Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 17 de 54

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Baratas

Capítulo 15

 

DOMINGO, 12 de JANEIRO

 

— O que é um pedófilo?

Ståle Aune soltou um suspiro do outro lado da linha.

— Um pedófilo? Que jeito de começar uma conversa. A resposta mais simples é que é uma pessoa que sente atração sexual por crianças.

— E a resposta mais complicada?

— Tem muita coisa que a gente desconhece sobre esse fenômeno, mas, se você conversar com um sexólogo, ele provavelmente fará uma distinção entre pedófilos por afinidade e pedófilos de ocasião. O tipo clássico, com um pacote de balinhas no parque, é o pedófilo por afinidade. Seu interesse por crianças geralmente começa na adolescência e não necessariamente tem origem em fatores externos. Ele se identifica com a criança, adapta seu comportamento à idade dela e pode, em certas situações, assumir o papel de um pseudopai. O contato sexual é cuidadosamente planejado e, para esse sujeito, o sexo é uma tentativa de resolver seus problemas na vida. Vou receber por essa consultoria?

— E os pedófilos de ocasião?

— Formam um grupo mais difuso. Nesse caso, o interesse sexual primordial é por outros adultos, e a criança tende a substituir alguém com quem o pedófilo está em conflito.

— Me conta mais sobre o cara do pacote de balinhas. Como se forma uma personalidade dessas?

— Bom, os pedófilos, em geral, têm baixa autoestima e uma sexualidade frágil. Ou seja, são inseguros, não conseguem assumir a sexualidade adulta e se sentem fracassados. Pensam que só podem estar no controle da situação se derem vazão a seus desejos com crianças.

— E a coisa toda está relacionada à natureza e à criação da pessoa, a mesma história de sempre?

— Não é incomum que pedófilos tenham sofrido abuso sexual na infância.

— E como a gente identifica um desses casos?

— Sinto muito, Harry, mas não funciona assim. Essas pessoas não têm nada de extraordinário, nenhum traço que chame a atenção. São geralmente homens que vivem sozinhos e não têm vida social muito ativa. Podem ter uma identidade sexual doentia, mas isso não os impede de levar uma vida perfeitamente normal nos demais aspectos.

— Entendi. Então não tem como saber.

— A vergonha gera verdadeiros artistas da camuflagem. A maioria dos pedófilos passa a vida inteira se aperfeiçoando em como esconder sua predileção dos outros, então a única coisa que posso dizer é que tem muito mais pedófilos soltos por aí do que presos pela polícia.

— Dez pra cada um que é preso.

— O que você disse?

— Nada. Obrigado, Ståle. Aliás, larguei a bebida.

— Ah. Faz quantos dias?

— Cerca de quarenta e oito horas.

— Difícil?

— Bom, pelo menos os monstros ainda estão embaixo da cama. Pensei que seria pior.

— É só o começo. Lembre-se de que você vai passar por uns maus bocados.

— E existe algo além disso na vida?

Estava escuro, e, assim que Harry pediu para ir a Patpong, o taxista lhe passou uma pequena brochura colorida.

— Massagem, senhor? Da boa. Posso levar o senhor lá.

Harry discerniu na penumbra fotos de moças sorrindo para ele, tão puras e inocentes quanto as de um anúncio da Thai Airways.

— Não, obrigado, só quero uma refeição.

Harry devolveu a brochura, embora suas costas doloridas achassem que aquela era uma excelente ideia. Quando, por curiosidade, perguntou de que tipo de massagem se tratava, o taxista fez um gesto conhecido internacionalmente que não deixou margem a outra interpretação.

Tinha sido Liz quem lhe recomendara o Le Boucheron, e a comida parecia realmente boa, mas Harry estava sem apetite. Sorriu à guisa de desculpas quando a garçonete retirou seu prato e deixou uma gorjeta generosa para que não achassem que estava insatisfeito. Dali, saiu para as ruas agitadas de Patpong. Soi 1 estava fechada ao tráfego, porém ainda mais apinhada de gente circulando para cima e para baixo, como se fosse um rio fervilhante que corria ao longo das barracas e dos bares. A música escapava de qualquer brecha nas paredes, homens e mulheres suados nas calçadas andavam à espreita de alguma aventura, e odores de gente, esgoto e comida disputavam espaço no ar. Uma cortina se abriu enquanto ele passava em frente a um dos inferninhos, e lá dentro, trajando o figurino obrigatório de fio dental e salto alto, Harry viu as meninas dançando.

— Sem couvert, noventa baht incluindo bebida — alguém gritou no ouvido dele. Harry continuou andando, mas era como se tivesse ficado parado ali, porque a mesma coisa ia sendo repetida ao longo da rua lotada de gente.

Sentiu algo semelhante a uma pulsação em seu estômago, mas não sabia discernir se era o ritmo da música, de seu coração ou do martelar maçante de um dos bate-estacas que trabalhavam dia e noite na construção de uma nova via expressa em Bangkok, um elevado sobre a Silom Road.

Em um dos bares, uma moça de vestido de seda vermelho e vistoso olhou para Harry e, em seguida, indicou a cadeira ao lado dela. Harry seguiu em frente, com uma sensação de semiembriaguez. Ouviu um rugido vindo de outro bar, onde, em um canto, havia uma televisão ligada, e ele logo descobriu que algum time havia marcado um gol. Dois ingleses de pescoço vermelho brindaram e entoaram o cântico da torcida: “I’m forever blowing bubbles...”

— Chega aí, lourinho.

Uma mulher alta e magra piscou para ele, empinou seu par de seios grandes e firmes e cruzou as pernas cobertas por uma calça colante de modo a não deixar nada por conta da imaginação.

— Ela é uma katoy — disse uma voz em norueguês, e Harry se voltou.

Era Jens Brekke. Estava de braços dados com uma tailandesa pequena e graciosa com uma saia de couro bem justa.

— É fantástico mesmo, isso aí tudo: curvas, seios e uma vagina. E, de fato, tem cara que prefere uma katoy a um item original. E por que não? — Brekke mostrou uma fileira de dentes brancos no rosto infantil e bronzeado. — O único problema, claro, é que vaginas implantadas cirurgicamente não têm as mesmas propriedades antissépticas das vaginas das mulheres de verdade. No dia em que tiverem, eu mesmo vou passar a considerar a opção de arranjar uma katoy. O que você acha, inspetor?

Harry olhou para a mulher alta que tinha virado as costas para eles bufando ao escutar a palavra katoy.

— Bom, não tinha passado pela minha cabeça que alguma dessas mulheres não fosse uma mulher.

— Não é difícil enganar o olhar de um leigo, mas dá pra saber pelo pomo de adão, coisa que, em geral, não é possível remover. Além disso, as katoy tendem a ser muito altas, exageram um pouco nas roupas provocantes e são mais agressivas na abordagem. E muito mais bonitas. É essa última característica que, no fim das contas, as denuncia. Elas não conseguem se controlar; sempre têm que ir um pouquinho longe demais.

Brekke deixou a frase pairando no ar, como se estivesse insinuando alguma coisa, mas, se estava, Harry não compreendeu.

— A propósito, inspetor, você também acabou indo longe demais? Vejo que está mancando.

— Levei muita fé no estilo ocidental de negociação. Vai passar.

— O quê? A fé ou a contusão?

Brekke encarava Harry com o mesmo sorriso invisível do encontro entre eles após o funeral. Como se aquilo fosse um jogo no qual ele queria que Harry entrasse. O investigador não estava com o espírito muito lúdico.

— As duas, espero. Eu já estava indo pra casa.

—Já? — As luzes de neon se refletiam na testa suada de Brekke. — Espero encontrá-lo melhor amanhã então, inspetor.

Na Surawong Road, Harry fez sinal para um táxi.

— Massagem, senhor?