A Cidadela
Capítulo 3
Não foi o colchão duro de palha que fez
Andrew dormir tão mal naquela noite, mas a ansiedade crescente provocada pelo caso de Glydar Place. Seria enterite? A observação de Denny ao despedir-se criara uma nova fonte de dúvidas e desconfianças no seu espírito já incerto. Receando ter deixado passar despercebido algum sintoma capital, foi com dificuldade que dominou o impulso de levantar-se e ir examinar novamente a doente a uma hora tão imprópria da madrugada. Por certo, na agitação e no desassossego da longa noite sem repouso, chegou a perguntar a si mesmo se afinal de contas sabia alguma coisa de medicina.
A natureza de Manson era
extraordinariamente receptiva.
Provavelmente, vinha da mãe essa
particularidade, uma mulher do Highland, que, quando menina, tinha visto da sua casa, em Ullapool, a aurora boreal brilhar no céu gelado. O pai, John Manson, um pequeno lavrador de Pifeshire, tinha sido um homem sério, cuidadoso e arranjado.
Nunca chegou a ser grande coisa na sua terra,
e quando morreu, como guarda real, no último ano da guerra, deixou os negócios do seu modesto estábulo numa triste desordem. Durante doze meses Jessie Manson lutou para explorar a granja como fornecedora de lacticínios, tendo mesmo de fazer em pessoa a entrega do leite quando compreendeu que Andrew estava demasiadamente ocupado com os seus livros para executar tal serviço. Foi então que se agravou a tosse a que durante anos não ligara importância.
De uma hora para outra a pobre rendeu-se ao
mal dos pulmões que devasta esse tipo de pele macia e cabelos negros.
Aos dezoito anos Andrew viu-se sozinho
como estudante do primeiro ano da Universidade de St. Andrew mantido por uma bolsa escolar de quarenta libras anuais, porém sem um tostão de seu. Quem o salvou foi a Dotação Glen, essa fundação tipicamente escocesa que, na terminologia ingénua do finado Sir Andrew Glen, «convida estudantes pobres e de valor com o nome de Andrew a solicitarem um empréstimo que não exceda cinquenta libras anuais, fornecido durante cinco anos, desde que se preparem conscienciosamente para reembolsá-los depois de formados».
Graças à Dotação Glen e a alguma fome
suportada de ânimo alegre, Andrew conseguiu fazer todo o curso em St. Andrew e, mais tarde, na Escola Médica de Dundee.
Profundamente honesto a ponto de não olhar
às conveniências próprias, a sua dívida à Dotação fê-lo seguir apressadamente para Gales ao Sul, onde assistentes recém-formados poderiam obter remuneração mais elevada. Mas, embora o seu salário fosse de duzentas e cinquenta libras anuais, se não existisse esse compromisso teria preferido uma nomeação de médico para o hospital de Edimburgo, mesmo ganhando dez vezes menos.
E ei-lo agora em Blaenelly, às voltas com o
primeiro cliente. Levantou-se, fez a barba, vestiu-se, sempre preocupado com o caso. Engoliu à pressa o primeiro almoço e depois, apressadamente, voltou ao quarto. Abriu a mala e tirou de lá uma caixinha de couro azul. Abriu-a e contemplou carinhosamente uma medalha que ela continha a medalha de ouro Hunter, concedida anualmente na Universidade de St. Andrew ao melhor aluno da Clínica Médica. Ele, Andrew Manson, conquistara-a! Prezava-a mais do que tudo, chegando a considerá-la um talismã, a sua inspiração para o futuro. Mas nessa manhã não foi tanto com orgulho como numa invocação secreta que ele a contemplou, como se tentasse restaurar a confiança em si mesmo. E então apressou-se a sair para o serviço matinal do dispensário.
Quando Andrew chegou ao barracão de
madeira já lá encontrou Dai Jenkins, que tirava água da bica para uma grande vasilha de louça. Era um sujeito miúdo e esperto, de veias arroxeadas, faces encovadas, olhos inquietos, que pareciam espiar todos os pontos ao mesmo tempo.
Nas pernas finas usava as calças mais
apertadas que Andrew tinha visto. Recebeu Manson com modos amáveis e insinuantes:
- Doutor, não precisa de vir tão cedo! Eu
mesmo posso renovar os remédios já prescritos e preparar as receitas antes da sua chegada. A Sr.a Page mandou fazer um carimbo com a chancela do médico quando ele caiu doente.
- Obrigado - respondeu Andrew. - Prefiro
tratar eu mesmo desses assuntos.
Fez uma pausa, distraído momentaneamente
da sua preocupação pela conduta do encarregado do dispensário.
- Que ideia é essa?
Jenkins piscou um olho.
- A água tem outro sabor saindo dali. Nós
sabemos o que significa, na verdade, a velha água da bica, hem, doutor?! Mas os doentes não sabem. Havia de parecer um verdadeiro idiota se eles me vissem encher com água da torneira os seus frascos de remédio...
Era evidente que o homenzinho estava a
querer fazer-se comunicativo, mas neste momento uma voz estridente partiu dos fundos da casa.
- Jenkins! Jenkins! Preciso de si
imediatamente!
Jenkins pulou como um cão amestrado ao
estalar do chicote do dono. Disse a tremer:
- Desculpe-me, doutor. É a Sr.a Page que me
chama.
Por sorte havia pouca gente para o serviço do
dispensário. Às dez e meia já estava terminado. Depois de recebida de Jenkins a lista das visitas a fazer, Andrew saiu no cabriolet guiado por Thomas. Numa expectativa „quase" dolorosa, ordenou ao velho criado que seguisse directamente para o n.º 7 da Glydar Place.
Vinte minutos depois saiu do n.º 7 pálido,
apertando os lábios, com uma expressão estranha no rosto. Bateu a duas portas adiante, no n.º 11, atravessou a rua para o 18. Do 18 dobrou a esquina para Radnoor Place, onde havia mais duas visitas marcadas por Jenkins como feitas na véspera.
No espaço de uma hora, ao todo sete visitas
ali ao redor.
Cinco delas, incluindo a de Glydar Place, que
estava agora com um aspecto característico, eram casos nítidos de enterite.
Durante os últimos dez dias Jenkins estivera a
tratá-los com carbonato de cal e ópio. E agora, por maiores que tivessem sido os seus atabalhoados esforços na noite anterior, Andrew compenetrou-se, com um arrepio de apreensão, de que tinha de enfrentar um surto de tifo.
Foi num estado quase de pânico que ele
terminou tão rapidamente quanto possível o resto da sua peregrinação.
Durante o almoço meditou sobre o problema
num silêncio gelado, enquanto a Sr.a Page comia rim de vitela, explicando alegremente:
- Mandei comprá-lo para o Dr. Page mas
parece-me que ele não gostou.
Andrew viu que da Sr.a Page poderia obter
precárias informações e nenhuma ajuda. Achou que devia falar ao próprio médico.
Mas, quando subiu ao quarto dele, as cortinas
estavam corridas e Edward jazia prostrado com uma terrível dor de cabeça, a face muito congestionada e vincada pelo sofrimento.
Embora convidado a sentar-se um pouco,
Andrew sentiu que seria cruel trazer-lhe naquele momento um motivo de inquietação. Ao levantar-se para sair, depois de alguns minutos à cabeceira do médico, contentou-se em perguntar:
- Dr. Page, se tivermos um surto infeccioso
que devemos fazer?
Houve uma pausa. Page respondeu de olhos
fechados, sem se mover, como se o simples acto de falar já fosse bastante para agravar a sua enxaqueca.
- Tem sido sempre muito difícil. Não temos
hospital, só contamos com uma enfermaria de isolamento. Se estiver muito atrapalhado, telefone para Griffiths, em Toniglan. Fica a quinze milhas daqui. É o subdelegado de saúde do distrito. - Outra pausa mais longa do que a primeira. - Mas não espere dele grande coisa.
Animado por essa informação, Andrew
apressou-se a descer e pediu ligação para Toniglan. Enquanto esperava com o receptor no ouvido, viu que Annie o espiava pela porta da cozinha.
- Alo, Alo! É da casa do Dr. Griffiths, de
Toniglan? Conseguira ligação afinal.
Uma voz de homem respondeu com muita
precaução:
- Quem deseja falar com ele? - Quem fala aqui é Manson, de Blaenelly. O
assistente do Dr. Page. - O tom de voz era estridente. - Tenho aqui cinco casos de tifo. Preciso que o Dr. Griffiths venha imediatamente.
Houve uma pausa misteriosa. Depois, de
repente, a resposta veio, cheia de desculpas, numa vozinha cantada, bem do País de Gales:
- Sinto muito, doutor, lamento sinceramente,
mas infelizmente o Dr. Griffiths foi para Swansea. Assunto de serviço, coisa importante.
- E quando estará de volta? - berrou Manson.
A linha estava horrível.
- Para falar precisamente, doutor, não lhe
posso dar uma informação exacta.
- Mas ouça...
Houve um tique do outro lado do fio.
Desligaram calmamente.
Manson praguejou em voz alta, com
violência nervosa:
- Diabo o carregue! Suponho que foi o próprio
Griffiths.
Pediu o número outra vez, mas não conseguiu
ligação.
Contudo, numa teimosia desesperada, já
estava para telefonar novamente quando, ao virar-se, viu que Annie entrara no vestíbulo e estava a contemplá-lo humildemente, com as mãos enfiadas nos bolsos do avental. Era uma mulher de quarenta e cinco anos talvez, asseada, com expressão de serenidade paciente e ajuizada.
- Ouvi sem querer, doutor - disse ela. - Nunca
encontrará o Dr. Griffiths em Toniglan durante o dia. Quase todas as tardes vai jogar o golf em Swansea.
Ele respondeu com irritação, dominando o nó
que lhe apertava a garganta.
- Mas creio que foi com ele mesmo que falei. - Pode ser. - Ela sorriu levemente. - Já ouvi
contar que mesmo quando não vai a Swansea diz que foi. - Fitou-o com tranquila simpatia antes de voltar para a cozinha. - Se eu fosse o doutor não perderia tempo com ele.
Andrew pendurou o auscultador com um
sentimento profundo de indignação e tristeza. Resmungando, saiu para visitar os doentes mais uma vez. Quando voltou, já estava na hora da consulta nocturna. Durante hora e meia ficou sentado no cubículo dos fundos que tinha o nome pomposo de consultório. Padeceu na divisão abafada até sentir as paredes ressumando humidade e o local insuportável com as exalações dos corpos suados. Mineiros com joelhos contundidos, dedos cortados, nistagmos, reumatismo crónico.
As mulheres deles também, e as crianças com
tosse, resfriamentos, contusões todas as pequenas dores da Humanidade.
Numa outra ocasião até acharia graça em ver-
se posto à prova por aquela gente morena e de faces descoradas.
Mas agora, perturbado pela impressão que o
dominava, impacientava-se com a narrativa daquelas doenças sem importância. Contudo, durante esse tempo uma decisão já se esboçava no seu espírito. Enquanto escrevia receitas, auscultava pulmões e dava conselhos médicos, ia pensando consigo mesmo: «Foi ele quem me abriu os olhos. Não o tolero. Sim, tenho-lhe uma aversão dos diabos. Mas não há remédio. Tenho de o procurar».
Às nove e meia da noite, quando saiu o último
cliente, levantou-se com a decisão estampada na fisionomia.
- Jenkins, onde mora o Dr. Denny?
Fechando rapidamente a porta da frente, a fim
de impedir que pudesse entrar mais alguém, o empregado voltou-se, deixando transparecer no rosto uma expressão de horror quase cómico.
- O doutor não deve querer entender-se com
esse sujeito. A Sr.a Page... não gosta dele.
Andrew, irritado, perguntou: - E porque não gosta dele a Sr.a Page? - Pela mesma razão por que os outros não
gostam. Tem sido grosseiríssimo para com ela.
Jenkins parou, mas, vendo a expressão de
Manson, acrescentou com hesitação:
- Ah, bem, se tem empenho em saber, ele mora
em casa da Sr.a Seager, na Chapei Street, 49.
Ei-lo novamente na rua. Andara o dia inteiro,
mas nem dava pelo seu próprio cansaço, tal o sentido da responsabilidade, tal a preocupação com aqueles casos, pesando, pesando cada vez mais, no seu espírito. Foi principalmente alívio o que sentiu quando, ao chegar a Chapei Street, soube que Denny estava em casa. A dona da casa mandou-o entrar.
Se ficou surpreendido ao vê-lo, Denny não o
demonstrou.
Perguntou-lhe apenas, depois de o encarar
longa e persistentemente:
- Então?! Ainda não matou alguém? Ainda de pé, no limiar da sala quente e em
desordem, Andrew corou até à raiz dos cabelos. Mas, fazendo um grande esforço, dominou os nervos e o orgulho e disse abruptamente:
- O doutor tinha razão. Era enterite. Mereço
ser castigado por não haver descoberto isso. Já tenho em mãos cinco casos. Não me é agradável ter de vir até aqui, mas não sei o que fazer. Telefonei ao subdelegado de saúde e ele não me deu a mais insignificante ajuda. Tenho de apelar para si.
Esparramado numa poltrona, perto do fogo,
escutando, de cachimbo na boca, Denny fez afinal um gesto de má vontade:
- É melhor entrar. - E com súbita irritação: -
Oh! Que diabo, puxe uma cadeira! Não fique aí de pé como se estivesse em penitência. Quer beber alguma coisa? Não! Logo vi que não havia de querer.
Embora lhe custasse aceitar o convite, Andrew
sentou-se e acendeu mesmo um cigarro para disfarçar a sua desorientação.
Denny não parecia ter pressa. Pôs-se a
acariciar o cão com a ponta do chinelo. Mas afinal, quando Manson acabou de fumar o cigarro, disse com um movimento de cabeça:
- Querendo pode olhar para isso! E indicou a mesa onde estava o microscópio,
um óptimo Zeiss, e algumas lâminas. Andrew focalizou uma lâmina, derramou sobre ela uma gota de óleo e pôde ver o enxame de bactérias de forma alongada.
- Está preparado de modo muito primitivo, é
claro - disse Denny com vivacidade e cinismo, como se antecipasse a crítica. - Na verdade está praticamente atamancado.
- Não sou rato de laboratório, graças a Deus.
Se sou alguma coisa, é cirurgião. Mas aqui, neste regime desgraçado de clínica, temos de ser pau para toda a obra. Aliás, não há engano possível, mesmo a olho nu. Eu preparei na minha estufa os germes em cultura de agar.
- Também está a tratar de casos de tifo? -
perguntou Andrew com vivo interesse.
- Quatro. Todos na mesma zona dos seus. E acrescentou:
- Esses micróbios vêm da cisterna de
Glydar Place.
Andrew fitou-o espantado, ansioso por
perguntar uma porção de coisas, começando a compreender a correcção do trabalho do outro e apreciando mais do que tudo a indicação do foco da epidemia.
- O doutor compreende - continuou Denny no
mesmo tom amargo e irónico. - O paratifo é mais ou menos endémico por estas bandas. E mais cedo ou mais tarde vamos ter uma epidemiazita. A rede principal de esgotos é a culpada de tudo. Verte como um crivo e os esgotos infiltram-se na maioria das cisternas da parte baixa da cidade. Já martelei a paciência de Griffiths com este assunto, mas acabei por ficar cansado. É um porco parvo, incompetente, evasivo e preguiçoso. A última vez que lhe telefonei disse-lhe que ia acabar com a sua incapacidade na primeira ocasião que o encontrasse. Foi por isso provavelmente que ele se mostrou hoje tão macio consigo.
- Isto é uma vergonha horrível! - explodiu
Andrew, deixando-se invadir por uma crise súbita de indignação.
Denny encolheu os ombros.
- Ele não quer pedir providências ao conselho,
com medo que das despesas resulte um corte nos seus proventos.
Houve um silêncio. Andrew desejava
ardentemente que a conversa prosseguisse. Não obstante a hostilidade de que se achava possuído em relação a Denny, encontrava um estranho estímulo no seu pessimismo, no seu cepticismo, no seu cinismo patente e glacial. Entretanto, mais nenhum pretexto tinha para prolongar a visita. Levantou-se da cadeira, junto da mesinha do microscópio e encaminhou-se para a porta, ocultando o que sentia e esforçando-se por exprimir a sua gratidão num agradecimento formal.
- Fico-lhe muito grato pela informação. O
doutor fez-me ver claramente a situação. Andava preocupado com a origem da doença e já estava a pensar que o contágio fosse pessoal, mas, desde que o doutor localizou a origem nas cisternas, tudo se esclarece. De ora em diante toda a água de Glydar Place tem de ser fervida.
Denny levantou-se também e resmungou: - Griffiths é que devia ser posto a ferver. Depois retomou o seu ar irónico: - Agora, meu caro doutor, nada de protestos
comovidos. É um favor que lhe peço. Antes que este surto termine teremos provavelmente de nos suportar um ao outro. Venha visitar-me todas as vezes que se sentir com forças para me tolerar. Não temos muita vida de relação por aqui.
Lançou um olhar ao cão e concluiu
rudemente:
- Até um médico escocês pode ser bem-vindo,
não é assim, Sir John!
Sir John Hawkins varreu o tapete com a cauda,
deitando a língua de fora como a troçar também de Manson.
Contudo, ao voltar para casa, por Glydar
Place, onde deixou instruções rigorosas sobre a água, Andrew compreendeu que não detestava tanto Denny como havia pensado.