Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 41 de 54

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Baratas

Capítulo 39

 

SEGUNDA-FEIRA, 20 de JANEIRO

 

Quando Harry enfiou a tesoura na tomada na casa de Løken, um cabo da fiação elétrica entrou em curto em algum lugar dentro da parede. Por isso, os dois tiveram de se sentar à luz bruxuleante de uma vela mais uma vez. Løken tinha acabado de abrir uma garrafa de Jim Beam.

— Por que está franzindo o nariz, Hole? Não gosta do cheiro?

— Não há nada de errado com o cheiro.

— É o gosto, então?

— O gosto é maravilhoso. Jim e eu somos velhos amigos.

— Ah. — Løken se serviu de uma dose generosa. — Deixaram de ser bons companheiros, talvez?

— Dizem que ele exerce má influência sobre mim.

— E quem faz companhia a você agora?

Harry levantou a garrafa de Coca.

— O imperialismo cultural norte-americano.

— Está na seca?

— Bebi uma quantidade generosa de cerveja no outono.

Løken deu uma gargalhada.

— Então, achei o motivo. Andei pensando na razão de Torhus ter escolhido você.

Harry sabia que esse era um elogio. Løken achava que Torhus podia ter escolhido sujeitos mais idiotas. Havia tentado encontrar um motivo porque não o considerava um policial incompetente.

Harry acenou com a cabeça em direção à garrafa.

— Isso ajuda a lidar com o nojo?

Løken ergueu as sobrancelhas.

— Quero dizer, a bebida ajuda a esquecer o trabalho por um tempo? Os meninos, as fotos, toda essa merda?

O ex-militar tomou a bebida de uma só vez e se serviu de outra dose. Tomou um gole, pousou o copo na mesa e se recostou na cadeira.

— Tenho qualificações especiais pra esse trabalho, Harry.

O detetive tinha apenas uma vaga ideia do que o colega estava querendo dizer.

— Eu sei o que eles pensam, o que os motiva, o que os excita, quais tentações eles podem resistir e quais não podem. — Løken encheu o cachimbo. — Conheço os caras há muito tempo.

Harry não sabia o que dizer. Então, ficou em silêncio.

— Está na seca, não é? Então acho que você é bom nisso, hein, Harry? Em renunciar às coisas? Você toma uma decisão e se mantém firme aconteça o que acontecer, não é?

— Bom, sim, acho que sim. O problema é que as decisões nem sempre são boas.

Løken riu novamente. E Harry se lembrou de um velho amigo que ria de um jeito parecido. Tinha enterrado o tal amigo em Sydney, mas recebia visitas regulares dele à noite.

— Somos parecidos, então — comentou Løken. — Nunca encostei em uma criança em toda minha vida. Sonhei com isso, fantasiei sobre isso e chorei por causa disso, mas nunca fiz nada. Consegue compreender?

Harry engoliu em seco.

— Nem sei quantos anos eu tinha na primeira vez que meu padrasto me violentou, mas acho que não havia completado nem 5. Enterrei um machado na coxa dele quando tinha 13. Atingi uma artéria, o cara entrou em choque e quase morreu. Ele sobreviveu, mas acabou em uma cadeira de rodas. Disse que tinha sido um acidente. Que o machado havia escorregado da mão dele quando cortava madeira. Provavelmente considerou que estávamos quites.

Løken ergueu o copo e olhou para o líquido marrom.

— Você deve achar que isso é um enorme paradoxo — continuou. — Que crianças que foram abusadas sexualmente têm maior probabilidade estatística de se tornarem abusadores.

Harry deu um sorriso forçado.

— É verdade — disse Løken. — Os pedófilos em geral sabem exatamente o sofrimento que estão provocando nas crianças. Muitos abusadores já experimentaram esse medo, a confusão e a culpa. Você sabia que vários psicólogos afirmam que existe uma estreita relação entre a excitação sexual e o desejo de morrer?

Harry fez que não. Løken esvaziou o copo de uma vez só e fez uma careta.

— É como a mordida de um vampiro. Você pensa que está morto e, em seguida, acorda e descobre que se tornou um vampiro também. Imortal, com uma insaciável sede de sangue.

— E com um desejo eterno de morrer?

— Exatamente.

— E o que faz você ser diferente?

— Todo mundo é diferente, Hole.

Løken terminou de colocar o tabaco no cachimbo e o pôs sobre a mesa. Tinha tirado a blusa preta de gola alta, e o suor brilhava em seu torso nu. Ele era musculoso e tinha uma boa constituição física, mas sobras de pele e músculos cansados denunciavam sua idade. Talvez um dia ele morresse, afinal.

— Quando encontraram uma revista de pornografia infantil no meu armário no alojamento dos oficiais em Vardø, fui convocado pelo comandante. Tive sorte, admito; eles não me denunciaram. Não sujaram minha ficha, apenas pediram que eu pedisse baixa da força aérea. Por meio dos meus contatos na inteligência, fui para os Serviços Especiais, órgão precursor da CIA. Eles me mandaram fazer um curso nos Estados Unidos e depois fui enviado para a Coreia, sob o pretexto de trabalhar em um hospital de campanha norueguês.

— E pra quem exatamente você está trabalhando agora?

Løken deu de ombros para indicar que aquilo realmente não importava.

— Você não tem vergonha? — perguntou Harry.

— Claro — disse Løken, com um sorriso cansado no rosto. — Todo santo dia. É uma das minhas fraquezas.

— Então por que está me contando tudo isso?

— Bom, primeiro porque estou velho demais para ficar me escondendo por aí. Segundo, tenho outras pessoas a considerar além de mim mesmo. E terceiro, porque a vergonha reside mais em um plano emocional do que intelectual.

Um canto da boca de Løken se ergueu em um sorriso sarcástico.

— Eu assinava o Archives of Sexual Behavior pra ver se algum pesquisador conseguia explicar que tipo de monstro eu era. Mais por curiosidade do que por vergonha. Li um artigo sobre um monge pedófilo na Suíça; tenho certeza de que nunca fez nada também. No meio do artigo, informavam que ele tinha se trancado em um quarto e bebido óleo de fígado de bacalhau com fragmentos de vidro, aí nem terminei de ler. Prefiro me ver como um produto da minha educação e do meu ambiente, mas, apesar de tudo, uma pessoa com moral. Consigo conviver comigo mesmo, Hole.

— Mas, sendo um pedófilo, como consegue trabalhar com prostituição infantil? Isso não excita você?

Løken fitou a mesa, absorto em pensamentos.

— Você já fantasiou estuprar uma mulher, Hole? Não precisa responder, eu sei que já. Isso não quer dizer que você vá estuprar alguém, certo? Também não significa que seja incapaz de trabalhar em casos de estupro. Mesmo que você entenda como um homem pode perder o autocontrole. É realmente muito simples. É errado. É contra a lei. O desgraçado vai ter que pagar.

Løken terminou o terceiro copo. O conteúdo da garrafa já estava abaixo do rótulo.

Harry meneou a cabeça.

— Desculpe, estou tendo dificuldade em aceitar isso. Se você compra pornografia infantil, você é parte do esquema. Sem pessoas como você, não haveria um mercado pra esse lixo.

— Verdade. — Os olhos de Løken estavam vidrados. — Não sou santo. E ajudei a fazer do mundo o vale de lágrimas que ele é. O que eu posso dizer? É como na canção: se chover, sou como todo mundo, vou me molhar.

Harry de repente se sentiu velho também. Velho e cansado.

— Então, o que foi aquilo com os pedaços de gesso? — perguntou Løken.

— Só uma ideia meio louca. O gesso me pareceu semelhante ao que encontramos na chave de fenda que estava no porta-malas de Molnes. Amarelado. Não inteiramente branco como gesso normal. Vou mandar os flocos pra análise e comparar com o gesso do carro.

— E no que isso vai ajudar?

Harry deu de ombros.

— A gente nunca sabe se algo vai ajudar. Noventa e nove por cento da informação que recolhemos durante um caso acaba se mostrando inútil. Tudo que podemos fazer é torcer pra estarmos atentos o suficiente pra distinguir o um por cento que importa e que está bem embaixo do nosso nariz.

— Verdade. — Løken fechou os olhos e se recostou na cadeira.

Harry desceu as escadas até a rua e comprou uma sopa de macarrão com camarões de um homem banguela com um boné do Liverpool. O cara tirou duas conchas de sopa de um caldeirão preto e colocou o conteúdo em um saco plástico, deu um nó e sorriu, mostrando as gengivas. Na cozinha, Harry encontrou dois pratos de sopa. Løken acordou assustado quando o detetive o sacudiu, e eles comeram em silêncio.

— Acho que sei quem deu a ordem para a investigação — disse Harry.

Løken não respondeu.

— Sei que você não podia esperar até que o acordo com a Tailândia fosse assinado e selado pra começar seu trabalho. Era urgente, né? Era urgente obter resultados, por isso você começou a investigação.

— Você não desiste?

— E isso tem alguma importância agora?

Løken atirou a colher na mesa.

— Pode levar um tempão pra reunir provas. Talvez anos. O tempo era mais importante do que qualquer outra coisa.

— Aposto que não há nada por escrito que permita rastrear quem ordenou essa investigação. Caso isso venha à tona, Torhus, do Ministério das Relações Exteriores, vai se ferrar sozinho. Estou certo?

— Bons políticos sempre se certificam de ter costas largas, não é? Eles têm secretários de Estado pra fazer o trabalho sujo. E secretários de Estado não dão ordens. Eles apenas dizem aos diretores o que eles têm que fazer pra subir na hierarquia em uma carreira estagnada.

— Você por acaso estaria se referindo ao secretário de Estado Askildsen?

Løken colocou um camarão na boca e o mastigou em silêncio.

— Então, o que Torhus receberá em troca dessa operação? Um cargo de diretor-geral?

— Não sei. Não falamos sobre esse tipo de coisa.

— E a comissária de polícia? Ela não está correndo riscos demais?

— Suponho que ela provavelmente seja uma boa social-democrata.

— Ambições políticas?

— Talvez. Talvez nenhum deles esteja correndo tantos riscos quanto você pensa. Ter um escritório no mesmo edifício que o embaixador não quer dizer...

— Que você esteja na folha de pagamento deles? Então pra quem você trabalha? É freelancer?

Løken sorriu para sua imagem refletida na sopa.

— Então, o que aconteceu com aquela mulher, Hole?

Harry olhou espantado para o detetive.

— Aquela que parou de fumar — insistiu Løken.

— Já disse. Ela conheceu um músico inglês e foi pra Londres com ele.

— E depois disso?

— Quem disse que aconteceu alguma coisa depois disso?

— Você. Pelo jeito como falou dela. — Løken riu. Largou a colher e se recostou novamente na cadeira. — Diga, Hole. Ela realmente parou de fumar? Pra sempre?

— Não — disse Harry, tranquilamente. — Mas agora ela não fuma mais. E nunca mais vai fumar.

Harry olhou para a garrafa de Jim Beam, fechou os olhos e tentou se lembrar do calor de uma dose, a primeira dose.

Ele ficou no apartamento até que Løken adormecesse. Então, passou os braços por debaixo dos ombros do homem mais velho e o levou para a cama. Cobriu-o com um cobertor e saiu em seguida.

O porteiro do River Garden estava dormindo também. Harry pensou em acordá-lo, mas desistiu — todo mundo devia dormir um pouco esta noite. Alguém havia passado uma carta por baixo da porta de Harry. Ele a deixou fechada em cima da mesa de cabeceira junto com a outra, foi para perto da janela e viu um navio cargueiro deslizando sob a ponte Taksin, preto e silencioso.