Baratas
Capítulo 31
SÁBADO, 18 de JANEIRO
J ens Brekke parecia não ter dormido desde a última vez que Harry o viu. Seus olhos estavam vermelhos, e as mãos, inquietas sobre a mesa.
— Então você não se lembra do funcionário de cabelo afro do estacionamento? — perguntou Harry.
Brekke negou com a cabeça.
— Como disse, não uso o estacionamento.
— Vamos esquecer Jim Love por enquanto e vamos nos concentrar em quem está tentando colocar você na prisão.
— Como assim?
— Alguém teve muito trabalho pra destruir seu álibi.
Jens ergueu tanto as sobrancelhas que elas quase desapareceram por trás do cabelo.
— No dia 13 de Janeiro, alguém manipulou a gravação de 7 de Janeiro e apagou as horas em que veríamos o carro do embaixador na garagem e você acompanhando-o até o estacionamento.
As sobrancelhas de Jens desceram e se curvaram quando ele franziu o cenho.
— Hein?
— Pense nisso.
— Quer dizer que tenho inimigos?
— Talvez. Ou talvez fosse apenas conveniente ter um bode expiatório.
Jens passou a mão na nuca.
— Inimigos? Não consigo pensar em nenhum, não desse tipo. — Seu rosto se iluminou. — Mas isso quer dizer que você vai me deixar sair.
— Desculpe, você ainda não está limpo.
— Mas você acabou de dizer que...
— O chefe de polícia não vai deixar você sair até que tenha um álibi. Então estou pedindo que você vasculhe seu cérebro. Alguém, qualquer pessoa, qualquer um, viu você depois que se despediu do embaixador e antes de chegar em casa? Havia alguém na recepção quando você saiu do escritório ou quando pegou o táxi? Parou em algum lugar, qualquer coisa assim?
Jens apoiou a testa na ponta dos dedos. Harry acendeu um cigarro.
— Porra, Harry! Todo esse lance do vídeo me deu um branco. Não consigo pensar direito. — Ele gemeu e deu uma porrada na mesa. — Sabe o que aconteceu ontem à noite? Sonhei que matei o embaixador. Que saímos juntos e fomos até um hotel, onde eu o apunhalei nas costas com uma enorme faca de açougueiro. Tentava parar, mas não conseguia me controlar. Era como se eu estivesse preso dentro de um robô e eu continuava a esfaquear, e eu...
Ele fez uma pausa.
Harry não disse nada; deu a Jens todo o tempo de que ele precisava para se recuperar.
— Eu odeio estar preso — disse o sujeito. — Nunca suportei me sentir preso. Meu pai costumava...
Engoliu em seco e apertou a mão direita. Harry percebeu os nós dos dedos ficarem brancos. Estava quase sussurrando quando continuou.
— Se alguém tivesse aparecido aqui com uma confissão, dizendo que eu poderia ir embora se a assinasse, não sei o que eu teria feito.
Harry levantou.
— Continue tentando se lembrar de alguma coisa. Agora que já falamos das gravações, talvez você consiga pensar com mais clareza.
Harry caminhou em direção à porta.
— Harry?
O detetive se perguntou por que as pessoas se tornavam tão falantes quando alguém lhes virava as costas.
— Sim?
— Por que você acha que eu sou inocente quando todos os outros parecem pensar o contrário?
Harry respondeu sem se virar.
— Primeiro, porque não temos nenhuma prova contra você, apenas um motivo meia-boca e a ausência de um álibi.
— E segundo?
Harry sorriu e virou a cabeça.
— Porque achei que você era um merda na primeira vez que o vi.
— E?
— Sou péssimo em julgar as pessoas. Tenha um bom dia.
Bjarne Møller abriu um dos olhos, virou-se para o relógio na mesa de cabeceira e se perguntou quem poderia considerar seis horas da manhã um horário razoável para fazer um telefonema.
— Eu sei que horas são — disse Harry, antes que seu chefe tivesse a chance de perguntar. — Olha, preciso que você verifique o histórico de um cara pra mim. Não tenho detalhes agora; por enquanto é só instinto.
— Instinto?
— Isso. Um palpite. Acho que o cara que procuramos é norueguês; portanto, as opções ficaram reduzidas.
Møller pigarreou, deslocando um bocado de muco.
— Por que norueguês?
— Bom, no paletó de Molnes e na faca do crime encontramos um pouco de gordura de rena. E o ângulo da facada sugere que era uma pessoa relativamente alta. Não me parece um tailandês típico.
— Está bem, mas não dava pra ter esperado pra ligar, Hole?
— Claro — disse Harry. E ficou em silêncio.
— Então, por que não esperou?
— Porque cinco detetives e um chefe de polícia estão aqui esperando você se mexer, chefe.
Møller ligou de volta duas horas depois.
— Por que exatamente você nos pediu pra buscar informações sobre esse cara, Hole?
— Bom, imaginei que uma pessoa que usa gordura de rena para proteger a lâmina da faca deve ter estado no norte da Noruega. Então me lembrei de uns colegas que voltaram do serviço militar em Finnmark com uma dessas grandes facas de lapão. Ivar Løken esteve no Departamento de Defesa por vários anos e foi transferido para Vardø. Além disso, eu diria que ele sabe como usar uma faca.
— Pode ser verdade — disse Møller. — O que mais sabe sobre ele?
— Não muito. Tonje Wiig acha que ele foi colocado na geladeira até se aposentar.
— Bom, não há nada sobre ele no banco de dados da polícia, mas... — Møller fez uma pausa.
— Mas?
— Temos um arquivo sobre ele.
— Como assim?
— O nome dele apareceu na tela, mas não consegui entrar no arquivo. Uma hora mais tarde, recebi um telefonema do alto-comando do Departamento de Defesa, em Huseby, perguntando por que eu estava tentando acessar esse arquivo.
— Nossa.
— Disseram pra eu enviar uma carta se precisasse de qualquer informação sobre Ivar Løken.
— Esqueça.
— Já esqueci, Harry. Isso não vai dar em nada.
— Você falou com o Hammervoll, da Divisão de Crimes Contra a Moralidade Pública?
— Sim.
— O que ele falou?
— Não preciso nem dizer que não havia arquivos sobre pedófilos noruegueses na Tailândia.
— Era o que eu imaginava. Maldita proteção de dados.
— Não tem nada a ver com isso.
— Ah, não?
— Começamos um banco de dados há alguns anos, mas não tivemos recursos para mantê-lo atualizado. São casos demais.
Quando Harry ligou para Tonje Wiig com o intuito de marcar uma reunião o mais rápido possível, ela insistiu para que se encontrassem no Author’s Lounge do Oriental Hotel para tomar um chá.
— Todo mundo frequenta esse lugar — disse ela.
Harry descobriu que “todo mundo” era branco, rico e bem-vestido.
— Bem-vindo ao melhor hotel do mundo, Harry — anunciou Tonje, direto das profundezas de uma poltrona no saguão do hotel.
Ela usava uma saia azul de algodão e segurava um chapéu de palha no colo, o que, somado às outras pessoas presentes no saguão, conferia ao local um toque de colonialismo antigo e despreocupado.
Ambos se retiraram para o Author’s Lounge, foram servidos de xícaras de chá e cumprimentaram educadamente outras pessoas brancas que pareciam achar que ser branco era razão suficiente para cumprimentarem uns aos outros. Harry se atrapalhou e fez retinir a porcelana.
— Não é seu estilo? — Tonje tomou um gole de chá, olhando maliciosamente por cima da xícara.
— Estou tentando entender por que estou sorrindo pra americanos vestidos com roupas de golfe.
Ela riu.
— Ah, um ambiente levemente refinado nunca matou ninguém.
— Calças quadriculadas são refinadas?
— Humm, bem, então considere que estou me referindo às pessoas.
Harry teve a impressão de que a mulher sentada à sua frente não tinha muito da cidade rural de Fredrikstad. Pensou em Sanphet, o velho motorista que tinha vestido uma camisa recém-passada e calças compridas e havia sentado sob o sol incandescente para que seus visitantes não se sentissem constrangidos com seu estilo de vida simples. Aquilo tinha sido mais refinado do que qualquer coisa que vira até agora entre os estrangeiros em Bangkok.
Perguntou o que Tonje sabia sobre pedófilos na Tailândia.
— Só sei que a Tailândia atrai muitos deles. Tenho certeza de que você se lembra do caso do norueguês que foi pego, literalmente, de calças arriadas em Pattaya no ano passado. Os jornais noruegueses publicaram uma foto encantadoramente posada de três meninos indicando o cara para a polícia. O rosto do homem estava escondido, mas não o dos meninos. Na versão em inglês do Pattaya Mail, foi o contrário. Usaram o nome completo do cara na manchete e depois passaram a denominá-lo insistentemente de “o norueguês”. — Tonje meneou a cabeça. — Pessoas que nunca tinham ouvido falar da Noruega de repente sabiam que Oslo era a capital, porque o artigo informava que as autoridades norueguesas o queriam em Oslo. Todos se perguntavam por que o queriam de volta. Aqui, o cara ficaria preso por um bom tempo.
— Se as penas são tão rigorosas aqui, por que há tantos pedófilos?
— As autoridades querem que a Tailândia se livre da reputação de Eldorado dos pedófilos. Isso prejudica o turismo. Mas, dentro da polícia, esses casos não são prioridade, porque prender estrangeiros só traz problemas.
— E o resultado é que as autoridades trabalham umas contra as outras?
Tonje abriu um sorriso radiante, que Harry percebeu que não era destinado a ele, mas a um dos “todo mundo” que passava atrás dele.
— Sim e não — respondeu ela. — Algumas cooperam. As autoridades da Suécia e da Dinamarca, por exemplo, chegaram a um acordo com o governo tailandês para designar policiais para investigar casos específicos em que seus cidadãos estejam envolvidos. Também aprovaram leis que permitem que suecos e dinamarqueses sejam condenados em seus respectivos países por abuso de menores na Tailândia.
— E a Noruega?
Tonje deu de ombros.
— Ainda não temos um acordo. Sei que a polícia norueguesa tem se esforçado pra chegar a um acordo equivalente, mas não acho que tenham noção do que está acontecendo em Pattaya e Bangkok. Já viu as crianças que ficam por aí vendendo chicletes?
Harry assentiu. A área em torno das boates, em Patpong, estava repleta delas.
— Esse é o código. A goma de mascar significa que elas estão à venda.
Harry lembrou com um arrepio que havia comprado um pacote de Wrigley’s de um menino descalço de olhos castanhos que parecia aterrorizado. Tinha achado que ele estava com medo por causa da multidão e do ruído.
— Ivar Løken, o cara que você me mostrou no funeral. Você falou que ele é ex-militar? Sabe mais alguma coisa sobre o interesse dele em fotografia? Já viu alguma fotografia do cara?
— Não, mas já vi o equipamento dele; é bem impressionante.
As maçãs do rosto de Tonje coraram levemente quando ela se deu conta do motivo do sorriso involuntário de Harry.
— E essas viagens pra Indochina... você tem certeza de que ele foi pra lá mesmo?
— Certeza? Por que ele mentiria?
— Alguma ideia?
Ela cruzou os braços como se estivesse com frio.
— Não. O chá estava bom?
— Tenho que pedir um favor a você, Tonje.
— E qual seria?
— Um convite pra jantar.
Ela ergueu os olhos, surpresa.
— Se você tiver um tempo — acrescentou.
Ela sorriu maliciosamente.
— Estou à sua disposição, Harry. A hora que você quiser.
— Ótimo. Estava pensando se você poderia convidar Ivar Løken para jantar hoje entre as sete e as dez.
Ela sabia manter uma expressão impassível para evitar grandes constrangimentos. Depois de Harry ter explicado suas razões, Tonje acabou concordando. Harry se atrapalhou mais uma vez com a porcelana, disse que precisava ir embora e deixou a mesa repentinamente, de modo desajeitado.