lhe que viesse imediatamente.

Na opinião do advogado, já conheciam

todos os argumentos de que o americano poderia servir-se e a presença do homem só serviria para irritar os membros do conselho. Pelo mesmo motivo devia ficar de lado o assistente Marland, que dirigia agora Bellevue.

Andrew foi compreendendo pouco a pouco a

enorme diferença entre o aspecto legal do caso e o seu modo de o considerar. O advogado até franziu o sobrolho, em sinal de reprovação, quando o médico afirmou a sua inocência numa argumentação frenética. Por fim Hopper foi obrigado a declarar:

- Aí está uma coisa que tenho de lhe pedir, Dr.

Manson. Não se manifeste nesses termos durante o julgamento de quarta-feira. Posso garantir-lhe que nada seria mais desastroso para o nosso caso.

Andrew parou desconcertado, torcendo as

mãos, cravando em Hopper uns olhares incendiados.

- Mas eu quero que eles conheçam a verdade.

Quero mostrar que a cura dessa jovem foi a coisa melhor que eu fiz em muitos anos. Depois de meses e meses de porcarias profissionais, exercendo a medicina apenas para obter dinheiro, consegui fazer alguma coisa decente, útil... é por isso que sou vítima da perseguição deles.

Por detrás dos óculos, os olhinhos do

advogado mostravam uma apreensão profunda. Na sua aflição, o sangue fluiu-lhe ao rosto.

- Por favor, Dr. Manson, por favor! Não

compreende a gravidade da nossa situação?! Devo aproveitar a oportunidade para lhe dizer com toda a franqueza que, mesmo se tudo correr bem, as nossas possibilidades de... vitória me parecem diminutas. Os precedentes são todos contra nós: Kent, em 1909; Loriden, em 1912; Foulger, em 1919, todos eles foram condenados por se ligarem a pessoas não diplomadas. Isso sem contar o famoso caso Hexam, em 1921. Deve saber que Hexam foi excluído do Registo por ter aplicado uma anestesia geral a um cliente de Jarvis, ajustador de ossos. Ouça bem! O que desejo de si é que apenas responda às perguntas com um «sim» ou um «não». Se isso não lhe for possível, a máxima concisão. É um aviso solene que lhe faço: se entrar nas considerações que me tem exposto nestes dias não haverá a menor salvação para o caso. O doutor será irradiado fatalmente, estou tão certo disso como de me chamar Thomas Hopper.

Com profunda melancolia, Andrew

compreendeu que devia fazer todo o possível por dominar-se. Era como um doente na mesa de operações. Devia submeter-se a todas as formalidades e exigências do conselho, mas não lhe era fácil chegar a essa passividade. Sentia-se indignado só ao pensar que devia desistir de qualquer ideia de se justificar e responder estupidamente «sim» ou «não» a todas as perguntas.

Na noite de terça-feira, quando atingiu o auge

da febril expectativa do que poderia suceder no dia seguinte, Andrew pôs-se a andar pelas ruas; em certo momento percebeu encontrar-se inexplicavelmente em Paddington, caminhando na direcção da loja de Vidler. Arrastava-o um estranho impulso do subconsciente. Lá nos arcanos do seu Espírito perdurava a doentia impressão de que todas as calamidades dos últimos meses eram o castigo pela morte do sapateiro. A ideia obcecava-o sempre, contra a sua vontade. Mas estava ali, dentro da cabeça, patente nos misteriosos meandros da sua alma. Era levado irresistívelmente ao encontro da viúva de Vidler, como se o simples facto de a ver pudesse ajudá-lo, ou dar-lhe, não sabia porquê, alívio para o seu sofrimento.

Era uma noite húmida e escura. Havia pouca

gente nas ruas. Andrew tinha uma sensação estranha de irrealidade ao caminhar sem ser reconhecido por aquela zona onde tanta gente o conhecera. A sua própria figura, com traje de luto, tornara-se uma sombra entre os outros fantasmas que passavam pressurosos sob a chuva húmida. Encontrou a loja ainda aberta. Hesitou um momento. Depois, quando saiu um freguês, Andrew entrou apressadamente.

A Sr.a Vidler estava sozinha, atrás do balcão

da tinturaria, embrulhando o casaco de uma freguesa. Vestia saia preta e uma blusa que mandara tingir. De luto parecia mais magra. De repente levantou a vista e deu com Manson.

- Dr. Manson! - E a fisionomia dela iluminou-

se. - Como tem passado, doutor?

Andrew deu uma resposta rouca. Percebeu

que ela nada sabia das suas recentes atribulações. Ficou parado à porta da rua, rígido, sem deixar de fitar a viúva, a chuva escorrendo pela aba do chapéu.

- Entre, doutor. Como está ensopado! O tempo

está horrível!

Andrew interrompeu-a, num tom forçado,

numa voz do outro mundo:

- Sr.a Vidler, há muito tempo que queria

visitá-la. Pergunto muitas vezes como é que a senhora vive desde...

- Vou indo, doutor. Podia ser pior. Tenho

agora um rapaz para fazer o conserto do calçado. É um bom auxiliar. Mas porque não entra, doutor? Vou buscar-lhe um pouco de chá.

Andrew fez um sinal negativo com a cabeça. - Eu... Eu ia passando. - E de súbito, quase

num desespero - A senhora deve sentir muito a falta de Harry.

- Sim, não resta dúvida. Sinto falta... Pelo

menos, senti muito no princípio. Mas é uma coisa assombrosa - nesse momento até sorria - como a gente se acostuma a tudo.

E ele, apressadamente, muito embaraçado: - De certo modo... eu considero-me

responsável. Foi um golpe tão repentino para a senhora! Penso às vezes que a senhora pode julgar-me culpado.

- Culpado, o doutor! - Ela negou com a

cabeça. - Como pode dizer uma coisa dessas! O doutor fez tudo quanto pôde, arranjou mesmo uma boa casa de saúde, um operador de primeira ordem...

- Mas a senhora pode pensar... - insistia

Andrew com voz abafada, sentindo um frio estranho por todo o corpo. - Se tivesse agido de outro modo, se tivesse levado o Harry para um hospital...

- Seria a mesma coisa, doutor. O meu Harry

teve tudo do melhor, tudo que se pode obter com dinheiro. Até o enterro. Só vendo! Quantas coroas! E quanto a lançar-lhe as culpas... Olhe, eu tenho dito muitas vezes, aqui na loja, que o Harry não podia ter tido um médico melhor, mais atencioso e mais competente do que o doutor.

Quando ela acabou de falar, Andrew

compreendeu com um derradeiro calafrio da sensibilidade que nem mesmo uma confissão franca e completa faria a viúva acreditar na verdade. Tinha as suas ilusões sobre o fim pacífico, inevitável e dispendioso do marido e seria uma crueldade arrancar-lhe uma convicção que lhe dava tão confortante resignação.

- Tive muito prazer em vê-la de novo, Sr.a

Vidler - disse Manson, depois de uma pausa. - Como lhe disse... há muito tempo que pretendia visitá-la.

Calou-se, apertou-lhe a mão, cumprimentou

com o chapéu, e saiu.

Em vez de lhe dar alívio ou consolação, o

encontro servira apenas para agravar a sua angústia. As ideias entrechocavam-se dentro da cabeça. Que podia ter esperado? Perdão, no velho estilo dos romances? Condenação? Com amargura chegou à conclusão de que ela ainda o apreciava mais do que anteriormente, e ao voltar pelas ruas molhadas Manson convenceu-se subitamente de que ia ser condenado no dia seguinte. Esse pressentimento foi transformando-se numa aterradora certeza.

Ao atravessar uma pequena rua lateral, já

perto do hotel, passou pela porta de uma igreja. Estava aberta. Mais uma vez o impulso dominou-o, fê-lo parar, retroceder, entrar.

Não havia luz lá dentro. A nave estava escura,

vazia e quente, como se um ofício religioso tivesse terminado há pouco. Andrew não sabia que igreja era, nem procurou saber. Sentou-se no último banco e fixou o olhar cansado no altar sombrio e coberto. Lembrou-se de que na época do seu afastamento Christine voltara o pensamento para Deus. Ele, Andrew, nunca fora um beato, mas agora estava ali, naquela igreja desconhecida. As atribulações impelem as criaturas para lá, para as coisas espirituais, para a Ideia de Deus.

E continuou sentado, a cabeça vergada, como

um homem que repousa no fim de uma viagem. Os seus pensamentos manifestavam-se aos arrancos, não como as palavras de uma oração determinada, mas com todo o anseio aflito da sua alma: «Meu Deus! Não me deixes ser condenado! Oh, meu Deus! Não me deixes ser condenado!»

Durante meia hora, talvez, ficou mergulhado

nessa meditação estranha. Depois levantou-se e seguiu directamente para o hotel.

Embora tivesse dormido profundamente,

acordou na manhã seguinte com uma sensação ainda maior de ansiedade doentia. Ao vestir-se, as mãos tremiam ligeiramente.

Censurava-se por ter vindo para aquele hotel,

que tanto lhe fazia recordar os transes do concurso. A sensação que experimentava agora era exactamente a do medo que precede um exame. Mas esse medo multiplicado por cem.

Desceu à sala do almoço, mas nem uma xícara

de café tomou. O julgamento estava marcado para as onze horas e Hopper pedira-lhe que

comparecesse mais cedo. Calculou não gastar mais de vinte minutos para ir até a Hallam Street. Nervoso, impaciente, procurou passar o tempo com os jornais, na saleta do hotel, até às dez e meia. Partiu afinal. Mas o táxi que tomara ficou retido por um congestionamento do trânsito. Eram onze horas em ponto quando chegou à sede do G.M.C.

Entrou apressado na sala do conselho, tendo

apenas uma vaga impressão da sua vastidão e da imponência da mesa, sobre um estrado, onde se sentavam os membros do conselho, sob a presidência de Sir James Haliday. Sentavam-se a um canto os que deviam tomar parte no seu julgamento. Davam a estranha impressão de actores à espera do momento de entrarem em cena. Viu ali Hopper, Mary e Con Boland, a enfermeira Sharp, o doutor Thoroughgood, o advogado Boon, a irmã Myles, encarregada da enfermaria do Vitória. Errou o seu olhar pela fila de cadeiras e depois, apressadamente, sentou-se ao lado de Hopper.

- Porque não veio mais cedo, como lhe

recomendei? - disse o advogado, aborrecido. - O outro julgamento está a acabar. O conselho não perdoa a quem chega atrasado.

Andrew não respondeu. Como dissera

Hopper, o presidente pronunciava naquele momento a sentença no processo anterior. Condenação. Nome riscado do Registo. Andrew não podia desviar os olhos do médico condenado por qualquer deslize banal. Era um pobre diabo de fato coçado e sapatos cambados. Todo o seu aspecto denunciava a luta pela vida. E havia tanta amargura e desânimo na sua expressão quando foi condenado por aquele augusto cenáculo de colegas que Andrew sentiu um profundo calafrio.

Mas não tinha tempo para pensar no pobre

homem, para compadecer-se dele. Quase no mesmo instante o seu próprio julgamento foi anunciado. O coração contraiu-se-lhe dentro do peito.

Terminada a formalidade da leitura do

processo, levantou-se e tomou a palavra o Sr. George Boon, advogado de acusação. Era um tipo magro, de cara rapada, atitudes firmes. Vestia fraque e pendia das suas lunetas uma fita preta, muito larga. A voz era nítida e segura.

- Sr. Presidente, meus senhores; reconheço que

este caso que ides julgar nada tem a ver com qualquer teoria da medicina definida, do capítulo 28.° do Medical Act. Pelo contrário, constitui um exemplo insofismável da associação de um profissional com uma pessoa não qualificada para o exercício da medicina, tendência essa que, talvez deva dizer, o conselho tem tido ultimamente tantos motivos para deplorar.

«Os factos são os seguintes: a doente, Mary

Boland, atacada de tuberculose apical, foi admitida na enfermaria do Dr. Thoroughgood, no Hospital Vitória, em 18 de Julho.

Ficou ali sob os cuidados do Dr.

Thoroughgood até 14 de Setembro, dia em que ela mesma pediu para sair, sob o pretexto de que desejava voltar para casa da família. Digo pretexto porque, em vez de voltar para casa, a doente encontrou-se na portaria do hospital com o Dr. Manson, que imediatamente a levou para uma instituição de nome «Bellevue», que se propõe, creio eu, promover a cura de doenças pulmonares.

«Chegando a esse lugar, Bellevue, a doente

recolheu ao leito e foi examinada pelo Dr. Manson em colaboração com o proprietário do estabelecimento, o Sr. Richard StilIman, homem não diplomado e não qualificado para o exercício da medicina, e que, além disso, segundo estou informado, é estrangeiro. Depois do exame foi decidido em conferência - chamo a atenção do conselho para este ponto - foi decidido em conferência pelo Dr. Manson e pelo Sr. Stillman que a doente seria submetida ao tratamento pelo pneumotórax. Em seguida o Dr. Manson fez a anestesia local e a insuflação foi realizada pelos Dr. Manson e Sr. Stillman.

«E agora, meus senhores, depois deste breve

resumo do caso, proponho-me, com a vossa permissão, apresentar provas e testemunhas do facto. Dr. Eustace Thoroughgood, faça o obséquio.»

O Dr. Thoroughgood levantou-se e avançou.

Tirando as lunetas e conservando-as na mão como um recurso para fazer realçar os seus argumentos, Boon começou o interrogatório.

- Não quero constrangê-lo, Dr.

Thoroughgood. Estamos perfeitamente ao par da sua reputação, posso dizer mesmo do seu renome como especialista de doenças pulmonares e não tenho dúvida de que está animado de espírito de indulgência para o seu jovem colega. Mas, Dr. Thoroughgood: é ou não verdade que, sábado 10 de Setembro, o Dr. Manson pediu insistentemente ao doutor uma conferência sobre a doente Mary Boland?

- É verdade.

- E também é verdade que no decurso da

conferência o Dr. Manson insistiu para que se adoptasse um tratamento que o doutor julgava inconveniente?

- Ele queria que eu fizesse o pneumotórax. - Exactamente! E para o bem da doente o

doutor recusou. Não foi isso?

- Sim, recusei.

- E diante dessa recusa, a atitude do Dr.

Manson não foi de certo modo estranhável?

- Bem... - Thoroughgood hesitou. - Por favor, Dr. Thoroughgood! Respeitamos a

sua natural relutância, mas...

- Ele dava a impressão de estar um pouco

nervoso naquele dia. Pareceu não concordar com a minha decisão.

- Obrigado, Dr. Thoroughgood. O doutor não

tem a menor razão para supor que a doente não estava satisfeita com o tratamento do hospital - e a simples ideia de tamanho absurdo trouxe um sorriso amarelo à fisionomia de Boon - ou que pudesse ter qualquer motivo de queixa contra o doutor ou o resto do pessoal...

- Nenhuma razão. A doente sempre

demonstrou estar satisfeita, feliz e confiante.

- Obrigado, Dr. Thoroughgood. - Boon tomou

outro apontamento. - E agora, irmã Myles, faça o favor.

Quando a irmã Myles se aproximou, Boon

inquiriu: Irmã Myles, na segunda-feira 12 de Setembro, dois dias depois da conferência entre o Dr. Thoroughgood e o Dr. Manson, o acusado foi visitar a doente?

- Foi.

- Era a hora habitual das suas visitas? - Não.

- Ele examinou a doente?

- Não... Sentou-se e conversou com ela. - Isso mesmo, irmã! Uma conversa longa e

séria, para usar as palavras do seu depoimento escrito. Mas, diga-nos agora, irmã, de viva voz, que sucedeu logo depois que se retirou o Dr. Manson?

- Passada hora e meia, mais ou menos,

declarou a n.º 17, isto é, Mary Boland: «Irmã, tenho pensado em muitas coisas e resolvi ir-me embora. A irmã tem sido muito boa para mim, mas quero deixar o hospital na próxima quarta-feira».

Boon interrompeu apressadamente: - Na próxima quarta-feira. Obrigado, irmã.

Era isso que eu queria pôr em evidência. Por enquanto, é só isso.

A irmã Myles afastou-se.

Com as lunetas que tinha na mão, o advogado

fez um gesto comedido de quem estava satisfeito.

- E agora... enfermeira Sharp, por obséquio. -

Uma pausa. - Enfermeira Sharp: está disposta a sustentar a sua declaração sobre o que fez o Dr. Manson na tarde de quarta-feira 14 de Setembro?

- Estou, sim. Eu presenciei tudo! - Deduzo pelo tom de voz, enfermeira, que a

senhora o acompanhou contra vontade.

- Quando descobri aonde tínhamos ido e que

esse tal Stillman não era médico, nem nada, eu fiquei...

- Chocada! - sugeriu Boon.

- Sim, isso mesmo! - berrou a enfermeira. -

Sempre pretendi em toda a minha vida profissional trabalhar para médicos prestigiosos, especialistas bem qualificados.

- Exactamente - cantarolou Boon. - Agora,

enfermeira Sharp, pretendo que esclareça novamente, perante o conselho, um ponto que considero de muita importância. O Dr. Manson colaborou de facto com Stillman na operação?

- Colaborou, sim - respondeu a enfermeira

num tom vingativo.

Nesse momento Abbey inclinou-se sobre a

mesa e, por intermédio do presidente, dirigiu à testemunha uma suave pergunta:

- Não é verdade que quando se deram esses

factos a enfermeira fora prevenida pelo Dr. Manson de que teria de deixar o emprego?

A enfermeira corou, perturbou-se,

resmungou:

- Sim, acho que sim.

Um minuto depois o depoimento estava

terminado.

Andrew sentiu dentro de si mesmo um certo

conforto. Abbey, pelo menos, continuava seu amigo.

Um tanto irritado com o aparte, Boon voltou-

se para a mesa do conselho:

- Sr. Presidente, meus senhores: eu poderia

apelar para outros testemunhos, mas sei perfeitamente como é precioso o tempo do conselho. Além disso, estou certo de já haver provado plenamente a acusação. Não há a menor sombra de dúvida de que a doente Mary Boland foi tirada, com absoluta conivência do Dr. Manson, dos cuidados de um eminente especialista num dos melhores hospitais de Londres para um instituto muito discutível. Isso por si só já constitui uma grave infracção da ética profissional. Mas está provado que o Dr. Manson se associou deliberadamente ao proprietário desse instituto que não é médico formado e registado, ajudando-o a realizar uma operação perigosa e que tinha sido contra-indicada pelo Dr. Thoroughgood, o especialista moralmente responsável pelo caso. Sr. Presidente, meus senhores: eu sustento que não estamos, como pode parecer à primeira vista, diante de um exemplo isolado, de uma irregularidade acidental, mas de uma infracção, preconcebida e quase sistemática do código médico.

Boon sentou-se, visivelmente satisfeito, e

começou a limpar as lunetas. Houve um momento de silêncio. Andrew conservou os olhos fitos no soalho. Tinha sido uma tortura para ele suportar a apresentação tendenciosa do caso. Dizia a si mesmo com amargura que estava sendo tratado como se fosse um criminoso.

Nesse momento o advogado de defesa deu

um passo à frente e preparou-se para falar, como de costume. Hopper mostrava-se agitado. O sangue subia-lhe ao rosto. Estava atrapalhado com a arrumação dos papéis. Mas o curioso é que conquistava com isso a simpatia do conselho.

- Então, Sr. Hopper? - disse o presidente. Hopper pigarreou.

- Sr. Presidente, meus senhores: devo declarar

desde já que não contesto as provas apresentadas pelo meu distinto colega. Não pretendo mesmo voltar a esses factos. O que nos importa verdadeiramente é a maneira de os interpretar. Existem, além disso, alguns pontos complementares que dão ao caso um aspecto muito favorável ao meu constituinte.

«Ainda não foi dito, por exemplo, que a

menina Boland era, de início, cliente do Dr. Manson, uma vez que ela o consultou antes de conhecer o Dr. Thoroughgood, em 11 de Julho. Além disso, o Dr. Manson estava pessoalmente interessado no caso, por se tratar da filha de um amigo íntimo. Assim, ele sempre a considerou sob a sua própria responsabilidade. Devemos reconhecer, com toda a franqueza, que a acção do Dr. Manson foi absolutamente mal orientada. Mas observo respeitosamente que ela não foi desonesta nem de má fé.

«Já ouvimos referências a essa ligeira

discordância entre o Dr. Thoroughgood e o Dr. Manson sobre o tratamento. Compreendendo-se o grande interesse do Dr. Manson neste caso, não deixa de ser natural que quisesse retomá-lo nas suas próprias mãos. Também não deixa de ser natural que quisesse evitar um aborrecimento para o seu colega mais velho. Foi esta, e nenhuma outra, a razão do subterfúgio a que o Sr. Boon aludiu com tanta ênfase.

Então Hopper fez uma pausa, tirou o lenço e

tossiu. Tinha o ar de quem se aproxima de um ponto mais difícil.

- E agora chegamos à questão das relações

com Stillman e Bellevue. Presumo que os ilustres membros do conselho não desconheçam o nome do Sr. Stillman. Embora não seja médico diplomado, goza de certa reputação e diz-se mesmo que conseguiu levar a bons resultados alguns casos duvidosos.

O presidente interrompeu-o com solenidade: - Sr. Hopper, que pode saber o senhor, um

advogado, sobre esses assuntos?

- De acordo - apressou-se Hopper a desculpar-

se. - O ponto que desejo frisar é que o Sr. Stillman parece um homem bem intencionado. Ora aconteceu que as suas relações com o Dr. Manson datam de há muitos anos quando escreveu uma carta em que felicitava o meu cliente por um estudo sobre os pulmões. Quando o Sr. Stillman veio montar aqui a sua clínica, os dois tiveram ocasião de travar relações pessoais, que em nada diziam respeito à profissão. Deste modo, embora tenha sido um acto mal pensado, não deixa de ser natural que o Dr. Manson, à procura de um local onde pudesse tratar a menina Boland, levasse em conta a conveniência que Bellevue lhe oferecia. O meu colega definiu Bellevue como um estabelecimento muito discutível. Sobre esse ponto creio que o conselho deve ter interesse em ouvir a doente. Menina Boland, faça favor.

Quando Mary se ergueu, todos os membros

do conselho olharam para ela com vincada curiosidade. Embora estivesse nervosa e não tirasse a vista de Hopper, não olhando uma única vez para Andrew, parecia perfeitamente bem em saúde normal.

- Menina Boland - disse Hopper. - Quero que

nos diga com franqueza: teve algum motivo de queixa durante a sua permanência em Bellevue?

- Não! Muito pelo contrário - pela moderação

estudada da resposta, Andrew compreendeu imediatamente que ela havia sido cuidadosamente industriada.

- Sentiu-se pior depois do tratamento? - Pelo contrário, estou melhor. - O tratamento aplicado foi realmente o que o

Dr. Manson sugeriu à menina na primeira consulta que lhe fez em... deixe-me ver... em 11 de Julho?

- Foi.

- Acha necessário estabelecer este ponto? -

perguntou o presidente.

- Nada mais tenho a perguntar à testemunha -

disse Hopper apressadamente.

Quando Mary se sentou, o advogado estendeu

as mãos para a mesa do conselho, no seu estilo suplicante.

- O que pretendo sugerir, senhores, é que o

tratamento efectuado em Bellevue foi, na verdade, o tratamento prescrito pelo Dr. Manson, embora aplicado, talvez sem a devida ética, por outras pessoas. Sustento, portanto, que nenhuma cooperação profissional entre Stillman e o Dr. Manson houve na verdadeira significação do acto. Gostaria de interrogar o Dr. Manson.

Andrew levantou-se, com a terrível

consciência da sua posição, sentindo todos os olhares convergirem para ele.

Estava pálido e emocionado. Tinha na altura

do estômago uma sensação de vácuo e de frio. Ouviu Hopper dirigir-lhe a palavra.

- Dr. Manson teve qualquer lucro financeiro

com a sua pretensa colaboração com o Sr. Stillman?

- Absolutamente nenhuma.

- Tinha qualquer motivo oculto, qualquer

interesse objectivo para fazer o que fez?

- Não!

- Tinha qualquer prevenção pessoal contra o

seu colega mais antigo, Dr. Thoroughgood?

- Não! Sempre foi muito amável para comigo.

Apenas... as nossas opiniões não coincidiram neste caso.

- Exactamente - interveio Hopper como que a

despachar. - Pode então asseverar ao conselho, honesta e sinceramente que não tinha a menor intenção de desrespeitar o código médico nem a mais remota ideia de que a sua conduta era de qualquer modo desonesta?

- É a absoluta verdade. Hopper mal conteve um suspiro de alívio

quando, com um sinal de cabeça, convidou Andrew a sentar-se. Embora se sentisse obrigado a apresentar esse depoimento, receara a impetuosidade do cliente. Mas o perigo passara, felizmente, e Hopper compreendeu haver agora algumas possibilidades de êxito se não se alongasse muito na defesa.

Disse então, com ar contrito: - Não quero ocupar por mais tempo a atenção

do conselho. Procurei mostrar que o Dr. Manson cometeu apenas um erro lamentável. Apelo não somente para a justiça, mas também para a clemência do conselho, e, finalmente, gostaria de indicar à consideração dos ilustres juizes as atenuantes do meu constituinte. A sua carreira inspiraria orgulho a qualquer médico. Quantos futuros brilhantes não saíram da obscuridade porque um simples erro na vida não soube encontrar perdão e misericórdia! Espero, e até suplico, que este caso ora a ser julgado, não chegue também a tão triste resultado.

O tom de desculpa e de humildade que o

advogado assumiu produziu de facto efeito excelente no conselho.

Mas logo depois estava de pé o advogado de

acusação, com o propósito evidente de prejudicar a boa impressão do tribunal:

- Peço licença para fazer uma ou duas

perguntas ao Dr. Manson - voltou-se para o acusado e com um aceno convidou Andrew a levantar-se. - Dr. Manson, não compreendi bem a sua última resposta. Disse o doutor que não tinha a menor ideia de que a sua conduta fosse de qualquer modo desonesta. Entretanto, o senhor sabia que o Sr. Stillman não é formado em Medicina...

Andrew, desconfiado, encarou Boon. A

atitude do manhoso acusador durante todo o debate fizera-o sentir-se culpado de uma acção comprometedora. No vácuo gelado que tinha dentro de si mesmo foi-se acendendo uma pequena labareda. Disse de modo bem claro:

- Sim, eu sabia que ele não era formado. Boon esboçou um ligeiro gesto de satisfação.

Comentou, num tom sardónico:

- Ah! Sabia? Sabia, não é verdade? E nem isso,

ao menos, lhe serviu de obstáculo?

- Não, nem isso. - Andrew repetiu as

palavras do advogado com súbita amargura. Sentiu fugir-lhe o domínio de si mesmo. Respirou cem força. - E agora, Sr. Dr. Boon, já que tive de escutar algumas perguntas suas, dá licença para que eu também lhe faça uma? Já ouviu falar de Pasteur?

- É claro! - Havia espanto na resposta do

advogado. - Quem ainda não ouviu falar dele?

- Muito bem! Quem não ouviu falar nele? Mas

naturalmente o senhor não sabe e é bom que eu lhe explique: Pasteur, a maior de todas as figuras da medicina científica, não era formado. A mesma coisa aconteceu com Ehrlich, o homem que deu à medicina o remédio melhor e mais específico de todos os tempos12. O mesmo se passou com Haffkine, que combateu a peste da Índia muito mais eficientemente do que o faria qualquer desses cavalheiros diplomados. O mesmo com

12 O 914. (N. do T.)

Macthnikoff, cuja grandeza só é inferior à de Pasteur. Perdoe-me ter de recordar-lhe todos esses factos elementares, Sr. Dr. Boon. Servem para demonstrar que nem todos os que lutam contra as doenças sem estarem inscritos no Registo Médico têm de ser necessariamente loucos ou charlatães.

Estabeleceu-se um silêncio carregado de

apreensão. Até então o julgamento decorrera numa atmosfera de preguiçosa sonolência, de formalismo bafiento, como num tribunal de pequenos delitos. Mas todos os membros do conselho estavam agora despertos, interessados. Abbey, especialmente, não deixara de fitar Andrew, com uma atenção estranha e intensa.

Passou-se um momento. Pondo as mãos na

cara, Hopper resmungava, apavorado. Tinha agora a certeza de ser uma causa perdida. Embora deploràvelmente desconcertado, Boon fez um esforço para se endireitar.

- Sim, sim, conhecemos todos esses nomes

ilustres. Mas, certamente, não pretende comparar Stillman com eles.

- Porque não? - rebateu Andrew, ardendo de

indignação. - Só são ilustres porque já morreram. Enquanto vivo Koch foi troçado, insultado mesmo, por Virchow! Agora Koch já não é troçado nem insultado. Reservamos as nossas troças e os nossos insultos para homens como Spahlinger e Stillman. Aí está outro exemplo para o qual chamo a sua atenção... Spahlinger! Um homem de ciência com pensamentos grandes e originais. Não é formado, não é médico. Não tem qualquer título universitário. Mas já fez mais pela medicina do que milhares de médicos com os seus diplomas, esses doutores que andam por aí, de automóvel, extorquindo dinheiro, fazendo o que bem entendem, enquanto Spahlinger é combatido, menosprezado, acusado mesmo, tendo de enfrentar agora a miséria depois de ter gasto toda a fortuna em pesquisas e experiências.

- Devemos concluir daí - Boon procurou

assumir um ar sardónico - que o doutor tem admiração igual por Richard Stillman?

- Tenho, sim! É um grande homem. É um

homem que dedicou toda a sua vida ao bem da Humanidade. Tem enfrentado a inveja e o preconceito, e a calúnia também. Mas já conseguiu impor-se na sua terra. Aqui parece que não. Contudo, estou convencido de que ele já fez mais contra a tuberculose neste país do que qualquer outro homem vivo. Está fora da classe médica, é verdade! Mas dentro dela há muitos que tratam casos de tuberculose a vida inteira e ainda nada fizeram que se aproveite no combate a esse pesadelo da Humanidade.

Houve uma grande sensação na sala. Os olhos

de Mary Boland, fixos em Andrew, brilhavam de entusiasmo e inquietação ao mesmo tempo. De modo sorna e melancólica, Hopper ia arrumando os papéis dentro da sua pasta.

O presidente interveio:

- O doutor pesa bem o que está a dizer? - Perfeitamente!

Andrew segurou com mãos frenéticas o

encosto da cadeira, sabendo muito bem que estava a ser levado a pronunciar graves inconveniências, mas disposto a sustentar as suas opiniões. Anelante, no auge da tensão nervosa, dominava-o um estranho desinteresse pelo que lhe pudesse acontecer. Se tinha de ser expulso, queria ao menos sê-lo em beleza. Continuou, fremente:

- Escutando o libelo que foi apresentado hoje

aqui contra o meu procedimento, não me cansava de perguntar a mim mesmo que mal havia eu feito. Não quero trabalhar com charlatães. Não creio em remédios de pura mistificação. Por isso mesmo, desprezo esses reclames de vistosos rótulos científicos que enchem todos os dias a minha caixa postal. Bem sei que estou falando com franqueza que me prejudica, mas não o posso evitar. Devemos ser muito mais liberais do que somos. Se concluirmos que tudo fora da classe está errado e que tudo dentro dela está certo, então será a morte do progresso científico. Dentro em breve constituiremos apenas uma sociedade comercial. Já é tempo de começarmos a pôr em ordem a nossa própria casa. E não me refiro apenas às questões superficiais. Devemos começar pelo princípio, temos de pensar que os médicos saem das faculdades com uma instrução desesperadoramente insuficiente. Quando me formei, eu era um verdadeiro perigo para a sociedade. Só conhecia os nomes de algumas doenças e dos remédios que, segundo me ensinaram, deviam ser aplicados. Nem mesmo sabia manejar um simples fórceps. Tudo o que sei o aprendi depois de sair da faculdade. E quantos médicos existem por aí que nada sabem além dos rudimentos aprendidos com a prática? Os pobres diabos não têm tempo para estudar, andam sempre atarefadíssimos. E isso acontece porque toda a nossa organização está caquética. Devíamos ser agrupados em unidades científicas. Deviam existir cursos obrigatórios para médicos já diplomados. Devíamo-nos esforçar por considerar a ciência como a nossa única preocupação. Devíamos acabar com o velho frasco de remédio. Devíamos oferecer a cada clínico uma oportunidade para estudar, para cooperar nas pesquisas.

«E que diremos a respeito da comercialização

da medicina? Do tratamento inútil, para ganhar dinheiro? Das operações desnecessárias? Dos milhares de ineficientes preparados pseudocientíficos que receitamos? Não será já tempo de acabar com tudo isso? Toda a classe é exageradamente intolerante e exclusivista. Caímos na apatia e na inércia. Não pensamos em avançar, em alterar o nosso sistema. Afirmamos que vamos fazer muita coisa e nada fazemos. Há muitos anos que nos queixamos das infames condições de trabalho que as nossas enfermeiras têm de defrontar e dos ordenados miseráveis que recebem. E que providências já foram tomadas? As enfermeiras continuam com o mesmo trabalho excessivo, ganham a mesma miséria. Falo nisso apenas como um exemplo, pois o assunto é realmente mais sério, muito mais profundo. A verdade é que não damos oportunidades, nada facilitamos aos nossos pioneiros, aos que promovem o avanço da ciência. Por ter tido coragem de servir de anestesista a Jarvis, quando este começava os seus trabalhos, o nome do Dr. Hexam foi expulso da actividade da sua profissão. Dez anos mais tarde, quando Jarvis curou centenas de doentes que os senhores cirurgiões não tinham conseguido sequer melhorar, quando Jarvis foi galardoado com um título de nobreza, quando todas as «pessoas distintas» proclamaram que ele era um génio, então compreendemos o erro da nossa atitude e Jarvis recebeu um diploma honorário de doutor em Medicina, mas nessa altura o pobre Hexam já tinha morrido de desespero.

«Eu sei que já cometi muitos erros na minha

carreira, e alguns graves. Sou o primeiro a deplorá-lo. Mas não errei com Richard Stillman nem me arrependo do que fiz com ele. Só peço aos senhores que olhem para Mary Boland. Estava tuberculosa quando ingressou no sanatório de Stillman. Agora está curada. Se querem uma justificação para o meu procedimento infame, ei-la aqui, nesta sala, diante de todos.»

Terminou abruptamente. Sentou-se. Na mesa

do conselho, a fisionomia de Abbey irradiava uma luz estranha.

Boon, ainda de pé, encarava Manson, confuso,

sem saber o que pensar. Depois, reflectindo vingativamente que já dera bastante corda ao médico para que se enforcasse, inclinou-se para o presidente e retomou a sua cadeira.

Durante um momento pesou na sala um

silêncio significativo.

E o presidente fez a declaração habitual: - Peço ao auditório que evacue a sala. Andrew saiu com os outros. Agora

desaparecera a calma nervosa, e todo o seu corpo arquejava como uma máquina que arrasta um peso enorme. Sentia-se sufocado na atmosfera da sala do conselho. Não podia suportar a presença de Hopper, Boland, Mary e das outras testemunhas. Principalmente confrangia-o o ar de melancólica censura da cara do advogado. Sabia que procedera como um desatinado, como um louco lastimável com a mania da declamação. A sua honestidade parecia-lhe agora uma loucura.

Sim, fora uma loucura o sermão que pregara

ao conselho. Não parecera um médico, mas um desses oradores improvisados do Hyde Park. Acabou-se! Deixaria de ser médico dentro em pouco. com certeza o seu nome seria riscado do Registo.

Foi para os lavabos, sentindo a necessidade de

estar só. Sentou-se na ponta de uma das bacias. Num gesto distraído, procurou um cigarro. Mas o fumo não tinha gosto na sua boca seca. Atirou o cigarro ao chão, esmagando-o com o salto do sapato. Era estranho como lhe custava ver-se forçado a abandonar a profissão, apesar das coisas duras, mas verdadeiras, que dissera sobre ela momentos antes. Reflectiu que podia ficar a trabalhar com Stillman.

Mas não era esse o trabalho que pretendia.

Não! Queria ficar ao lado de Denny e Hope, seguir a sua própria inclinação, cravar a flecha das suas aspirações na ilharga da apatia e do conservantismo. Mas tudo tinha de ser feito dentro da profissão, pois na Inglaterra nunca poderia ser feito fora dela. Agora, Denny e Hope tinham de guarnecer sozinhos a nau da aventura.

Uma grande onda de amargura invadiu o

coração de Andrew. Era desolador o futuro que se abria diante dos seus olhos. Já sentia naquele momento a mais dolorosa de todas as sensações: a de se ver excluído. Mais ainda: a sensação de ser um homem acabado, de que já chegara ao fim de tudo.

O ruído de passos no corredor fê-lo levantar-

se pesadamente, e encaminhando-se para a sala do conselho dizia a si mesmo, severamente, que só havia uma coisa a fazer: não dar parte de fraco. Pedia a Deus que lhe desse forças para não mostrar qualquer sinal de abatimento, de subserviência.

Com os olhos cravados no chão, ninguém viu.

Nem mesmo olhou para a mesa do conselho. Uma atitude passiva, estática. Ecoavam alucinadoramente dentro de si todos os rumores inexpressivos da sala o arrastar das cadeiras, as tosses, os cochichos, mesmo o barulho de alguém que batia distraído com um lápis.

De repente, o silêncio. Espasmòdicamente

todo o corpo de Andrew foi tomado de súbita rigidez. Era o fim.

O presidente tomou a palavra. Falou devagar,

de modo impressivo.

- Andrew Manson, tenho a informá-lo que o

conselho examinou com a maior atenção a acusação apresentada contra si, assim como as provas apresentadas no processo. Reconhecendo embora as circunstâncias peculiares do caso e a forma absolutamente não ortodoxa com que foi interpretada pelo acusado, o conselho é de opinião de que o doutor procedeu de boa fé e com sincero propósito de obedecer ao espírito da lei que exige o mais alto grau de moralidade na conduta profissional. Informo-o, portanto, que o conselho não vê razão para ordenar o cancelamento do seu nome no Registo Médico.

No espanto do primeiro instante, Andrew não

pôde compreender. De repente, estremeceu num abalo nervoso. Não tinha sido expulso! Estava livre, com o nome limpo, vingado!

Levantou a cabeça, ainda vacilante, na

direcção da mesa do conselho. Na confusão estranha de todas as fisionomias que se voltavam para ele, só uma pôde distinguir, muito nítida: era a de Robert Abbey. A compreensão que lia nos olhos do grande médico ainda mais o perturbou. Descobriu, numa súbita intuição, que fora salvo por Abbey.

Agora já não podia apresentar ar de

indiferença. com voz fraca (embora se dirigisse ao presidente, era a Abbey que falava) murmurou:

- Muito obrigado, senhor.

- O caso está encerrado - disse o presidente. Andrew levantou-se e viu-se logo cercado

pelos amigos, por Con, Mary, o espantado Sr. Hopper, por gente a quem nunca vira antes, mas que lhe apertava a mão, que o felicitava calorosamente. Sem saber como, encontrou-se em plena rua, ainda a receber nas costas as palmadas de felicitação de Con. Sentiu um estranho conforto para a confusão nervosa de que estava possuído nos autocarros que passavam, no movimento normal do trânsito. Era possuído de vez em quando por assomos de alegria, indizível êxtase da sua libertação. De repente viu Mary a fitá-lo, com os olhos ainda cheios de lágrimas.

- Se eles tivessem conseguido fazer alguma

coisa contra si... depois de tudo que o doutor fez por mim, eu... eu mataria aquele velhinho da presidência.

- Com os diabos - Con não pôde conter-se. -

Não sei porque te preocupaste tanto. Logo que o velho Manson começou a falar, tive a convicção de que ele ia cilindrar toda aquela gente!

Andrew sorria ainda sem força, hesitante,

contente.

Chegaram os três ao Museum Hotel, depois

da uma hora. Denny estava à espera, no hall. Foi ao encontro deles, num passo balançado, com um sorriso sereno. Hopper telefonara-lhe, dando a notícia. Mas não fez comentários.

Disse apenas:

- Estou com fome. Mas aqui não podemos

comer! Vamos todos a um restaurante. Almocem comigo.

Almoçaram. Embora nenhum sinal de emoção

transparecesse na sua fisionomia, e conversasse principalmente sobre automóveis com Boland, Denny fez do almoço uma comemoração alegre do acontecimento. Ao saírem da mesa, disse a Andrew:

- O nosso comboio sai às quatro. Hope está em

Standborough, à nossa espera. Podemos comprar muito barata a tal casa. Tenho de fazer algumas compras. Podemo-nos encontrar na estação às quatro menos dez.

Andrew fitou Denny, compreendendo a sua

amizade, dando valor a tudo quanto lhe devia desde o primeiro encontro no barracão de madeira de Blaenelly. Perguntou de repente:

- E se eu fosse irradiado da classe médica? - Mas o Andrew não foi! - Phillip balançou a

cabeça. - E tomarei providências para que isso nunca aconteça.

Enquanto Denny fazia as suas compras,

Andrew acompanhou Con e Mary à estação de Paddington, onde iam tomar o comboio. Enquanto esperavam na plataforma, agora um tanto silenciosos, repetiu o convite que já fizera.

- Vocês devem aparecer em Standborough.

Venham ver-me.

- Sim, iremos - garantiu Con. - Na Primavera...

Assim que a dona-elvira estiver consertada.

Quando partiu o comboio dos Boland,

Andrew viu que ainda dispunha de uma hora. Instintivamente num imperativo do seu coração, Manson tomou um autocarro.

Em poucos minutos estava em Kensal Green.

Entrou no cemitério e ficou muito tempo junto da sepultura de Christine, pensando um turbilhão de coisas. A tarde era luminosa e fresca, com essa brisa estimulante de que ela gostava tanto. Sobre a cabeça de Andrew, num galho de árvore, um pardal chilreou alegremente. E quando Manson partiu afinal, apressando-se para não perder o comboio, viu que as nuvens acumuladas no horizonte tomavam a forma de uma cidadela.

Você terminou A Cidadela

A. J. Cronin

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