Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 39 de 54

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Baratas

Capítulo 37

 

 

DOMINGO, 19 de JANEIRO

 

E ram quase onze horas quando Harry chegou em casa. — Você tem visita — disse o porteiro.

Harry pegou o elevador, deitou-se de costas na beira da piscina e ficou ouvindo o som ritmado das braçadas de Runa.

— Você precisa ir pra casa — disse, depois de um tempo. Ela não respondeu, e Harry se levantou e voltou pela escada para o apartamento.

Bjarne Møller estava de pé junto à janela olhando para fora. Ainda não era noite, mas já estava completamente escuro. Parecia que o frio não daria trégua no futuro próximo. Pelo menos os meninos pareciam estar se divertindo; eles vieram até a mesa com os dedos congelados e as bochechas vermelhas, discutindo quem tinha saltado mais longe.

Os anos passavam rápido; não fazia muito tempo desde que havia ajudado os meninos a descer as colinas de Grefsenkollen em seus esquis. Na noite anterior, fora até o quarto deles perguntar se queriam que lesse uma história, e ambos lhe lançaram um olhar engraçado.

Trine tinha dito que ele parecia cansado. Será? Talvez. Tinha muitas coisas na cabeça, mais do que havia imaginado ao aceitar o trabalho de chefe da Divisão de Homicídios. Quando não eram os relatórios, as reuniões e os orçamentos, era um dos policiais que batia em sua porta com um problema que ele não era capaz de resolver — uma esposa que desejava se separar, uma hipoteca que tinha aumentado ou nervos à flor da pele.

O trabalho policial de coordenar investigações pelo qual havia ansiado ao assumir o cargo tinha se tornado secundário. E ele ainda não estava acostumado com assuntos confidenciais, a ler nas entrelinhas ou lidar com disputas de carreira. De vez em quando, perguntava-se se ainda devia ocupar o cargo, mas sabia que Trine tinha gostado do aumento salarial. E os meninos queriam esquis para saltos. Talvez fosse a hora de comprar os computadores que vinham pedindo também. Pequenos flocos de neve caíam do outro lado da vidraça. Ele tinha sido tão bom como policial.

O telefone tocou.

— Møller — disse.

— Aqui é Hole. Você sabia o tempo todo?

— Oi? Harry, é você?

— Você sabia que eu fui escolhido justamente pra que a investigação não chegasse a lugar algum?

Møller baixou a voz. Já tinha esquecido os esquis e os computadores.

— Não tenho a menor ideia do que você está falando.

— Só quero ouvir você dizer que não sabia que o pessoal de Oslo suspeitava de quem era o assassino desde o início.

— Tudo bem, Harry. Eu não sabia... E com isso eu quero dizer: não sei do que você está falando.

— A comissária de polícia e Dagfinn Torhus, do Ministério das Relações Exteriores, sempre souberam que o embaixador tinha estado na casa de um norueguês chamado Ove Klipra e que ambos saíram no mesmo carro meia hora antes de o embaixador chegar ao hotel. Também sabem que Klipra tinha um belo motivo pra matar o embaixador.

Møller se sentou pesadamente.

— E esse motivo seria?

— Ele é um dos homens mais ricos de Bangkok. O embaixador estava com graves dificuldades financeiras e tinha tomado a iniciativa de iniciar uma investigação completamente ilegal sobre Klipra por pedofilia. Quando o embaixador foi encontrado morto, estava com uma pasta que continha fotos de Klipra com um garoto. Não é difícil imaginar o motivo de ele ter visitado o empresário. Molnes deve ter conseguido convencê-lo de que estava sozinho na investigação e de que havia feito as fotos sozinho. Então, deve ter dado um preço pelo “pacote completo”. Não é o que os chantagistas fazem? É claro que seria impossível saber quantas cópias Molnes tinha feito, e Klipra provavelmente sacou que um chantagista que também é um jogador incurável como o embaixador obrigatoriamente voltaria a chantageá-lo. Então Klipra sugeriu que dessem uma volta, saiu do carro pra ir ao banco e disse a Molnes que o esperasse no hotel, que voltaria em seguida com o dinheiro. Quando Klipra chegou, sequer precisou procurar pelo quarto; dava pra ver o carro do embaixador estacionado em frente, certo? Porra, o cara conseguiu até rastrear e relacionar a faca com Klipra.

— Que cara?

— Løken. Ivar Løken. Um velho militar da inteligência que tem atuado aqui há vários anos. Parece que trabalha para a ONU, com refugiados, diz ele, mas como posso saber? Acho que quem paga o salário do cara é a Otan, ou algo assim. Ele está espionando Klipra há meses.

— O embaixador sabia disso? Você não disse que ele tinha começado a investigação?

— Como assim?

— Você acha que o embaixador ia chantagear Klipra mesmo sabendo que tinha um cara da inteligência vigiando-o?

— É claro que ele sabia. Não tinha pegado as cópias das fotos com Løken? Mas e daí? Não tem nada de mais o embaixador da Noruega fazer uma visita de cortesia ao norueguês mais rico de Bangkok, certo?

— Talvez não. O que mais esse Løken falou?

— Ele me contou o real motivo de eu ter sido escolhido pra esse trabalho.

— E qual seria esse motivo?

— As pessoas que sabiam que Klipra estava sendo investigado corriam um risco. Se fossem descobertas, a coisa ia pegar fogo; haveria um clamor político, cabeças iam rolar etc. Então, quando o embaixador foi encontrado morto e elas começaram a ter uma ideia de quem poderia ser o culpado, precisaram se assegurar de que o assassinato não atrairia atenção para as investigações ilegais. Tinham que encontrar um meio-termo, fazer alguma coisa, mas que não fosse suficiente pra trazer a investigação à tona. Se enviassem um oficial da polícia norueguesa, não poderiam ser acusados de não fazer nada. Tinham me dito que não podiam enviar uma equipe de policiais, porque a polícia tailandesa se ofenderia.

A risada de Harry se fundiu com outra conversa que estava acontecendo em algum lugar entre a terra e um satélite.

— Então, escolheram o cara que pensaram ter menos chance de descobrir alguma coisa. Dagfinn Torhus fez sua pesquisa e encontrou o candidato perfeito, alguém que definitivamente não ia causar problemas. Porque o tal cara provavelmente passaria todas as noites com um engradado de cerveja e todos os dias dormindo de ressaca. Harry Hole era perfeito porque praticamente nem conseguia mais trabalhar. Eles poderiam justificar a escolha, se isso viesse à tona, dizendo que o funcionário em questão havia recebido muitíssimas recomendações após uma investigação semelhante na Austrália. Se isso não fosse suficiente, Møller teria dado seu aval, e quem melhor que o chefe do cara pra julgar esse tipo de coisa?

Møller não gostou do que ouviu. Agora conseguia rever com clareza o olhar que a comissária tinha lhe dirigido quando perguntaram sobre Hole, o imperceptível levantar de sobrancelha. Tinha sido uma ordem.

— Mas por que Torhus e a comissária arriscariam os empregos só pra pegar um pedófilo?

— Boa pergunta.

Silêncio. Nenhum dos dois se atrevia a colocar em palavras o que estavam pensando.

— O que vai acontecer agora, Harry?

— Agora vamos entrar na Operação Salvando Nossa Pele.

— O que você quer dizer?

— Que ninguém quer segurar a batata quente. Nem Løken nem eu. O acordo é que nós dois vamos manter a boca fechada a respeito disso por enquanto e pegar Klipra juntos. Imagino que você preferiria cuidar do caso aí, não? Talvez indo diretamente ao Parlamento? Você também tem uma pele a salvar.

Møller pensou na situação. Não tinha certeza de que queria salvar a pele. O pior que poderia acontecer era ser rebaixado de volta ao trabalho policial.

— Isso é coisa grande, Harry. Preciso pensar, depois ligo pra você, está bem?

— Tudo bem.

Ainda conseguiam escutar alguns sons de outra conversa em algum lugar do espaço, mas de repente tudo ficou em silêncio. Ouviram apenas o som das estrelas.

— Harry?

— Sim?

— Que se dane essa história de pensar. Estou com você.

— Sabia que estaria, chefe.

— Avise quando prender o cara.

— Ah, esqueci de dizer. Ninguém viu Klipra desde que o embaixador foi assassinado.