Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 37 de 54

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Baratas

Capítulo 35

 

DOMINGO, 19 de JANEIRO

 

— Estamos de volta à estaca zero — anunciou Liz. — Brekke conseguiu um álibi e temos

que esquecer Løken por enquanto. Ah, e o psicopata gigante que tentou matar nosso

detetive visitante está à solta. — Ela se reclinou na cadeira e olhou para o teto. — Alguma sugestão, pessoal? Se não tiverem nada, a reunião está encerrada, e vocês podem ir fazer o que quiserem, mas espero que alguns relatórios estejam na minha mesa até amanhã cedo, no mais tardar.

Os policiais saíram porta afora, esbarrando uns nos outros. Harry ficou onde estava.

— E então?

— Nada — falou ele, um cigarro apagado balançando pra cima e pra baixo na boca. A inspetora tinha proibido que fumassem no escritório dela.

— Sinto que temos alguma coisa.

Um sorriso suave apareceu nos cantos da boca de Harry.

— Era isso que eu queria, inspetora. Saber que você sente que temos alguma coisa.

Ela franziu o cenho.

— Volte quando tiver alguma coisa pra me contar.

Harry pegou o cigarro e o colocou de volta no maço.

— Tudo bem — disse, levantando-se. — Farei isso.

Jens se recostou na cadeira e sorriu com as bochechas coradas, a gravata-borboleta reluzindo. Para Harry, ele parecia um garoto fazendo aniversário.

— Eu me sinto quase feliz por ter ficado preso por um tempo. Isso faz qualquer pessoa apreciar muito mais as coisas simples da vida. Como uma garrafa de Dom Perignon, safra 1985, por exemplo.

Ele estalou os dedos para o garçom, que foi rapidamente até a mesa, pegou a garrafa de champanhe suada do balde e encheu o copo.

— Adoro quando fazem isso. Faz com que eu me sinta o Super-Homem. O que você acha, Harry?

Harry tocou o copo.

— Acho justo. Mas não é a minha praia, na verdade.

— Nós somos diferentes, Harry.

Jens fez a declaração com um sorriso. Parecia novamente à vontade em seu terno. Ou apenas tinha vestido outro quase idêntico. Harry não tinha certeza.

— Algumas pessoas precisam do luxo como outras precisam de ar — continuou Jens. — Um carro caro, roupas bonitas e um atendimento impecável são meio que essenciais para eu sentir... bem, para eu sentir que existo. Consegue entender isso?

Harry assentiu.

— Humm. — Jens segurou a taça de champanhe pela haste. — Eu sou o decadente entre nós dois. Você devia confiar em suas primeiras impressões. Eu sou um merda. E, enquanto houver espaço pra merdas nesse mundo, pretendo continuar a ser um. Skål.

Ele saboreou a champanhe antes de engolir. Então sorriu e gemeu de prazer. Harry não conteve o riso e ergueu seu copo, mas Jens lhe dirigiu um olhar de reprovação.

— Água? Não está na hora de você começar a aproveitar a vida, Harry? Você não precisa ser assim tão rigoroso consigo mesmo.

— Às vezes é preciso.

— Bobagem. Todos os seres humanos são basicamente hedonistas, mas alguns demoram mais pra perceber isso. Você é comprometido?

— Não.

— E não está na hora?

— Com certeza. Só não entendo o que isso tem a ver com aproveitar a vida.

— Verdade. — Jens fixou os olhos no copo. — Já contei a você sobre a minha irmã?

— Aquela pra quem você ligou?

— Isso. Ela é solteira, sabia?

Harry riu.

— Não pense que tem alguma dívida de gratidão comigo, Jens. Não fiz grande coisa, exceto mandar você pra cadeia.

— Não estou brincando. É uma garota maravilhosa. É editora, mas acho que ela trabalha demais pra ter tempo pra homens e acaba espantando os pretendentes. É tipo você, austera, uma personalidade forte. A propósito, já reparou que todas as garotas norueguesas dizem isso quando ganham um concurso de Miss Qualquer Coisa e são entrevistadas pelos jornalistas? Falam que têm personalidade forte. Personalidade forte parece ser um requisito básico pra ganharem uma coroa.

Ele parecia pensativo.

— Minha irmã adotou o nome de solteira da minha mãe quando chegou à maioridade. E fez isso por vingança.

— Não tenho certeza de que eu e sua irmã formaríamos um bom par.

— Por que não?

— Bom, sou um covarde. Estou procurando uma mulher discreta e tão bonita que ninguém ouse dizer isso a ela.

Jens riu.

— Pode se casar tranquilamente com a minha irmã. Não tem problema se você não gostar dela, porque ela trabalha tanto que você quase não vai vê-la.

— Então por que você ligou pra casa dela e não pro trabalho? Eram duas da tarde quando você deu o telefonema, não?

Jens balançou a cabeça.

— Não conte a ninguém, mas não consigo calcular a diferença de fuso. Quero dizer, nunca sei se devo adicionar ou subtrair horas. É constrangedor. Meu pai costuma dizer que sou pré-senil. Diz que vem do lado da minha mãe.

Jens se apressou em acrescentar, como uma garantia a Harry, que sua irmã não tinha esse problema; muito pelo contrário.

— Já chega, Jens. Conte mais sobre você. Já começou a pensar em casamento?

— Não diga essa palavra. Ela me dá calafrios. Casamento... — Jens estremeceu. — O problema é que, por um lado, não sirvo pra monogamia, mas, por outro, sou um romântico. Se eu me casar, não vou poder farrear com outras mulheres. Entende o que quero dizer? E o pensamento de não ter relações sexuais com outras mulheres é insuportável, não acha?

Harry tentou demonstrar empatia.

— Suponha que eu realmente saia com a menina do elevador, o que você acha que poderia acontecer depois do encontro? Pânico absoluto, certo? E tudo isso só pra provar a mim mesmo que ainda sou capaz de me interessar por outras mulheres. É uma fraqueza, realmente. Hilde é... — Jens buscou as palavras certas. — Ela tem uma coisa que eu nunca encontrei em nenhuma outra mulher. E, acredite, eu procurei. Acho que não conseguiria explicar bem o que é, mas não quero perdê-la porque sei que seria difícil encontrar alguém como ela novamente.

Harry pensou que essa era uma razão tão boa quanto qualquer outra que já tinha ouvido na vida. Jens rolou o copo entre os dedos e deu um sorriso torto.

— A prisão deve ter mexido mesmo comigo, porque normalmente não falo essas coisas. Prometa que não vai contar nada a nenhum dos meus amigos.

O garçom veio até a mesa e fez um sinal para eles.

— Venha. Já começou — disse Jens.

— O que já começou?

O garçom os conduziu até a parte de trás do restaurante. Eles passaram pela cozinha e subiram por uma escada estreita. Havia bacias de lavar roupas empilhadas no corredor, e uma mulher idosa que estava sentada em uma cadeira sorriu para eles com dentes pretos.

— Bétele — explicou Jens. — É um hábito terrível. Eles mastigam isso até o cérebro apodrecer e os dentes caírem.

Harry ouviu os gritos que vinham de trás de uma porta. O garçom a abriu e, em seguida, eles entraram em uma grande sala sem janelas. Uns vinte ou trinta homens formavam um círculo. Gesticulavam e apontavam para notas surradas que eram contadas e passavam de mão em mão com uma velocidade vertiginosa. Os homens eram, na maioria, brancos, e alguns deles vestiam ternos de linho de cores claras.

— Briga de galo — explicou Jens. — Só para convidados.

— Pra que isso? — Harry precisou gritar para ser ouvido. — Eu li que brigas de galo ainda são legais na Tailândia.

— Até certo ponto. As autoridades permitem uma versão mais atenuada da briga de galo. A garra deve ficar amarrada à parte de trás do pé, pra que os bichos não se matem. E o tempo da briga é restrito. Não é até a morte. Essa aqui segue a regra antiga, e não há limite para as apostas. Vamos nos aproximar?

Harry era mais alto do que os homens à sua frente, de modo que não tinha dificuldades de ver o ringue. Dois galos com penas marrons, vermelhas e alaranjadas desfilavam, suas cabeças balançando, aparentemente sem interesse um pelo outro.

— Como vão fazer eles lutarem? — perguntou Harry.

— Não se preocupe. Esses galos se odeiam mais do que você e eu poderíamos nos odiar.

— Por quê?

Jens olhou para Harry.

— Eles estão no mesmo ringue. São galos.

Então, como se reagissem a um sinal, os bichos se atacaram. Tudo que Harry podia ver eram asas batendo e palha voando. Os homens berravam em frenesi; alguns chegavam a dar pulos. Um cheiro agridoce e estranho de adrenalina e suor se espalhava pelo ambiente.

— Consegue ver o galo com a crista cortada? — perguntou Jens.

Harry não conseguia.

— É o vencedor.

— Como você sabe disso?

— Simplesmente sei. Sabia antes da luta começar.

— Como...?

— Não faça perguntas. — Jens sorriu.

Os gritos morreram. Um dos galos tombou no ringue. Alguns homens lamentaram; outro, vestido de terno de linho cinza, jogou o chapéu no chão, frustrado. Harry ficou observando o galo morrer. Um músculo se contraiu sob as penas, e então o animal ficou imóvel. Era absurdo; aquilo parecera somente uma brincadeira, uma massa de asas, pernas e gritos.

Uma pena manchada de sangue passou perto do rosto de Harry. O galo foi levado para fora do ringue por um homem de calças largas. O sujeito parecia prestes a se debulhar em lágrimas. O outro galo havia retomado o ar empertigado. Harry podia ver a crista cortada agora.

O garçom veio até Jens com um maço de notas. Alguns caras o encararam, outros o cumprimentaram com um gesto, mas ninguém disse nada.

— Você nunca perde? — perguntou Harry quando já estavam de volta ao restaurante. Jens tinha acendido um charuto e pedido um conhaque, um Richard Hennessy 40%. O garçom teve de checar o nome duas vezes. Era difícil pensar que o Jens à sua frente era o mesmo homem que ele havia acalmado ao telefone na noite anterior.

— Você sabe por que jogos de azar são uma doença e não um ofício, Harry? Porque o jogador ama o risco. Vive e respira pela incerteza palpitante.

Assoprou a fumaça do charuto em anéis largos.

— Comigo é o contrário. Posso chegar a extremos para eliminar o risco. O que você me viu ganhar hoje cobre meus custos e todo meu esforço, e olha que isso não foi pouca coisa.

— Mas você nunca perde?

— O retorno é razoável.

— Razoável? Quer dizer, o suficiente para arrancar dos jogadores, mais cedo ou mais tarde, tudo o que têm?

— Por aí.

— Mas o jogo não perde um pouco do charme se você já sabe o resultado?

— Charme? — Jens levantou o maço de dinheiro. — Acho isso aqui bem charmoso. E é o que me permite pagar por tudo isso. — Ele abriu as mãos, mostrando o espaço ao redor. — Sou um cara simples. — Jens observou o brilho de charuto aceso. — Tudo bem, vamos ser francos. Não tenho lá muita sorte.

E desatou a rir alto. Harry acabou sorrindo junto.

Jens consultou o relógio e se levantou de pronto.

— Tenho muito a fazer antes da bolsa dos Estados Unidos abrir. Uma loucura. Até mais. Não deixe de pensar na minha irmã.

Ele saiu, e Harry ficou sentado fumando um cigarro e pensando um pouco na irmã de Jens. Então, pegou um táxi para Patpong. Não sabia bem o que estava procurando, mas entrou em uma boate e quase pediu uma cerveja, mas mudou de ideia e saiu às pressas. Comeu pernas de rã no Le Boucheron, e o proprietário se aproximou para contar a ele, em um inglês sofrível, que gostaria de voltar para a Normandia. Harry contou que seu pai tinha estado lá no dia Dia D. Não era exatamente verdade, mas foi o suficiente para melhorar o humor do francês.

Harry pagou a conta e entrou em outro bar. Uma menina empoleirada em saltos ridiculamente altos parou ao lado dele, fitando-o com grandes olhos castanhos, e perguntou se ele queria um boquete. É claro que sim, pensou, negando com um gesto de cabeça. Harry reparou que a televisão, pendurada acima das prateleiras de vidro do bar, estava passando os melhores momentos de uma partida do Manchester United. Pelo espelho, podia ver as garotas dançando no palco pequeno bem atrás dele. Elas usavam pequenas estrelas douradas para cobrir os mamilos, de modo que o bar não podia ser acusado de estar violando a lei contra a nudez. E cada uma trazia um número preso nas calcinhas mínimas. A polícia não perguntava o porquê disso, e todo mundo sabia que era para evitar mal-entendidos quando os clientes escolhiam as garotas. Harry já tinha reparado em uma. Número 20. Dim estava atrás de quatro dançarinas, e seus olhos cansados percorriam a fileira de homens no bar como um radar. De vez em quando um sorriso fugaz perpassava seus lábios, mas não trazia vida aos seus olhos. Ela estabeleceu contato visual com um homem que parecia usar uma espécie de uniforme tropical. Alemão, pensou Harry, sem saber exatamente por quê. Ele observou os quadris da garota se movendo lentamente de um lado para o outro, os cabelos negros e brilhantes balançando às suas costas quando ela se virava, e a pele lisa e reluzente que parecia iluminada por dentro. Não fossem aqueles olhos, seria linda, refletiu Harry.

Por uma fração de segundo, seus olhos se encontraram no espelho, e Harry imediatamente se sentiu pouco à vontade. Ela não pareceu reconhecê-lo, mas ele desviou o olhar para a televisão, que mostrava as costas de um jogador que estava sendo substituído. O mesmo número. “Solskjær” estava escrito na parte superior da camisa. Harry pareceu despertar de um sonho.

— Porra! — berrou, batendo o copo contra o balcão e derrubando Coca-Cola no colo de sua dedicada cortesã. Harry abriu caminho para fora do bar ouvindo os gritos indignados atrás dele: “Você não é meu amigo!”