Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 44 de 54

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Baratas

Capítulo 42

 

QUARTA-FEIRA, 22 de JANEIRO

 

L iz levou a xícara de café à boca e bebeu tão ruidosamente que Løken olhou para Harry com a sobrancelha arqueada, como se perguntasse de onde tinha saído aquela criatura. Estavam no Millie’s Karaokê. No pôster na parede, uma Madonna platinada os observava com olhar ávido, enquanto uma versão para karaokê de “I Just Called to Say I Love You” tocava alegremente. Harry tentou desligá-la com o controle remoto. Tinham lido a carta, e ninguém ainda havia tomado a iniciativa de responder. Harry achou o botão certo, e a música parou de tocar de repente.

— Era isso que eu tinha a dizer — falou Harry. — Como vocês podem ver, temos um vazamento.

— E quanto ao grampo que você diz que esse Woo colocou no seu telefone? — perguntou Løken.

— Não explica como o cara sabe que estamos atrás dele. Não cheguei a falar muita coisa pelo telefone. De qualquer forma, sugiro que, a partir de agora, a gente se encontre aqui. Se descobrirmos o informante, talvez isso nos leve até Klipra, mas acho que não devemos começar por aí.

— Por que não? — quis saber Liz.

— Minha impressão é de que esse informante esteja tão bem disfarçado quanto Klipra.

— Sério?

— Ao escrever a carta, Klipra está revelando que tem acesso a informação privilegiada. Nunca faria isso se houvesse alguma chance de a gente descobrir quem a repassa.

— Por que não ir direto à pergunta mais óbvia? — retrucou Løken. — Como você sabe que o informante não é um de nós?

— Não sei. Mas, se for, já perdemos o caso, então vamos ter que correr o risco.

Os demais assentiram.

— Nem preciso dizer que o tempo trabalha contra nós. Também é desnecessário acrescentar que as estatísticas não são favoráveis à garota. Setenta por cento dos sequestros desse tipo acabam com a morte da vítima.

O detetive tentou dizer isso no tom mais neutro possível, evitando trocar olhares com os outros dois. Tinha certeza de que seus olhos deixavam transparecer tudo o que pensava e sentia.

— Então por onde começamos? — perguntou Liz.

— Por eliminação — respondeu Harry. — Descartando os lugares onde ela não está.

— Bom, enquanto o cara estiver com ela é improvável que o deixem atravessar qualquer fronteira internacional — começou Løken. — Ou que os dois façam check-in em um hotel.

Liz concordou.

— Ele provavelmente a levou pra algum lugar onde possam ficar escondidos por bastante tempo.

— Será que está agindo sozinho? — questionou Harry.

— Klipra não tem ligação com nenhuma das famílias da máfia tailandesa — informou Liz. — O tipo de crime organizado em que está envolvido não lida com sequestro. Não é tão difícil encontrar alguém que dê fim a um viciado em ópio como Jim Love, mas pra raptar uma menina branca, filha de um embaixador... Qualquer um que ele tentasse contratar faria uma varredura geral antes de pegar o serviço, pois saberia que toda a polícia seria mobilizada pra pegá-lo.

— Então você acha que ele está agindo por conta própria?

— Como eu disse, Klipra não tem relação com nenhuma das famílias. Nelas, o que manda são as lealdades e tradições. Mas Klipra deve ter lançado mão de terceirizados nos quais nunca poderia confiar cem por cento. Mais cedo ou mais tarde descobririam as razões pra ele querer a garota, o que talvez acabasse sendo usado contra ele. O fato de ter eliminado Jim Love sugere que nada vai detê-lo enquanto estiver tentando proteger a própria identidade.

— Certo, vamos supor que ele esteja operando sozinho. Onde poderia estar escondendo a garota?

— Em um monte de lugares — respondeu Liz. — Suas empresas devem possuir muitas propriedades, com certeza algumas delas desocupadas.

Løken tossiu alto, recuperou o fôlego novamente e engoliu.

— Faz um tempão que suspeito de que Klipra mantém um local secreto para seus encontros. Já o vi saindo com uns meninos de carro e só voltando na manhã seguinte. Nunca consegui descobrir onde é; certamente não tem registro nenhum. Mas é óbvio que tem que ser um esconderijo onde não seja importunado, e não muito longe de Bangkok.

— A gente não consegue encontrar um desses meninos pra perguntar onde fica? — sugeriu Harry.

Løken deu de ombros e olhou para Liz.

— A cidade é grande — ponderou ela. — Pela nossa experiência, esses meninos desaparecem como orvalho ao sol da manhã assim que saímos atrás deles. Além disso, teríamos de envolver muitas outras pessoas.

— Certo, esquece — falou Harry. — Não podemos correr o risco de que Klipra desconfie do que estamos fazendo.

Harry batia com uma caneta na borda da mesa. Para sua irritação, percebeu que sua mente não conseguira se livrar de “I Just Called to Say I Love You”.

— Ou seja, pra resumir, o que a gente deduz é que Klipra realizou esse sequestro sozinho e está em algum esconderijo nos arredores de Bangkok.

— O que fazemos agora? — quis saber Løken.

— Vou a Pattaya — disse Harry.

Era um sujeito à margem na comunidade de imigrantes. Para Harry, ele não parecera ter muita importância no caso; era apenas mais um cidadão norueguês que tinha vindo para a Tailândia atrás de um clima melhor. Roald Bork não tinha mudado nada desde que Harry o havia encontrado no funeral: os mesmos olhos azuis cheios de vida e a corrente de ouro à mostra. Parado junto ao portão, viu Harry manobrar em frente à casa o grande Toyota quatro por quatro. A poeira assentou no caminho de cascalho enquanto Harry tentava se libertar do cinto de segurança e tirava a chave da ignição. Como sempre, estava despreparado para o calor do lado de fora do carro quando abriu a porta, e teve dificuldade para respirar. O ar era salgado ali, indicando que bem atrás das montanhas baixas ficava o mar.

— Escutei você vindo lá de baixo pela trilha — comentou Bork. — Uma máquina e tanto, essa aí.

— Aluguei o maior modelo disponível — falou Harry. — Aprendi que com isso é possível conseguir alguma prioridade no trânsito. O que é muito necessário, com esses malucos dirigindo pela esquerda.

Bork riu.

— Você achou a rodovia nova que eu falei pra você?

— Sim, achei. Só que ainda não está terminada, então foi bloqueada com sacos de areia em alguns pontos. Mas, como todo mundo estava passando por cima das barreiras, fui atrás.

— Isso me parece razoável — disse Bork. — Não exatamente legal, mas também não é ilegal. Não admira que a gente se apaixone por este país, né?

Tiraram os sapatos e entraram na casa. Harry sentiu nos pés descalços o choque do piso frio de pedra. Na sala, havia fotos de Fridtjof Nansen, Henrik Ibsen e da família real norueguesa. Em uma das imagens, um menino sentado sobre uma cômoda encarava a câmera com os olhos semicerrados. Devia ter uns 10 anos e segurava uma bola de futebol debaixo do braço. Documentos e jornais estavam organizados em pilhas bem-arrumadas sobre a mesa da sala de jantar e o piano.

— Venho tentando organizar um pouco minha vida — comentou Bork. — Descobrir o que aconteceu e por quê.

Apontou para uma das pilhas.

— Aquela é a papelada do divórcio. Fico olhando pra ela e tentando lembrar o que houve.

Uma moça adentrou o recinto com uma bandeja. Harry provou o café que ela despejou em sua xícara e ergueu a vista para encará-la, perplexo, ao se dar conta de que o café estava frio.

— Você é casado, Hole? — quis saber Bork.

Harry negou com a cabeça.

— Que bom. Fique bem longe desse negócio. Mais cedo ou mais tarde, elas acabam passando a perna em você. Tenho uma esposa que me arruinou e um filho que está tentando fazer a mesma coisa. E não consigo descobrir o que foi que eu fiz pra eles.

— Como você veio parar aqui? — perguntou Harry, tomando mais um gole. Na verdade, o café não era assim tão ruim.

— Vim fazer um trabalho pra Televerket quando estavam instalando umas centrais telefônicas pra uma empresa de telefonia tailandesa. Depois da terceira viagem, nunca mais voltei à Noruega.

— Nunca mais?

— Eu era divorciado e tinha tudo de que precisava aqui. Durante algum tempo, ainda acreditei de verdade que sentia falta do verão norueguês, com fiordes e montanhas e, bom, você sabe, tudo isso aí. — Indicou as fotos na parede com a cabeça, como se elas completassem o que ele queria dizer. — Aí voltei pra Noruega duas vezes, mas em ambas não fiquei mais de uma semana. Não conseguia suportar aquilo lá. Era só pôr os pés em solo norueguês pra começar a querer voltar pra cá. Agora já entendi que aqui é o meu lugar.

— O que você faz da vida?

— Sou um consultor na área de telecomunicações prestes a se aposentar. Pego trabalhos ocasionais, mas não muitos. Fico tentando estabelecer uma relação entre o tempo que me resta e o dinheiro necessário pra me sustentar. Não quero deixar nem um tostão pros abutres.

Ele riu e fez um gesto na direção dos papéis do divórcio, como se espantasse um mau cheiro.

— E quanto a Ove Klipra? Por que ele ainda está aqui?

— Klipra? Humm, acho que a história dele é parecida. Nem ele nem eu tínhamos boas razões pra voltar.

— Klipra provavelmente tinha razões muito boas pra não voltar.

— Esses boatos são uma grande bobagem. Se Klipra estivesse metido nesse tipo de coisa, eu jamais teria alguma coisa a ver com ele.

— Tem certeza?

Os olhos de Bork faiscaram.

— Alguns noruegueses vieram parar aqui pelas razões erradas. Como você sabe, sou meio que um veterano na comunidade norueguesa de Bangkok, e a gente se sente um pouco responsável pelo que os compatriotas fazem. A maioria de nós leva uma vida decente, e fizemos tudo que precisava ser feito. Esses malditos pedófilos destruíram a reputação de Pattaya de um jeito que, quando perguntam onde a gente mora, muitos passaram a responder com os nomes dos bairros, como Naklua e Jomtien.

— O que exatamente você quer dizer com “nós fizemos tudo que precisava ser feito”?

— Vamos dizer que dois voltaram pra casa e outro, infelizmente, nem isso conseguiu.

— Esse se jogou de uma janela? — sugeriu Harry.

A risada de Bork ressoou na sala.

— Não, não chegamos a esse ponto, mas foi provavelmente a primeira vez que a polícia recebeu uma denúncia anônima em tailandês com sotaque de Nordland.

Harry sorriu.

— Seu filho? — O detetive fez um gesto na direção da fotografia do menino sobre a cômoda.

Bork pareceu ter sido pego um pouco de surpresa, mas confirmou.

— Parece um moleque bacana.

— É, ele era. — Bork sorriu, o olhar triste, antes de repetir: — Ele era.

Harry deu uma olhada no relógio. Tinha demorado quase três horas para vir de Bangkok. Dirigiu feito um motorista inexperiente até os quilômetros finais, quando relaxou um pouco. Talvez na viagem de volta levasse só umas duas horas e pouco. Tirou três fotos da pasta, colocando-as sobre a mesa. Løken tinha feito ampliações de vinte e quatro por trinta centímetros para que o impacto fosse inegável.

— Acreditamos que Ove Klipra esteja escondido nos arredores de Bangkok. Você vai nos ajudar?