Baratas
Parte Três
16
SEGUNDA-FEIRA, 13 de JANEIRO
Quando Nho passou para pegar Harry em frente ao River Garden, o complexo de prédios altos no qual o investigador estava hospedado, o sol tinha acabado de nascer, e seu brilho suave chegava ao detetive por entre as casas baixas.
Antes das oito já estavam na sede do Barclays Tailândia, e o sorridente manobrista do estacionamento, com um penteado de Jimi Hendrix e fones de ouvido, autorizou a entrada do carro no estacionamento do subsolo do edifício. Nho finalmente viu uma vaga solitária para visitantes entre os BMWs e Mercedes parados junto aos elevadores.
Nho preferiu esperar no carro, uma vez que seu domínio do norueguês se limitava a takk — “obrigado” —, palavra que Harry o ensinara a pronunciar durante uma pausa para o café. Liz havia comentado, meio que zombando, que “obrigado” era sempre a primeira palavra que um homem branco tentava ensinar aos nativos.
Nho não estava se sentindo à vontade ali; segundo ele, todos aqueles veículos luxuosos atraíam ladrões. E, ainda que o estacionamento tivesse um circuito interno de TV, não confiava em manobristas que ficavam estalando os dedos no ritmo de uma música que só eles ouviam enquanto liberavam a entrada de veículos.
Harry pegou o elevador para o nono andar e chegou à recepção do Barclays Tailândia. Apresentou-se e deu uma olhada no relógio. Meio que esperava tomar um chá de cadeira de Brekke, mas uma moça o acompanhou de volta ao elevador, passou um cartão e pressionou um botão com a letra C que, segundo ela explicou, era de “cobertura”. Então saiu do elevador às pressas, e Harry seguiu direto rumo ao céu.
Quando as portas se abriram, deparou-se com Brekke de pé no meio de um piso marrom e reluzente de madeira, recostado a uma grande mesa de mogno, com um telefone no ouvido e outro no ombro. O resto da sala era vidro. Paredes, teto, mesa de centro, até as cadeiras.
— Ligo mais tarde, Tom. Vê se não é devorado hoje. E lembre-se do que eu disse: nem toque nas rupias.
Sorriu, desculpando-se com Harry, levou o outro telefone ao ouvido, olhou para as cotações na tela do computador e pronunciou um curto “sim” antes de desligar.
— O que foi isso que você acabou de fazer? — quis saber Harry.
— Meu trabalho.
— Que é...
— Neste exato momento, fechar um empréstimo em dólares pra um cliente.
— Há quantias grandes envolvidas? — Harry espiou Bangkok lá embaixo, metade da cidade escondida sob o nevoeiro.
— Depende de qual é sua referência. O orçamento médio de uma subprefeitura na Noruega, imagino. Se divertiu ontem à noite?
Antes que Harry pudesse responder, um dos telefones tocou, e Brekke pressionou o botão no interfone.
— Shena, anote os recados, sim? Estou ocupado.
Soltou o botão sem esperar confirmação.
— Ocupado?
Brekke soltou uma risada.
— Você não lê os jornais? Todas as moedas asiáticas estão em queda livre. E todo mundo está fazendo qualquer negócio pra comprar dólar. Bancos e corretoras estão fechando as portas todos os dias, e o pessoal já começou a se jogar das janelas.
— Mas você não? — falou Harry, esfregando a coluna, distraído.
— Eu? Sou um especulador, um abutre. — Ele bateu os braços feito asas algumas vezes e exibiu os dentes. — Gente como eu fatura aconteça o que acontecer, desde que o mercado esteja movimentado, e o pessoal, negociando. O que interessa é ação, e no momento temos ação vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
— Então você é o crupiê dessa mesa de jogo?
— Isso! É uma boa definição. Preciso me lembrar dessa. E os outros idiotas são os jogadores.
— Idiotas?
— Com certeza.
— Pensei que investidores fossem relativamente espertos.
— Espertos, eles são, mas ainda assim idiotas. É um paradoxo eterno, mas o fato é que, quanto mais ficam espertos, mais se sentem atraídos a especular no mercado de câmbio. Deviam ser os primeiros a saber, e melhor que ninguém, que não é possível continuar ganhando na roleta a longo prazo. Eu mesmo sou bem idiota, mas pelo menos estou ciente disso.
— Então na roleta você nunca aposta, Brekke?
— Até faço uma apostinha aqui, outra ali.
— E isso não o torna um dos idiotas?
Brekke ofereceu a Harry uma caixa de charutos, mas o detetive recusou.
— Um homem sábio. O gosto é horrível. Só fumo porque acho que tenho que fumar. Porque posso pagar por eles. — Balançou a cabeça e colocou um charuto na boca. — Você viu Cassino, detetive? Aquele filme com o Robert De Niro e a Sharon Stone?
Harry assentiu.
— Sabe a cena em que Joe Pesci fala de um cara que é a única pessoa que ele conhece que consegue ganhar dinheiro com jogos de azar? Mas o lance do cara não é jogos de azar; ele faz apostas. Corrida de cavalos, basquete, essas coisas. Isso é bem diferente da roleta.
Brekke puxou uma cadeira de vidro para Harry e se sentou diante dele.
— Jogos de azar envolvem sorte, outras apostas não. Elas dependem de duas coisas: psicologia e informação. Ganha quem é mais inteligente. Esse cara do filme, por exemplo. Fica o tempo todo colhendo informações sobre o pedigree dos cavalos, o desempenho deles nos treinos do início da semana, como têm sido alimentados, o peso do jóquei quando se levantou de manhã: tudo que os outros apostadores ou não se dão ao trabalho de descobrir ou são incapazes disso. Aí ele reúne tudo isso, avalia as probabilidades e observa o que os demais jogadores estão fazendo. Se as chances de um cavalo são altas, é nesse que ele aposta, tanto faz se acredita ou não que vai levar o páreo. E, no geral, o cara ganha. Todos os outros perdem.
— Simples assim?
Brekke ergueu uma das mãos, na defensiva, e deu uma olhada no relógio.
— Fiquei sabendo que um investidor japonês do Asahi Bank estaria em Patpong ontem à noite. Acabei encontrando o cara na Soi 4. Passei a ele algumas informações e arranquei outras dele até as três da manhã, então deixei a mulher que estava comigo de presente e fui pra casa. Desde que cheguei aqui pra trabalhar, às seis, estou comprando baht. Daqui a pouco, quando ele começar as negociações do dia, vai perceber que tem em caixa, em baht, o equivalente a quatro bilhões de coroas. É quando eu começo a vender de novo.
— Parece uma boa grana, mas também parece quase ilegal.
— Quase, Harry. Só quase.
Brekke agora falava com o entusiasmo de um menino exibindo o brinquedo novo.
— A questão não é moral. Se o cara é o principal atacante de um time de futebol, sempre vai estar quase em posição de impedimento. As regras estão aí pra serem desafiadas.
— E os melhores em desafiar as regras ganham?
— Quando o Maradona marcou aquele gol com a mão, isso foi aceito como parte do jogo. O que o juiz não vê, está valendo. — Brekke pôs o dedo em riste. — Mas não dá pra escapar do fato de que estamos tratando de probabilidades. De vez em quando a gente perde, mas, se souber usá-las a seu favor, você consegue lucrar a longo prazo.
Brekke fez uma careta e apagou o charuto.
— Hoje esse investidor japonês determinou minha estratégia, mas sabe qual é a melhor coisa que existe? Mandar no jogo. Por exemplo, espalhar o boato de que o Greenspan, em um almoço fechado, disse que a taxa de inflação precisa subir antes da divulgação dos índices nos Estados Unidos. Confundir o inimigo. É assim que se ganha as maiores boladas. Caramba, é melhor que sexo.
Ele soltou uma risada e bateu com o pé no assoalho, tamanha sua empolgação.
— O mercado de câmbio é a mãe de todos os mercados, Harry. É nossa Fórmula 1. Tão emocionante quanto letal. Sei que soa perverso, mas sou uma dessas pessoas que são obcecadas por manter tudo sob o controle e que sabem que a culpa é só deles caso acabem se matando ao volante.
Harry olhou ao redor. Um cientista maluco em seu laboratório.
— E se você for pego por excesso de velocidade?
— Desde que eu esteja faturando e me mantenha dentro dos meus limites, todo mundo fica feliz. Além do mais, sou o corretor mais lucrativo da empresa. Está vendo esta sala? Era do executivo-chefe do Barclays Tailândia. Você pode estar se perguntando o que um corretorzinho como eu faz aqui. Mas só há uma coisa que importa em uma corretora: quanto dinheiro o cara ganha. Tudo o mais é supérfluo. Executivos inclusive. Eles não passam de administradores, dependem de gente como eu pra manter seus empregos e salários. Meu chefe se mudou pra uma sala confortável no andar de baixo porque ameacei ir pra um concorrente e levar todos os meus clientes caso não chegássemos a um acordo por bônus maiores. E por esta sala.
Brekke tirou o colete do terno e o pendurou em uma cadeira.
— Mas chega de falar de mim. Em que posso ser útil, Harry?
— Queria saber o que você e o embaixador conversaram naquele telefonema no dia do assassinato.
— Ele me ligou pra confirmar nosso encontro. E confirmei.
— E depois?
— O embaixador veio aqui às quatro, no horário combinado. Talvez com cinco minutos de atraso. Shena, a recepcionista, tem o horário exato. Ele chegou primeiro e se registrou na recepção.
— Sobre o que vocês falaram?
— Dinheiro. Ele tinha algum e queria investir. — Nenhum músculo do rosto de Brekke indicava que pudesse estar mentindo. — Ficamos aqui até as cinco. Em seguida, eu desci pra acompanhar o embaixador até o carro dele, no estacionamento do subsolo.
— Estava estacionado na vaga onde paramos agora?
— Se você está falando da vaga de visitantes, sim.
— E essa foi a última vez que você viu Molnes?
— Exato.
— Obrigado. Era só isso — disse Harry.
— Uau, vir de tão longe por tão pouco.
— É como eu disse: procedimento de rotina, nada mais.
— Claro. Porque o embaixador morreu do coração. Não foi isso? — Jens Brekke fez a pergunta com um meio sorriso nos lábios.
— Parece que sim — respondeu Harry.
— Sou amigo da família. Ninguém falou nada sobre o assunto, mas já entendi tudo. Só pra você saber.
Quando Harry estava se levantando, a porta do elevador se abriu, e a recepcionista entrou com uma bandeja, dois copos e duas garrafas.
— Aceita uma água antes de ir embora, Harry? Peço para trazerem da Noruega uma vez por mês.
Brekke encheu os copos com água mineral Farris, de Larvik.
— A propósito, Harry, a hora do telefonema que você mencionou ontem estava errada.
Ele abriu uma porta na parede, e Harry viu ali dentro algo semelhante a um caixa eletrônico. Brekke digitou alguns números.
— A conversa aconteceu à uma e treze, não à uma e quinze. Talvez não seja importante, mas achei que você gostaria de saber esse horário com absoluta precisão.
— A informação que temos é da operadora de telefonia. O que faz você pensar que esse registro aí é mais preciso?
— O horário que eu disse é o correto. — Dentes brancos reluziram. — Esse dispositivo registra todas as minhas conversas. Custou meio milhão de coroas e tem um relógio monitorado por satélite. Acredite em mim: ele é bem preciso.
Harry arqueou as sobrancelhas.
— Quem pagaria meio milhão por um gravador?
— Mais gente do que você imagina. A maior parte dos corretores de câmbio, entre outras pessoas. Se você discute com um cliente sobre compra ou venda e é sua palavra contra a dele, meio milhão é fichinha. O gravador automaticamente registra a data e a hora nessa fita especial.
Brekke ergueu o que parecia uma fita VHS.
— Não é possível adulterá-las, e, após a conversa ser registrada, não é possível alterar a gravação sem que essas informações sejam destruídas. A única coisa que dá pra fazer é esconder a fita, mas aí vão descobrir que os registros relativos a determinado período estão faltando. O motivo pra sermos tão severos em relação a isso é que essas fitas valem como prova nos tribunais.
— Isso significa que você gravou aí a conversa que teve com Molnes?
— Claro.
— Será que a gente poderia...?
— É pra já.
Foi estranho para Harry ouvir a voz bem viva de alguém que ele tinha visto morto com uma faca cravada nas costas.
— Às quatro, então — dizia o embaixador.
Sua voz soava inexpressiva, quase triste. Em seguida, ele desligou.