Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 52 de 54

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Baratas

Capítulo 50

 

SEXTA-FEIRA, 24 de JANEIRO

 

A cada passo que dava, era obrigado a fazer um esforço extra com a perna, rezando para que não cedesse. Diante de seus olhos, tudo flutuava; ele sabia que aquilo era seu cérebro tentando escapar da dor. Mancando, deparou-se com a mesma moça de antes, que parecia posar para O grito, os lábios sem emitir som algum.

— Chame uma ambulância! — gritou Harry, e ela despertou. — Um médico!

No momento seguinte, ele estava lá fora. O vento tinha cessado; fazia calor, um calor opressivo. Um carro tinha parado atravessado na pista, deixando marcas de derrapagem no asfalto, estava com a porta aberta, e o motorista, do lado de fora, agitava os braços. Apontava para o alto. Harry também ergueu os braços e cruzou a via correndo, sem olhar, na esperança de que os motoristas, percebendo que ele não estava nem aí para o trânsito, freassem. Ouviu-se um guincho de pneu. Harry olhou para onde o homem tinha apontado. Uma caravana de silhuetas cinzentas de elefantes surgia diante dele. Seu cérebro parecia um rádio de carro com defeito, entrando e saindo de sintonia, e um toque solitário de trombeta invadiu a noite. Harry sentiu o deslocamento de ar do rolo compressor que, com aquele som agudo, quase arrancou sua camisa ao passar por ele com um estrondo.

Recuperou-se, o olhar agora perscrutando os pilares de concreto. A estrada dos tijolos amarelos. O novo elevado de Bangkok. E por que não? Parecia lógico, de certa forma.

Uma escada de ferro conduzia a uma abertura no concreto a uns quinze ou vinte metros acima dele. Pela abertura, dava para ver um pedaço da lua. Com a coronha da arma entre os dentes para iniciar a subida, percebeu que seu cinto pendia da calça e tentou não pensar no que uma bala que tinha cortado seu cinto poderia ter feito com seu quadril. Começou a subir, o ferro dos degraus pressionando o corte em sua mão feito pelo cabo do microfone.

Não consigo sentir nada, pensou Harry, praguejando porque o sangue que cobria sua mão feito uma luva vermelha tornava a escada escorregadia. Posicionou o pé direito no degrau e deu um impulso, colocou o pé no próximo, mais um impulso. Melhor agora. Desde que não desmaiasse. Deu uma olhada para baixo. Dez metros? Melhor mesmo não desmaiar. Para o alto e avante. E, de repente, escuridão. De início achou que eram seus olhos e parou, mas, voltando-os para baixo, percebeu que conseguia enxergar os carros, além de ouvir uma sirene de polícia cortando o ar feito a lâmina de uma serra. Voltou a olhar para cima. A abertura no topo da escada estava escura; dali não podia mais ver a lua. Teria o céu ficado nublado? Um pingo acertou o cano da arma. Mais uma chuva pré-monções? Harry avançou para o degrau seguinte, o coração aos pulos, lutando, fazendo o melhor que podia.

Pra que tudo isso?, pensou o detetive, olhando para baixo. Logo apareceria o primeiro carro de polícia. Jens provavelmente tinha saído em disparada pela estrada-fantasma, rindo feito um maníaco, e àquela altura já estaria descendo por outra escada, dois quarteirões adiante, para, em seguida, como num passe de mágica, se perder no meio da multidão. A porra do Mágico de Oz.

O pingo escorreu pela coronha até chegar aos dentes cerrados de Harry.

Três pensamentos lhe ocorreram ao mesmo tempo. O primeiro foi que, se Jens tivesse visto que ele saíra vivo do Millie’s Karaokê, provavelmente não estaria em fuga. Jens não tinha escolha; precisava terminar o serviço.

O segundo pensamento foi que pingos de chuva não tinham aquele gosto doce e metálico.

E o terceiro, que não havia ficado nublado. Alguém lá em cima bloqueava a abertura. Alguém que estava sangrando.

A partir daí, tudo voltou a acontecer muito rápido.

A esperança de Harry era que a mão esquerda não estivesse tão ferida e ele tivesse força suficiente para se manter agarrado ao degrau. Pegou a arma da boca com a direita, viu faíscas vindas do degrau acima e ouviu o assobio da bala ricocheteando. Sentiu algo atingindo a perna da calça antes de, enfim, mirar no círculo negro lá em cima, disparar e sentir o coice da arma. Um cano de revólver reluziu, e Harry esvaziou o tambor naquela direção. Continuou a apertar o gatilho. Clique, clique, clique. Que porra de amador ele era.

De novo conseguiu vislumbrar a lua, deixou a arma cair e, antes de ouvi-la bater no chão, já havia retomado a subida da escada. Logo estava lá em cima. A via em construção, as caixas de ferramentas e o maquinário pesado surgiram banhados à luz amarelada de um balão ridiculamente grande que alguém tinha pendurado ali, acima deles. Jens estava sentado sobre um monte de areia, os braços cruzados sobre a barriga, oscilando o corpo para a frente e para trás e gargalhando.

— Merda, Harry, você estragou tudo mesmo. Olha isso aqui.

Descruzou os braços. O sangue vertia de seu corpo, borbulhante, espesso e reluzente.

— Sangue escuro. Isso significa que você acertou o fígado, Harry. Meu médico vai me mandar cortar o álcool. Nada legal.

As sirenes da polícia soavam cada vez mais próximas. Harry tentou manter a respiração sob controle.

— Eu não me importaria tanto, Jens. Ouvi dizer que o conhaque que servem nas prisões tailandesas é horroroso.

Mancando, o detetive se aproximou de Jens, que apontava uma arma para ele.

— Ora, ora, Harry, também não precisa exagerar, só é um pouco doloroso. Nada que uma grana não dê jeito.

— Sua munição acabou — disse Harry, ainda caminhando na direção do outro.

Jens soltou uma risada e tossiu.

— Boa tentativa, Harry, mas receio que quem gastou todas as balas foi você. Eu sei contar, sabe?

— Sabe mesmo?

— Rá-rá. Achei que tinha contado a você. Números. É com essas coisas que eu ganho a vida. — Ele exibiu para Harry os dedos da mão livre. — Duas em você e na sapatona naquela espelunca e três na escada. Sobrou uma pra você, Harry. É sempre bom ter uma reserva, sabe como é.

Harry estava a apenas dois passos de distância.

— Você anda vendo muito dessas merdas de filmes de ação, Jens.

— Célebres últimas palavras.

Jens endireitou a postura e, com cara de quem se desculpava pelo que ia fazer, puxou o gatilho. O clique foi ensurdecedor. A expressão dele passou da suposta pena à descrença.

— Só nessas merdas de filmes de ação que toda arma tem seis balas, Jens. Isso aí é uma Ruger SP101. Só tem cinco.

— Cinco? — Ele olhou para a arma. — Cinco? Como você sabe disso?

— É com essas coisas que eu ganho a vida.

Harry já enxergava as luzes azuis na via lá embaixo.

— Melhor você me entregar a arma, Jens. A polícia costuma atirar na hora quando vê alguém com uma.

A expressão no rosto de Jens era de puro atordoamento quando entregou a arma a Harry, que a enfiou na cintura. Talvez tenha se distraído porque, sem o cinto, o revólver foi parar na perna da calça, talvez estivesse muito cansado, ou talvez tenha relaxado ao ver nos olhos de Jens o que pensou ser um olhar de rendição. Cambaleou para trás quando o soco o atingiu, surpreso com a agilidade de movimentos do outro. Sentiu a perna esquerda vergar e, no momento seguinte, a cabeça bater no concreto com um baque.

Ficou fora do ar por um segundo. Não podia perder a consciência. O rádio tentou desesperadamente sintonizar alguma estação. A primeira coisa que viu foi o brilho de um dente de ouro. Piscou. Não era um dente de ouro; era a luz da lua refletida em uma faca da Lapônia. Em seguida, a lâmina, ávida, desenhou um arco descendente na direção dele.

Harry nunca saberia dizer se agiu por instinto ou se houve algum processo cognitivo. Ergueu a mão esquerda e, com os dedos abertos, foi ao encontro do aço reluzente. A lâmina perfurou a palma da mão com facilidade. Com a faca enfiada até o cabo, Harry recuou a mão até conseguir desferir um pontapé com a perna boa. Acertou o alvo bem no ponto de onde jorrava o sangue negro; Jens se curvou, gemeu e tombou de lado no monte de areia. Harry ficou de joelhos com esforço. Jens estava encolhido em posição fetal, as mãos na barriga. Se ele gritava de dor ou dava gargalhadas, era difícil dizer.

— Porra, Harry. Dói tanto que chega a ser sensacional.

Alternava engasgos, grunhidos e risadas.

Harry ficou de pé. Olhou para a faca que despontava dos dois lados da mão, sem saber qual seria a atitude mais sensata: tirá-la ou deixá-la ali para estancar o sangue. Ouviu alguém gritar alguma coisa em um megafone na rua lá embaixo.

— Sabe o que vai acontecer agora, Harry?

Jens tinha fechado os olhos.

— Na verdade, não.

Jens fez uma pausa para se recuperar.

— Deixa eu explicar a você então. Todo um bando de policiais, advogados e juízes vai faturar bastante com essa história. Isso vai me custar caro, Harry, seu filho da mãe.

— Como assim?

— Como assim? De novo bancando o escoteiro norueguês, agora? É possível comprar qualquer coisa na vida. Quando se tem grana. E eu tenho grana. Além do mais... — Ele tossiu. — Tem uns políticos aí com capital investido no setor da construção civil que não querem ver o projeto do elevado ir pro ralo.

Harry negou com a cabeça.

— Não dessa vez, Jens. Não dessa vez.

Jens arreganhou os dentes; a expressão de dor era um misto de sorriso e careta.

— Quer apostar?

Qual é, pensou Harry. Não faça nada de que vá se arrepender depois. Deu uma olhada no relógio, um reflexo adquirido ao longo dos anos de profissão. Horário da prisão para preencher o relatório.

— Tem uma coisa em que fiquei pensando, Jens. A inspetora Crumley achou que eu tinha entregado demais o jogo quando perguntei sobre a Ellem Ltd. E talvez tenha mesmo. Mas já fazia um bom tempo que você sabia que eu estava de olho em você, certo?

Ele tentou se concentrar em Harry.

— Fazia algum tempo. Por isso nunca entendi por que você se esforçou tanto pra me livrar da prisão preventiva. Por que, Harry?

Harry estava zonzo e precisou se sentar em uma das caixas de ferramentas.

— Bom, talvez eu ainda não tivesse percebido que sabia que era você. Talvez quisesse ver qual seria sua próxima cartada. Talvez quisesse atraí-lo pra fora da toca. Não sei. Como você descobriu que eu sabia?

— Alguém me contou.

— Impossível. Até hoje à noite eu não tinha dito nada a ninguém.

— Alguém descobriu sem você dizer.

— Runa?

O rosto de Jens estava trêmulo, e saliva branca se acumulava nos cantos da boca.

— Quer saber, Harry? Runa tinha aquilo que alguns chamam de intuição. Prefiro chamar de capacidade de observação. Você precisa aprender a esconder melhor seus pensamentos. Não baixar a guarda pro inimigo. É incrível como uma mulher se dispõe a colaborar, se a gente ameaça arrancar o que faz dela uma mulher. Você...

— Que ameaça você fez?

— Mamilos. Ameacei cortar os mamilos dela. Que tal, Harry?

Harry desviou o rosto, fitou o céu e fechou os olhos, como se esperasse pela chuva.

— Falei alguma coisa errada? — O detetive sentiu o ar quente ferver nas narinas. — Ela estava esperando por você, Harry.

— Em que hotel você se hospeda quando está em Oslo? — sussurrou o detetive.

— Runa disse que você iria salvá-la, que você sabia quem a tinha sequestrado. Chorou feito um bebê e tentou reagir se debatendo com a prótese. Muito engraçado. Aí...

Ruído de metal vibrando. Clang, clang, clang. Já estavam subindo a escada. Harry fitou a faca que ainda estava em sua mão. Não. Olhou ao redor. A voz de Jens invadia seus ouvidos como um ruído irritante. Sentiu um formigamento suave na barriga, um leve zunido na cabeça, a sensação de quem toma um porre de champanhe. Não faça isso, Hole, segura a onda. Mas já podia sentir o êxtase da queda livre. E se jogou.

A fechadura da caixa de ferramentas cedeu no segundo pontapé. A britadeira era uma Wacker, leve, não pesava mais que vinte quilos, provavelmente, e bastou pressionar o botão para que ligasse. Jens calou a boca no mesmo instante, os olhos se arregalando à medida que, gradualmente, o cérebro compreendia o que estava prestes a acontecer.

— Harry, você não pode...

— Abra bem.

O rugido da máquina trepidante abafou o tráfego lá embaixo, os gritos no megafone e o ruído vindo da escada de ferro. Harry se debruçou sobre Jens, as pernas afastadas, o rosto ainda voltado para o alto e os olhos fechados. Estava chovendo.

Harry desabou na areia. Deitou-se de barriga para cima e ficou olhando o céu; estava na praia com ela, e ela perguntava se ele não podia passar um pouco de protetor solar em suas costas, pois tinha uma pele sensível. Não queria ficar queimada. Queimada, não. Então ouviu vozes falando alto, coturnos batendo no concreto e o clique de armas lubrificadas sendo engatilhadas. Ele abriu os olhos, a luz apontada para o seu rosto o cegou. A lanterna então se moveu, e ele vislumbrou os contornos do rosto de Rangsan.

Harry sentiu o cheiro da própria bile e, finalmente, a boca e o nariz foram invadidos pelo conteúdo de seu estômago.