Baratas
Capítulo 18
SEGUNDA-FEIRA, 13 de JANEIRO
Osol, que havia ganhado um tom avermelhado com listras alaranjadas, pairava acima da cinzenta linha do horizonte de Bangkok como se um novo planeta tivesse surgido inesperadamente no firmamento.
— Este é o Ratchadamnoen Stadium — anunciou Liz enquanto estacionava o Toyota junto à fachada de tijolos cinza. Harry, Nho e Sunthorn estavam com ela. Alguns cambistas de expressão infeliz se animaram, mas Liz logo os dispensou. — Pode não parecer lá grande coisa, mas isso aqui é o equivalente em Bangkok ao Teatro dos Sonhos. Aí dentro qualquer um tem a chance de virar Deus, desde que seja ágil com as mãos e com os pés. Oi, Ricki!
Um dos vigias se aproximou do carro, e Liz começou a jogar charme para ele de um modo que Harry não a julgava capaz de fazer. Ao cessar a animada torrente de palavras e risadas, ela se virou sorrindo para os outros.
— Vamos pegar Woo o mais rápido possível. Acabei de descolar uns assentos perto do ringue pra mim e pro turista. A luta do Ivan é a sétima da noite. Pode ser divertido.
O restaurante era bem simples — mesas e cadeiras de plástico, moscas e um ventilador solitário que trazia o cheiro de comida da cozinha para o resto do ambiente. Na parede do balcão estavam pendurados retratos da família real tailandesa.
Só umas poucas mesas estavam ocupadas, e não havia sinal de Woo por ali. Nho e Sunthorn se acomodaram em uma mesa junto à porta enquanto Liz e Harry se sentaram no fundo do salão. O investigador pediu um rolinho primavera e, por razões de segurança, uma Coca para desinfetar.
— Rick era meu treinador quando eu fazia boxe tailandês — explicou Liz. — Eu pesava quase o dobro dos rapazes com quem lutava, era bem mais alta e apanhava em todas as lutas. O boxe está no leite materno aqui. Mas, pelo que me disseram, eles não gostavam de levar sopapo de uma mulher. Não que eu tivesse reparado.
— Qual é a desse rei? — quis saber Harry, apontando para os retratos. — Vejo a foto dele por toda parte.
— Ora, uma nação precisa de heróis. A família real não era muito popular até a Segunda Guerra Mundial, quando o rei se aliou primeiro aos japoneses e, em seguida, quando o Eixo entrou na defensiva, aos americanos. Salvou a nação de um verdadeiro massacre.
Harry ergueu a Coca na direção do retrato.
— Parece ser um cara legal.
— Você precisa saber que há duas coisas com as quais não se brinca aqui na Tailândia...
— A família real e Buda. Sim, obrigado, já me disseram isso.
A porta se abriu.
— Ora, olá — sussurrou Liz, arqueando as sobrancelhas inexistentes. — Em geral, eles parecem mais baixinhos ao vivo.
Harry não se virou. O plano era esperar até que o prato de Woo fosse servido. Um sujeito comendo com pauzinhos demora mais para puxar uma arma.
— Ele está sentando — informou Liz. — Cara, ele devia ser preso só pela aparência. Mas a gente já pode se considerar sortudo se conseguir detê-lo por tempo suficiente pra algumas perguntas.
— Como assim? O sujeito atirou um policial de uma janela da sobreloja.
— Eu sei, mas não se anime muito. Woo, “o Cozinheiro”, não é qualquer um. Trabalha pra uma das famílias, e esse pessoal tem bons advogados. Pelas nossas contas, Woo já matou pelo menos uma dúzia de pessoas e deixou outras tantas aleijadas, e mesmo assim não consta nadinha na ficha do sujeito.
— O Cozinheiro? — perguntou Harry, soprando o rolinho primavera escaldante que haviam lhe servido.
— O cara ganhou esse apelido há alguns anos. Um dos casos de Woo passou pela gente; eu estava à frente das investigações e presenciei a necropsia. A vítima já estava morta havia algum tempo e, quando começamos, o corpo estava tão inchado com os gases da decomposição que parecia uma bola de futebol preta e azul. Os gases são tóxicos, então o patologista expulsou a gente da sala e colocou uma máscara antes de abrir o estômago. Fiquei assistindo da janelinha da porta. A pele estremeceu com a força do gás quando ele abriu o corpo; dava pra vê-lo sair, meio esverdeado.
Harry colocou o rolinho primavera de volta no prato com o semblante fechado, mas Liz nem percebeu.
— A surpresa foi que o cadáver estava cheio de vida. O patologista recuou até a parede quando viu aquelas criaturas negras rastejando pra fora do estômago e saindo em disparada, escondendo-se nos cantos. — Ela levou os dedos indicadores à testa, simulando chifres. — Besouros.
— Besouros? — Harry fez uma careta. — Não pensei que entrassem em cadáveres.
— O morto tinha um tubo de plástico na boca quando o encontramos.
— Ele...
— Em Chinatown, besouros grelhados são uma iguaria. Woo fez o pobre-diabo comê-los à força.
— E sem a parte de grelhar? — Harry agora afastava seu prato.
— Criaturas extraordinárias, esses insetos — comentou Liz. — Quero dizer, como os besouros sobreviveram dentro daquele estômago, com gases tóxicos e tudo?
— Prefiro nem pensar.
— Muito picante?
Harry demorou um segundo para se dar conta de que ela se referia ao rolinho primavera. Ele havia empurrado o prato para a beirada da mesa.
— Você vai se acostumar, Harry. É só ir aos poucos. Devia levar umas receitas pra impressionar sua namorada na cozinha, quando voltar pra casa.
Harry tossiu.
— Ou sua mãe — completou Liz.
Harry balançou a cabeça.
— Sinto muito; também não tenho uma.
— Eu é que sinto muito — disse Liz, e a conversa morreu. O prato de Woo estava a caminho da mesa.
Ela sacou uma pistola preta do coldre no quadril e a destravou.
— Smith & Wesson 650 — reparou Harry. — Da pesada.
— Fique atrás de mim — instruiu Liz, pondo-se de pé.
Woo nem piscou ao erguer os olhos e se deparar com o cano da arma de Liz. Segurava os pauzinhos para comer com a mão esquerda; a direita estava no colo, mas fora de vista. Liz gritou alguma coisa em tailandês, mas ele não pareceu ouvir. Sem mover a cabeça, os olhos vagaram pela sala e registraram a presença de Nho e Sunthorn antes de se fixarem em Harry. Um sorriso débil passou por seus lábios.
Liz voltou a gritar, e Harry sentiu um arrepio na nuca. O cão da pistola foi liberado, e a mão direita de Woo surgiu em cima da mesa. Vazia. Harry notou que Liz soltou o ar por entre os dentes. O olhar de Woo continuou fixo em Harry enquanto Nho e Sunthorn o algemavam. A imagem dos dois policiais conduzindo o preso para fora do restaurante parecia a de um pequeno desfile circense com um gigante e dois anões.
Liz colocou a arma de volta ao coldre.
— Acho que ele não gosta de você — disse ela, indicando os pauzinhos que Woo deixara de pé na tigela de arroz.
— Sério?
— Isso é um antigo símbolo tailandês que indica que ele deseja a sua morte.
— Ele vai ter que entrar na fila.
Harry lembrou que precisava de uma arma emprestada.
— Vamos ver se temos um pouco de ação antes do fim da noite — falou Liz.
Entraram no ginásio ao som dos gritos da multidão extasiada e de um trio de sujeitos que batucava e assobiava feito uma banda escolar sob efeito de LSD.
Uma dupla de boxeadores com bandanas coloridas e tiras de pano amarradas nos braços tinha acabado de subir ao ringue.
— Aquele ali, de calção azul, é o nosso cara, Ivan — explicou Liz. Ainda fora do ginásio, ela havia pegado todas as notas nos bolsos de Harry para deixá-las com um coletor de apostas.
Encontraram seus assentos na primeira fila, atrás do árbitro, e Liz parecia extremamente animada. Trocou algumas palavras com a pessoa do assento no outro lado.
— Bem como pensei — disse ela, voltando-se para Harry. — Não perdemos nada. Se quiser ver luta boa de verdade, tem que vir às terças. Ou ir às quintas no Lumphini. Senão acaba pegando um monte de... bom, você sabe do quê.
— Bouillon.
— Como é?
— Bouillon. É como a gente chama na Noruega quando dois patinadores ruins estão se enfrentando.
— Bouillon?
— Sopa quente. É quando dá tempo de ir buscar a sua sem perder nada.
Os olhos de Liz se transformaram em duas fendas estreitas e cintilantes quando ela riu. Harry se deu conta de que gostava de vê-la sorrir.
Os dois pugilistas, já sem as bandanas, circulavam pelo ringue e se dedicavam a uma espécie de ritual em que cada um encostava a testa em um dos postes nos cantos do ringue, ajoelhava-se em seguida e executava alguns passos simples de dança.
— O nome disso é ran muay — informou Liz. — Eles dançam em honra a seu kru pessoal, uma espécie de guru e anjo da guarda do boxe tailandês.
A música parou, e Ivan foi para o seu canto, onde ele e o treinador, inclinando-se um na direção do outro, juntaram as palmas das mãos.
— Estão rezando — continuou Liz.
— Ele precisa rezar? — quis saber Harry, preocupado. Tinha chegado ali com um considerável maço de notas no bolso.
— Não se estiver à altura do nome que escolheu.
— Ivan?
— Todo lutador escolhe um nome. Ivan é em homenagem a Ivan Hippolyte, um holandês que venceu uma luta no Lumphini Stadium em 1995.
— Uma só?
— É o único estrangeiro a ter vencido no Lumphini. Na História.
Harry se virou para Liz para ver se ela daria uma piscadela, mas exatamente naquele momento soou o gongo e a luta começou.
Os pugilistas encararam-se com cautela, mantendo uma distância saudável um do outro e se movimentando em círculos pelo ringue. Um swing foi facilmente evitado, e o chute dado em contra-ataque só acertou o ar. O volume da música aumentou junto com vibração da plateia.
— Estão só se estudando — disse Liz em voz alta.
Então atacaram. À velocidade da luz, um turbilhão de pernas e braços. Tudo aconteceu tão rápido que Harry não viu muita coisa, mas Liz soltou um suspiro. Ivan já estava sangrando pelo nariz.
— Ele levou uma cotovelada — explicou ela.
— Cotovelada? E o juiz não viu?
Liz sorriu.
— Usar o cotovelo não é falta. Está mais pro contrário. Atingir o adversário com as mãos e os pés vale pontos, mas geralmente é com os cotovelos e os joelhos que se consegue um nocaute.
— Então as técnicas de chute deles não estão à altura das técnicas do caratê.
— Cuidado com conclusões precipitadas, Harry. Há alguns anos, Hong Kong mandou pra Bangkok seus cinco maiores campeões de kung fu em uma disputa pra ver qual modalidade era mais eficaz. O aquecimento e o cerimonial levaram mais de uma hora, mas as cinco lutas não duraram mais que seis minutos e meio. Terminaram com cinco ambulâncias a caminho do hospital. Adivinha quem ia nelas?
— Bom, não há a menor chance de algo assim acontecer aqui hoje. — Harry bocejou ostensivamente. — Isso aí... Caramba!
Ivan tinha agarrado o adversário pelo pescoço e, com um movimento ágil, puxou a cabeça dele para baixo e ergueu o joelho esquerdo. O oponente tombou para trás, mas seus braços se enredaram nas cordas, de modo que ele ficou suspenso nelas bem diante de Liz e Harry. O sangue jorrava e respingava na lona, como se um cano tivesse se rompido. Harry ouviu o público gritando atrás dele, protestando, e logo descobriu que era porque ele havia permanecido de pé. Liz o puxou para fazê-lo sentar de novo.
— Uau! — gritou ela. — Viu como o Ivan foi rápido? Não falei que com ele a coisa era divertida?
O boxeador de calção vermelho virou ligeiramente a cabeça, e Harry pôde ver seu perfil, a pele em torno do olho inchando, enchendo-se de sangue em seu interior. Era como ver um balão ser inflado.
Harry teve um estranho e nauseante déjà vu à medida que Ivan se aproximava de seu adversário indefeso, o qual parecia já não se dar conta de que estava em um ringue de boxe. Ivan não tinha pressa; estudava um pouco o adversário, como um glutão se perguntando se começa a devorar o frango por uma asa ou por uma coxa. Ao fundo, entre os dois boxeadores, Harry podia ver o árbitro. Ele assistia a tudo com a cabeça levemente inclinada e os braços estendidos ao lado do corpo. Era claro para Harry que aquele sujeito não faria nada, e ele sentiu o coração batendo contra as costelas. O trio de colegiais já não parecia fazer parte de um desfile do Dia da Independência na Noruega: agora a barulheira era descontrolada, assobios e batucada em êxtase.
Chega, pensou Harry, e nesse momento ouviu a própria voz:
— Dá nele!
Ivan deu.
Harry não acompanhou a contagem regressiva. Não viu o árbitro erguer no ar a mão de Ivan nem o wai do vencedor nos quatro cantos do ringue. Tinha o olhar fixo no chão, no cimento rachado e úmido diante de seus pés, onde um pequeno inseto lutava pra se livrar de um pingo de sangue. Estava preso, vítima de uma série de eventos e coincidências, atolado em sangue. Harry se viu de volta a outro país, em outro tempo, e só retornou à arena quando sentiu uma mão dando um tapa entre suas escápulas.
— Ganhamos! — gritou Liz em seu ouvido.
Estavam na fila do guichê de apostas para receber o dinheiro quando Harry ouviu uma voz familiar dizer em norueguês:
— Tenho a sensação de que nosso detetive não confiou apenas na sorte e fez sua aposta usando também a razão. Se é assim, merece parabéns.
— Bom — respondeu Harry, virando-se —, a inspetora Crumley se considera uma especialista, então talvez isso não esteja tão longe da verdade.
Ele apresentou a inspetora a Jens Brekke.
— E você, apostou também? — quis saber Liz.
— Um amigo me passou a informação de que o adversário de Ivan estava um pouco resfriado. Estranho como algo assim pode influenciar o resultado da luta, não é mesmo, srta. Crumley? — Brekke sorriu e se voltou para Harry. — Estava pensando se você poderia me ajudar, Hole. Eu trouxe a filha do Molnes comigo e devia levá-la de volta pra casa, mas recebi uma ligação de um dos meus clientes mais importantes nos Estados Unidos e preciso voltar pro escritório. A coisa está um caos: o dólar disparou, está nas alturas, e o cara agora tem que se livrar de caminhões de baht.
Harry olhou na direção indicada por Brekke com um leve movimento de cabeça. Encostada em uma parede, usando uma camiseta Adidas de mangas compridas e meio oculta pela multidão que deixava a arena às pressas, estava Runa Molnes. Braços cruzados, ela mirava ao longe.
— Quando o vi aqui, lembrei que Hilde Molnes tinha comentado que você está hospedado no apartamento da embaixada, perto do rio. Acho que vocês podiam pegar um táxi; não é um grande desvio do seu caminho. É que prometi à mãe dela...
Brekke fez um gesto com uma das mãos, indicando que achava um exagero aquele tipo de preocupação materna, mas que, de qualquer forma, era melhor cumprir com sua palavra.
Harry deu uma olhada no relógio.
— É claro que ele pode fazer esse favor — interveio Liz. — Pobre moça. Não me surpreende que a mãe dela esteja um pouco nervosa.
— Claro — disse Harry, forçando um sorriso.
— Ótimo — falou Brekke. — Ah, e mais uma coisa. Você podia também recolher o dinheiro que ganhei aí no guichê? Deve dar pra pagar o táxi. Se sobrar alguma coisa, imagino que exista algum fundo da polícia pra viúvas ou algo assim.
Entregou o canhoto da aposta para Liz e foi embora. Ela arregalou os olhos quando viu a quantia.
— Haja viúva pra tudo isso — comentou.