Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 36 de 54

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Baratas

Capítulo 34

 

DOMINGO, 19 de JANEIRO

 

Harry acordou com um sobressalto. Acima do murmúrio monótono que vinha da ponte Taksin, pôde distinguir o som de um barco dando partida no Chao Phraya. Um apito soou, e a claridade fez seus olhos se abrirem, atentos. Sentou-se na cama, cobriu o rosto com as mãos e esperou que o apito cessasse, até perceber que se tratava do telefone. Relutando, pegou o fone do gancho.

— Acordei você? — Era Jens novamente.

— Tudo bem — disse Harry.

— Sou um idiota. Sou tão idiota que nem sei se me atrevo a contar a você.

— Então não conte.

Silêncio, exceto pelo clique de uma moeda sendo inserida no telefone.

— Estou brincando. Vá em frente.

— Está bem, Harry. Fiquei acordado a noite toda pensando, tentando lembrar o que eu fiz enquanto estava no escritório naquela noite. Sabe, consigo me lembrar de casas decimais de transações que fiz meses atrás, mas não sou capaz de lembrar as coisas simples e pontuais enquanto estou na prisão, com uma sentença por homicídio pesando em meus ombros. Você consegue entender isso?

— Deve ser justamente por isso que você não lembra. Já não falamos sobre isso antes?

— Tudo bem, foi isso que aconteceu: lembra quando eu disse a você que tinha bloqueado as minhas ligações enquanto estava no escritório naquela noite? Então, eu fiquei deitado na cama pensando na Lei de Murphy. Se eu tivesse deixado o telefone ligado, alguém poderia ter telefonado e a conversa teria sido gravada, e eu poderia provar onde estava. Com o bônus de que não dá pra alterar a data e a hora das minhas gravações, como o funcionário do estacionamento fez com o vídeo.

— Aonde você quer chegar?

— Lembrei, graças a Deus, que, mesmo tendo bloqueado o sistema para receber ligações, eu ainda assim podia realizá-las. Então telefonei para a minha secretária e pedi a ela que fosse até o escritório e verificasse minhas gravações. E, veja que maravilha, ela encontrou uma ligação que eu tinha feito, e daí eu me lembrei de todo o resto. Às oito horas, telefonei pra minha irmã em Oslo. Diga que isso serve!

Harry não tinha nenhuma intenção de fazer isso.

— Sua irmã pode fornecer a você um álibi e você realmente não se lembrava disso?

— Não, e sabe por quê? Porque ela não estava em casa. Eu só deixei uma mensagem na secretária eletrônica dela.

— E você não se lembrava disso? — repetiu Harry.

— Meu Deus, Harry, a gente esquece esse tipo de ligação antes mesmo de desligar, não? Você se lembra de todas as ligações que fez quando a pessoa com quem você queria falar não o atendeu?

Harry teve que admitir que ele estava certo.

— Já falou com seu advogado?

— Ainda não. Queria contar a você primeiro.

— Tudo bem, Jens. Ligue pro advogado agora, e eu vou mandar alguém até o seu escritório para verificar essa informação.

— Esse tipo de gravação tem validade perante a lei, sabe?

Havia uma leve tensão na voz dele agora.

— Relaxe, não vai demorar muito. Eles vão ter que soltar você agora.

O fone chiou com a respiração de Brekke.

— Você pode repetir isso, Harry, por favor?

— Eles vão ter que soltar você agora.

Jens deu uma risada estranha.

— Nesse caso, vou convidá-lo para um jantar, Harry.

— Melhor não.

— Por quê?

— Eu sou da polícia.

— Podemos considerar isso um jantar de negócios.

— Acho que não, Jens.

— Você que manda.

Um estrondo veio da rua, talvez fogos de artifício ou um pneu furado.

— Vou pensar nisso.

Harry desligou, foi até o banheiro e se olhou no espelho. Como era possível ficar tanto tempo em um clima tropical e ainda estar tão pálido? Não gostava particularmente do sol, mas nunca tinha demorado tanto tempo para ficar bronzeado. Talvez seu estilo de vida ao longo do último ano tivesse acabado com sua produção de melanina. Jogou água fria no rosto, pensou nos frequentadores de compleição mais morena do Schrøder’s e se olhou no espelho novamente. Bem, pelo menos seu nariz estava da cor de um bom vinho do Porto.