Baratas
Capítulo 44
QUINTA-FEIRA, 23 de JANEIRO
E ram sete horas da manhã quando Harry retornou à cena do crime. Às cinco, havia desistido de tentar dormir; vestira-se e pegara no estacionamento o carro alugado. Não havia mais ninguém na casa: com o trabalho já concluído por enquanto, a equipe de legistas não voltaria ali até pelo menos a próxima hora. Harry passou por baixo da fita laranja da polícia e entrou.
O lugar parecia muito diferente à luz do dia: silencioso e bem-conservado. As únicas evidências de que se tratava da mesma sala onde ele estivera na noite anterior eram o sangue e os contornos de dois corpos desenhados a giz no assoalho de madeira rústica.
Nenhuma carta havia sido encontrada, mas ninguém tinha dúvidas do que tinha acontecido. A questão era mais por que Ove Klipra havia atirado nela antes de se suicidar. Teria percebido que era o fim da linha para ele? E, se sim, por que não simplesmente a deixou ir embora? Talvez as coisas não tivessem saído como o planejado, talvez ele tivesse atirado porque ela tentara escapar ou dissera alguma coisa que o havia deixado fora de si. Mas depois dar um tiro em si mesmo? Harry coçou a cabeça.
Examinou o contorno a giz do corpo dela e o sangue que ainda não tinha sido lavado. O tiro disparado por Klipra com a arma encontrada na cena do crime, uma Dan Wesson, atingira Runa no pescoço. A bala havia atravessado o corpo da jovem, dilacerando a artéria de tal forma que o sangue tinha chegado até a pia da cozinha antes de o coração parar de bater. O médico mencionou perda imediata da consciência, pois o cérebro ficou sem oxigênio suficiente, e, depois de três ou quatro batidas do coração, ela estava morta. Um buraco na janela revelava o local de onde Klipra fez o disparo. Posicionado sobre a silhueta a giz do corpo do atirador, Harry confirmou que o ângulo batia.
Olhou para o chão.
No local da poça que estivera sob a cabeça de Klipra, o sangue formava um halo negro coagulado. E só. Ele havia atirado dentro da própria boca. Harry viu que o pessoal da perícia tinha marcado, também a giz, o ponto onde a bala atravessara a parede dupla de bambu. Imaginou Klipra se deitando, girando a cabeça e, antes de puxar o gatilho, olhando para Runa, talvez se perguntando onde ela estava naquele momento.
Harry foi até o lado de fora da casa e localizou o ponto de saída da bala. Espiou pelo buraco e viu o quadro bem à frente na parede oposta. Natureza-morta. Estranho; achou que dali fosse enxergar o contorno do corpo de Klipra. Seguiu adiante até o lugar onde ele, Liz e Løken tinham ficado deitados na grama no dia anterior, os passos firmes para espantar qualquer réptil no caminho, e dali chegou ao santuário doméstico que os tailandeses chamam de casa dos espíritos. Uma estatueta pequena e sorridente de Buda com uma barriga redonda feito um globo ocupava a maior parte do espaço, com algumas flores murchas em um vaso, quatro cigarros com filtro e algumas velas já usadas. Um furinho branco nas costas da estatueta de cerâmica indicava o ponto onde a bala tinha se alojado. Harry sacou o canivete suíço e extraiu dali um pedaço disforme de chumbo. Virou-se para olhar a casa. A trajetória da bala era uma linha reta horizontal. Ficava claro que Klipra estava de pé no momento em que se suicidou. Por que tinha pensado que ele havia se deitado?
Caminhou de volta até a casa. Algo estava errado. Tudo parecia muito bonitinho e arrumado. Harry abriu a geladeira. Vazia, nenhuma provisão para manter duas pessoas vivas. Quando estava investigando o armário da cozinha, um aspirador de pó caiu em seu dedão do pé. O detetive praguejou e tentou empurrá-lo de volta, mas o aspirador caiu de novo antes que ele pudesse fechar a porta. Examinando mais de perto, reparou que havia um gancho onde pendurar o aspirador.
Organização, ele pensou. Há organização aqui. Mas alguém andou perturbando a ordem das coisas.
Removeu as garrafas de cerveja de cima da tampa do freezer e o abriu. O vermelho-claro da carne armazenada ali reluziu. Não estava embalada, mas simplesmente estocada em peças grandes, o sangue congelado formando uma membrana escura em alguns pontos. Suspendeu uma delas e a examinou antes de logo colocá-la de volta no lugar, já praguejando contra sua imaginação mórbida. Parecia carne de porco normal.
Harry ouviu um ruído e voltou-se para a porta. Uma figura estacou ali, paralisada. Era Løken.
— Jesus, você me assustou, Harry. Tinha certeza de que não havia ninguém aqui. O que você está fazendo?
— Nada. Bisbilhotando por aí. E você?
— Vim ver se encontrava algum documento que a gente pudesse usar na investigação sobre pedofilia.
— Pra quê? O caso não vai ter que ser arquivado, agora que ele está morto?
Løken deu de ombros.
— Precisamos reunir provas substanciais de que fizemos a coisa certa, porque, não tenha dúvida, essa investigação vai se tornar o centro das atenções agora.
Harry encarou Løken. Será que ele parecia um pouquinho nervoso?
— Pelo amor de Deus, você tem as fotos. Quer prova melhor que essa?
Løken abriu um sorriso, mas não a ponto de exibir seu dente de ouro.
— Talvez você tenha razão, Harry. Provavelmente eu sou só um velho nervoso querendo me certificar de tudo. Achou alguma coisa?
— Isso — respondeu Harry, mostrando a bala de chumbo.
— Humm — Løken examinou o pedaço de metal. — Onde você o encontrou?
— Lá na casa dos espíritos. E não consigo entender como.
— Por que não?
— Porque isso significa que Klipra precisaria estar de pé quando atirou em si mesmo.
— E daí?
— Daí que, se fosse assim, haveria sangue espalhado pra todo lado no chão da cozinha. Mas não tem sangue nenhum dele, só no local onde estava caído. E mesmo assim não muito.
Løken segurou o projétil entre as pontas dos dedos.
— Nunca ouviu falar do efeito de vácuo em casos de suicídio?
— Como funciona?
— Quando uma vítima expele o ar dos pulmões pra colocar o cano da arma dentro da boca, acaba criando um vácuo ali, o que significa que o sangue vai escorrer pra dentro da boca, em vez de vazar pelo orifício de saída da bala. Dali desce pro estômago, deixando pra trás pequenos mistérios como esse.
Harry ficou olhando para o ex-militar.
— Essa é nova pra mim.
— Seria muito chato se você já soubesse tudo com trinta e poucos anos — retrucou Løken.
Tonje Wiig telefonou para dizer que todos os grandes jornais noruegueses haviam ligado para a embaixada e que os mais sedentos de sangue tinham anunciado a iminente chegada de seus repórteres a Bangkok. Na Noruega, as manchetes se concentravam, por ora, na filha do embaixador falecido recentemente. Ove Klipra, apesar do status que tinha na Tailândia, era um nome desconhecido em seu país natal. Era verdade que tinha dado uma entrevista ao Kapital alguns anos antes, mas, por não ter sido convidado nem por Per Ståle Lønning nem por Anne Grosvold para seus programas, escapara de uma maior exposição pública.
Os relatos davam conta de que ambos, “A Filha do Embaixador” e “O Desconhecido Magnata Norueguês”, tinham sido mortos a tiros, provavelmente por ladrões.
Na Tailândia, porém, fotos de Klipra estampavam todos os jornais. A hipótese de latrocínio mantida pela polícia foi questionada pelo repórter do Bangkok Post, que argumentou que não se podia descartar a possibilidade de Klipra ter matado Runa Molnes e se suicidado em seguida. O jornal também especulava sobre as possíveis consequências para as obras na área dos transportes. Harry ficou impressionado.
Mas, tanto na Tailândia quanto na Noruega, os jornais destacavam o fato de que as informações divulgadas pela polícia tailandesa eram até então muito vagas.
Harry seguiu de carro até o portão da casa de Klipra e buzinou. Tinha de admitir que estava começando a gostar daquele jipe Toyota. O segurança apareceu, e o detetive abaixou o vidro da janela.
— Polícia. Liguei pra vocês — anunciou.
O rapaz dirigiu a Harry aquela olhada obrigatória típica dos seguranças antes de abrir o portão.
— Será que você podia abrir a porta da frente pra mim? — pediu o detetive.
O segurança pegou uma carona no estribo lateral do jipe, e Harry notou os olhos perscrutadores do rapaz. Estacionou na garagem. O segurança chacoalhou o molho de chaves.
— A porta principal fica do outro lado — falou, e Harry quase deixou escapar que já sabia. Quando o segurança inseriu a chave na fechadura e estava prestes a girá-la, virou-se para o detetive: — Eu já não encontrei o senhor alguma vez?
Harry sorriu. O que teria sido? A loção pós-barba? O sabonete que usara? Dizem que o olfato é o sentido para o qual o cérebro tem a melhor memória.
— Muito improvável.
O segurança sorriu também.
— Desculpe, senhor. Devo estar confundindo-o com outra pessoa. Não consigo diferenciar farangs.
Harry estava prestes a revirar os olhos, mas se deteve.
— Me diz uma coisa: você se lembra de um carro azul da embaixada ter vindo aqui pouco antes da morte de Klipra?
O segurança assentiu.
— Não tenho problemas pra lembrar de carros. Era um farang quem dirigia.
— E como ele era?
O segurança deu uma risada.
— É como eu disse, eu...
— Que roupa estava usando?
O outro balançou a cabeça.
— Terno?
— Acho que sim.
— Um terno amarelo? Amarelo-ovo?
O segurança franziu o cenho e ficou olhando para Harry.
— Ovo? Ninguém usa terno cor de ovo.
Harry deu de ombros.
— Bom, tem gente que usa.
O detetive foi até o corredor por onde Løken e ele tinham entrado, parou e examinou uma pequena marca em forma de círculo na parede. Aparentemente alguém havia tentado pendurar um quadro ali, mas tinha desistido enquanto fixava o parafuso.
Foi até o escritório, folheou os documentos, basicamente de forma aleatória, e ligou o computador, que pediu uma senha. Harry tentou “MAN U”, de Manchester United. Incorreto.
Que língua educada, o inglês.
Tentou “OLD TRAFFORD”. Incorreto de novo.
Uma última tentativa errada e o computador seria bloqueado automaticamente. Olhou ao redor, como que à procura de uma pista. Qual era a senha que ele mesmo usava? Deu uma risadinha. Claro. A senha mais usada na Noruega. Meticulosamente digitou as letras P-A-S-S-W-O-R-D, então pressionou Enter.
A máquina pareceu hesitar por um segundo. Em seguida, desligou sozinha, e Harry visualizou uma mensagem não muito educada: acesso negado.
— Merda.
Tentou desligar e ligar novamente o computador, mas tudo o que restou foi uma tela branca.
Folheou mais papéis e encontrou uma lista recente dos acionistas da Phuridell. Um nome novo, Ellem Ltd, aparecia na relação, com três por cento das ações. Ellem. Harry foi invadido por uma ideia maluca, mas a rejeitou.
No fundo de uma gaveta, encontrou o manual do dispositivo de gravação. Deu uma olhada no relógio e suspirou. Era bom começar logo a leitura. Meia hora depois, estava ouvindo a fita. A voz de Klipra balbuciava em tailandês na maior parte tempo, mas Harry conseguiu ouvi-lo mencionar Phuridell algumas vezes. Desistiu após três horas. A conversa com o embaixador no dia do crime simplesmente não aparecia em nenhuma das fitas. Aliás, tampouco havia alguma outra gravação daquele dia. Enfiou uma das fitas no bolso, desligou o gravador e fez questão de dar um chute no computador ao sair.