Baratas
Capítulo 40
TERÇA-FEIRA, 21 de JANEIRO
E ram quase dez horas quando Harry chegou à delegacia. Encontrou Nho de saída. — Você já soube?
— Do quê? — Harry bocejou.
— Da ordem dada por sua comissária em Oslo.
Harry negou com a cabeça.
— Ficamos sabendo na reunião desta manhã. Os figurões se reuniram.
Liz deu um pulo da cadeira quando Harry irrompeu em seu escritório.
— Bom dia, Harry?
— Não é um bom dia. Fui pra cama quase às cinco. O que foi isso que ouvi sobre diminuir o ritmo da investigação?
Liz suspirou.
— Parece que nossos chefes tiveram uma conversinha. Sua comissária de polícia veio falando sobre orçamento curto e falta de pessoal e disse que quer você de volta, e o nosso chefe de polícia está começando a ficar inquieto por causa de todos os outros casos de assassinato que deixamos de lado por causa desse. É claro que eles não falaram em engavetar o caso, apenas considerá-lo um caso normal, não prioritário.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que tenho ordens pra colocá-lo em um avião nos próximos dias.
— E?
— Disse a eles que os aviões em geral estão lotados em janeiro, e que poderia demorar até uma semana.
— Então temos uma semana?
— Não. Se a classe econômica estiver lotada, devo comprar a passagem na primeira classe.
Harry riu.
— Trinta mil coroas. Orçamento apertado? Eles estão ficando nervosos, Liz.
Liz se recostou, fazendo a cadeira ranger.
— Você quer falar sobre esse assunto, Harry?
— Você quer?
— Não sei se querer é um bom verbo. Algumas coisas ficam melhores quando a gente deixa elas pra lá, não é?
— Então por que não deixamos pra lá?
Ela virou a cabeça, abriu as cortinas e olhou para fora. De onde Harry estava sentado, a luz sobre a cabeça de Liz parecia uma auréola.
— Você sabe qual é o salário médio de um recruta da polícia aqui da Tailândia, Harry? Cento e cinquenta dólares por mês. Há 120 mil policiais aqui tentando sustentar suas famílias, e não conseguimos nem pagar o suficiente pra que se sustentem sozinhos. Você acha realmente estranho que alguns deles tentem complementar seus salários fazendo vista grossa pra algumas coisas?
— Não.
Ela suspirou.
— Pessoalmente, eu nunca consegui agir assim. Só Deus sabe como um dinheirinho extra cairia bem, mas não me sinto confortável com esse tipo de coisa. Provavelmente isso deve parecer um juramento de escoteira, mas o fato é que alguém tem que fazer o trabalho direito.
— Além disso, é sua...
— Responsabilidade, é sim. — Ela deu um sorriso cansado. — Todos temos uma cruz pra carregar.
Harry começou a falar. Liz apanhou um café, avisou a central telefônica que não atenderia nenhuma ligação, fez uma anotação, tomou mais café, olhou para o teto, disse uns palavrões e finalmente pediu a Harry que saísse para que ela pudesse refletir um pouco.
Uma hora depois, chamou-o de volta. Estava furiosa.
— Porra, Harry, você tem noção do que está me pedindo pra fazer?
— Sim. E posso ver que você também tem.
— Posso perder meu emprego se concordar em acobertar você e esse Løken.
— Eu agradeço.
— Vá se foder!
Harry abriu um sorriso.
A mulher que atendeu o telefone na Câmara de Comércio de Bangkok desligou quando Harry falou em inglês. Então ele pediu a Nho que fizesse a ligação e escreveu o nome Phuridell, que tinha visto na primeira página do relatório no escritório de Klipra.
— Só preciso que descubra o que eles fazem, quem é o dono, essas coisas.
Nho saiu para fazer a ligação, e Harry tamborilou com os dedos na mesa até decidir pegar o telefone e dar outro telefonema.
— Hole — foi a resposta. Era, claro, o nome de seu pai, e Harry sabia que o velho tinha o hábito de atender dessa forma, assim como toda a família. Aquela resposta o fez ter a sensação de que sua mãe ainda estava na poltrona verde da sala de estar, fazendo um bordado ou lendo um livro. Harry suspeitava de que estava prestes a conversar com ela também.
Seu pai tinha acabado de acordar. Harry perguntou quais eram os planos dele para o dia e ficou surpreso ao saber que o velho estava indo para a cabana em Rauland.
— Vou cortar lenha — disse. — Estou ficando sem.
O velho raramente ia à cabana.
— Como vão as coisas? — perguntou o pai.
— Bem. Logo vou estar em casa. Como está minha irmã?
— Está se virando, mas nunca vai ser uma boa cozinheira.
Ambos sorriram. Harry podia visualizar como a cozinha devia ter ficado depois de sua irmã ter feito o almoço de domingo.
— Bom, é melhor você trazer alguma coisa bonita daí pra ela — aconselhou o pai.
— Vou procurar um souvenir. E você? Quer alguma coisa?
A linha ficou em silêncio. Harry se xingou; sabia que os dois estavam pensando a mesma coisa. O que ele queria, Harry não podia comprar em Bangkok. Era assim o tempo todo; sempre que achava que tinha conseguido fazer o pai sair da concha, dizia ou fazia alguma coisa que o fazia se lembrar da mãe. Então ele se fechava mais uma vez, voltava ao seu isolamento silencioso e autoimposto. Era ainda pior para sua irmã. Ela ficava duplamente sozinha quando Harry não estava lá.
Seu pai tossiu.
— Você podia... podia me trazer uma dessas camisas tailandesas.
— Sério?
— Sim, isso seria legal. E um par de tênis de corrida da Nike; eles devem ser baratos na Tailândia. Tirei os meus antigos do armário ontem e eles não prestam mais. Por falar nisso, você está correndo? Está pronto pra uma prova em Hanekleiva?
Quando Harry colocou o fone no gancho, sentia um estranho aperto no peito.
Ele não fez mais nada pelo resto do dia.
Rabiscou alguma coisa e se perguntou se seus rabiscos lembravam algo.
Jens ligou para perguntar como estava indo o caso. Harry respondeu que era segredo de Estado, e Jens compreendeu, mas disse que dormiria melhor se soubesse que tinham outro suspeito. Então o corretor contou ao detetive uma piada que havia acabado de ouvir ao telefone, sobre um ginecologista que disse a um colega que uma de suas pacientes tinha um clitóris que parecia um pepino em conserva. “Grande assim?”, perguntou o colega. “Não”, respondeu o ginecologista. “Salgado.”
Jens pediu desculpas pela qualidade das piadas que circulavam pelo mundo das finanças.
Mais tarde, Harry tentou contar a piada a Nho, mas o inglês de um dos dois não estava à altura da tarefa, porque ambos ficaram constrangidos.
Em seguida, o detetive entrou no escritório de Liz e perguntou se podia ficar ali por um tempo. Depois de uma hora, ela ficou de saco cheio da presença silenciosa de Harry e pediu que ele saísse.
O detetive jantou no Le Boucheron mais uma vez. O dono falou com ele em francês, e Harry sorriu e disse algo em norueguês.
Sonhou com ela novamente. Os cabelos ruivos esparramados e os olhos calmos e confiantes. Esperou pela imagem que geralmente se seguia, de algas saindo pela boca e pelas órbitas oculares, mas dessa vez ela não surgiu.
— É Jens.
Harry acordou e percebeu que tinha atendido o telefone ainda dormindo.
— Jens? — Harry se perguntava por que seu coração tinha começado a bater tão rápido.
— Desculpe, Harry, mas é uma emergência. Runa desapareceu.
Harry acordou de imediato.
— Hilde está enlouquecida. Ela devia estar em casa na hora do jantar, mas já são três da madrugada. Chamei a polícia, e eles acionaram as viaturas na rua, mas queria pedir sua ajuda também.
— Minha ajuda pra quê?
— Pra quê? Não sei. Você não pode vir aqui? Hilde está quase arrancando os cabelos.
Harry conseguia imaginar a cena. E não tinha a menor vontade de presenciá-la.
— Olha, Jens, não tem muito que eu possa fazer agora. Dê um calmante pra ela, se não estiver bêbada demais, e ligue pra todos os amigos de Runa.
— A polícia falou a mesma coisa. Hilde diz que ela não tem amigos.
— Merda!