Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 27 de 54

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Baratas

Capítulo 25

 

QUARTA-FEIRA, 15 de JANEIRO

 

A s reações das pessoas ao serem presas são tão variadas quanto imprevisíveis. Harry considerava já ter presenciado a maioria das reações possíveis; portanto, não ficou especialmente surpreso ao ver o rosto bronzeado de Jens Brekke assumir um tom cinzento enquanto seu olhar percorria o ambiente como o de uma presa perseguida por seu predador. A linguagem corporal muda, e até um terno Armani feito sob medida passa a não cair tão bem. Brekke se manteve de cabeça erguida, mas pareceu ter encolhido.

Na verdade, Brekke não foi preso, apenas conduzido para interrogatório, mas, para alguém que nunca havia sido abordado por dois policiais armados que sequer perguntaram se haviam chegado em uma boa hora, a diferença era puramente retórica. Quando Harry se deparou com Brekke na sala de interrogatórios, a ideia de que o sujeito diante dele tivesse sido capaz de cravar uma faca em alguém a sangue-frio pareceu absurda. Mas já havia pensado isso outras vezes e se enganara.

— Receio que vamos ter que falar em inglês — disse Harry, acomodando-se diante de Brekke. — Tudo será gravado.

Apontou para o microfone entre eles.

— Entendo. — Brekke tentou sorrir. Parecia que ganchos de ferro esticavam sua boca.

— Precisei brigar pra fazer eu mesmo esse interrogatório — comentou Harry. — Como será gravado, um policial tailandês era quem deveria, a rigor, fazer as perguntas, mas, como você é um cidadão norueguês, o chefe disse que tudo bem.

— Obrigado.

— Bom, não tenho certeza se tem muito a agradecer. Você foi informado de que tem direito de chamar um advogado, certo?

— Sim.

Harry quase perguntou por que ele não exercera aquele direito, mas se conteve. Não existiam motivos para oferecer a Brekke mais uma chance de ficar ponderando sobre o assunto. Pelo que havia aprendido, o sistema legal tailandês era bastante semelhante ao norueguês, o que não lhe dava nenhuma razão para acreditar que os advogados ali eram muito diferentes dos da Noruega. O que, por sua vez, significava que a primeira coisa que qualquer um faria seria mandar o cliente ficar calado. Todas as normas tinham sido cumpridas; deveria seguir em frente.

O detetive sinalizou que a gravação podia começar. Nho entrou na sala, leu em voz alta algumas formalidades introdutórias para que ficassem registradas e saiu.

— É verdade que o senhor mantém um relacionamento com Hilde Molnes, esposa do falecido Atle Molnes?

— Como é que é? — Harry foi fulminado por dois olhos ferozes do outro lado da mesa.

— Conversei com a sra. Molnes. Sugiro que diga a verdade.

Seguiu-se uma pausa.

— Sim.

— Um pouco mais alto, por favor.

— Sim!

— Há quanto tempo vem durando essa relação?

— Não sei. Há um bom tempo.

— Desde a recepção ao embaixador, um ano e meio atrás?

— Bem...

— Bem?

— É, acho que está correto.

— Você sabia que a sra. Molnes passaria a ter direito de usufruto sobre uma fortuna substancial, em caso de morte do marido?

— Fortuna?

— Não estou sendo claro?

Brekke resfolegou feito uma bola de praia furada.

— Isso é novidade pra mim. Minha impressão era de que o capital sob controle deles fosse relativamente limitado.

— É mesmo? Da última vez que nos falamos, você me disse que a reunião com Molnes no seu escritório, em 7 de Janeiro, era sobre investimentos. Sabemos, além disso, que Molnes devia uma grande quantia. Eu não saberia nem dizer quanto.

Silêncio de novo. Brekke fez menção de dizer alguma coisa, mas mudou de ideia.

— Eu menti — confessou, por fim.

— Tem uma segunda chance de me dizer a verdade agora.

— Molnes me procurou pra discutir meu relacionamento com Hilde... com a esposa dele. Queria que a gente terminasse.

— Um pedido não muito fora de propósito, não é?

Brekke deu de ombros.

— Não sei que informações você tem sobre quem era Atle Molnes.

— Suponhamos que nenhuma.

— A orientação sexual dele não era, digamos, muito favorável ao casamento com Hilde.

Brekke ergueu a vista para Harry, que assentiu para que ele prosseguisse.

— Ele queria que Hilde e eu parássemos de nos encontrar, mas não era por ciúme. Era porque, aparentemente, alguns boatos começaram a circular na Noruega. Molnes dizia que, se o relacionamento se tornasse público, isso prejudicaria não só ele, mas também, injustamente, outras pessoas que ocupavam cargos importantes. Tentei aprofundar a questão, mas foi só o que ele falou.

— E que tipo de ameaças fez a você?

— Ameaças? Como assim?

— Ele não deve ter dito apenas: “Por favor, será que você se importaria de não se encontrar mais com a mulher que você ama?”

— Foi assim mesmo, na verdade. Acho que ele até usou essa expressão.

— Que expressão?

— “Por favor.” — Brekke juntou as mãos em cima da mesa diante de si. — Era um sujeito estranho. “Por favor.”

Sorriu sem convicção.

— É, imagino que não seja uma expressão muito usada em seu ramo.

— Nem no seu, creio eu.

Harry o encarou, mas o olhar de Brekke não era desafiador.

— Qual foi o acordo entre vocês?

— Nenhum. Falei que ia pensar no assunto. O que eu poderia dizer? O cara estava quase chorando.

— Chegou a considerar a possibilidade de terminar com Hilde?

Brekke franziu o cenho, como se a ideia ainda não tivesse lhe ocorrido.

— Não. Eu... bom, teria sido muito difícil pra mim deixar de vê-la.

— Você me disse que, terminada a reunião, acompanhou o embaixador até o estacionamento no subsolo, onde estava o Mercedes dele. Quer mudar seu depoimento nesse ponto?

— Não... — respondeu Brekke, surpreso.

— Checamos as imagens do circuito interno de TV na data em questão entre três e cinquenta e cinco e quinze da tarde. O Mercedes do embaixador não estava estacionado nas vagas de visitantes. Gostaria de mudar seu depoimento?

— Mudar...? — Brekke olhou para Harry, incrédulo. — Meu Deus, cara, não. Vi o carro dele ao sair do elevador. Nós dois tínhamos que aparecer nessas imagens. Lembro-me até de ter trocado algumas palavras com Molnes antes de ele entrar no carro. Prometi ao embaixador que não comentaria com Hilde que tínhamos conversado.

— Temos provas de que não foi assim que aconteceu. Última chance: quer mudar o depoimento?

— Não!

Harry agora percebia na voz de Brekke uma firmeza que não estava lá antes de o interrogatório começar.

— O que você fez depois de ter acompanhado o embaixador até o estacionamento, conforme sua versão?

Brekke explicou que, a fim de terminar o relatório de análise de uma empresa, tinha subido de volta ao escritório, onde ficou até por volta da meia-noite, quando chamou um táxi e foi para casa.

Harry perguntou se alguém tinha aparecido no escritório ou havia telefonado enquanto ele estava trabalhando, mas Brekke informou que ninguém tinha acesso ao escritório sem a senha, e que o telefone estava bloqueado para chamadas a fim de que ele pudesse trabalhar em paz, como era seu costume quando tinha um relatório a fazer.

— E não tem ninguém que possa fornecer um álibi a você? Alguém que possa testemunhar que você foi pra casa, por exemplo?

— O Ben, zelador de onde moro. Talvez ele lembre. Geralmente repara quando chego tarde em casa, e de terno.

— Um zelador que viu você chegar em casa à meia-noite, nada mais?

Brekke ponderou.

— Acho que sim.

— Certo — disse Harry. — Um colega vai assumir o restante do interrogatório. Gostaria de algo pra beber? Café, água?

— Não, obrigado.

Harry se levantou para ir embora.

— Harry?

Ele se voltou.

— Melhor você me chamar de Hole. Ou inspetor.

— Tudo bem. Estou encrencado? — perguntou Brekke em norueguês.

Harry semicerrou os olhos. A aparência de Brekke era deplorável; com os ombros caídos, parecia um saco de pano vazio.

— Se eu fosse você, acho que ligaria agora pra um advogado.

— Certo. Obrigado.

Harry parou junto à porta.

— A propósito, e quanto à promessa que você fez ao embaixador? Vai cumpri-la?

Brekke exibiu um sorriso meio que de desculpas.

— Bobagem. Eu tinha a intenção de contar a Hilde, claro. Digo, tinha que contar a ela. Mas aí veio a notícia da morte dele e... bom, Molnes era um sujeito estranho, e pus na cabeça que deveria manter minha palavra, apesar de agora isso não fazer mais nenhum sentido.

— Só um minutinho que já coloco você no viva voz.

— Alô?

— Estamos escutando, Harry. Diga.

Bjarne Møller, da Divisão de Homicídios, Dagfinn Torhus, do Ministério das Relações Exteriores, e a comissária da Polícia de Oslo ouviram o relatório de Harry sem fazer nenhuma interrupção. Torhus foi o primeiro a falar.

— Então temos um cidadão norueguês sob custódia, suspeito de homicídio. A pergunta é: por quanto tempo a gente consegue manter isso sob sigilo?

A comissária pigarreou.

— Uma vez que o assassinato ainda não é de conhecimento público, acho que temos alguns dias, especialmente porque não existe nada concreto contra Brekke, fora uma mentira em um interrogatório e talvez uma motivação. Se a gente precisar liberar o sujeito, provavelmente é melhor que ninguém nem saiba que ele foi detido.

— Você está me escutando, Harry?

Quem falava agora era Møller. Seguiu-se um ruído que Møller tomou como uma resposta afirmativa.

— O cara é culpado, Harry? Foi ele?

Mais ruído, e Møller tirou o telefone da comissária do gancho.

— O que você disse, Harry? Você...? Certo. Bom, a gente vai discutir isso aqui e mantém contato.

Møller desligou.

— O que ele disse?

— Que não sabia.

Quando Harry enfim chegou em casa, já era tarde. O Le Boucheron estava cheio, então ele acabou jantando em um restaurante da Soi 4, em Patpong, uma rua cheia de bares gays. Estava no prato principal quando um sujeito veio até a mesa e gentilmente perguntou se ele gostaria de uma punheta, retirando-se discretamente depois de Harry balançar a cabeça em negativa.

Harry desceu do elevador no quinto andar. Não havia ninguém por perto, e as luzes no entorno da piscina estavam apagadas. Tirou a roupa e mergulhou. Sentiu o abraço líquido e refrescante da água. Deu algumas voltas a nado na piscina, vencendo a resistência da água. Runa tinha lhe dito que era impossível haver duas piscinas idênticas, que toda água tinha suas idiossincrasias, sua consistência particular, seu cheiro, sua cor. Aquela era como baunilha, segundo ela. Doce e viscosa. Ele inalou, mas só o que conseguiu sentir foi cheiro de cloro e Bangkok. Boiou de costas, os olhos fechados. O som de sua própria respiração debaixo da água lhe dava a sensação de estar trancado em um cômodo pequeno. Abriu os olhos. Uma luz se apagou em um dos apartamentos da ala oposta. Um satélite se movia lentamente entre as estrelas. Uma moto com o silenciador avariado tentava arrancar. Então ele voltou os olhos ao apartamento. Conferiu a contagem dos andares e engoliu água. A luz que tinha se apagado era a do apartamento dele.

Em questão de segundos, Harry saiu da piscina e pegou a calça, procurando em vão alguma coisa no entorno que pudesse servir de arma. Apanhou a redinha de limpar piscina apoiada à parede, percorreu os poucos metros que o separavam do elevador e apertou o botão. As portas se abriram, e, ao entrar, ele sentiu um leve cheiro de curry. Em seguida, a sensação foi de ter tido um segundo subtraído de sua vida; quando voltou a si, estava com as costas no chão frio de pedra do corredor. Por sorte, o golpe o atingiu na testa, mas viu uma figura enorme debruçando-se sobre ele e soube de imediato que não teria muita chance de escapar. Acertou a coxa mais próxima com o cabo da redinha, mas o alumínio era leve e não produziu grande efeito. Conseguiu evitar o primeiro chute e se pôs de joelhos, mas o segundo o atingiu no ombro e fez seu corpo girar. As costas doíam, mas a adrenalina surtiu efeito, e ele se pôs de pé com um rugido de dor. À luz do elevador aberto, viu um rabicho de cavalo que pendia de uma cabeça raspada, ao mesmo tempo que um punho veio em sua direção, acertando seu supercílio e arremessando-o de volta à área da piscina. A figura o seguiu até ali, e Harry fez menção de dar um soco com a esquerda para, com a direita, acertar um golpe onde imaginava estar o rosto do oponente. Foi como esmurrar uma pedra de granito; pareceu ter machucado mais a própria mão do que o outro. Harry recuou um passo e inclinou a cabeça para o lado, sentindo o peito se encher de ar e medo. Tateou o cinto, encontrou as algemas, soltou-as dali e segurou-as como a um soco inglês. Esperou que o bloco de granito chegasse mais perto e, arriscando-se a tomar um soco, se abaixou. Então atacou, girando o quadril, depois o ombro e o corpo todo, golpeando com fúria desesperada na escuridão, os nós dos dedos cobertos com o metal das algemas. Sentiu, enfim, que o impacto fazia algo ceder. Bateu de novo e voltou a sentir que o ferro abria caminho na pele. O sangue escorria quente e espesso entre seus dedos; Harry não sabia se era o seu ou o do sujeito que o atacava, mas voltou a erguer o punho para mais um golpe, chocado com o fato de o outro ainda estar de pé. Foi então que ouviu uma risada grave e gutural, e logo uma carga de concreto aterrissou sobre sua cabeça, a escuridão tornou-se ainda maior e qualquer noção de espaço deixou de existir.