Baratas
Capítulo 47
SEXTA-FEIRA, 24 de JANEIRO
I var Løken sabia que era o fim. Nem uma única fibra do seu corpo havia entregado os pontos, mas estava tudo acabado. O pânico vinha em ondas; atingia-o, recuava e, em seguida, atingia-o novamente. O tempo todo ele sabia que ia morrer. Era uma conclusão absolutamente racional, mas aquela certeza pingava dentro dele feito gelo derretendo. Quando pisou na armadilha em My Lai e ficou com uma estaca de bambu fedendo a merda espetada na coxa e outra no pé saindo pelo joelho, não pensou nem por um segundo que ia morrer. Quando, no Japão, tremendo de febre, disseram que seu pé precisaria ser amputado, e ele afirmou que preferia morrer, sabia que, na verdade, a morte não era uma alternativa naquele caso, que era algo impossível de acontecer ali. Ao ver a enfermeira chegando com o anestésico, arrancou a seringa da mão dela com um safanão.
Que idiota. Deixaram que ficasse com o pé. Enquanto houver dor haverá vida, ele rabiscou na parede sobre a cama do hospital. Permaneceu internado em Okabe por quase um ano até conseguir vencer a batalha contra o próprio sangue infectado.
Dizia a si mesmo que tinha vivido uma longa vida. Longa. Já era alguma coisa, enfim. E viu outros passando por coisa pior. Então para que resistir? Seu corpo respondia com um não, do mesmo jeito que ele respondera “não” a vida toda. “Não” quando, levado pelo desejo, esteve prestes a cruzar o limiar; “não” quando quase desabou ao ser dispensado das forças armadas; “não” quando a humilhação o atingiu e reabriu suas feridas; “não”, sobretudo, quando quase fechou os olhos. Por essa razão, tinha visto tudo: guerras, sofrimento, brutalidade, coragem e humanidade. Tanto que podia dizer, sem medo de estar enganado, que tinha vivido uma longa vida. Nem mesmo agora fechava os olhos; mal piscava. Løken sabia que ia morrer. Se ainda lhe restassem lágrimas, teria chorado.
Liz deu uma olhada no relógio. Eram oito e meia, e ela e Harry estavam sentados no Millie’s Karaokê fazia quase uma hora. Até o olhar da Madonna do pôster começava a parecer impaciente em vez de voraz.
— Cadê ele?
— Løken vai aparecer — disse Harry.
O detetive estava parado junto à janela; tinha suspendido a persiana e via o próprio reflexo sob a luz dos faróis dos carros que transitavam na lentidão da Silom Road.
— Que horas você falou com ele?
— Logo depois de falar com você. Ele estava em casa, dando uma organizada nas fotos e no equipamento fotográfico. Ele vai aparecer.
Pressionou o dorso das mãos contra os olhos, irritados e vermelhos desde que acordara naquele dia.
— Vamos começar — falou.
— Como assim?
— Precisamos repassar tudo — disse Harry. — Uma última reconstituição.
— Certo. Mas pra quê?
— Liz, a gente veio seguindo a pista errada o tempo todo.
Ele soltou a cordinha e a persiana desceu, fazendo um ruído parecido com o de algo caindo no meio de uma folhagem.
Løken estava sentado em uma cadeira, a fileira de facas na mesa à sua frente. Cada uma delas era capaz de matar um homem em questão de segundos. Estranha, de fato, a facilidade com que é possível matar outro ser humano. Tão fácil que parecia incrível, às vezes, que a maioria das pessoas conseguisse chegar à terceira idade. Um movimento circular, como o de quem descasca uma laranja, e tem-se uma garganta cortada. Esse método faz jorrar tanto sangue que a morte chega em segundos, pelo menos quando o assassinato é realizado por alguém que sabe o que está fazendo.
Uma punhalada nas costas exige precisão maior. Pode-se golpear de vinte a trinta vezes sem atingir nada em especial; a carne é estraçalhada sem maiores consequências. Mas, quando se conhece anatomia, quando se sabe como perfurar um pulmão ou o coração, a tarefa vira brincadeira de criança. Esfaqueando pela frente, o melhor é dar a estocada mais embaixo e puxar a faca para cima, de modo a entrar com a lâmina por baixo da caixa torácica e chegar aos órgãos vitais. Apunhalar pelas costas, porém, é mais fácil, basta atingir as laterais da coluna vertebral.
Quão fácil é atirar em uma pessoa? Muito. A primeira vez que ele tinha matado alguém havia sido com uma semiautomática na Coreia. Com o alvo em mira, puxou o gatilho e viu um sujeito tombar. Pronto. Nunca teve consciência pesada, pesadelos ou colapsos nervosos. Talvez porque se tratasse de uma guerra, mas ele não acreditava que isso explicasse tudo. Quem sabe lhe faltasse empatia? Um psicólogo certa vez explicou que ele era pedófilo porque tinha uma alma corrompida. Poderia ter dito simplesmente “má”.
— Certo, ouça com atenção. — Harry se acomodou em uma cadeira diante de Liz. — No dia do assassinato, o carro do embaixador chegou à casa de Ove Klipra às sete horas, mas com outra pessoa dirigindo.
— Outra pessoa?
— É. O segurança não se lembra de ter visto ninguém de terno amarelo chegando.
— E daí?
— Você viu o terno, Liz. Aquilo faz um frentista de posto de gasolina parecer discreto. É possível alguém não se lembrar de um terno daqueles?
Ela meneou a cabeça, e Harry foi em frente.
— O motorista parou o carro na garagem, tocou a campainha da porta lateral e, quando Klipra atendeu, provavelmente deu de cara com um revólver apontado pra ele. O visitante entrou, fechou a porta e educadamente pediu que Klipra abrisse a boca.
— Educadamente?
— Estou tentando florear a história. Algum problema?
Liz comprimiu os lábios e pousou um dedo sobre eles.
— Aí o assassino enfiou o cano da arma na boca de Klipra, mandou que ele a fechasse e disparou, a sangue-frio e sem piedade. A bala atravessou a nuca de Klipra e se alojou na parede. O assassino limpou o sangue e... bom, você sabe a lambança que isso faz.
Liz assentiu e fez um gesto para que ele prosseguisse.
— Resumindo: o personagem misterioso se livrou de todos os vestígios. Por fim, foi buscar a chave de fenda no porta-malas e, com ela, removeu a bala da parede.
— Como você sabe disso?
— Encontrei gesso no chão do corredor e um buraco deixado pela bala. A perícia comprovou que a solução de cal é a mesma encontrada na chave de fenda do porta-malas.
— E depois?
— Depois o assassino pegou de novo o carro e foi embora, tendo afastado o corpo do embaixador pra poder colocar a chave de fenda de volta no lugar.
— Então ele já tinha matado Molnes?
— Volto a esse ponto mais adiante. Antes de ir embora, o assassino trocou de roupa, vestiu o terno do embaixador, entrou no escritório, apanhou uma das duas facas Shan e as chaves do esconderijo de Klipra. Também fez uma ligação rápida do telefone do escritório, levando com ele a fita com a gravação da conversa. Aí meteu o corpo de Klipra no porta-malas e partiu dali por volta das oito.
— Está bem difícil de acompanhar essa história, Harry.
— Às oito e meia, ele deu entrada no hotel de Wang Lee.
— Qual é, Harry. Wang Lee reconheceu o embaixador como sendo a pessoa que fez o check-in.
— Wang Lee não tinha como suspeitar de que o homem morto na cama não fosse a mesma pessoa do check-in. Do outro lado do balcão só viu um farang de terno amarelo e com o rosto oculto atrás de um par de óculos escuros. E é bom lembrar que, na hora em que Wang Lee foi levado para identificar o embaixador, pode ter ficado um pouco perturbado com aquela faca enfiada nas costas.
— Pois é, e a faca?
— O embaixador foi morto com uma faca, sim, mas muito antes de eles chegarem ao hotel. Com uma faca da Lapônia, imagino, porque estava untada com gordura de rena. É possível comprar uma dessas em qualquer lugar de Finnmark, na Noruega.
— Mas o médico disse que o ferimento era compatível com uma lâmina de faca Shan.
— Sim. A lâmina de uma Shan é mais comprida e mais larga do que a da faca da Lapônia, o que tornou impossível perceber que outra faca havia sido usada antes. Preste atenção. O assassino chegou ao hotel com dois cadáveres no porta-malas e pediu o quarto mais distante possível da recepção, de modo a poder estacionar de ré e carregar Molnes pelos poucos metros que separavam o porta-malas do quarto. Também solicitou que não fosse incomodado até avisar que estava pronto. No quarto, voltou a trocar de roupa e vestiu o embaixador com o terno. Mas estava sob pressão e cometeu um erro. Lembra que comentei que o embaixador certamente devia estar ali pra encontrar uma mulher, pois tinha fechado o cinto com um furo mais apertado que o normal?
Liz estalou a língua no céu da boca.
— O assassino não reparou em qual era o furo e apertou demais o cinto na hora de fechá-lo — disse ela.
— Um erro insignificante, nada que viesse a causar grandes problemas, mas uma das muitas peças triviais que não se encaixavam nesse quebra-cabeça. Com Molnes na cama, o assassino enfiou com cuidado a faca Shan no ferimento antigo, deu uma limpada no cabo e removeu todos os vestígios.
— Isso explica também o motivo de não haver tanto sangue no quarto do hotel. O embaixador havia sido morto em outro lugar. Como o médico não percebeu isso?
— É sempre difícil dizer o quanto de sangue vai sair de um ferimento a faca. Depende de quais artérias são cortadas e do quanto a lâmina interrompe o fluxo sanguíneo. Nada ali parecia fora do comum. Por volta das nove, o assassino foi embora do hotel com Klipra no porta--malas, direto pro esconderijo.
— E ele sabia onde ficava? Então devia conhecer Klipra.
— O sujeito conhecia Klipra muito bem.
Uma sombra se projetou sobre a mesa, e diante de Løken se sentou um homem. Pela varanda aberta entrava o ruído ensurdecedor do trânsito lá fora, o recinto todo recendendo a fumaça de escapamento.
— Você está pronto? — perguntou Løken.
O gigante de trança o encarou, claramente surpreso por ouvi-lo falar tailandês.
— Estou — respondeu.
Løken sorriu, pálido. Sentia-se muito cansado.
— Então o que está esperando? Vamos logo com isso.
— Quando chegou ao esconderijo, o assassino abriu a porta e desovou o corpo de Klipra no freezer. Aí lavou e aspirou o porta-malas pra que a gente não conseguisse encontrar qualquer vestígio dos cadáveres.
— Certo, mas como você sabe disso?
— A perícia encontrou um pouco do sangue de Ove Klipra no freezer e fibras do carpete do porta-malas e das roupas dos dois mortos no aspirador de pó.
— Meu Deus. Então o embaixador não era um fanático por organização, como você afirmou quando examinamos o carro?
Harry sorriu.
— Percebi que não era no momento em que bati o olho na sala dele na embaixada.
— Será que escutei direito? Você acabou de dizer que cometeu um erro?
— Sim, você ouviu bem. — Harry levantou o dedo indicador. — Mas Klipra era um sujeito bem organizadinho. Tudo naquele esconderijo parecia tão limpo, tão arrumado, lembra? Tinha até um gancho no armário da cozinha pra pendurar o aspirador de pó. Mas, quando abri a porta, ele despencou. Como se o último a tê-lo usado não conhecesse as coisas por ali. Foi o que me fez mandar o saco do aspirador de pó pra perícia.
Liz meneava a cabeça lentamente enquanto Harry prosseguia.
— Quando vi toda aquela carne no freezer, me dei conta de que dava facilmente pra manter um homem morto ali dentro por semanas antes do corpo... — Harry inflou as bochechas e, com as mãos, demonstrou o que queria dizer.
— Tem alguma coisa errada com você — comentou Liz. — Melhor ir ver um médico.
— Você quer ouvir o restante ou não?
Ela queria.
— Aí o assassino voltou ao hotel, estacionou o carro, entrou no quarto e pôs a chave do carro no bolso de Molnes. Depois desapareceu na noite sem deixar rastro. Literalmente.
— Peraí! A gente levou uma hora e meia só de ida pra chegar ao esconderijo de Klipra, certo? É quase a mesma distância daqui. Nossa amiga Dim descobriu o corpo às onze e meia; portanto, de acordo com seu relato, duas horas e meia depois do assassino ter saído do hotel. Não daria de jeito nenhum pra ele ter voltado ao hotel antes do corpo de Molnes ser encontrado. Ou você esqueceu esse detalhe?
— Claro que não esqueci. Eu mesmo refiz o percurso de carro. Saí às nove, parei no esconderijo por meia hora e voltei.
— E?
— Cheguei ao hotel à meia-noite e quinze.
— Está vendo? A conta não fecha.
— Você se lembra do que Dim falou sobre o carro no interrogatório?
Liz mordeu o lábio superior.
— Ela disse que não se lembrava de ter visto carro nenhum — continuou Harry. — Porque não havia mesmo. À meia-noite e quinze estavam todos na recepção à espera da polícia e não perceberam o carro do embaixador entrando de fininho.
— Meu Deus, achei que estávamos lidando com um assassino cuidadoso. A polícia já podia estar esperando por ele quando voltou.
— E ele foi cuidadoso, mas não tinha como adivinhar que o crime seria descoberto antes de voltar ao hotel. O combinado era que Dim só iria ao quarto quando fosse chamada, certo? Mas Wang Lee ficou impaciente e quase estragou tudo. O assassino certamente nem suspeitou do que estava acontecendo enquanto devolvia as chaves do carro a Molnes.
— Sorte, então?
— Esse sujeito não conta com a sorte pra nada.
Ele deve ser da Manchúria, pensou Løken. Talvez da província de Jilin. Durante a Guerra da Coreia, ouviu dizer que o Exército Vermelho recrutava muito de seus soldados naquela região, pois os rapazes dali eram muito altos. Não sabia qual era a lógica daquilo; eles afundavam mais na lama e se tornavam alvos maiores. A outra pessoa na sala, às suas costas, cantarolava baixinho e com a boca fechada. Løken achava que a canção era “I Wanna Hold Your Hand”, mas não tinha certeza.
O chinês havia apanhado uma das facas da mesa, se é que se poderia chamar de faca um sabre curvo de setenta centímetros. Sopesou-o na mão, como um jogador de beisebol escolhendo o bastão, e, em seguida, sem dizer uma palavra, ergueu a arma acima da cabeça. Løken cerrou os dentes. Na mesma hora passou o agradável efeito de sonolência da sedação à base de barbitúricos; o sangue congelou nas veias, e ele perdeu o autocontrole. Enquanto gritava e puxava as tiras de couro que atavam suas mãos à mesa, atrás dele a melodia foi chegando mais perto. Uma mão o agarrou pelo cabelo, expondo seu pescoço com um puxão, e, em seguida, enfiou em sua boca uma bola de tênis. Løken sentiu a superfície felpuda em contato com a língua e o céu da boca; aquilo se encharcou de saliva feito papel mata-borrão e transformou seus gritos em gemidos débeis.
O torniquete no antebraço tinha sido apertado com tanta força que ele havia perdido toda a sensibilidade na mão fazia algum tempo. Por isso, quando o sabre desceu com um baque surdo e ele não sentiu nada, por um momento achou que o golpe errara o alvo. Foi então que viu sua mão direita surgir do outro lado da lâmina. Antes fechada, agora ela se abria devagar. Tinha sido um corte preciso. Løken podia ver os dois ossos seccionados despontando, brancos. Rádio e ulna. Já tinha visto os de outras pessoas, mas nunca os seus. Por causa do torniquete, não havia muito sangue. Dizem que amputações súbitas não doem, mas não é verdade. A dor era insuportável. Ele esperou pelo choque, pelo estado paralisante do vazio, mas de imediato essa possibilidade lhe foi negada. O sujeito que cantarolava fincou uma seringa em seu braço, fazendo a agulha atravessar o tecido da camisa, sem nem mesmo tentar achar uma veia. É o que torna a morfina algo tão maravilhoso. Não importa onde seja aplicada, ela funciona. Løken sabia que podia sobreviver àquilo. Por bastante tempo. Pelo tempo que eles quisessem.
— E quanto a Runa Molnes?
Liz palitava os dentes com um palito de fósforo.
— Ele podia ir atrás dela a hora que quisesse — falou Harry.
— E aí a levou ao esconderijo de Klipra. O que aconteceu depois disso?
— O sangue e o buraco de bala na janela sugerem que ela foi alvejada dentro da cabana. Provavelmente assim que os dois chegaram ali.
Quase chegava a ser fácil falar de Runa naqueles termos, como uma vítima de assassinato.
— Isso eu não entendo — disse Liz. — Por que ele sequestraria a moça e a mataria logo em seguida? Pensei que a ideia era usá-la pra prejudicar as investigações. E ele só teria como fazer isso com Runa Molnes viva. Antes de se submeter às exigências do cara, talvez você exigisse uma prova de que ela estava a salvo.
— E como eu poderia me submeter às exigências dele? — perguntou Harry. — Vá embora pra Noruega, e Runa voltará pra casa sorridente? E o sequestrador respiraria aliviado só com a minha promessa de que ele seria deixado em paz, mesmo sem ter à sua disposição outros recursos pra fazer chantagem? Você acha que isso teria acontecido? Acha que ele simplesmente ia deixar a menina...?
Harry se deu conta de como Liz olhava para ele e percebeu que tinha levantado a voz. Ficou em silêncio.
— Nunca achei isso, não. Só falei de como o assassino poderia estar pensando — disse Liz, ainda com os olhos fixos nele. Uma ruga de preocupação marcava novamente o espaço entre as sobrancelhas.
— Desculpe, Liz. — Pressionou o maxilar com as pontas dos dedos. — Deve ser cansaço.
Harry levantou e voltou para junto da janela. A combinação do ar frio de dentro com o ar quente e úmido do lado de fora tinha embaçado o vidro, gerando uma fina camada cinzenta de condensação.
— Ele não sequestrou Runa porque tinha medo de que eu estivesse descobrindo mais do que deveria. Ele não tinha nenhum motivo pra acreditar nisso; àquela altura eu não estava conseguindo enxergar um palmo à frente do meu nariz.
— Então qual teria sido o motivo? Confirmar nossa teoria de que Klipra era quem estava por trás do assassinato do embaixador e de Jim Love?
— Essa foi a motivação secundária — respondeu Harry, levando o copo à boca. — A motivação principal era que ele precisava matar Runa também. Quando eu...
Eles podiam ouvir os sons abafados de um baixo na sala vizinha.
— Fala, Harry.
— No instante em que vi Runa, ela já estava condenada.
Liz respirou fundo.
— São quase nove horas, Harry. Quem sabe você devia me contar quem é o assassino antes do Løken chegar?
Løken tinha trancado a porta do apartamento às sete e descido a rua em busca de um táxi que o levasse ao Millie’s Karaokê. Logo avistara o carro. Era um Toyota Corolla, e o sujeito ao volante parecia ocupar o veículo inteiro. No banco do carona, enxergou a silhueta de outra pessoa. Ele então se perguntou se deveria ir até lá e descobrir o que queriam, mas decidiu primeiro testá-los. Achou que sabia o que eles queriam e por quem tinham sido enviados.
Løken conseguiu um táxi e, percorridos alguns quarteirões, confirmou que de fato estavam sendo seguidos pelo Corolla.
O taxista percebeu que o farang no banco de trás não era um turista e preferiu não oferecer as tradicionais massagens. Mas, quando Løken pediu que ele pegasse uns atalhos aqui e ali, aparentemente reviu a primeira impressão. O olhar dos dois se encontrou no retrovisor.
— City tour, senhor?
— É, city tour.
Dez minutos mais tarde, não havia mais nenhuma dúvida. O plano era claramente que Løken conduzisse os dois policiais ao local da reunião secreta. Ele se perguntava como o chefe de polícia tinha começado a desconfiar daqueles encontros. E por que considerava tão inoportuno que um de seus detetives cooperasse de forma irregular com investigadores estrangeiros. Podia não ser algo correto a se fazer, mas, no fim, tinha produzido resultados.
O tráfego estava parado na Sua Pa Road. O motorista ficou espremido no espaço entre dois ônibus e apontou para os pilares em construção. A queda de uma viga de aço havia matado um motorista na semana anterior. O taxista tinha lido a história nos jornais, com fotos e tudo. Meneou a cabeça, pegou uma flanela e limpou o painel, os vidros, a estatueta de Buda e a foto da família real para, em seguida, desdobrar o Thai Rath sobre o volante com um suspiro e abri-lo na seção de esportes.
Løken deu uma olhada pelo vidro traseiro. Apenas dois carros os separavam do Toyota Corolla. Conferiu o relógio. Sete e meia. Ia se atrasar, mesmo não conseguindo se livrar daqueles dois idiotas. Tomou uma decisão e tocou o ombro do motorista.
— Estou vendo um conhecido meu ali atrás — falou em inglês, fazendo mímica.
O motorista não acreditou muito nele, desconfiado de que o farang iria escapulir sem pagar.
— Volto num minuto — disse Løken, esgueirando-se porta afora.
Um dia a menos de vida, ele pensou, inalando gás carbônico suficiente para nocautear uma família de ratos. Saiu caminhando tranquilamente em meio ao tráfego na direção do Toyota. Um dos faróis dianteiros devia ter batido em alguma coisa, pois a luz incidia diretamente em seu rosto. Ensaiou o que ia dizer, ansioso por ver a cara de surpresa dos sujeitos. Estava a alguns metros apenas e já podia vislumbrar as duas figuras dentro do carro. De repente, sentiu certa insegurança. Alguma coisa na aparência daqueles dois não estava certa. Mesmo tendo em conta que policiais, em geral, não são lá muito inteligentes, no mínimo deviam saber que discrição é o primeiro mandamento quando se está seguindo alguém. O cara no banco do carona usava óculos escuros, apesar de o sol ter se posto havia algum tempo, e o gigante ao volante chamava a atenção. Løken estava prestes a dar meia-volta quando a porta do carro se abriu.
— Ei, amigo — disse uma voz suave.
Løken estava em uma enrascada. Tentou voltar para o táxi, mas um carro havia se espremido entre uma faixa e outra e bloqueado o caminho. Virou outra vez na direção do Corolla. O chinês estava vindo em sua direção.
— Ei, amigo — repetiu ele, enquanto os carros na pista contrária começavam a se mover. A voz soava como um sussurro dentro de um furacão.
Uma vez Løken matou um homem com as próprias mãos. Quebrou o pescoço dele, exatamente como foi ensinado no campo de treinamento em Wisconsin. Mas fazia muito tempo; ele era jovem. E estava apavorado. Agora não; estava apenas furioso.
Provavelmente aquilo não faria diferença alguma.
Quando sentiu os dois braços que o envolviam e os pés saindo do chão, teve certeza de que aquilo não faria diferença alguma. Tentou gritar, mas o aperto em seu corpo era tão forte que o deixava sem o ar necessário para que as cordas vocais vibrassem. Viu o céu estrelado rodopiar lentamente, e ele logo sumiu para dar lugar a um teto de carro estofado.
Sentiu o bafo quente no pescoço e olhou pelo para-brisa do Corolla. Viu o cara dos óculos de sol ao lado do táxi, passando algumas notas ao motorista pela janela. O aperto que o prendia afrouxou um pouco e, trêmulo, ofegante, Løken inalou o ar imundo como se fosse água pura de uma nascente.
O taxista subiu o vidro da janela, e o cara dos óculos escuros veio na direção do carro. Tirou os óculos e, ao sair da luz ofuscante do farol quebrado, Løken o reconheceu.
— Jens Brekke? — sussurrou, espantado.