Baratas
Capítulo 26
QUINTA-FEIRA, 16 de JANEIRO
A água fez Harry voltar à consciência; instintivamente tomou fôlego e, no momento seguinte, viu-se arrastado até o fundo da piscina. Tentou resistir, mas não fez diferença. A submersão na água amplificou o clique metálico de alguma coisa sendo trancada, e o braço que o agarrava o soltou. Abriu os olhos; tudo em volta tinha uma tonalidade turquesa, e ele tocou os azulejos do fundo. Impulsionou o corpo para cima, mas sentiu um puxão no pulso que confirmou o que seu cérebro tentava lhe explicar e ele se recusava a entender. Morreria afogado ali. Woo havia atado seu braço ao gradil do ralo usando suas próprias algemas.
Harry olhou para o alto. O brilho da lua chegava até ele filtrado pela água. Esticou o braço livre na direção da superfície, e ele ficou para fora d’água. Cacete, a piscina tinha só um metro de profundidade naquele ponto! Harry se agachou e tentou ficar de pé, esticando-se com todo o esforço de que era capaz. A algema se enterrou em seu polegar, mas ainda assim a boca continuava a vinte centímetros da superfície. Viu a sombra à beira da piscina se afastar. Merda! Sem pânico, pensou. Entrar em pânico consome oxigênio.
Foi até o fundo da piscina novamente e tateou o gradil com os dedos. Era de aço e totalmente irremovível; nem se mexia, mesmo quando agarrado e puxado com as duas mãos. Quanto tempo aguentaria sem respirar? Um minuto? Dois? Os músculos todos doíam, as têmporas latejavam, e estrelas vermelhas dançavam diante de seus olhos. Tentou se soltar com outro puxão. Tinha a boca seca de medo, e o cérebro começava a produzir imagens que ele sabia serem alucinações; estava ficando sem combustível e desidratado. Foi quando uma ideia absurda lhe ocorreu — se bebesse o máximo de água que conseguisse, talvez pudesse fazer o nível da piscina descer o suficiente para voltar a respirar. Com a mão livre, deu pancadas na parede da piscina, ciente de que ninguém ia escutá-lo, pois, ainda que o mundo subaquático estivesse silencioso, o alarido metropolitano de Bangkok seguia inabalável lá fora, abafando quaisquer outros sons. E de que adiantaria, também, se alguém pudesse ouvir? Tudo o que alguém poderia fazer era ficar ao seu lado em seus últimos momentos. A cabeça de Harry começou a queimar, e o detetive se preparou para passar por aquilo que toda pessoa que se afoga acaba tendo que fazer, mais cedo ou mais tarde: inalar água. A mão livre esbarrou em algo metálico. A redinha de limpar piscina. Tinha ficado esquecida na borda. Harry a apanhou e puxou-a para si. Runa tinha brincado de tocar didgeridoo. Tubo oco. Ar. Levou a extremidade do cabo de alumínio à boca e aspirou. Engoliu água, quase sufocou, sentiu o gosto de insetos mortos e ressequidos e manteve o tubo preso entre os dentes, enquanto refreava o reflexo de tossir. Por que será que aquilo se chamava oxigênio, do grego oxys, “ácido”? Não tinha nada de ácido, era doce; mesmo em Bangkok, o ar era doce feito mel. Harry aspirou partículas avulsas de alumínio e areia, que aderiram ao muco em sua garganta, mas ele nem percebeu. Inspirava e expirava com tal paixão que parecia ter acabado de correr uma maratona.
O cérebro voltava a funcionar. Foi quando se deu conta de que tinha conseguido apenas adiar o inevitável. O oxigênio do sangue era convertido em dióxido de carbono, que devia ser liberado pelo pulmão, e o cabo de alumínio, comprido demais, não lhe permitia expelir totalmente o nitrogênio. De modo que seguia inalando sem parar aquele ar reciclado, uma mistura contendo quantidades cada vez menores de oxigênio e maiores do letal CO2. Esse excesso de dióxido de carbono no sangue é chamado de hipercapnia, e ele não demoraria a morrer disso. Na verdade, como estava respirando muito rápido, aquilo acelerava o processo. Depois de algum tempo, viria a sonolência, o cérebro se desanimaria da busca por ar, e ele respiraria cada vez menos até, enfim, parar.
Era tão solitário ali, pensou Harry. Acorrentado. Como os elefantes nos navios. Os elefantes. Soprou o tubo com toda força de que era capaz.
Anne Verk morava em Bangkok havia três anos. O marido era CEO do escritório da Shell na Tailândia; os dois não tinham filhos, eram um tanto infelizes e resistiriam ainda a alguns anos juntos. Então ela voltaria para a Holanda a fim de terminar os estudos e encontrar um novo marido. Totalmente entediada, havia se candidatado a uma vaga de professora voluntária em um projeto chamado Império e, para sua surpresa, tinha sido aceita. Tratava-se de um projeto idealista cujo objetivo era oferecer aulas, principalmente de inglês, às prostitutas de Bangkok. Anne Verk lhes ensinava o básico para o trabalho nos bares; era por isso que vinham às aulas. Sentadas atrás de suas carteiras escolares, aquelas moças tímidas e sorridentes repetiam entre risinhos o que Anne dizia: “Posso acender o cigarro para o senhor?” Ou: “Sou virgem. O senhor é bem atrevido. Gostaria de uma bebida?”
Naquele dia, uma das meninas explicava à turma em um inglês hesitante que estava bastante orgulhosa de seu vestido vermelho novo e que o tinha comprado na loja de departamentos Robinson’s. Às vezes era difícil imaginar aquelas meninas trabalhando como prostitutas em algumas das áreas mais violentas de Bangkok.
Como a maioria dos holandeses, Anne falava um inglês excelente e, uma vez por semana, dava aulas para alguns dos outros professores também. Saiu do elevador no quinto andar. Tinha sido uma noite especialmente exaustiva, com muitas discussões sobre os métodos de ensino. Ela não via a hora de chegar ao apartamento de duzentos metros quadrados para se livrar daqueles sapatos quando ouviu uns ruídos estranhos, uma espécie de trompete rouco. De início, achou que vinham do rio, mas logo percebeu que eram da piscina. Encontrou o interruptor e, ao se aproximar da borda, demorou alguns segundos para assimilar a visão de um homem debaixo d’água e do cabo da redinha de limpar piscina em posição vertical. Então correu em disparada.
Harry viu a luz se acender e uma figura à beira da piscina. E a figura desaparecendo logo em seguida. Parecia uma mulher. Será que tinha entrado em pânico? Ele começava a perceber os primeiros sinais da hipercapnia. Em tese, era para ser uma sensação quase agradável, como o sono de uma anestesia, mas só conseguia sentir o terror que corria por suas veias feito água de uma geleira derretendo. Forçou-se a se concentrar em respirar com calma, nem muito, nem pouco, mas só pensar já se tornava um desafio.
Não percebeu, portanto, que o nível da água estava baixando e, quando a mulher pulou na piscina e o ergueu até a superfície, teve certeza de que um anjo viera em seu socorro.