A Cidadela

A. J. Cronin · Capítulo 8 de 55

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A Cidadela

Capítulo 8

Se bem que Christine estivesse agora mais do

que nunca no pensamento de Andrew, era outro o seu estado de espírito. Fora-se o antigo desânimo. Sentia-se feliz, exultado, cheio de esperança, e essa mutação no estado da sua alma reflectiu-se imediatamente no seu trabalho. A sua pujante mocidade imaginava-a sempre presente, observando-o em plena actividade, verificando os seus processos cuidadosos, os seus escrupulosos exames, felicitando-o pela segurança e pela penetração dos diagnósticos. Qualquer tentação para fazer uma visita apressada e sem cuidado ou para chegar a uma conclusão sem primeiro auscultar o doente era combatida no mesmo instante pela ideia: «Isso não! Que pensaria ela de mim se fizesse tal coisa?».

Mais de uma vez surpreendeu o olhar de

Denny, satírico, compreensivo. Mas não se importava. com o seu feitio vibrátil e idealista, associava Christine a todas as suas ambições, fazia dela, inconscientemente, mais um incentivo no grande assalto ao desconhecido.

Era o primeiro a reconhecer a sua quase total

ignorância. Mas diligenciava aprender a pensar por si mesmo, a procurar ir além das evidências, esforçando-se por descobrir as causas fundamentais. Até então nunca se sentira tão poderosamente atraído para o ideal científico. Pedia aos Céus que nunca o deixassem tornar-se descuidado ou mercenário, que nunca chegasse a conclusões precipitadas, nunca escrevesse: «Repita o remédio». Queria investigar e acertar, proceder cientificamente, ser digno de Christine.

Com todo esse entusiasmo ingénuo era uma

pena que o seu trabalho na clínica se tivesse tornado de repente tão monótono e desinteressante. Queria escalar montanhas. Entretanto, naquelas últimas semanas, só se lhe depararam colinas de amador. Os casos que teve de tratar eram trivialíssimos, supinamente vulgares. Uma série banal de traumatismos, dedos cortados, defluxos, e até um dia teve de andar duas milhas para atender a chamada de uma velha de cara amarelada que, olhando-o por baixo de uma touca de flanela, pediu que lhe cortasse... os calos.

Sentia-se inútil, irritado com a falta de

oportunidade, ansioso por tempestades e furacões. Começou a duvidar da sua própria fé, a conjecturar se seria realmente possível que um médico naquele lugar tão afastado fosse alguma coisa mais do que um miserável assalariado. E então, quando o seu espírito parecia estagnar por falta de incentivo, um incidente veio elevar outra vez às nuvens a sua fé, que havia decaído tanto.

Em fins de Junho, ao passar pela ponte da

Estação, Andrew encontrou o Dr. Bramwell. O Rei da Prata escapolia-se pela porta lateral do Hotel da Estação, a limpar disfarçadamente os lábios às costas da mão. Quando Gladys partia, toda alegre e vestida da maneira mais taful para as suas enigmáticas expedições a Toniglan, sob o pretexto de fazer compras, ele consolava-se discretamente com uma grande caneca de cerveja.

Um pouco desconcertado ao ser surpreendido

por Andrew, soube, entretanto, enfrentar a situação com desenvoltura.

- Olá, Manson! Que prazer tenho em vê-lo!

Acabo justamente de atender uma chamada de Pritchard.

Pritchard era o dono do Hotel da Estação, e

Andrew vira-o, cinco minutos antes, a passear o seu terrier, mas fingiu acreditar em Bramwell. Estimava o Rei da Prata, cujas atitudes de melodrama e linguagem solene e floreada eram compensadas pela sua timidez e pelos buracos das meias que a venturosa Gladys se esquecia de coser.

Ao subir lado a lado a rua, assuntos

profissionais vieram à colação. Bramwell estava sempre disposto a falar nos seus casos e contou então, com ar carrancudo, que Emlyn Hughes, o cunhado de Annie, estava aos seus cuidados.

- Emlyn - disse ele - tem-se portado

ultimamente de um modo muito estranho, originando desordens na mina, perdendo a memória. Tornou-se conflituoso e violento. Não gosto disso, Manson. - Bramwell abanou a cabeça pretensiosamente. - Tenho visto muitos casos de perturbação mental. E o de Emlyn parece ser um deles.

Andrew concordou com as suas apreensões.

Era de opinião de que Hughes era um sujeito agradável e calmo. Mas também se recordava de que Annie parecia preocupada ultimamente, e, quando a interrogou a esse respeito, depreendeu vagamente (porque apesar da sua inclinação para mexericos, ela era muito reservada em assuntos de família) que estava muito inquieta com o cunhado.

Ao despedir-se de Bramwell, Andrew fez

votos para que o caso entrasse numa fase tranquilizadora.

Mas na sexta-feira seguinte, às seis da manhã,

foi acordado por alguém que batia na porta do seu quarto. Era Annie, que, com os olhos vermelhos e vestida para sair, lhe entregou uma carta. Andrew rasgou o sobrescrito. Era do Dr. Bramwell.

«Venha imediatamente. Preciso que me ajude

a comprovar um caso de loucura perigosa.»

Annie estava lavada em lágrimas. - É o pobre do Emlyn, doutor. Aconteceu uma

coisa horrível. Peço-lhe que venha quanto antes.

Andrew vestiu-se em três minutos. No

caminho, Annie contou como pôde o que havia com Emlyn. Doente havia três semanas, nem parecia o mesmo homem. Durante a noite passada tornara-se violento e perdera completamente o juízo. Perseguira a mulher com uma faca. Olwen escapou-se porque correu para a rua em camisa de dormir. Era bem triste a história sensacional quando narrada por Annie, aos pedaços, caminhando apressadamente ao lado de Andrew, à luz cinzenta da manhã. Não havia palavras que a pudessem consolar.

Chegaram à casa de Hughes. Na sala da

frente, Andrew encontrou o Dr. Bramwell, com a barba por fazer, sem colarinho, com ar grave, sentado à mesa, de caneta na mão. Diante dele uma folha de papel azulado, já metade escrita.

- Ah, Manson! Foi bom ter vindo tão depressa.

As coisas aqui estão mal paradas. Mas isso não lhe tomará muito tempo.

- Que há?

- Hughes enlouqueceu. Parece que lhe disse,

na semana passada, que receava isso. Pois bem. Acertei. É um caso agudo.

Pronunciava as palavras com imponência

trágica.

- Mania de homicídio. Temos de mandá-lo

quanto antes para Pontynewead. O certificado exige duas assinaturas. Lembrei-me de si. Os parentes quiseram que eu o chamasse. Sabe quais são as formalidades, não sabe?

- Sei - disse Andrew. - Que provas apresenta,

doutor?

Depois de afinar a garganta, Bramwell

começou a ler o que escrevera. Era uma exposição abundante e pormenorizada de certos actos de Hughes durante a semana anterior, todos bem característicos de desequilíbrio mental. Ao terminar a leitura, Bramwell ergueu a cabeça.

- Provas evidentes, creio eu!

- O caso parece de facto grave - comentou

Andrew arrastadamente. - Bem! vou ver o homem!

- Obrigado, Manson. Estarei aqui quando

terminar.

E pôs-se a acrescentar novos detalhes ao

relatório.

Emlyn Hughes estava na cama, e, sentados

junto dele, dois dos seus companheiros da mina, para o conter em caso de necessidade. De pé, junto do leito, com a fisionomia pálida e transtornada de tanto chorar, Olwen nem parecia a criatura viva e animada que Andrew conhecera. A sua atitude era de tanta aflição e a atmosfera do quarto tão carregada que Manson teve um súbito calafrio, quase de medo.

Aproximou-se de Emlyn, a quem no primeiro

momento quase não reconheceu. A transformação era total. Era ainda Emlyn quem estava ali, mas um Emlyn alterado, desfeito, com qualquer coisa de embrutecido nas feições.

O rosto parecia inchado, as narinas

entumecidas, a pele macerada, tendo apenas uma leve mancha vermelha a estender-se pelo nariz. Todo o seu aspecto era pesado, apático. Andrew falou-lhe. Ele resmungou uma resposta ininteligível. E então, torcendo as mãos, saiu-lhe dos lábios uma série de tolices agressivas, que vinham corroborar a opinião de Bramwell de ser premente a necessidade do seu internamento.

Seguiu-se um silêncio. Andrew sentiu que

havia razões para o convencer. Mas, inexplicavelmente, não estava satisfeito.

«Porquê? Porquê?», - insistia em perguntar a

si mesmo. - «Porque falaria Hughes daquela maneira? Mesmo em caso de desarranjo mental qual seria a causa? Fora sempre um homem equilibrado e feliz. Sem preocupações, muito dado, fácil de levar. Porquê, sem razão aparente, essa transformação?»

«Devia existir uma razão», pensava Manson

teimosamente.

«Os sintomas não se manifestam sem um

motivo.

Fitando as feições inchadas que tinha diante

dele, esforçando-se por encontrar uma decifração para a charada, instintivamente estendeu o braço e tocou a face entumecida, notando subconscientemente que o calcar do dedo não deixava qualquer depressão no rosto inchado.

De súbito, eletricamente, uma conclusão

vibrou-lhe no cérebro. Porque não deixava a pressão marca no ponto inchado? Porquê? E agora o seu coração batia precipitadamente!

Porque não era um verdadeiro edema, mas

um mixedema. Ele descobrira, por Deus, descobrira! Não, não devia precipitar-se. Procurou acalmar-se a todo o custo. Não devia dar saltos no escuro, atirando-se cegamente a conclusões apressadas. Devia ir com segurança, devagar, ter a certeza!

Inclinou-se e levantou a mão de Emlyn. Sim, a

pele estava seca e áspera, as pontas dos dedos ligeiramente inchadas. A temperatura estava abaixo do normal. Metodicamente, terminou o exame, reprimindo as sucessivas ondas de entusiasmo. Todos os indícios e todos os sintomas se ajustavam bem como esses bocados que servem para formar figuras nos jogos de paciência. A fala entaramelada, a pele seca, os dedos espatulados, o rosto inchado e sem elasticidade, a memória deficiente, a compreensão retardada, os acessos de irritabilidade culminando numa explosão de violência homicida. Oh! Era sublime o triunfo do quadro completo.

Levantou-se e voltou à saleta da entrada, onde

o Dr. Bramwell, de pé, de costas para a lareira, assim o recebeu:

- Que tal? Satisfeito? A caneta está ali na mesa.

- Devagar, Dr. Bramwell! - Andrew desviou o

olhar e procurou que a voz não traísse a sensação impetuosa de triunfo. - Creio que não devemos atestar a loucura de Hughes.

- Como? - A impassibilidade da fisionomia de

Bramwell desapareceu lentamente. - Mas o homem está doido!

- Não é esse o meu ponto de vista - respondeu

Andrew em tom natural, ainda contendo o entusiasmo, a excitação.

Não bastava o diagnóstico do caso, devia

ainda preparar gradualmente Bramwell, tentar agir em boa harmonia, não fazer dele um inimigo. A meu ver, a perturbação do espírito de Hughes vem apenas da perturbação do seu organismo.

- Parece-me que o caso é de deficiência da

glândula tiróidea. Um caso absolutamente nítido de mixedema.

Bramwell, apalermado, fitou Andrew. Tão

apalermado que nem sabia o que dizer. Fez esforços para falar, mas da garganta só saíam sons roucos e inarticulados.

- Além disso - continuou Andrew,

persuasivamente, com os olhos dirigidos para a grelha do fogão - Pontynewead é um verdadeiro sepulcro. Se o levamos para lá, o homem nunca mais de lá sai. Ou se sair, ficará a vida toda com esse estigma. Porque não experimenta primeiro um tratamento à tiróide?

- Ora, doutor... - Bramwell gaguejava. - Eu não

posso compreender.

- Pense no prestígio que conquistará -

interrompeu Andrew mais do que depressa - se conseguir curá-lo. Não acha que vale a pena? Vamos, diga que sim! Vou chamar a mulher dele. Está a desfazer-se em lágrimas com a ideia de que vão levar Emlyn. O doutor dir-lhe-á que vai experimentar um novo tratamento.

Antes que Bramwell pudesse protestar,

Andrew saiu da sala. Poucos minutos depois, quando voltou com a Sr.a Hughes, o Rei da Prata já era outro homem. Encostado lareira, informou Olwen, no seu melhor estilo, «que ainda podia haver um raio de esperança». Entretanto, por trás dele, Andrew fez do atestado uma bola de papel e atirou-a ao fogo. Depois saiu para encomendar em Cardiff, pelo telefone, extracto de tiróidina.

Depois de uma fase de torturada ansiedade

em que uma expectativa dolorosa se estendeu por alguns dias antes que o tratamento começasse a surtir efeito, os resultados foram maravilhosos. Ao fim de uma quinzena Emlyn estava de pé. Ao cabo de dois meses voltava ao trabalho. Uma noite apareceu no consultório de Bryngover, alegre e bem disposto, em companhia da sorridente Olwen, para dizer a Andrew que nunca se sentira tão bem em toda a sua vida.

Olwen declarou:

- É ao doutor a quem devemos tudo.

Queremos deixar Bramwell e passar para a sua clínica. Emlyn estava na lista dele antes de nos casarmos. Mas é um velho tonto! Teria levado o meu Emlyn para... bem, o doutor sabe para onde... se não fosse o doutor e tudo o que fez por nós.

- Não pode mudar de médico, Olwen -

respondeu Andrew. - Isso comprometer-me-ia. - Aí desistiu da circunspecção profissional e deixou-se arrastar por uma alegria espontânea e despreocupada. - Não tente fazer isso... corro atrás de si com aquela faca!

Encontrando Andrew na rua, Bramwell

observou como que muito convencido:

- Olá, Manson! Já viu Hughes por aí! Tanto ele

como a mulher estão muito agradecidos. Felicito-me pelo desenlace feliz deste caso. Nunca tive um melhor.

Annie disse:

- Esse tal Bramwell anda a exibir-se na cidade

como se fosse alguém importante. Ele nada sabe e a sua mulher, que horror! Não há criada que pare em casa dela.

Comentário de Blodwen:

- Doutor, não esqueça que está a trabalhar

para o Dr. Page!

Reacção de Denny:

- Manson, actualmente o senhor está

intolerável de vaidade. Não tardará muito que se mostre como um pavão Não tardará muito.

Mas Andrew, correndo ao encontro de

Christine, exuberante pelo triunfo do método científico, guardou para ela tudo o que tinha a dizer.