Baratas
Capítulo 6
SEXTA-FEIRA, 10 de JANEIRO
A inspetora esqueceu a mão na buzina do jipe Toyota. — Essa não é maneira tailandesa de fazer as coisas. — Ela riu. — Não funciona. Se a gente buzina, eles não deixam passar. Tem algo a ver com o budismo. Mas não consigo resistir. Pelo amor de Deus, eu venho dos Estados Unidos.
Liz buzinou de novo, e os motoristas em volta fizeram questão de olhar para o outro lado.
— Então ele continua lá, no quarto do hotel? — quis saber Harry, abafando um bocejo.
— Ordens do alto escalão. Em geral, a gente faz a necropsia o mais rápido possível e manda pra cremação no dia seguinte, mas queriam que você visse o corpo antes. Não me pergunte por quê.
— Sou um grande investigador, ou você já se esqueceu disso?
Ela olhou de soslaio para Harry e percebeu que havia um trecho de pista livre. Pisou fundo.
— Nem comece com as gracinhas. Não pense que todo mundo aqui vai achar você o máximo só porque é um farang; muito pelo contrário.
— Farang?
— Branquelo. Gringo. Meio depreciativo, meio neutro, tudo depende de como se usa a palavra. Só lembre que não há nada de errado com a autoestima dos tailandeses, mesmo se eles tratarem você com educação. Para sua sorte, Sunthorn e Nho estão de serviço hoje; com certeza você conseguirá impressioná-los. Para o seu bem, espero que sim. Porque, se fizer papel de bobo, você pode ter sérias dificuldades de trabalhar com o pessoal do departamento.
— Tive a impressão de que era você quem comandava o departamento.
— Isso é o que eu acho.
Tinham pegado a rodovia. Ignorando os protestos do motor, Liz mantinha o pé fundo no acelerador. Já começava a escurecer, e a oeste um sol vermelho-cereja se punha entre os arranha-céus.
— A poluição pelo menos serve pra nos proporcionar esses belos poentes — comentou ela em resposta aos pensamentos de Harry.
— Fale sobre a prostituição aqui — pediu Harry.
— É uma praga quase tão grande quanto o trânsito.
— Já percebi. Mas o que tem mais saída aqui, como funciona? É prostituição de rua tradicional, com cafetões e bordéis comuns, ou há também prostitutas autônomas? E elas vão aos bares, fazem strip, colocam anúncios no classificado do jornal, encontram clientes em shoppings?
— Tudo isso e mais um pouco. Se algo relacionado à prostituição não foi tentado em Bangkok, é porque ainda não existe. Mas a maioria trabalha em inferninhos, onde dançam e tentam persuadir os clientes a consumir mais bebida. E, claro, ficam com uma porcentagem. O dono do bar não assume nenhuma responsabilidade pelas meninas; apenas fornece a elas a vitrine onde se colocar à venda e, em troca, elas concordam em ficar no bar até fechar. Quando um cliente quer sair com uma das meninas, é obrigado a comprar a liberdade dela pelo resto da noite. O dono do bar embolsa o dinheiro, mas a moça, na maioria das vezes, sai satisfeita por não ter que passar a noite toda se contorcendo em cima do palco.
— Parece ser um grande negócio pro dono do bar.
— Uma vez que o tempo da moça tenha sido comprado, tudo que ela faturar fora dali vai direto pro próprio bolso.
— A moça que encontrou o corpo do embaixador trabalha em um desses bares?
— Sim. Em um dos inferninhos da King Crown, em Patpong. Sabemos também que o proprietário do hotel gerencia uma espécie de serviço customizado pra clientes estrangeiros com gostos específicos. Mas fazer a moça falar vai ser muito difícil, porque na verdade a prostituição é ilegal na Tailândia. Até agora, tudo que ela disse é que estava hospedada no hotel e se enganou de porta.
Liz explicou que Atle Molnes provavelmente tinha chamado a garota quando chegara ao hotel, mas o recepcionista, que também era o proprietário, negava ter feito qualquer outra coisa além de alugar o quarto.
— Chegamos.
Liz estacionou em frente a um prédio baixo de tijolos brancos.
— Os melhores bordéis de Bangkok parecem ter um fraco por nomes gregos — comentou sarcasticamente a inspetora, descendo do carro. Harry ergueu os olhos e viu um grande letreiro em neon anunciando o nome do hotel: Olympussy. O “m” piscava de vez em quando, ao passo que o “l” tinha apagado de vez, dando ao lugar uma melancolia que lembrou Harry dos restaurantes suburbanos da Noruega.
O hotel era idêntico a seus similares americanos de beira de estrada, com uma série de quartos duplos em volta de um pátio, uma vaga de estacionamento diante de cada um. Ao longo da parede havia uma varanda na qual os hóspedes podiam se acomodar em cadeiras de vime cinzentas e estragadas pela exposição à chuva.
— Lugar bacana.
— Você pode não acreditar, mas, quando foi construído, durante a Guerra do Vietnã, isso aqui era um dos lugares mais animados da cidade. Foi construído para os soldados americanos que apareciam aqui em RR.
— RR?
— Repouso e Recuperação. Popularmente conhecido como CC: Coito e Chapação. Os rapazes eram trazidos de avião de Saigon pra uma licença de dois dias. A indústria do sexo no país não seria o que é hoje se não fossem os militares americanos. Uma das ruas aqui até foi oficialmente batizada de Soi Cowboy.
— E por que não ficavam por lá mesmo? Isso aqui é quase uma área rural.
— Os soldados que tinham mais saudades de casa preferiam trepar totalmente à maneira americana: em um carro ou em um quarto de hotel de beira de estrada. Foi pra isso que construíram esse aqui. Os rapazes podiam alugar carros americanos no estacionamento. Tinha até cerveja americana nos frigobares.
— Uau. Como você sabe de tudo isso?
— Minha mãe me contou.
Harry se virou para Liz, mas, mesmo com as letras que ainda funcionavam no letreiro do Olympussy lançando uma luz neon azulada sobre o crânio exposto da mulher, estava escuro demais para que ele conseguisse captar a expressão da policial. Ela colocou um boné antes de entrar na recepção.
O quarto tinha uma decoração simples, mas o carpete cinzento de tão sujo já havia visto dias melhores. Harry estremeceu. Não por causa do paletó amarelo que tornava supérfluo qualquer outro procedimento de identificação do corpo — só um integrante do Partido Democrata Cristão e do Partido Progressista usaria voluntariamente um paletó daqueles. Tampouco por causa da faca com ornamentos orientais que prendera o paletó às costas do embaixador e o deixava largo nos ombros, conferindo-lhe um aspecto desagradável. Estremeceu simplesmente devido à temperatura congelante do quarto. Liz explicara que, como a vida útil dos corpos sob aquele clima era muito curta e eles haviam recebido a informação de que esperariam no mínimo quarenta e oito horas pelo detetive norueguês, decidiram ligar no máximo tanto o ar-condicionado quanto o ventilador do aposento.
As moscas, ainda assim, não davam trégua, e um enxame delas levantou voo quando Nho e Sunthorn cuidadosamente rolaram o corpo, deitando-o de costas. Os olhos vidrados de Atle Molnes estavam voltados para baixo, como se ele tentasse enxergar os bicos de seus sapatos Ecco. A franja pueril fazia o embaixador parecer ter menos idade do que os seus 52 anos. Caída na testa e descolorida de sol, ainda parecia vivaz.
— Esposa e filha adolescente — comentou Harry. — Uma das duas veio ver o corpo?
— Não. Informamos à embaixada da Noruega, e eles disseram que avisariam a família. Até agora a ordem foi apenas não deixar ninguém entrar.
— Apareceu alguém da embaixada?
— A encarregada de negócios. Não lembro o nome.
— Tonje Wiig?
— Isso. Manteve a compostura até o momento em que a gente virou o corpo para a identificação.
Harry fitou o embaixador. Teria sido um homem atraente? Um homem que, apesar do paletó horroroso e de uns pneuzinhos, era capaz de fazer bater mais forte o coração de uma jovem encarregada de negócios? A pele bronzeada tinha assumido um aspecto amarelado, e a língua azulada parecia tentar abrir caminho por entre os dentes.
Harry se sentou em uma cadeira e olhou ao redor. A aparência de uma pessoa morta muda rapidamente, e ele já vira corpos suficientes para saber que não conseguia descobrir muita coisa apenas olhando para eles. Atle Molnes tinha levado consigo qualquer segredo que sua personalidade pudesse revelar, e tudo que restava ali era uma casca vazia e abandonada.
Harry pegou uma cadeira e colocou-a mais perto da cama. Os dois jovens policiais se aproximaram dele.
— O que você consegue ver aí? — quis saber Liz.
— Vejo um norueguês depravado que por acaso era embaixador e, portanto, precisa ter a reputação protegida em nome do rei e da nação.
A inspetora ergueu os olhos, surpresa, e examinou Harry mais atentamente.
— Não tem ar-condicionado que disfarce esse fedor — reclamou ele. — Mas isso é problema meu. Quanto a esse cara aqui... — Harry apertou a mandíbula do sujeito. — É rigor mortis. Ele está rígido, mas essa rigidez começa a ceder depois de três dias, o que é normal. Apesar da língua azulada, a faca sugere que não houve asfixia, mas isso precisa ser verificado.
— Já foi — respondeu Liz. — O embaixador tinha bebido vinho tinto.
Harry murmurou alguma coisa.
— Molnes saiu de seu escritório na hora do almoço — continuou a inspetora —, e já eram quase onze da noite quando a moça o encontrou aqui. Nosso perito diz que a morte ocorreu entre quatro da tarde e dez da noite, o que dá uma ideia mais precisa da hora do crime.
— Entre quatro e dez? É um intervalo de seis horas.
— Correto, detetive.
Liz cruzou os braços.
— Bom, em Oslo, geralmente a hora da morte é estimada dentro de uma margem de vinte minutos pra mais ou pra menos, no caso de corpos que são encontrados depois de algumas horas.
— Isso é porque você vive no Polo Norte. Aqui, a 35 graus, a temperatura de um corpo não cai muito. A hora da morte é calculada pelo rigor mortis, por isso é apenas aproximada.
— E quanto aos sinais de livor mortis? Depois de cerca de três horas, era pra ocorrer descoloração.
— Sinto muito. Como você pode ver, o embaixador curtia pegar um bronzeado, de modo que a gente não tem como afirmar a hora da morte a partir daí.
Harry correu o dedo indicador pelo tecido do paletó no local onde a faca estava cravada. Um resíduo cinzento, parecido com vaselina, acumulou-se em sua unha.
— O que é isso?
— É evidente que a faca foi lubrificada. Mandamos amostras pra análise.
Harry revistou os bolsos do morto e tirou deles uma carteira marrom surrada. Continha uma nota de quinhentos baht, uma credencial do Ministério e a foto de uma menina sorridente no que parecia ser uma cama de hospital.
— Vocês encontraram mais alguma coisa com ele?
— Nadinha. — Liz tinha tirado o boné e procurava espantar as moscas com ele. — Verificamos o corpo e deixamos ele aí.
Harry afrouxou o cinto do morto, baixou as calças dele e voltou a virá-lo de barriga para baixo. Em seguida, levantou o paletó e a camisa.
— Veja. Escorreu um pouco de sangue pelas costas. — Suspendeu o elástico da cueca Dovre. — E por entre as nádegas também. O que significa que ele não foi golpeado deitado na cama. Estava de pé. Medindo a profundidade e o ângulo da facada dá pra calcular a altura do assassino.
— Isso supondo que ele ou ela estivesse na mesma altura da vítima quando a atacou — acrescentou Liz. — Também é possível que o embaixador tenha sido esfaqueado no chão e que o sangue tenha escorrido enquanto ele era levado até a cama.
— Nesse caso haveria sangue no tapete — observou Harry. Ele puxou as calças de volta para cima, afivelou o cinto, virou-se para Liz e a encarou. — E você nem precisaria fazer especulações sobre isso; teria como saber com certeza. Seu pessoal da perícia teria encontrado fibras do carpete no terno inteiro, não?
A inspetora sustentou o olhar, mas Harry percebeu que a havia desmascarado em seu pequeno teste. Ela assentiu e virou as costas para o cadáver.
— Um pouco de vitimologia revela um detalhe que talvez confirme que ele estava à espera de companhia feminina.
— Que detalhe?
— Está vendo o cinto? Antes de eu o afrouxar, estava dois furos mais apertado do que a marca que mostra em qual furo era normalmente usado. Homens de meia-idade com barriga protuberante muitas vezes tentam disfarçá-la antes de encontros com mulheres mais jovens.
Era difícil dizer se Harry havia causado alguma impressão nos colegas. Os policiais ficavam o tempo todo trocando o pé de apoio, e seus jovens rostos eram impassíveis. Liz roeu a unha e arrancou um pedaço dela; em seguida, cuspiu-o por entre lábios franzidos.
— E aqui temos o frigobar. — Harry abriu a porta da pequena geladeira. Cervejas Singha, minigarrafas de Johnnie Walker e Canadian Club. Nada parecia ter sido tocado.
— O que mais temos? — perguntou Harry aos dois jovens policiais.
Os rapazes trocaram olhares, então um deles apontou para o carro no estacionamento.
— O carro.
Saíram do quarto e dirigiram-se ao Mercedes azul-escuro que estava estacionado diante dele, pouco usado e com placas diplomáticas. Um dos policiais abriu a porta do motorista.
— A chave? — quis saber Harry.
— Estava no bolso do paletó do... — O policial indicou o quarto de hotel com um movimento de cabeça.
— Digitais?
O jovem olhou para a inspetora com uma expressão resignada. Ela tossiu.
— É claro que verificamos se havia impressões digitais na chave, Hole.
— A pergunta não era se vocês colheram as impressões, mas o que encontraram.
— Nenhuma além das dele. Caso contrário você teria sido informado logo de cara.
Harry mordeu a língua.
Havia lixo espalhado nos bancos e no assoalho do Mercedes. Harry notou algumas revistas, fitas cassete, maços de cigarro vazios, uma lata de Coca-Cola e um par de sandálias.
— O que mais foi encontrado?
Nho sacou uma lista e a leu em voz alta.
— Pare — falou Harry. — Pode repetir esse último item?
— Bilhetes de aposta em corridas de cavalos, senhor.
— Parece que o embaixador gostava de um jogo de azar de vez em quando — disse Liz. — Um esporte bastante popular na Tailândia.
— E o que é isso?
Debruçado sobre o banco do motorista, Harry apanhou uma pequena cápsula parcialmente oculta entre o regulador do assento e o tapete.
O policial consultou a lista, mas logo desistiu de encontrar o item ali.
— Ecstasy líquido é vendido em cápsulas como essa — informou Liz, aproximando-se para ver o objeto.
— Ecstasy? — Harry balançou a cabeça. — Democratas-cristãos de meia-idade podem até andar com prostitutas por aí, mas consumir ecstasy? Isso não.
— Vamos ter que verificar — afirmou Liz. Harry podia ver na cara dela que não estava lá muito feliz por terem deixado a cápsula passar.
— Vamos dar uma olhada no porta-malas — sugeriu.
O que o interior do carro tinha de bagunçado, o porta-malas tinha de limpo e arrumado.
— Um sujeito organizado — comentou Harry. — As mulheres da família reinavam absolutas dentro do carro, mas ele mantinha o porta-malas fora do alcance delas.
Uma caixa de ferramentas bem-equipada reluzia à luz da lanterna de Liz. Tudo imaculado ali; só o estuque na ponta de uma chave de fenda denunciava que já tinha sido usada.
— Mais um pouco de vitimologia. Tenho o palpite de que Molnes não era um sujeito prático. Essa caixa de ferramentas jamais chegou perto de um motor de carro. No máximo, a chave de fenda foi usada para pendurar um retrato de família.
Um mosquito aplaudiu sua observação em seu ouvido. Harry espantou o inseto e, ao tocar a própria pele, sentiu-a úmida e fria. O calor não dera trégua, mesmo depois de o sol ter se posto. Agora o vento tinha cessado, e a impressão era de que a umidade subia do chão que pisavam e se condensava no ar a ponto de quase poder ser bebida.
Ao lado do estepe estava o macaco, que aparentemente também nunca havia sido utilizado, e uma pasta fina, de couro marrom, do tipo que se esperaria encontrar no carro de um diplomata.
— O que há na pasta? — quis saber Harry.
— Está lacrada — falou Liz. — Como o carro é, oficialmente, uma extensão do território da embaixada e, portanto, fica fora da nossa jurisdição, não tentamos abri-lo. Mas agora que há um representante da Noruega presente, quem sabe...
— Sinto muito, não tenho status diplomático — respondeu Harry, tirando a pasta do porta-malas e colocando-a no chão. — Mas posso afirmar que esse troço não está mais em território norueguês, então sugiro que vocês abram essa pasta enquanto vou à recepção falar com o dono do hotel.
Harry cruzou o estacionamento a esmo. Seus pés estavam inchados por causa do voo. Sentia uma gota de suor escorrer por dentro da camisa e fazer cócegas; estava desesperado por uma bebida. Tirando isso, a sensação de novamente estar cuidando de um caso sério não era tão ruim assim. Já fazia tempo desde a última missão para a qual havia sido designado. Reparou que o “m” do luminoso agora estava apagado.
Wang Lee, gerente, dizia o cartão de visitas que o sujeito atrás do balcão entregou a Harry, provavelmente como um recado sutil para que voltasse outro dia. O homem magricela e de camisa florida tinha olhos sonolentos e definitivamente parecia não querer conversa com Harry naquele momento. Começou a remexer em uma pilha de papéis e, ao levantar a vista e perceber Harry ainda parado ali, soltou um resmungo.
— Estou vendo que você é um homem ocupado — disse Harry. — Portanto, sugiro que a gente resolva isso o mais rápido possível. Sei que sou estrangeiro aqui, que não sou do seu país...
— Tailandês não. Chinês — foi o que Harry ouviu, acompanhado de outro resmungo.
— Bom, então você também é estrangeiro. A questão é que...
Harry ouviu alguns arquejos vindos de trás do balcão que talvez fossem um riso de escárnio. Fizeram o dono do hotel abrir a boca, de qualquer forma.
— Estrangeiro não. Chinês. Chinês faz Tailândia funcionar. Sem chinês, sem negócio.
— Certo. Você é um homem de negócios, Wang. Pois deixa eu fazer uma proposta. Você administra um bordel neste lugar e pode remexer o quanto quiser nessa papelada porque isso não muda nada.
Wang negou com a cabeça, firme.
— Prostituta não. Hotel. Aluga quarto.
— Relaxa; só o que me interessa é o assassinato. Prender cafetões não é da minha alçada. A menos que eu quisesse fazer isso por conta própria. Por isso falei da proposta. Aqui na Tailândia ninguém fiscaliza gente como você, simplesmente porque são muitos. Tampouco adiantaria denunciá-lo pra polícia. Imagino que um envelope pardo com alguns baht pode fazer com que não seja incomodado. Daí você não estar amedrontado com a nossa presença.
O dono do hotel voltou a negar com a cabeça.
— Dinheiro não. Ilegal.
Harry sorriu.
— Da última vez que li algo a respeito disso, a Tailândia estava em terceiro lugar no ranking de países mais corruptos do mundo. Seja legal, por favor, e pare de me tratar como idiota.
Harry se certificou de que falava em voz baixa. Ameaças geralmente funcionam melhor quando feitas em tom neutro.
— O grande problema, pra mim e pra você, é que o cara encontrado morto naquele quarto era um diplomata do meu país. Se eu for obrigado a dizer, num relatório, que a suspeita é de que ele morreu num bordel, isso tudo vai se transformar de repente em uma questão política, e aí seus amigos na polícia não vão ter como ajudá-lo. Um caso desses obrigaria as autoridades a fechar este lugar e mandar você pra cadeia. Assim mostram serviço, mostram que estão mantendo a lei e a ordem, entende?
Era impossível ver naquele rosto inexpressivo se o tiro havia acertado seu alvo.
— Por outro lado, se meu relatório disser que a moça tinha combinado um encontro com o embaixador, e que o hotel foi uma escolha aleatória...
O homem encarou Harry. Piscou, semicerrando os olhos como se tivesse um cisco neles. Então virou as costas, afastou uma cortina que escondia a entrada de uma porta e fez sinal para que Harry o acompanhasse. Atrás da cortina havia uma salinha com uma mesa e duas cadeiras, e Wang apontou uma delas para Harry sentar. Pousou uma xícara à frente do detetive e serviu chá de um bule. O aroma de menta era tão forte que os olhos de Harry arderam.
— Nenhuma das moças quer trabalhar enquanto tiver cadáver lá — disse Wang. — Em quanto tempo dá pra tirar?
Homens de negócios são homens de negócios em qualquer lugar do mundo, pensou Harry, acendendo um cigarro.
— Depende do tempo que a gente levar pra descobrir o que aconteceu aqui.
— Embaixador chegou aqui pelas nove da noite e disse que queria quarto. Folheou catálogo e falou que queria Dim, só precisava descansar antes. Era pra avisar quando ela chegasse. Falei que tinha que pagar por hora mesmo assim. Ele disse tudo bem e pegou chave.
— Catálogo?
Wang entregou a Harry algo que, de fato, se assemelhava a um catálogo. O investigador deu uma folheada. Havia fotos de moças tailandesas trajando figurinos diversos: enfermeira, meia arrastão, espartilhos de couro apertados e chicote, uniforme de colegial com tranças e até vestidas como policiais. Abaixo das fotos, sob o título INFORMAÇÕES, idade, preço e experiência de cada uma. Harry notou que todas alegavam ter entre 18 e 22 anos. Os preços variavam de mil a três mil baht, e aparentemente quase todas as moças tinham concluído um curso de idiomas e trabalhavam como enfermeiras.
— Ele estava sozinho? — quis saber Harry.
— Sim.
— Não havia ninguém mais no carro?
Wang balançou a cabeça.
— Como pode ter tanta certeza disso? O Mercedes tem vidros fumê, e você, sentado aqui...
— Geralmente vou lá fora verificar. Pode ter amigo junto. Aí tem que pagar quarto duplo.
— Entendi. Quarto duplo, dobro do preço?
— Dobro não. — Wang voltou a exibir os dentes. — Mais barato dividir.
— E o que aconteceu depois?
— Não sei. Homem saiu com carro até quarto 120, onde está agora. Fica no fundo, no escuro, não consigo ver lá. Liguei pra Dim, ela veio e esperou. Passou um tempo, mandei ela ir até ele.
— E que fantasia ela estava usando? De motorista de bonde?
— Não, não, não — Wang folheou o catálogo até a última página e orgulhosamente exibiu a foto de uma moça tailandesa de vestido curto coberto de lantejoulas prateadas, patins brancos nos pés e sorriso amplo no rosto. Com os pés cruzados e os braços abertos, fazia uma mesura, como se tivesse acabado de executar um número bem-sucedido. O rosto era salpicado de sardas vermelhas.
— E essa aí é pra ser...? — indagou Harry, sem acreditar, lendo o nome sob a foto.
— Isso, isso, ela mesma. Tonya Harding. A que matou outra moça americana, bonita.
— Na verdade, acho que ela não...
— Dim faz essa também, se quiser...
— Não, obrigado — falou Harry.
— Faz muito sucesso. Especialmente com americanos. Ela pode chorar, se você quiser.
Wang fez um gesto simulando choro, os dedos percorrendo o rosto.
— Ela encontrou o embaixador no quarto com uma faca cravada nas costas. E depois disso?
— Dim correu pra cá gritando.
— De patins?
Wang encarou Harry com um olhar de reprovação.
— Patins entra quando calcinha sai.
Harry admirou a praticidade do raciocínio e fez sinal para que o outro continuasse a história.
— Nada mais a dizer, detetive. A gente voltou lá e olhou corpo de novo, aí tranquei porta do quarto e liguei pra polícia.
— Então, de acordo com Dim, a porta não estava trancada quando ela chegou ao quarto. Ela disse se estava entreaberta ou se só estava fechada, mas destrancada?
Wang deu de ombros.
— Porta estava fechada, mas destrancada. Importante isso?
— Nunca se sabe. Você viu mais alguém perto do quarto naquela noite?
Wang balançou a cabeça.
— E onde está o livro de registros? — perguntou Harry. Começava a ficar cansado.
O dono do hotel pareceu despertar, erguendo a cabeça de súbito.
— Não tem livro de registros.
Harry o encarou em silêncio.
— Não tem livro de registros — repetiu Wang. — Por que ia precisar de um? Ninguém vem se tiver que dizer nome e endereço.
— Não sou idiota, Wang. Ninguém está dizendo que os clientes são registrados, mas você mantém uma lista. Só por garantia. Figurões importantes aparecem de vez em quando, e pode ser uma boa ter um livro de registros na manga, caso algum dia surja qualquer problema, certo?
O dono do hotel piscou feito um sapo.
— Não vá se fazer de difícil agora, Wang. Quem não tiver nada a ver com o assassinato, não precisa temer. Especialmente figuras públicas. Você tem minha palavra. Então. O livro, por favor.
Tratava-se, na verdade, de um caderninho, e Harry examinou suas páginas preenchidas em letra miúda e caracteres tailandeses.
— Um dos meus colegas vai fazer uma cópia disso — informou.
Os três policiais o esperavam ao lado do Mercedes. Os faróis estavam acesos, iluminando a pasta aberta no chão do pátio.
— Descobriram alguma coisa?
— Parece que o embaixador tinha predileções sexuais incomuns.
— Eu sei. Tonya Harding. Pra mim, isso é bizarro.
— Quando vamos poder falar com Dim?
— Amanhã. Ela está trabalhando hoje à noite.
Harry parou diante da pasta. Detalhes das fotografias em preto e branco emergiam à luz amarelada dos faróis. Congelou. Evidentemente já tinha ouvido falar daquilo e até mesmo lido relatórios policiais e conversado com colegas a respeito, mas era a primeira vez que Harry via uma criança sendo estuprada por um adulto.