Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 35 de 54

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Baratas

Capítulo 33

 

SÁBADO, 18 de JANEIRO

 

L øken acendeu uma vela enquanto Harry analisava a arma dele, uma Glock 31 de fabricação especial. Tinha retirado o pente e o guardado no bolso. A arma era mais pesada do que qualquer outra que já tinha segurado.

— Tenho essa arma desde que servi na Coreia — disse Løken.

— Entendo. Coreia. O que você foi fazer lá?

Løken pegou fósforos em uma gaveta e se sentou à mesa, de frente para Harry.

— A Noruega tinha um hospital de campanha lá com a ONU. Eu era um jovem segundo-tenente, achava que gostava da agitação. Depois do armistício, em 1953, continuei trabalhando para a ONU, no recém-criado Alto-Comissariado para os Refugiados. Uma multidão de refugiados atravessava a fronteira da Coreia do Norte, e aquilo era terra sem lei. Eu dormia com ela embaixo do travesseiro. — Apontou para a arma.

— Sei. E o que fez depois disso?

— Bangladesh e Vietnã. Fome, guerra e refugiados fugindo de barco. Depois disso, a vida na Noruega me pareceu insuportavelmente banal. Aguentei morar lá apenas por alguns anos antes de sentir que precisava dar no pé outra vez. Sabe como é.

Harry não sabia. E também não sabia o que pensar a respeito daquele homem magro que estava sentado à sua frente. O cara parecia um velho cacique, nariz aquilino e olhos intensos, profundos. O cabelo era branco, e o rosto, bronzeado e enrugado. Além disso, Løken parecia estar à vontade com a situação, o que deixava Harry ainda mais alerta.

— Por que você voltou? E como conseguiu passar pelo meu colega?

O norueguês de cabelos brancos deu um sorriso de lobo, um dente de ouro reluzindo na luz bruxuleante da vela.

— O carro de vocês não combina com a vizinhança. Temos apenas tuk-tuks, táxis e latas-velhas estacionadas por aqui. Vi duas pessoas no carro, ambas aparentemente tensas. Então, fui até a esquina e entrei no café, de onde consegui ficar de olho em vocês. Depois de um tempo, vi o pisca alerta ligado e vi você entrando no prédio. Imaginei que um de vocês ficaria de vigia e esperei até que seu colega retornasse. Aí terminei minha bebida, chamei um táxi, fui até o estacionamento subterrâneo e peguei o elevador. Belo espetáculo o do curto-circuito...

— Gente normal não repara em carros estacionados na rua. A menos que tenham sido treinadas para isso ou tenham sido alertadas por alguém.

— Bom, pra começar, Tonje Wiig teria poucas chances de ganhar um Oscar pela atuação quando me convidou para jantar.

— Então, bem, o que significa tudo isso aqui?

Løken se esticou para pegar as fotos e os equipamentos que estavam espalhados pelo chão.

— Você vive de tirar fotos... disso? — indagou Harry.

— Sim.

Harry sentiu o pulso acelerar.

— Sabe quantos anos você pode pegar de prisão aqui na Tailândia por uma coisa dessas? Aqui tem material suficiente para uns dez anos de prisão, acho.

Løken riu. Uma risada breve.

— Acha que sou idiota, detetive? Você não precisaria invadir minha casa se tivesse um mandado de busca. Se eu corria algum risco de ser punido pelo material que tenho dentro desse apartamento, agora estou definitivamente fora de perigo, depois do que você e seu colega fizeram. Qualquer juiz vai julgar inadmissível uma prova obtida desse jeito. Não é apenas irregular, é absolutamente ilegal. Você mesmo pode acabar encarando uma temporada na cadeia, Hole.

Harry o golpeou com a arma. Foi como abrir uma torneira; o sangue esguichou do nariz de Løken. O ex-militar não se moveu, apenas baixou os olhos para a camisa florida e para as calças brancas, agora manchadas de sangue.

— Isso aqui é seda tailandesa de verdade, sabia? — disse ele. — Não é barato.

A violência devia ter acalmado Harry, mas teve o efeito contrário; ele sentia a fúria crescendo.

— Parece que dinheiro não é problema pra você, pedófilo filho da puta. Suponho que você receba muito dinheiro por essa merda. — Harry chutou as fotos no chão.

— Bom, não exatamente — retrucou Løken, segurando um lenço branco no nariz. — Pagam de acordo com a tabela salarial do governo. Mais um adicional por trabalhar no exterior.

— Do que você está falando?

O dente de ouro brilhou mais uma vez. Harry se deu conta de que segurava a arma com tanta força que sua mão começava a doer. Estava contente de ter tirado o pente.

— Você não está a par de algumas coisas, Hole. Eles deveriam tê-lo informado, mas a comissária de polícia provavelmente achou desnecessário, já que isso não tem nada a ver com a investigação de assassinato. Mas agora que você me pegou, vou contar o resto. A comissária e Dagfinn Torhus, do Ministério das Relações Exteriores, me contaram sobre as fotos que você encontrou na pasta do embaixador, e agora você já sabe, evidentemente, que elas são minhas. — Com a mão estendida em direção às fotos, continuou: — As fotos em questão e as que você está vendo aqui são parte de uma investigação de pedofilia que, por várias razões, foi considerada secreta até segunda ordem. Venho vigiando essa pessoa há mais de seis meses. As fotos são provas no inquérito.

Harry não duvidou nem por um minuto da explicação de Løken; soube imediatamente que era verdade. As coisas se encaixavam como se, no fundo, ele já soubesse de tudo o tempo todo. O mistério a respeito do trabalho de Løken, o equipamento fotográfico, o binóculo com visão noturna, as viagens para o Vietnã e Laos; tudo agora fazia sentido. E o cara que estava com o nariz sangrando diante dele de repente já não era um inimigo, mas um colega, um aliado cujo nariz ele tinha tentado estraçalhar.

Harry meneou a cabeça e colocou a arma sobre a mesa.

— Tudo bem, acredito em você. Mas por que tanto segredo?

— Você sabe do acordo que a Suécia e a Dinamarca têm com a Tailândia para investigar casos de abuso sexual aqui?

Harry assentiu.

— Bom, a Noruega está negociando com as autoridades tailandesas, e, enquanto isso, estou realizando uma investigação completamente extraoficial. Temos o suficiente para prender o sujeito, mas vamos ter que esperar. Se a gente prendesse o cara agora, revelaríamos que estamos investigando o caso de forma ilegal em território tailandês, o que é politicamente inaceitável.

— Então pra quem você trabalha?

Løken abriu os braços.

— Pra embaixada.

— Isso eu sei. Quis dizer: quem dá as ordens? Quem está por trás disso? E o Parlamento? Eles sabem?

— Tem certeza de que quer saber tudo isso, Hole?

Os olhos dele encontraram os de Harry. Ele estava prestes a dizer algo, mas recuou, balançou a cabeça em negação.

— Me diga então quem é o cara da foto.

— Não posso. Desculpe, Hole.

— É Atle Molnes?

Løken baixou os olhos para a mesa e sorriu.

— Não, não é o embaixador. Ele foi o principal mentor da investigação.

— Então é...?

— Como eu já disse, não tem por que eu contar isso agora a você. Se nossos casos vierem a se conectar, poderemos voltar a conversar, mas essa vai ser uma decisão dos nossos superiores. — Ele se levantou. — Estou cansado.

— Como foi? — perguntou Sunthorn quando Harry voltou para o carro. O detetive perguntou se podia fumar dentro do veículo e mandou a fumaça para dentro dos pulmões com avidez.

— Não há nada lá. Viagem perdida. Meu palpite é de que o cara está limpo.

Em seu apartamento, Harry se sentou.

Assim que chegou, conversou com sua irmã por telefone por quase meia hora. Ou melhor, ele falou e ela ouviu. É impressionante tudo o que pode acontecer em pouco mais de uma semana. Ela contou que havia ligado para o pai e que o tinha convidado para jantar. Almôndegas. Ela mesma prepararia a refeição, e esperava que o pai conseguisse se abrir um pouco. Harry também torcia por isso.

Mais tarde, ele folheou a agenda e discou outro número.

— Alô? — disse a voz do outro lado da linha.

Harry prendeu a respiração.

— Alô? — A voz repetiu.

Harry desligou. Havia algo de suplicante na voz de Runa. Harry não fazia ideia do motivo de ter ligado para ela. Poucos segundos depois, o telefone tocou. Ele segurou o receptor e esperou ouvir a voz de Runa. Era Jens Brekke.

— Lembrei — disse ele. Parecia empolgado. — Quando voltei do estacionamento, uma mulher entrou no elevador no térreo. Ela desceu no quarto andar. Acho que ela vai se lembrar de mim.

— Por quê?

Brekke soltou uma risada meio nervosa.

— Porque eu convidei ela pra sair.

— Você convidou ela pra sair?

— É, ela é uma das meninas que trabalham com McEllis. Já esbarrei nela algumas vezes. Estávamos sozinhos no elevador, e o sorriso dela era tão bonito que não consegui me conter.

Uma pausa.

— Você se lembrou disso só agora?

— Não, o que lembrei só agora foi quando isso aconteceu. Foi depois de ter acompanhado o embaixador até o carro dele. Por alguma razão, pensei que o lance do flerte tinha sido no dia anterior. Mas daí me ocorreu que ela entrou no elevador no térreo, e que, portanto, eu devia estar vindo do subsolo. Não costumo ir ao estacionamento subterrâneo.

— E o que ela respondeu?

— Ela aceitou, e eu me arrependi imediatamente. Era pra ser só um flerte. Pedi o cartão dela e falei que ia ligar um dia pra gente combinar o encontro. Não telefonei, é claro, mas tenho certeza de que ela não se esqueceu de mim.

— Você ainda tem o cartão?

— Sim, não é ótimo?

Harry deliberou.

— Olha, Jens, isso é bom, mas as coisas não são tão fáceis. Você ainda não tem um álibi. Em teoria, você poderia ter pegado o elevador de novo para o subsolo depois disso. Poderia ter só ido buscar alguma coisa que tinha esquecido no escritório, entende?

— Ah. — Ele pareceu confuso. — Mas...

Jens ficou em silêncio, e Harry pôde ouvir um suspiro.

— Droga, você tem razão, Harry.

Harry desligou.