Baratas
Capítulo 14
DOMINGO, 12 de JANEIRO
E lizabeth Dorothea Crumley estava de mau humor. — Merda! Já se passaram cinco dias. Um estrangeiro aparece com uma faca cravada nas costas em um hotel de beira de estrada e não temos impressões digitais nem suspeitos nem uma porcaria de uma pista. Só uma recepcionista, Tonya Harding, um dono de hotel e agora a máfia. Estou esquecendo alguma coisa?
— Agiotas — acrescentou Rangsan, o rosto escondido atrás do Bangkok Post.
— Agiotas são a máfia — disse a inspetora.
— Não o tipo de agiota a que Molnes recorreu — comentou Rangsan.
— O que você quer dizer?
Rangsan pôs o jornal de lado.
— Harry, você falou que o motorista acha que o embaixador devia dinheiro a uns agiotas. O que um agiota faz quando o devedor morre? Tenta cobrar a dívida da família, certo?
Liz olhava para ele com uma expressão cética.
— Algumas pessoas ainda têm um grande sentimento de honra familiar, e os agiotas são negociantes. Evidentemente vão tentar reaver o dinheiro de qualquer fonte que conseguirem.
— Na minha opinião, isso é muito improvável — disse Liz, franzindo o nariz.
Rangsan voltou ao jornal.
— É, mas encontrei o número da Thai Indo Travellers três vezes na lista de chamadas recebidas pela família Molnes nos últimos três dias.
Liz assobiou, e as outras pessoas em torno da mesa assentiram.
— Como é? — retrucou Harry, percebendo que tinha deixado passar alguma coisa.
— A Thai Indo Travellers é uma agência de viagens de fachada — explicou Liz. — Na sobreloja funciona o verdadeiro negócio: empréstimos pra gente que já não consegue dinheiro em nenhum outro lugar. As taxas de juros são altas, e o método de cobrança, bastante eficaz. Estamos de olho nesse pessoal há algum tempo.
— E nunca conseguiram provar nada?
— Poderíamos ter conseguido, se tivéssemos nos esforçado um pouco mais. Mas achamos que os concorrentes deles são ainda piores. A Thai Indo Travellers consegue operar paralelamente à máfia e, até onde a gente sabe, sem sequer pagar por proteção. Se esses caras são os responsáveis pelo assassinato do embaixador, será a primeira vez que sujaram as mãos, até onde nós sabemos.
— Talvez tenham achado que era hora de matar pra servir de exemplo — sugeriu Nho.
— Matar o cara primeiro e só depois ligar pra família atrás do dinheiro? Não parece um pouco botar o carro na frente dos bois? — questionou Harry.
— Por quê? Serve muito bem de aviso aos maus pagadores — comentou Rangsan, folheando lentamente o jornal. — Se ainda conseguirem receber o dinheiro de volta, ficam no lucro.
— Beleza — falou Liz. — Nho e Harry, façam uma visita de cortesia aos agiotas. Outra coisa: estive conversando com a perícia. O pessoal lá está totalmente perplexo com o lubrificante que encontramos no paletó de Molnes, no buraco feito pela faca. A conclusão é de que se trata de material orgânico e deve ser de origem animal. Certo, acho que é tudo. Boa sorte.
Rangsan alcançou Harry e Nho a caminho do elevador.
— Tomem cuidado. Esses caras pegam pesado. Ouvi dizer que usam hélices contra os maus pagadores.
— Hélices?
— Saem com o sujeito em um barco, amarram ele num poste no rio, dão a ré e erguem o mecanismo da hélice pra fora da água, fazendo o barco deslizar bem lento e rente à vítima. Consegue imaginar um negócio desses?
Harry conseguia.
— Faz uns anos, encontramos o corpo de um cara que tinha morrido de ataque cardíaco. O rosto do sujeito praticamente não existia mais. A ideia era que ele serviria de exemplo a outros devedores, mas, quando a vítima ouviu o motor ser ligado e viu a hélice se aproximando, o coração não deve ter aguentado a pressão.
Nho assentiu.
— Isso não deve ser bom. Melhor pagar.
TAILÂNDIA MARAVILHOSA, era o que dizia o grande letreiro em cima de uma imagem colorida de dançarinas tailandesas. O pôster enfeitava uma das paredes da pequena agência de viagens na Sampeng Lane, em Chinatown. Além de Harry, Nho e um homem e uma mulher, ambos atrás de escrivaninhas, a sala de decoração frugal estava vazia. O homem usava óculos de lentes tão grossas que parecia encará-los de dentro de um aquário. Nho tinha acabado de mostrar a ele o distintivo de polícia.
— O que ele disse?
— Que a polícia é sempre bem-vinda. E que pode fazer preços especiais nos pacotes.
— Peça um pacote gratuito pro andar de cima.
Nho disse algumas palavras, e o homem tirou o telefone do gancho.
— O sr. Sorensen só precisa terminar seu chá — anunciou em inglês.
Harry esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas um olhar reprovador de Nho o fez mudar de ideia. Sentaram-se para esperar. Passados alguns minutos, Harry apontou para o ventilador de teto parado. O sujeito dos óculos de aquário sorriu e balançou a cabeça.
— Kaput.
Harry podia sentir o couro cabeludo coçando. Depois de mais alguns minutos, o telefone tocou, e o sujeito pediu que o acompanhassem. Ao pé da escada, indicou que deviam tirar os sapatos. Harry pensou em suas meias esportivas suadas e furadas, considerando que era melhor para todos que ficasse de sapatos, mas Nho balançou a cabeça devagar. Praguejando, Harry tirou os sapatos e subiu as escadas.
O dos óculos de aquário bateu em uma porta, que se abriu bruscamente. Harry recuou dois passos. Uma montanha de carne e músculos ocupava todo o batente da porta. Os olhos eram duas pequenas fendas, e o sujeito exibia um bigode preto caído e a cabeça raspada, exceto por uma trancinha frouxa. A cabeça parecia uma bola de boliche desbotada; o tronco era uma só massa disforme, sem pescoço nem ombros, que partia das orelhas e descia até braços tão gordos que pareciam ter sido atarraxados no lugar. Harry jamais havia visto um ser humano daquele tamanho em toda sua vida.
O sujeito deu as costas a eles e caminhou para dentro da sala.
— O nome dele é Woo — sussurrou Nho. — Faz bicos como capanga. Péssima reputação.
— Meu Deus. Ele parece uma imitação horrorosa de vilão hollywoodiano.
— É chinês da Manchúria. Eles têm fama de serem muito...
As persianas das janelas estavam fechadas, e Harry conseguiu discernir a silhueta de um homem sentado atrás de uma escrivaninha na sala escura. Um ventilador de teto zunia, e uma cabeça de tigre empalhada rosnava para eles em uma das paredes. A porta aberta da sacada dava a impressão de que o tráfego da rua passava dentro da sala, e uma terceira pessoa estava sentada junto ao batente. Woo se acomodou com dificuldade na última cadeira restante. Harry e Nho ficaram de pé no meio da sala.
— Em que posso servi-los, senhores?
A voz vinda de trás da escrivaninha era grave, com um sotaque britânico que parecia de Oxford. A figura ergueu uma mão na qual brilhava um anel. Nho olhou para Harry.
— É, a gente é da polícia, sr. Sorensen...
— Eu sei.
— O senhor emprestou dinheiro a Atle Molnes, o embaixador da Noruega. Também ligou pra esposa de Molnes depois da morte dele. Por quê? Está pressionando pra que ela pague a dívida?
— Não somos credores de nenhum embaixador. Além disso, não trabalhamos com esse tipo de empréstimo, senhor...?
— Hole. O senhor está mentindo, sr. Sorensen.
— Como é, sr. Hole?
Sorensen se debruçou na escrivaninha à sua frente. Seus traços eram tailandeses, mas a pele e o cabelo eram brancos feito neve, e os olhos, azuis.
Nho agarrou a manga da camisa de Harry, mas o investigador puxou o braço e sustentou o olhar de Sorensen. Sabia que, ao partir para o ataque, tinha colocado a cabeça a prêmio, e o sr. Sorensen ficaria desmoralizado se cedesse agora. Essas eram as regras do jogo. Mas ali estava Harry, só de meias, suando feito um porco e absolutamente de saco cheio de fingimento, tato e diplomacia.
— O senhor está em Chinatown aqui, sr. Hole, não em território farang. Não tenho problemas com o chefe de polícia de Bangkok. Sugiro que, antes de pronunciar qualquer outra palavra, o senhor vá ter uma conversa com ele. Prometo então que esqueceremos essa cena constrangedora.
— Normalmente é a polícia que recita quais são os direitos do criminoso, não o contrário.
O branco dos dentes do sr. Sorensen reluziu entre os lábios vermelhos e úmidos.
— Ah, sim. “O senhor tem o direito de permanecer calado” e todo o resto. Bom, dessa vez os papéis se inverteram. Woo, acompanhe os dois até a saída. Senhores.
— Seus negócios aqui não vão durar muito tempo, nem o senhor, sr. Sorensen. No seu lugar, eu sairia para ver um pouco da luz do dia agora mesmo. Vai ser mais difícil fazer isso na cadeia.
A voz de Sorensen ganhou um toque mais grave.
— Não me provoque, sr. Hole. É bem possível que minhas estadas no exterior tenham me feito perder minha lendária paciência tailandesa.
— Alguns anos atrás das grades serão o suficiente para o senhor recuperá-la.
— Ponha o sr. Hole pra fora, Woo.
Aquele corpo imenso se moveu com uma agilidade incrível. Harry sentiu o cheiro acre de curry e, antes que tivesse a chance de erguer o braço, foi agarrado feito um ursinho de pelúcia que alguém acabou de ganhar em uma quermesse. Tentou se soltar, mas o abraço ficava ainda mais apertado a cada vez que ele liberava o ar dos pulmões, como se fosse a presa de uma jiboia. Tudo ficou escuro, e o som do tráfego se tornou mais alto. Então, por fim, sentiu que estava livre e pairando no ar. Quando abriu os olhos, entendeu que estivera inconsciente, como se tivesse sonhado por um segundo. Viu uma placa toda escrita em caracteres chineses, alguns cabos entre dois postes, um céu cinza esbranquiçado e um rosto encarando-o de cima. Em seguida, os sons voltaram, e Harry conseguiu ouvir a cascata de palavras que fluía daquela boca. O dono do rosto apontava para a varanda e para o toldo do tuk-tuk, bastante avariado.
— Como você está, Harry?
Nho fez sinal para que o condutor do tuk-tuk fosse embora. Harry olhou para baixo para dar uma conferida em sua situação. As costas doíam, e a visão de suas meias esportivas furadas no asfalto cinzento tinha algo de muito desolador.
— Bom, jamais me deixariam entrar no Schrøder’s assim. Você pegou meus sapatos?
Harry poderia jurar que Nho tentava conter um sorriso.
— Sorensen falou pra trazer um mandado de prisão da próxima vez — disse Nho, os dois já de volta ao carro. — Enfim, agora a gente pode prender todo mundo ali por agressão a um funcionário público.
O dedo de Harry percorreu um longo corte na panturrilha.
— Não podemos prender todo mundo, só o capanga. Mas quem sabe ele tenha alguma coisa a nos dizer. Qual é o problema que vocês tailandeses têm com esse negócio de altura? Segundo Tonje Wiig, sou o terceiro norueguês que foi atirado da janela de uma casa esta semana.
— Um antigo método da máfia. Preferem fazer isso a meter bala no sujeito. Se a polícia encontra alguém debaixo de uma janela, não pode descartar a possibilidade de uma queda acidental. Rola uma grana, o caso é arquivado sem que ninguém seja apontado como culpado e todo mundo fica feliz. Buracos de bala complicam as coisas.
Pararam em um semáforo. Uma chinesa velha e enrugada, sentada em um tapete, sorria. Seu rosto estava enevoado em meio à atmosfera azulada e tremeluzente.