A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 4 de 55

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A Cidadela

Capítulo 4

Andrew entregou-se de corpo e alma, com

toda a energia da sua natureza ardente e impetuosa, à campanha contra a enterite. Amava o seu trabalho e julgava-se feliz por lhe ter aparecido tal oportunidade no começo da carreira.

Durante essas primeiras semanas trabalhou

como um negro, mas alegremente. Tinha a seu cargo todo o serviço da clínica, porém, mal dava conta da tarefa, voltava com entusiasmo aos seus casos de tifo.

Foi talvez protegido pela sorte na primeira

investida.

Antes de terminado o mês, todos os seus

doentes de enterite iam em franca convalescença e o surto do mal parecia circunscrito. Quando pensava nas suas precauções, tão rigorosamente tomadas água fervida, desinfecção e isolamento, papéis ensopados de ácido fénico em todas as portas, quilos de cloreto de cal que mandara vir por conta da Sr.a Page e que ele mesmo atirara aos esgotos de Glydar, quando pensava em tudo isso, dizia com satisfação:

«Tudo vai bem. Sei que não mereço tanto, mas

que diabo! Estou dando conta do recado!» Inspirava-lhe um prazer secreto e inconfessável o facto de os seus casos melhorarem mais depressa que os de Denny.

Este ainda o desconcertava, ainda o

exasperava. Acidentalmente encontravam-se muitas vezes por causa da vizinhança dos seus doentes e Denny regozijava-se por empregar todo o poder da sua ironia na tarefa comum.

Dizia que Manson e ele estavam a lutar

renhidamente com a epidemia e saboreava o dito com prazer vingativo. Contudo, apesar da permanente ironia, de dizer zombeteiramente:

«Não se esqueça, doutor, de que estamos

a reabilitar a honra de uma profissão gloriosa», tratava carinhosamente dos doentes, sentado à sua cabeceira, examinando-os a toda a hora, passando muito tempo junto dos leitos.

As vezes Andrew chegava quase a estimá-lo.

Era quando Denny deixava transparecer uma simplicidade tímida e fugidia. Mas logo depois prejudicava essa boa impressão com uma frase mal-humorada e sarcástica. Magoado e confuso, Andrew consultou certo dia o Anuário Médico na esperança de um esclarecimento. Havia nas estantes do Dr. Page um velho exemplar de uma edição de há cinco anos. Inseria, no entanto, algumas informações surpreendentes.

Apresentava Phillip Denny como

estudante laureado das Universidades de Cambridge e Guy, M. S. of England1, exercendo até àquela data a sua actividade profissional na cidade de Leeborough, em cujo hospital também desempenhava as funções de cirurgião titulado.

No dia 12 de Novembro, inesperadamente,

Denny telefonou-lhe.

- Manson, gostaria de o ver. Venha até aqui, às

três horas. É assunto importante.

- Está bem, irei.

Andrew foi almoçar preocupado. E enquanto

mastigava a sua magra refeição percebeu que Blodwen Page o observava de modo incisivo e impertinente.

- Quem foi que telefonou? Foi Denny, hem?

Não se meta com esse cavalheiro. Ele para nada presta.

Manson encarou-a friamente. - Pelo contrário, tem-me sido útil em muita

coisa.

- Pois continue com ele, doutor.

1 Abreviatura muito usada na linguagem médica para significar «Master in Surgery», isto é, «mestre em cirurgia». É o grau mais elevado de um operador na Inglaterra. (N. do T.)

Como sempre acontecia quando contrariada,

Blodwen explodiu num acesso de despeito:

- É um tipo maluco. Quase nunca receita.

Olhe, quando Megan Rhyes Morgan, que não pode passar sem remédio, o foi consultar, recomendou-lhe apenas que andasse a pé, duas milhas por dia, nas montanhas, e deixasse de enlamear-se no meio dos porcos. Foram essas exactamente as suas palavras. Ela veio procurar-nos depois disso e eu asseguro-lhe que desde então nunca mais deixou de ter as suas garrafinhas de óptimos remédios preparados por Jenkins. Oh! é um demónio grosseirão e torpe e ainda por cima abandonou a mulher não sei onde. Não vive com ela. Veja lá! Além disso, anda quase sempre bêbado. Fuja da sua companhia, doutor, e não se esqueça de que está a trabalhar por conta do Dr. Page.

Quando ela instilou essa insinuação torpe

Andrew sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Fazia tudo o que lhe era possível para lhe ser agradável, mas as suas exigências pareciam não ter limites. As suas atitudes, entre a blandícia e a desconfiança, tinham sempre em mira tirar tudo dele e dar-lhe em troca o menos possível. Talvez por descuido da parte dela, o pagamento do seu primeiro mês já estava atrasado três dias, facto que o aborrecia e preocupava muito. Ao observar esta mulher anafada, transbordante de bem-estar, ditando sentenças sobre Denny, Andrew não pôde conter os seus sentimentos e disse indignando-se de repente:

- Lembrar-me-ia mais facilmente de que estou

a trabalhar para o Dr. Page se já me tivesse pago o ordenado, minha senhora.

Ela corou tão instantaneamente que Andrew

ficou certo de haver tocado num assunto bem presente no espírito da Sr.a Page, que abanou a cabeça com ar de desafio:

- O senhor receberá o seu ordenado. Esteja

descansado.

Durante o resto do almoço ficou amuada, sem

olhar para Andrew, como se dele tivesse recebido um insulto Mas depois, quando o chamou à sala de visitas, a sua disposição já era afável, alegre, sorridente.

- Aqui está o seu dinheiro, doutor. Sente-se e

falemos como bons amigos. Não poderemos progredir se não nos entendermos bem.

Estava sentada numa cadeira de braços, de

veludo verde, com vinte notas de uma libra no colo. Pegando no dinheiro, começou a contar, passando lentamente as notas para as mãos de Manson:

- Uma, duas, três, quatro... - ao chegar ao fim

do maço começou a passar as notas mais devagar, bem mais devagarinho, com os olhinhos negros e manhosos piscando significativamente. Quando contou dezoito, parou de vez e deu um suspiro de quem se lastima. - Oh, meu caro doutor! Isso é um dinheirão nestes tempos tão difíceis, não lhe parece? Toma lá, dá cá, tem sido sempre o meu lema na vida. Devo ficar com as outras duas como recordação?

Ele nada achou que dizer. Era abominável a

situação criada pela mesquinhez da mulher. Bem sabia que a clínica era muito bem paga pela Companhia.

Durante um momento Blodwen ficou imóvel,

estudando a fisionomia de Andrew. Depois, não encontrando resposta na sua face impassível, deixou cair-lhe na mão, com um gesto de aborrecimento, as duas notas que faltavam e disse secamente:

- E agora trate de corresponder a este

ordenado!

Levantou-se de supetão e fez menção de

deixar a sala, mas Andrew deteve-a antes que ela atravessasse a porta.

- Um momento, Sr.a Page. - A sua voz

indicava uma decisão nervosa. Por mais odioso que isso fosse estava resolvido a não deixar que ela ou a sua sovinice o prejudicasse. - A senhora só me deu vinte libras, que correspondem a duzentas e quarenta por ano, quando o nosso contrato foi de duzentas e cinquenta. Faltam-me dezasseis xelins e oito pence.

Ela ficou branca como cera, de tanta raiva e

decepção.

- Ah! É assim?! - Soprava. - O senhor pretende

estragar a nossa amizade com questõezinhas de vintém? Sempre ouvi dizer que os escoceses eram muito sovinas e agora estou a ver a confirmação. Tome! Aqui estão os seus miseráveis xelins e os seus trocos também.

Tirou da bolsa bojuda o resto do dinheiro,

contando moeda a moeda, com os dedos trémulos e os olhos cravados em Andrew. Depois, lançando-lhe ainda um olhar feroz, retirou-se e bateu a porta com toda a força.

Andrew saiu de casa enraivecido. As injúrias

da Sr.a Page feriram-no profundamente porque as considerava injustas. Ela não via que não se tratava de uma questãozinha miserável de dinheiro, mas de um princípio de justiça?

Além disso, mesmo sem falar no aspecto

moral do caso, ele era por natureza um homem incapaz de deixar que alguém fizesse pouco dele. Andrew sentiu-se melhor quando chegou ao correio e expediu, em carta registada, as vinte libras do seu ordenado para a Dotação Glen. As moedas ficavam para as suas despesas miúdas. À saída viu aproximar-se o Dr. Bramwell e a sua disposição melhorou ainda mais. Bramwell andava lentamente, com ar majestoso, todo empertigado no seu fato preto já muito cansado, a cabeleira branca e comprida espraiando-se pela nuca sobre o colarinho sujo, os olhos fixos no livro aberto que trazia na mão, com o braço todo estendido. Quando chegou junto de Andrew, a quem já tinha visto desde o meio da rua, fez um gesto teatral de quem finalmente dava pela sua presença ali.

- Ah, Manson, meu filho! Quase passei por si

sem o ver. Ia tão distraído...

Andrew sorriu. Já entrara em relações

amistosas com o Dr. Bramwell, que, ao contrário de Nicholls, o outro médico «inscrito», o recebera cordialmente aquando da sua chegada.

A clientela de Bramwell era pouco numerosa e

não lhe permitia o luxo de um assistente, mas o doutor dava-se uns ares de importância e tinha atitudes próprias de um grande clínico.

Fechou o livro, marcando cuidadosamente a

página com a unha suja, e enfiou a mão livre na abertura do jaquetão coçado, numa imponência pitoresca. Era uma personagem tão teatral que custava acreditar na sua realidade. Mas não havia dúvida de que ele estava ali, bem vivo, na rua principal de Blaenelly. Não era de admirar que Denny o alcunhasse de O Rei da Prata.

- E então, meu filho? Gosta da nossa

pequenina cidade? Como lhe disse, quando nos foi visitar no Retiro, isto aqui não é tão mau como parece à primeira vista. Temos as nossas capacidades, a nossa cultura. Minha mulher e eu fazemos o possível para ajudar a intelectualidade da terra. Alimentamos o fogo sagrado, Manson, mesmo no deserto. Deve vir à nossa casa uma noite destas. O senhor canta?

Andrew teve uma vontade doida de rir.

Bramwell continuava, com unção:

- É claro que já ouvimos falar do seu trabalho

nos casos de enterite. Blaenelly orgulha-se de si, meu rapaz.

- Bem gostaria eu de ter uma oportunidade

dessas. Se vier um dia a precisar de mim para alguma coisa, estou às suas ordens.

Um rebate de remorso, quem era ele para se

divertir à custa do velho? impeliu Andrew a dizer:

- A propósito, Dr. Bramwell, estou a tratar de

um caso de mediastienite secundária muito interessante. É um caso raro. Quer, dar-se à maçada de o examinar comigo, se nada mais tem que fazer?

- Ah, sim? - indagou Bramwell, esfriando um

pouco o entusiasmo. - Não quero perturbar o seu trabalho.

- É aqui bem perto - disse Andrew com

solicitude. Tenho ainda meia hora livre antes de me encontrar com o Dr. Denny. Podemos ir até lá num pulo.

Bramwell parou, hesitou um pouco, como à

procura de uma desculpa, e então fez um gesto desanimado de assentimento. E os dois desceram a Glydar Place e foram ver o doente.

O caso era de facto, como dissera Manson, de

excepcional interesse, apresentando um raro exemplo de inflamação persistente do timo. Manson estava muito orgulhoso de ter feito o diagnóstico e sentia uma confortante sensação de ardor comunicativo quando convidou Branrwell a participar das emoções da sua descoberta.

Mas, apesar dos seus protestos, o Dr.

Bramwell não parecia entusiasmado por aquela oportunidade. Seguiu Andrew, entrou no quarto do doente com má vontade, sustendo a respiração e aproximando-se do leito de modo suave e lento. Ali tomou uma atitude natural e, a distância que lhe pareceu conveniente, fez um exame apressado, pois nem sequer estava disposto a demorar-se. E foi só quando chegou à rua e aspirou profundamente o ar livre que recuperou a sua eloquência habitual. Expandiu-se com Andrew:

- Tive muito prazer em ver o caso na sua

companhia, meu rapaz. Em primeiro lugar, porque faz parte dos deveres do médico nunca fugir ao perigo da infecção e em segundo porque me agradam todas as oportunidades de estar em contacto com a ciência. Acredite que este é o melhor caso de inflamação do pâncreas que eu já alguma vez examinei.

Apertou a mão de Andrew e foi-se embora

apressadamente, deixando o companheiro muito surpreso. «O pâncreas!», pensou Andrew, espantado. Não fora apenas um lapso de linguagem que levara Bramwell a cometer aquele erro crasso. Toda a sua atitude no caso denunciava ignorância.

A verdade era que ele nada sabia. Andrew

enrugou a testa. E pensar que um médico, a quem estavam confiadas centenas de vidas humanas, não sabia a diferença entre o pâncreas e o timo, muito embora um esteja no abdómen e o outro no tórax. Não era de facto de pasmar?!

Subiu lentamente a rua na direcção da casa

de Denny. No caminho ia pensando mais uma vez como se desmoronava aos próprios olhos toda a sua concepção antiga do exercício da medicina. Ele bem sabia quanto era deficiente a sua preparação e a sua experiência, a sua formação incompleta muito capaz de cometer erros. Mas Bramwell não era inexperiente e por isso mesmo não havia desculpa para a sua ignorância. Inconscientemente o pensamento de Andrew voltou-se para Denny, que nunca perdia oportunidade de satirizar a profissão. De princípio Denny indignara-o profundamente com a afirmação pessimista de que a Inglaterra estava cheia de médicos incompetentes que só se distinguiam pela sua completa estupidez e pela capacidade de iludir os doentes. Agora perguntava a si mesmo se Denny não teria uma certa razão ao dizer isso. Resolveu retomar a discussão naquela tarde.

Quando entrou no quarto de Denny viu

imediatamente que a ocasião não era propícia para discussões académicas.

Phillip acolheu-o com um silêncio enfastiado,

testa franzida e olhar sombrio. Depois de um momento disse:

- Jones morreu esta manhã, às sete horas.

Perfuração intestinal. - falava calmamente, com raiva fria e contida. - E ainda tenho dois outros casos de enterite em Ystrad.

Andrew baixou os olhos cheio de pena, mas

sem saber o que dizer.

- Não se mostre tão aborrecido com isso -

continuou Denny com azedume. - É agradável para você verificar que os meus casos são mal sucedidos enquanto os seus melhoram. Mas as coisas não irão assim tão bem quando aquele maldito cano de esgoto começar a vazar na sua zona.

- Não, não! Eu sinto muito, sinceramente. -

Falou Andrew num impulso. - Temos de tomar quaisquer providências. Devemos escrever ao Ministério da Saúde.

- Poderíamos escrever uma dúzia de cartas -

replicou Phillip, num tom sombrio. - Só conseguiríamos que no fim de seis meses aparecesse por aqui um inspector de higiene inteiramente desinteressado. Não! Já nem penso nisso. Só há um meio de obrigar essa gente a construir uma nova rede de esgotos.

- Como?

- Fazendo saltar o esgoto velho! Na primeira impressão Andrew chegou a

desconfiar que Denny não estava no seu perfeito juízo. Mas logo depois compreendeu a intenção audaciosa do companheiro. Fitou-o consternado. Por mais que tentasse pôr em ordem as suas ideias em alvoroço, Denny parecia sempre disposto a destroçá-las. Disse meio estupefacto:

- Isso iria dar uma série enorme de

complicações... se fosse descoberto.

Denny encarou-o arrogantemente. - Se não quiser vir comigo, não preciso. - Mas eu vou consigo - respondeu Andrew

pausadamente. - Mas só Deus sabe porquê!

Durante toda a tarde Manson trabalhou de má

vontade, lamentando a promessa que fizera. Aquele Denny era doido e mais cedo ou mais tarde acabaria por envolvê-lo em qualquer séria complicação. Era uma coisa horrorosa o que ele acabara de propor, uma infracção à lei, que, descoberta, havia de levá-los à polícia e poderia expulsá-los da Ordem dos Médicos. Um arrepio de horror correu por Andrew ao pensar que a sua bela carreira, que se esboçava tão brilhante para o futuro, poderia ser subitamente cortada, arruinada. Amaldiçoou Phillip violentamente e jurou mais de vinte vezes que não o acompanharia. Contudo, por uma razão misteriosa e complexa, não queria, não podia voltar atrás.