Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 10 de 54

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Baratas

Capítulo 8

 

SÁBADO, 11 de JANEIRO

 

No décimo sétimo andar, depois de passar por uma porta de carvalho e por duas checagens de segurança, Harry se deparou com o leão norueguês em uma placa de metal. A recepcionista, uma jovem tailandesa graciosa, de boca pequena, nariz ainda menor e olhos castanhos aveludados em um rosto redondo, examinou a carteira de identidade de Harry com o cenho franzido. Então tirou o telefone do gancho, sussurrou três sílabas e desligou.

— A sala da srta. Wiig é a segunda à direita, senhor — disse, com um sorriso tão radiante que Harry considerou a possibilidade de se apaixonar ali mesmo.

— Entre — ouviu ao bater na porta. Lá dentro, Tonje Wiig estava claramente ocupada fazendo anotações, debruçada em uma grande mesa de teca. Ergueu os olhos, abriu um sorriso discreto e pôs-se de pé, o corpo esbelto trajando um terninho branco de seda. Caminhou na direção de Harry, estendendo-lhe a mão.

Tonje Wiig era o oposto da recepcionista. Nariz, boca e olhos disputavam espaço em um rosto comprido, com o nariz aparentemente ganhando o embate; lembrava um grande tubérculo, mas pelo menos assegurava algum espaço entre os grandes olhos pesadamente maquiados. Não que a srta. Wiig fosse feia; não era o caso. Alguns homens talvez até argumentassem que seu rosto tinha uma beleza clássica.

— É muito bom tê-lo conosco finalmente, inspetor. Pena que em circunstâncias tão lamentáveis.

Harry mal tocou os dedos ossudos antes que ela recolhesse a mão.

— Gostaríamos muito de ver esse assunto resolvido o quanto antes — prosseguiu ela, massageando uma das narinas com cuidado para não borrar a maquiagem.

— Entendo perfeitamente.

— Esses últimos dias têm sido difíceis pra nós, e, ainda que isso possa soar insensível da minha parte, a vida continua, e precisamos seguir em frente. Algumas pessoas acham que tudo que a gente faz aqui é ir a coquetéis e se divertir: garanto que é justamente o contrário. Nesse exato momento estou cuidando de oito noruegueses hospitalizados e seis presos, quatro por porte de drogas. Você já viu as cadeias daqui? Horrorosas. O Verdens Gang liga todo dia. E um dos presos é uma mulher grávida. No mês passado, em Pattaya, um norueguês foi jogado de uma janela e morreu. Segundo caso no ano. Uma confusão terrível. — Ela balançou a cabeça, em desespero. — E quando alguém perde o passaporte ou a passagem, você acha que esse pessoal tem seguro-viagem ou dinheiro pra embarcar em outro voo? Não, nós é que temos que cuidar de tudo. De modo que, como você está vendo, é importante manter as coisas funcionando por aqui.

— Pelo que entendi, com a morte do embaixador, é você quem está no comando.

— Sim, sou a encarregada de negócios.

— Demora quanto tempo pra ser nomeado um novo embaixador?

— Espero que não muito. Normalmente um ou dois meses.

— E ninguém se preocupa com o fato de a responsabilidade ficar toda em seus ombros?

Tonje Wiig exibiu um sorriso torto.

— Não foi isso que eu quis dizer. Na verdade, como encarregada de negócios, fiquei responsável pela embaixada por seis meses antes de Molnes assumir. Só estava dizendo que espero que seja feito um arranjo permanente o mais rápido possível.

— Então você cogita se tornar a nova embaixadora.

— Bom — o sorriso agora era melancólico —, não dá pra dizer que seria incomum. Mas, tratando-se do Ministério de Relações Exteriores, nunca se sabe.

Um vulto surgiu, e uma xícara se materializou diante de Harry.

— Bebe chaa ráwn? — perguntou Tonje Wiig.

— Não sei.

— Ah, desculpe. — Ela riu. — Vivo esquecendo que as pessoas podem ser novas por aqui. É chá-preto tailandês. Costumo tomar o chá da tarde aqui na Tailândia, sabe. Ainda que, se fosse levar a tradição inglesa à risca, eu devesse servi-lo depois das duas.

Harry aceitou o chá e, quando voltou a baixar os olhos, alguém já havia servido sua xícara.

— Pensei que esse tipo de tradição tivesse desaparecido com os colonizadores.

— A Tailândia nunca foi colônia — retrucou Tonje com um sorriso. — Nem da Inglaterra, nem da França, ao contrário dos países vizinhos. Os tailandeses se orgulham muito disso. Até um pouco demais, se quer saber minha opinião. Um pouquinho de influência inglesa nunca fez mal a ninguém.

Harry pegou o bloco de anotações e perguntou se era plausível pensar que o embaixador pudesse estar envolvido em atividades suspeitas.

— Atividades suspeitas, Hole?

O investigador explicou, de forma concisa, o que queria dizer com “suspeitas” — que, em setenta por cento dos homicídios, a vítima tinha envolvimento com alguma coisa ilegal.

— Ilegal? Molnes? — Tonje fez que não com a cabeça enfaticamente. — Ele não faz... não fazia o tipo que se presta a isso.

— Sabe de algum inimigo que pudesse ter?

— Não consigo imaginar que tivesse inimigos. Era uma pessoa muito querida. Por que pergunta? Certamente não estão considerando a hipótese de um assassinato encomendado, estão?

— O que sabemos até o momento é muito pouco, por isso não estamos descartando nenhuma linha de investigação.

Tonje Wiig explicou que, na terça-feira em que foi assassinado, Molnes saíra para uma reunião imediatamente após o almoço. Não tinha dito onde seria o encontro, mas isso não era incomum.

— Ele andava sempre com o celular, pra gente poder entrar em contato se fosse necessário.

Harry pediu para dar uma olhada na sala do embaixador. Tonje Wiig precisou destrancar duas portas, instaladas “por razões de segurança”. A sala estava intocada; antes de sair de Oslo, Harry dera instruções para que o local não fosse mexido. O lugar era uma confusão de papéis, pastas e souvenirs ainda à espera de serem arrumados nas prateleiras ou pendurados nas paredes.

O casal real norueguês espiava majestosamente por cima das pilhas de papel, admirando a vista para um espaço verde que, segundo informou a srta. Wiig, tratava-se do Queen Sirikit Park.

Harry encontrou uma agenda, mas havia poucas anotações. Verificou o dia do assassinato. “Man U”, estava escrito, o que significava Manchester United, se Harry não estivesse enganado. Talvez o sujeito pretendesse ver um jogo de futebol, pensou ele, revistando diligentemente algumas gavetas até se dar conta de que fazer uma busca na sala do embaixador sem saber o que estava procurando era perda de tempo.

— Não estou vendo o celular dele por aqui — comentou Harry.

— É como eu disse: ele andava sempre com o celular.

— Não encontramos celular nenhum na cena do crime. E não acho que o assassino quisesse roubar o embaixador.

Tonje Wiig deu de ombros.

— Talvez tenha sido “confiscado” por algum de seus colegas tailandeses?

Harry preferiu não responder, perguntando em vez disso se alguém tinha telefonado da embaixada querendo falar com Molnes no dia da morte. Tonje não sabia, mas prometeu averiguar. Harry deu uma última olhada pela sala.

— Quem foi a última pessoa a ver Molnes aqui?

A encarregada de negócios tentou se lembrar.

— Deve ter sido Sanphet, o motorista, que era bastante amigo do embaixador. A morte de Molnes foi um golpe muito duro pra ele, por isso dei a ele uns dias de folga.

— Se é motorista, por que não estava dirigindo o carro do embaixador no dia do crime?

Tonje outra vez deu de ombros.

— Também me perguntei isso. Molnes não gostava de dirigir em Bangkok.

— Humm. O que mais você pode me dizer sobre esse motorista?

— Sobre Sanphet? Está aqui há tanto tempo que ninguém se lembra desde quando exatamente ele trabalha na embaixada. Nunca foi à Noruega, mas é capaz de recitar os nomes de todas as cidades do país. E dos reis. Claro, adora Grieg. Não sei se tem um toca-discos em casa, mas acho que tem todos os discos do Grieg. O velho é um doce de pessoa.

Ela inclinou a cabeça e sorriu, exibindo as gengivas.

Harry perguntou se ela sabia onde ele poderia encontrar Hilde Molnes.

— Em casa. Terrivelmente abalada. Eu o aconselharia a esperar um pouco mais antes de ir falar com ela.

— Agradeço o conselho, frøken Wiig, mas não podemos nos dar ao luxo de esperar. Você faria a gentileza de telefonar e dizer à sra. Molnes que estou a caminho da casa dela?

— Compreendo. Desculpe.

— De que cidade você é, frøken Wiig?

Tonje Wiig encarou Harry, surpresa. Em seguida, forçou uma risada.

— Isso é pra ser um interrogatório, Hole?

Harry não respondeu.

— Se precisa saber, nasci em Fredrikstad.

— Foi bem o que pensei ao ouvir seu sotaque — respondeu ele com uma piscadela.

A moça vivaz da recepção estava recostada na cadeira, segurando um frasco de perfume perto do nariz. Sobressaltou-se quando Harry pigarreou discretamente e, em seguida, riu, encabulada, os olhos marejados.

— Desculpe, é que a qualidade do ar em Bangkok é muito ruim — explicou ela.

— Reparei. Será que você poderia me passar o número do telefone do motorista da embaixada?

A moça fez que não com a cabeça e respondeu, bufando:

— Ele não tem telefone.

— Certo. Mas ele mora em algum lugar?

Era para ser uma brincadeira, mas Harry percebeu pela expressão da recepcionista que ela não tinha gostado do gracejo. A moça anotou o endereço e deu um sorriso de despedida.