Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 5 de 54

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Baratas

Capítulo 3

 

QUARTA-FEIRA, 8 de JANEIRO

 

F oram encontrá-lo no Schrøder’s da Waldemar Thranes Gate, um antigo e respeitável restaurante localizado entre as zonas leste e oeste de Oslo. O lugar era mais antigo do que respeitável, para falar a verdade. O aspecto respeitável se devia em grande parte à decisão das autoridades de tombar aquele salão marrom enfumaçado. Mas isso não incluía a clientela: velhos bebuns — um bando perseguido e ameaçado de extinção —, eternos estudantes e sedutores decadentes, que já tinham passado de seu prazo de validade.

Assim que a corrente de ar que soprou porta adentro permitiu-lhes um rápido vislumbre em meio à cortina de fumaça, os dois policiais avistaram o homem que procuravam sentado a uma mesa sob um retrato da Igreja Aker. O cabelo loiro era espetado de tão curto, e a barba de três dias no rosto afilado e marcado já nascia grisalha, embora o sujeito dificilmente aparentasse ter mais de 35 anos. Estava sozinho, a postura ereta, trajando seu casaco de abotoamento duplo como se estivesse prestes a ir embora a qualquer momento. Como se a cerveja que estava diante dele em cima da mesa não fosse uma fonte de prazer, mas uma tarefa que precisava cumprir.

— Disseram que a gente encontraria você aqui — falou o policial mais velho, sentando-se diante dele. — Meu nome é Waaler.

— Está vendo o sujeito sentado ali no canto? — perguntou Harry, sem erguer a vista.

Waaler se virou e viu um velho magricela com o olhar fixo em um copo de vinho tinto, oscilando para a frente e para trás. Parecia estar congelando de frio.

— Chamam ele de o último dos moicanos.

Harry levantou a cabeça e sorriu. Seus olhos, que lembravam bolas de gude azuis e brancas por trás de um emaranhado de veias vermelhas, se concentraram na camisa de Waaler.

— Marinha mercante — falou, a dicção meticulosa. — Parece que era comum ter uma porção deles por aqui há alguns anos, mas agora não sobrou quase nenhum. O velho sobreviveu a dois bombardeios na guerra. Acha que é imortal. Semana passada, depois que o restaurante fechou, topei com ele dormindo em um monte de neve na Glückstadsgata. As ruas estavam vazias, a noite, escura como breu, e fazia dezoito graus negativos. Quando dei umas sacudidas nele, tentando reanimar o sujeito, ele simplesmente olhou pra mim e me mandou ir pro inferno.

Harry riu.

— Olha só, Hole...

— Fui até a mesa dele ontem à noite e perguntei se lembrava do que tinha acontecido, que eu tinha evitado que ele morresse congelado. Sabe o que ele disse?

— Møller quer ver você, Hole.

— O sujeito disse que era imortal. “Posso engolir o fato de ser um marinheiro mercante que as pessoas querem ver pelas costas neste país de merda”, ele falou. “Mas é de dar pena quando nem São Pedro quer olhar pra minha cara.” Ouviram essa? “Nem São Pedro.”

— Temos ordens para conduzi-lo à delegacia.

Outra cerveja surgiu com um baque à frente de Hole.

— Pode trazer a conta, Rita — pediu ele.

— Deu 280 — respondeu a moça, sem precisar verificar seus papéis.

— Meu Deus — resmungou o policial mais jovem.

— Pode ficar com o troco, Rita.

— Ah, obrigada. — A moça se retirou.

— Melhor atendimento da cidade — explicou Harry. — Às vezes ela percebe que a gente está chamando sem nem precisarmos levantar o braço.

Waaler franziu a testa, fazendo saltar uma veia que mais parecia uma minhoca azul.

— Não estamos com tempo pra sentar aqui e ficar ouvindo suas divagações de bêbado, Hole. Sugiro que você deixe essa última cerveja aí e...

Harry já tinha levado cuidadosamente o copo aos lábios e começado a beber.

Waaler se inclinou para a frente, tentando manter a voz baixa.

— Eu já ouvi falar de você, Hole. E não gostei do que ouvi. Acho que já devia ter sido expulso da corporação há anos. Caras como você fazem com que as pessoas percam o respeito pela polícia. Mas não é pra isso que viemos aqui. Viemos pra levá-lo com a gente. O chefe da Divisão de Homicídios é um cara legal. Talvez dê outra chance a você.

Hole soltou um arroto, e Waaler recuou.

— Outra chance de quê?

— De mostrar do que você é capaz — disse o policial mais jovem com um sorriso pueril.

— Vou mostrar a você do que sou capaz. — Hole sorriu e inclinou a cabeça para trás, levando o copo de novo à boca.

— Para com isso, Hole! — As bochechas de Waaler ficaram vermelhas enquanto ele observava o sobe e desce do pomo de adão sob o queixo não barbeado.

— Satisfeito? — perguntou Hole, pousando o copo vazio à sua frente.

— Nosso trabalho aqui...

— Estou me lixando pro trabalho de vocês. — Hole abotoou a jaqueta. — Se Møller quiser alguma coisa comigo, ele que me ligue ou espere eu chegar ao trabalho amanhã. Agora estou indo pra casa e não quero ver a cara de vocês pelas próximas doze horas. Senhores... — Harry ergueu seu corpo de um metro e noventa e dois de altura.

— Seu babaca arrogante — praguejou Waaler, balançando-se na cadeira. — Perdedor do cacete. Se aqueles jornalistas que escreveram sobre você depois do caso da Austrália soubessem que você não tem colhões para...

— Colhões pra que, Waaler? — Hole continuava sorrindo. — Pra prender rapazes de 16 anos bêbados porque usam cabelo moicano?

O policial mais novo olhou para Waaler. No ano anterior, ele ouvira boatos na Academia de Polícia de que alguns jovens punks haviam sido presos por beber cerveja em público e tinham apanhado na cadeia com laranjas enroladas em toalhas úmidas.

— Você nunca entendeu nada de esprit de corps, Hole — retomou Waaler. — Só pensa em si mesmo. Todo mundo sabe quem estava dirigindo a viatura em Vinderen e como um bom oficial arrebentou o crânio no poste de uma cerca. Aquilo aconteceu porque você é um bêbado, Hole, e estava bêbado ao volante daquele carro. Você devia estar feliz da vida pelos chefes terem resolvido varrer tudo pra debaixo do tapete. Se não tivessem que se preocupar com a família da vítima e a reputação da corporação...

O policial mais jovem que acompanhava Waaler aprendia alguma coisa nova todos os dias. Naquela tarde, por exemplo, aprendeu que era uma ideia bastante idiota ficar se balançando em uma cadeira enquanto insultava alguém, pois você estaria bastante indefeso caso a pessoa insultada resolvesse acertar um soco bem na sua cara. Como as quedas de clientes eram frequentes no Schrøder’s, não houve mais do que alguns segundos de silêncio antes do burburinho das conversas ser retomado.

Enquanto ajudava Waaler a se levantar do chão, o policial mais jovem viu de relance a jaqueta de Hole desaparecendo porta afora.

— Uau, nada mau pra quem bebeu oito cervejas, hein? — disse, calando-se assim que viu a expressão no rosto de Waaler.

Harry caminhava distraído pela calçada coberta de neve da Dovregata. Os nós dos dedos não doíam; a dor ou o arrependimento viriam na manhã do dia seguinte.

Ele não bebia em horário de trabalho. Já havia feito isso antes, e, segundo o Dr. Aune, cada recaída começava onde a anterior havia terminado.

O médico, uma espécie de clone rechonchudo e grisalho de Peter Ustinov, tinha rido tanto que seu queixo duplo chegara a tremer ao ouvir a explicação de Harry de que estava mantendo distância de seu velho inimigo uísque e ficando só na cerveja. Porque não gostava muito de cerveja.

— Você já ficou na pior e, quando abrir a garrafa, vai ficar na pior de novo. Não tem meio-termo na abstinência, Harry.

Bom. Com algum esforço estava conseguindo chegar em casa com as próprias pernas, além de, em geral, ser capaz de tirar a roupa sozinho e comparecer ao trabalho no dia seguinte. Nem sempre tinha sido assim. Harry chamava aquilo de meia abstinência. Precisava de uns bons goles para cair na cama e dormir, e só.

Uma mulher com o rosto encoberto por um chapéu felpudo preto passou por ele e o cumprimentou. Era alguém que ele conhecia? Naquele último ano tinha recebido cumprimentos similares de um monte de gente, especialmente após a entrevista na tevê em que Anne Grosvold lhe perguntara qual era a sensação de atirar em um assassino em série.

— Bom, melhor que a de sentar aqui pra responder perguntas como essa — respondera ele com um sorriso contrariado. A frase se transformara no hit do momento, a mais repetida, ao lado da declaração de um político que, ao defender uma medida na área agrícola, dissera: “Ovelhas são animais legais.”

Harry enfiou a chave na fechadura de seu apartamento na Sofies Gate. Não sabia exatamente por que tinha se mudado para Bislett. Talvez porque seus vizinhos em Tøyen tivessem passado a olhar esquisito para ele, mantendo distância, o que de início Harry interpretara como sinal de respeito.

Tudo bem, no novo prédio os vizinhos o deixavam em paz, embora sempre aparecessem no corredor para verificar se estava tudo bem nas raras ocasiões em que ele escorregava em um degrau e rolava escada abaixo até o patamar.

Essas quedas tinham começado somente em outubro, depois de ele ter chegado a um beco sem saída no caso de sua irmã. Naquele momento, Harry perdera o fôlego e voltara a ter pesadelos. E só conhecia um jeito de se manter a salvo deles.

Tentara se recuperar levando a irmã para a cabana em Rauland, mas ela continuava muito retraída desde o estupro e já não tinha o riso solto de outrora. Ele ligara então para seu pai algumas vezes, mas as conversas não tinham sido muito longas, durando apenas o suficiente para indicar que o velho queria ser deixado em paz.

Harry fechou a porta do apartamento, gritou avisando que tinha chegado em casa e assentiu com satisfação ao não ouvir qualquer resposta. Há monstros de todas as formas e tamanhos, mas se, ao chegar em casa, eles não estivessem à sua espreita na cozinha, Harry teria alguma chance de uma noite de sono tranquila.