Baratas
Capítulo 23
TERÇA-FEIRA, 14 de JANEIRO
U ma leve brisa soprava em seus cabelos curtos. Harry fitava a cidade de pé em um tijolo na beirada do telhado. Quando semicerrava os olhos, era como olhar para um tapete luminoso e cintilante lá embaixo.
— Desça daí — disse uma voz atrás dele. — Você está me deixando nervosa.
Liz estava sentada em uma cadeira de praia com uma lata de cerveja na mão. Ao voltar à delegacia, Harry a encontrou soterrada por pilhas de relatórios ainda não lidos. Era quase meia-noite, e ela concordou que já estava na hora de dar o dia por encerrado. Fechou a sala, os dois pegaram o elevador até o décimo primeiro andar, descobriram que a porta para o terraço ficava trancada durante a noite, pularam uma janela e usaram uma saída de incêndio para chegar até ali.
O som de uma buzina de navio se destacou em meio ao ruído abafado do tráfego.
— Ouviu isso? — perguntou Liz. — Quando eu era pequena, meu pai dizia que em Bangkok dava pra escutar os elefantes chamando uns aos outros quando eram transportados de navio. Vinham da Malásia, porque as florestas de Bornéu tinham sido devastadas, e viajavam acorrentados no convés a caminho das florestas do norte da Tailândia. Depois que voltei pra cá, continuei pensando que esse estrondo saía das trompas dos elefantes durante anos.
O eco foi sumindo.
— Fru Molnes pode ter uma motivação pro crime, mas será que é suficiente? — perguntou Harry ao descer da beirada do telhado. — Você mataria alguém pra ficar com o direito de usufruto de cinquenta milhões de coroas durante seis anos?
— Depende de quem eu tivesse que matar — respondeu Liz. — Certas pessoas eu mataria por menos.
— Quero dizer: cinquenta milhões de coroas durante seis anos é a mesma coisa que cinco milhões por ano durante seis décadas?
— Negativo.
— Exatamente. Merda!
— Você quer que tenha sido ela? A sra. Molnes?
— Vou dizer a você o que eu quero. Quero que a gente encontre logo esse desgraçado desse assassino pra eu poder voltar pra casa.
Liz soltou um arroto alto e impressionante. Ela assentiu, admirada, e pousou a lata de cerveja no chão.
— Pobre da filha. Runa o nome dela, não é?
— É uma garota dura na queda.
— Tem certeza?
Harry deu de ombros e ergueu um dos braços.
— O que você está fazendo? — quis saber Liz.
— Pensando.
— Com a mão pro alto? O que é isso?
— Energia. Estou captando a energia de todo mundo lá embaixo. Supostamente isso traz a vida eterna. Você acredita nesse tipo de coisa?
— Deixei de acreditar em vida eterna aos 16 anos, Harry.
O detetive se voltou para Liz, mas não conseguiu enxergar o rosto dela na escuridão.
— Seu pai?
Distinguiu o contorno da cabeça dela assentindo.
— Ahã. Carregava o mundo nas costas. Pena que fosse tão pesado.
— Como foi que ele...? — Harry hesitou.
Ouviu o som da lata de cerveja sendo esmagada.
— É só mais uma história triste sobre um veterano da Guerra do Vietnã, Harry. A gente o encontrou na garagem, de uniforme completo, o fuzil ao lado. Tinha escrito uma longa carta, não pra nós, mas pro Exército dos Estados Unidos. Nela dizia não conseguir mais suportar a ideia de que tinha fugido da própria responsabilidade. Falava que havia se dado conta disso quando, da porta do helicóptero que decolava do telhado da embaixada americana em Saigon, em 1973, viu os vietnamitas do sul desesperados arrombando o prédio pra se refugiar das forças inimigas que se aproximavam. Escreveu que se sentia tão responsável quanto os policiais que tentavam manter aquelas pessoas do lado de fora da embaixada à base de coronhadas, aquelas pessoas a quem eles tinham prometido a vitória na guerra, a democracia. Como oficial, ele se via igualmente responsável pela decisão do Exército dos Estados Unidos de priorizar a evacuação de cidadãos americanos, sacrificando os vietnamitas que haviam lutado ao lado deles. Dedicava seus esforços militares a esses companheiros e lamentava não ter conseguido cumprir com sua responsabilidade. Por fim, ele se despedia de mim e da minha mãe dizendo que a gente devia esquecê-lo o mais rápido possível.
Harry sentiu um impulso de fumar.
— É uma responsabilidade e tanto pra uma pessoa carregar — falou.
— É, mas acho que às vezes é mais fácil se responsabilizar pelos mortos que pelos vivos. Nós temos a obrigação de cuidar deles, Harry. Dos vivos. Afinal, essa é a responsabilidade que nos move.
Responsabilidade. Se havia algo que Harry tentava manter enterrado no ano passado, era isso. Com relação aos vivos e aos mortos, a si mesmo e aos outros. Era algo que sempre acabava em culpa, sem jamais trazer recompensa alguma. Não, ele não conseguia enxergar a responsabilidade como aquilo que o movia. Talvez Torhus tivesse razão, talvez sua motivação para querer justiça não fosse lá muito nobre, afinal. Talvez apenas sua ambição idiota o impedisse de se conformar com o arquivamento de um caso; talvez ela fosse a causa de sua obsessão por pegar alguém, não importa quem, desde que conseguisse as malditas provas e pudesse carimbar a investigação como “concluída”. Será que as manchetes dos jornais e os tapinhas nas costas quando voltou da Austrália tinham mesmo sido tão insignificantes quanto ele gostava de acreditar? Quem sabe a ideia de passar por cima de tudo e de todos para reabrir o caso de sua irmã não fosse só um pretexto? Talvez apenas ser bem-sucedido tivesse se tornado muito, muito importante para ele.
Houve um segundo de silêncio, em que pareceu que Bangkok prendia a respiração. E logo a mesma buzina voltou a cortar o ar. Um lamento. Parecia um elefante bem solitário, pensou Harry. Então, os carros recomeçaram seu alvoroço.
O bilhete estava sobre o capacho quando ele chegou ao apartamento. Estou na piscina. Runa.
Harry havia reparado, no painel do elevador do prédio, que a inscrição “piscina” aparecia ao lado do botão com o número 5 e, ao chegar ao quinto andar, como era de esperar, sentiu o cheiro de cloro. Logo adiante havia uma piscina a céu aberto ladeada por varandas. A água cintilava serena ao luar. Ele se agachou junto à beirada e ofereceu a mão.
— Você se sente em casa aqui, né?
Runa não respondeu, simplesmente mergulhou, passou por ele nadando e desapareceu na água. Tinha deixado as roupas e a prótese em uma trouxa na espreguiçadeira.
— Sabe que horas são? — perguntou Harry.
Ela emergiu de repente, enlaçou-o pelo pescoço e submergiu de novo. Pego totalmente de surpresa, Harry perdeu o equilíbrio, as mãos tateando a pele nua e macia enquanto mergulhava com Runa. Não houve qualquer som, como se a água fosse um edredom quente e pesado que tivessem afastado para em seguida se cobrir com ele. Bolhas se formaram nos ouvidos de Harry, fazendo cócegas, e ele teve a sensação de que sua cabeça se inflava. Quando chegaram ao fundo, ele pegou impulso com os pés para levá-los de volta à superfície.
— Você é maluca! — balbuciou ele.
Ela riu e se afastou, nadando com braçadas rápidas.
Harry estava deitado na beira da piscina, com as roupas pingando, quando ela saiu da água. Ao abrir os olhos, viu que, com a rede usada para a limpeza, Runa tentava capturar uma grande libélula que flutuava na superfície.
— Que milagre — comentou Harry. — Já estava convencido de que os únicos insetos que conseguem sobreviver nessa cidade são as baratas.
— Alguns dos insetos agradáveis sempre sobrevivem — respondeu a garota, levantando a rede com cuidado. Então soltou a libélula, que sobrevoou a piscina com um zumbido baixo.
— E as baratas não são agradáveis?
— Eca, são asquerosas!
— Nem por isso são necessariamente más.
— Talvez não. Mas não acho que sejam boas. Parece que o lance delas é apenas existir.
— Apenas existir — ecoou Harry, refletindo, sem sarcasmo.
— É como elas são, só isso. São feitas pra gente querer pisar nelas. Se não fossem tantas.
— Teoria interessante.
— Escuta só — sussurrou ela. — Todo mundo está dormindo.
— Bangkok nunca dorme.
— Dorme sim. Ouça. São os ruídos do sono.
A rede ficava presa na ponta de um tubo de alumínio oco, que ela soprou. Soava como o didgeridoo dos aborígines australianos. Ele ficou escutando. Ela tinha razão.
Runa desceu com ele ao apartamento para usar o chuveiro.
Ele já estava no corredor e tinha apertado o botão do elevador quando ela saiu do banheiro envolta em uma toalha.
— Suas roupas estão em cima da cama — informou Harry, fechando a porta do apartamento.
Em seguida, os dois esperaram o elevador juntos no corredor. Acima da porta, os números em vermelho faziam a contagem regressiva.
— Quando você vai embora? — perguntou ela.
— Em breve. Se não surgir nada novo.
— Sei que você foi encontrar minha mãe mais cedo.
Harry enfiou as mãos nos bolsos e fitou as unhas dos pés. Ela havia dito que ele precisava cortá-las. O elevador chegou, e Harry ficou parado junto à porta aberta.
— Sua mãe disse que estava em casa na noite em que seu pai morreu. E que você poderia confirmar isso.
Runa soltou um gemido.
— Sério que você quer que eu responda?
— Talvez não.
Ele recuou um passo, e os dois ficaram olhando um para o outro enquanto esperavam que a porta do elevador se fechasse.
— Quem você acha que fez isso? — perguntou o detetive, enfim.
Ela ainda o encarava quando a porta se fechou.