Baratas
Epílogo
51
L iz acordou ciente de que a primeira coisa que veria seria o teto amarelo com a rachadura em formato de T. Fazia duas semanas que vinha olhando para aquela rachadura. Por causa da fratura no crânio, não a deixavam ler nem ver TV, só ouvir rádio. O ferimento a bala logo estaria curado, segundo os médicos, pois não havia atingido nenhum órgão vital.
Nenhum órgão vital para ela, pelo menos.
Um médico tinha vindo perguntar se ter filhos era algo que estava em seus planos. Ela fez que não com a cabeça, sem querer ouvir o resto, e o médico concordou em não dizer mais nada. Haveria tempo suficiente para as más notícias mais tarde; agora ela tentava se concentrar nas boas. Como não ter de passar os anos seguintes como guarda de trânsito. E a visita do chefe de polícia para dizer que ela podia tirar umas semanas de folga.
Seu olhar vagou casualmente até o parapeito da janela. Tentou virar a cabeça, mas tinham montado um aparato que mais parecia uma plataforma de petróleo junto à sua cabeça, o que tornava qualquer movimento impossível
Ela não gostava de ficar sozinha; nunca gostou. Tonje Wiig fez uma visita no dia anterior e perguntou se ela sabia o que havia acontecido com Harry. Como se ele pudesse ter feito contato telepático com Liz enquanto ela estava em coma. Mas a inspetora percebeu que a preocupação de Wiig não era meramente profissional e preferiu ficar quieta. Disse apenas que ele logo daria as caras.
Tonje Wiig pareceu muito solitária e deprimida. Bom, ela sobreviveria. Era do tipo que sobrevivia sempre. Tinha sido informada de que era a nova embaixadora e assumiria o posto em maio.
Alguém tossiu. Liz abriu os olhos.
— Como vão as coisas? — disse uma voz rouca.
— Harry?
O clique de um isqueiro, e ela sentiu cheiro de fumaça de cigarro.
— Então você está de volta? — perguntou ela.
— Só estou tentando manter a cabeça fora d’água.
— O que você anda fazendo?
— Experimentos — respondeu ele. — Vendo se consigo descobrir um método infalível de se perder a consciência.
— Disseram que você fugiu do hospital.
— Não havia mais nada que pudessem fazer por mim lá.
Ela riu com cuidado, deixando o ar sair em espasmos curtos.
— O que ele disse? — quis saber Harry.
— Bjarne Møller? Está chovendo em Oslo. Parece que a primavera deve chegar mais cedo este ano. Fora isso, nada de novo. Ele mandou um oi pra você e pediu que eu dissesse que as pessoas estão respirando aliviadas nos dois países. O diretor Torhus apareceu por aqui com flores e perguntou por você. Pediu que eu desse os parabéns.
— O que Møller disse? — insistiu Harry.
Liz soltou um suspiro.
— Tudo bem. Repassei sua mensagem, e ele foi checar.
— E?
— Você sabe que é bem improvável que Brekke tenha alguma coisa a ver com o estupro da sua irmã, não sabe?
— Sei.
Liz podia ouvir o crepitar do cigarro quando Harry tragava.
— Talvez você devesse deixar isso pra lá, Harry.
— Por quê?
— A ex-mulher de Brekke não entendeu a razão daquelas perguntas. Disse que o abandonou porque o achava um chato e por nenhum outro motivo. E... — Liz respirou fundo. — E Brekke nem estava em Oslo no dia do estupro.
Ela tentou detectar a reação de Harry àquela informação.
— Sinto muito — completou.
Escutou a guimba caindo no chão e o calcanhar de uma sola de borracha esmagando-a contra o piso.
— Bom, só queria ver como você estava — falou o detetive.
Pés de cadeira foram arrastados no chão.
— Harry?
— Estou aqui.
— Mais uma coisa. Volte. Prometa pra mim que vai voltar. Não fique perdido por aí.
Ela conseguia escutar a respiração dele.
— Eu vou voltar — falou Harry, a voz monótona, como se estivesse cansado de repetir o mesmo refrão.