Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 6 de 54

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Baratas

Capítulo 4

 

QUINTA-FEIRA, 9 de JANEIRO

 

Ovento frio bateu tão de repente que, ao sair de casa, Harry se sentiu sufocado. Olhou para o céu avermelhado por entre as casas e abriu a boca para diminuir o gosto de bile e Colgate.

Em Holbergs Plass, pegou o bonde que descia chacoalhando pela Welhavensgate. Conseguiu um lugar para sentar e abriu o Aftenposten. Mais um caso de pedofilia. Três nos últimos meses, todos envolvendo noruegueses pegos em flagrante na Tailândia.

O editorial lembrava os leitores da promessa de campanha do primeiro-ministro de que reforçaria as investigações de crimes sexuais, inclusive daqueles que envolviam noruegueses no exterior, e exigia que o governo se pronunciasse sobre quando mostraria resultados à população.

O secretário de Estado, Bjørn Askildsen, do gabinete do primeiro-ministro, comentava o trabalho conjunto com o governo tailandês para aprimorar as investigações.

“É urgente!”, dizia o editorial do Aftenposten. “O público espera que medidas sejam tomadas. Não é certo um ministro cristão permitir que esse ultraje siga impune.”

— Entre!

Harry abriu a porta e olhou direto para a boca aberta de Bjarne Møller, que bocejava. Møller estava recostado na cadeira, as pernas compridas despontando por debaixo da mesa.

— Aí está você. Fiquei esperando por você ontem, Harry.

— Fiquei sabendo. — Harry se sentou. — Não trabalho quando estou bêbado. Nem bebo quando estou trabalhando. É meio que uma questão de princípios pra mim.

A intenção era soar irônico.

— Policial é policial vinte e quatro horas por dia, Harry, sóbrio ou não. Precisei convencer Waaler a não dar queixa, sabe.

Harry deu de ombros para indicar que já dissera tudo o que tinha a dizer sobre o assunto.

— Tudo bem, Harry, não vamos discutir isso agora. Tenho um trabalho pra você. Um trabalho que você não merece, na minha opinião, mas que eu vou passar pra você mesmo assim.

— Você ficaria feliz se eu dissesse que não quero pegar esse trabalho?

— Não venha dar uma de Philip Marlowe, Harry. Não combina com você — respondeu Møller, brusco. Harry sorriu. Sabia que o chefe gostava dele. — Ainda nem falei do que se trata.

— A julgar pelo fato de que você mandou um carro pra me buscar em horário de folga, não deve ser pra me botar de guarda de trânsito.

— Exato. Então por que você não me deixa terminar de falar?

Harry deu uma risada breve e pouco entusiasmada e se inclinou para a frente na cadeira.

— Posso falar o que penso, chefe?

E você pensa?, Møller quase perguntou, mas se limitou a assentir.

— Não sou o cara mais indicado pra missões importantes agora — prosseguiu Harry. — Acho que você tem visto como estão as coisas. Ou como não estão. Faço meu trabalho, cumpro a rotina, tento não atrapalhar ninguém e bato o ponto sóbrio na entrada e na saída. Eu passaria esse trabalho pra um dos outros rapazes, se fosse você.

Møller suspirou, recolheu as pernas com esforço e ficou de pé.

— Posso falar o que eu penso, Harry? Se a decisão fosse minha, outra pessoa pegaria a missão. Mas eles querem você. De modo que seria um grande favor pra mim, Harry...

Harry ergueu os olhos, desconfiado. Bjarne Møller tinha livrado sua cara muitas vezes: sabia que era apenas questão de tempo até que tivesse que começar a pagar a dívida.

— Peraí! Eles, quem?

— Gente do alto escalão. Gente capaz de transformar minha vida em um inferno, caso não consiga o que quer.

— E o que eu ganho pegando o trabalho?

Møller franziu o cenho, mas sempre tivera dificuldades em assumir uma expressão severa em seu rosto amistoso e jovial.

— O que você ganha? Seu salário. Enquanto estiver realizando a tarefa. Pelo amor de Deus, o que você ganha!

— Ah, saquei a parada agora, chefe. Aquela gente do alto escalão acha que o detetive que resolveu o caso de Sydney no ano passado deve ser um cara sensacional, e sua tarefa é fazê-lo andar na linha. Estou enganado?

— Harry, por favor, não force a barra.

— Não, não estou enganado. Tampouco me enganei ontem, quando vi a cara do Waaler. Passei a noite pensando nessa situação, e eis a minha sugestão: vou ser um bom menino, vou assumir o trabalho, e, quando eu terminar, você vai me ceder dois investigadores em tempo integral durante dois meses e acesso total a todos os nossos bancos de dados.

— Do que você está falando?

— Você sabe do que eu estou falando.

— Se tem a ver com o estupro da sua irmã, sinto muito, mas vou ter que dizer não, Harry. O caso foi encerrado, lembra?

— Lembro, chefe. Eu me lembro muito bem do relatório que dizia que, como ela tem síndrome de Down, havia a possibilidade de ter inventado o estupro pra esconder o fato de que estaria grávida em decorrência de uma relação casual. É, de fato, lembro sim.

— Não havia nada de concreto...

— Minha irmã não estava escondendo nada. Meu Deus, eu fui até o apartamento dela em Sogn e encontrei, no cesto de roupa suja do banheiro, o sutiã encharcado de sangue. O sujeito ameaçou arrancar os mamilos dela. Minha irmã ficou apavorada. Acha que todo mundo é igual a ela, e, quando um cara de terno a convidou para almoçar e perguntou se não gostaria de ver um filme no quarto de hotel dele, ela simplesmente pensou que ele estava sendo gentil. E, mesmo que ela se lembrasse do número do quarto, o lugar já teria sido aspirado e limpo, e a roupa de cama trocada mais de vinte vezes depois de ela ter sido estuprada ali. Não haveria mesmo nada muito concreto como prova.

— Ninguém se lembra de ter visto um lençol com manchas de sangue...

— Já trabalhei em hotel, Møller. Você ficaria surpreso com a quantidade de lençóis manchados de sangue que se troca em um intervalo de algumas semanas. Porra, as pessoas sangram o tempo inteiro!

Møller balançou a cabeça, decidido.

— Desculpe, você já teve sua chance de provar isso, Harry.

— Não foi suficiente, chefe. Não foi suficiente.

— Nunca é suficiente. Mas uma hora o caso precisa ser encerrado. Com os recursos que temos...

— Certo, me dê carta branca. Por um mês.

Møller de repente levantou a cabeça, um olho fechado. Harry viu que tinha conseguido convencê-lo.

— Seu filho da mãe. Você queria pegar o serviço o tempo todo, né? Mas antes precisava barganhar um pouco.

Harry fez um beicinho e balançou a cabeça negativamente. Møller olhou pela janela e soltou um suspiro.

— Tudo bem, Harry, vou ver o que posso fazer. Mas, se você pisar na bola, vou ser obrigado a tomar algumas decisões que, segundo algumas pessoas na corporação, já deveriam ter sido tomadas há muito tempo. E você sabe o que isso quer dizer, não sabe?

— Levar um pé na bunda, chefe. — Harry sorriu. — Qual é o trabalho?

— Espero que seu terno de verão esteja limpo e que você se lembre de onde colocou seu passaporte. Seu avião parte daqui a doze horas para bem longe daqui.

— Quanto mais longe, melhor.

Harry estava sentado em uma cadeira junto à porta, no intransitável apartamento da irmã em Sogn. Ela estava sentada perto da janela, observando os flocos de neve que caíam à luz do poste da rua, lá embaixo. Fungou algumas vezes. Como estava de costas, Harry não podia ver se era por causa de um resfriado ou porque ele ia viajar. Fazia dois anos que ela morava no abrigo e, diante das circunstâncias, vinha conseguindo administrar sua vida razoavelmente bem. Depois do estupro e do aborto, Harry tinha levado algumas roupas e uma nécessaire com alguns itens pessoais e se mudara para o apartamento no abrigo, mas não havia demorado muito para sua irmã dar um basta na situação. Ela já era adulta agora.

— Logo estarei de volta.

— Quando?

Estava tão próxima da janela que sua respiração se condensava e desenhava uma rosa no vidro sempre que ela falava.

Harry foi se sentar atrás da irmã e pousou uma das mãos nas costas dela. Pelo leve tremor que sentiu ao toque, ele pôde ver que ela estava prestes a cair no choro.

— Volto assim que pegar os bandidos.

— Você está indo atrás do...?

— Não, não dele. Vou pegá-lo depois. Você já falou com o papai hoje?

Ela fez que não com a cabeça. Harry soltou um suspiro.

— Se ele não ligar, quero que você ligue pra ele. Pode fazer isso por mim?

— O papai nunca fala nada — sussurrou ela.

— Ele está triste porque a mamãe morreu.

— Mas já faz tanto tempo.

— É por isso que está na hora de a gente fazer ele voltar a falar, e você precisa me ajudar. Você vai fazer isso? Vai?

Ela se virou sem dizer uma palavra, abraçou o irmão e enterrou a cabeça no pescoço dele.

Ele acariciou o cabelo dela e sentiu a camisa ficando úmida.

A mala estava pronta. Harry tinha ligado para Ståle Aune para contar que viajaria para Bangkok a trabalho. Aune não tivera muito a dizer em resposta, e Harry tampouco sabia por que havia ligado. Talvez porque fosse bom avisar a alguém que poderia sentir sua falta? Harry descartou a ideia não muito brilhante de telefonar para o pessoal do Schrøder’s.

— Tome as injeções de vitamina B que eu dei a você — aconselhara Aune.

— Pra que elas servem?

— Facilitam a vida, caso você pretenda se manter sóbrio. Novos ares, Harry. Pode ser um bom começo, sabe.

— Vou pensar.

— Só pensar não adianta, Harry.

— Eu sei. É por isso que eu não preciso das injeções.

Encostado no muro, um dos rapazes do albergue que ficava mais adiante na rua tremia em sua jaqueta jeans justa e tragava um cigarro, vendo Harry colocar a mala no porta-malas do táxi.

— Dando o fora?

— Ahã.

— Pro sul?

— Bangkok.

— Sozinho?

— Isso aí.

— Nem precisa dizer mais nada.

Ergueu o polegar para Harry e deu uma piscadela.

Harry pegou o bilhete de embarque com a atendente atrás do balcão de check-in e se virou.

— Harry Hole?

O sujeito com óculos de armação de aço fitava-o com um sorriso triste.

— E você é...?

— Dagfinn Torhus, do Ministério das Relações Exteriores. Queríamos desejar boa sorte. E ter certeza de que você entendeu que se trata de um trabalho.... delicado. Afinal de contas, foi tudo tão repentino...

— Agradeço a preocupação. Já entendi que meu trabalho é descobrir um assassino sem fazer muito alarde. Møller me deu instruções quanto a isso.

— Ótimo. Discrição é fundamental. Não confie em ninguém. Nem mesmo em funcionários que se apresentem como estando a serviço do Ministério. Podem ser gente do... bom... do Dagbladet, por exemplo.

Torhus abriu a boca, como se esboçasse um sorriso, mas Harry notou que ele falava sério.

— Os repórteres do Dagbladet não têm crachá do Ministério, herr Torhus. Nem usam paletó em pleno janeiro. A propósito, vi nos relatórios que você é meu contato no Ministério.

Torhus assentiu, então projetou o queixo para a frente e passou a falar baixo:

— Seu avião vai decolar daqui a pouco, por isso não vou detê-lo por mais tempo. Só precisa ouvir o que tenho a dizer.

Tirou as mãos dos bolsos do paletó e as entrelaçou à frente do corpo.

— Qual é a sua idade, Hole? Trinta e três? Trinta e quatro? Você ainda tem uma carreira inteira pela frente. Andei fazendo minhas próprias investigações, como pode ver. Você é talentoso, e tem gente no alto escalão que claramente gosta de você. Que protege você. Isso não precisa mudar enquanto as coisas continuarem indo bem. Mas não é preciso muito para que um dia você caia do cavalo e, fácil, fácil, leve junto seus parceiros. E aí se dá conta de que esses supostos amigos de repente sumiram do mapa. Então tente manter os pés bem firmes no chão, Hole. Para o bem de todos. Ouça o conselho bem-intencionado de um patinador de gelo veterano. — Torhus tinha um sorriso nos lábios, mas seus olhos analisavam Harry atentamente. — Sabe de uma coisa, Hole? Sempre que venho ao Aeroporto de Fornebu, tenho essa sensação deprimente de que alguma coisa está acabando. De que algo está acabando e algo novo, começando.

— Sério? — falou Harry, pensando se teria tempo de tomar uma cerveja antes do embarque. — Bem, de vez em quando isso pode ser bom. Um novo começo, quero dizer.

— Vamos torcer pra que seja — disse Torhus. — Vamos torcer pra que seja assim.