Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 30 de 54

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Baratas

Capítulo 28

 

SEXTA-FEIRA, 17 de JANEIRO

 

Otrânsito rastejava pelas ruas, Harry estava com dor de cabeça, e o ar-condicionado zunia de forma ameaçadora. Nho parou na cancela do estacionamento do Barclays Tailândia e baixou a janela do carro, e um homem com um uniforme limpo e bem-passado o informou de que Jim Love não estava no trabalho.

Nho mostrou a identificação da polícia e explicou que eles gostariam de ver uma das gravações feitas pela câmera local, mas o homem negou com um movimento da cabeça, afirmando que teriam que entrar em contato com a empresa de segurança. Nho se voltou para Harry e deu de ombros.

— Explique que é uma investigação de assassinato — disse Harry.

— Já fiz isso.

— Então vamos ter que dar mais explicações.

Harry saiu do carro. O calor e a umidade atingiram seu rosto; era como tirar a tampa de uma panela de água fervendo. Ele contornou o carro, um pouco tonto. O funcionário do estacionamento fechou a cara ao ver o farang de quase dois metros de altura e olhos vermelhos se aproximar e colocou a mão sobre a arma.

Harry parou de frente para o homem, deu um sorriso forçado e agarrou o cinto do cara com a mão esquerda. O homem gritou, mas não teve tempo de reagir; Harry puxou o cinto dele e enfiou a mão direita por dentro das calças. O puxão foi tão forte que o levantou do chão. A cueca cedeu, e deu para ouvir de longe o som dela se rasgando. Nho gritou alguma coisa, mas era tarde demais. Harry já segurava a cueca branca no alto, triunfante. Pouco depois, a cueca voou por cima da cabine do funcionário, aterrissando nos arbustos. Harry caminhou lentamente de volta para o carro e entrou.

— Técnica antiga — disse a um Nho que o observava com olhos arregalados. — Você vai ter que assumir as negociações a partir daqui. Caramba, como está quente...

Nho saiu do veículo e, depois de uma breve negociação, enfiou a cabeça na janela do carro e disse a Harry que os seguisse até o subsolo. O funcionário do estacionamento manteve uma boa distância de Harry, a expressão carrancuda.

O aparelho de vídeo zumbia, e Harry acendeu um cigarro. Tinha a impressão de que a nicotina, em determinadas situações, estimulava as atividades mentais. Como acontecia quando alguém precisava fumar, por exemplo.

— Certo — disse Harry. — Então você acha que Brekke está dizendo a verdade?

— Você também acha — respondeu Nho. — Ou não teria me trazido até aqui.

— Correto. — A fumaça fazia os olhos de Harry arderem. — E você pode ver bem aqui por que eu acho isso.

Nho observou as imagens, mas desistiu, meneando a cabeça.

— Essa gravação é de segunda-feira, 13 de Janeiro — explicou Harry. — Por volta das dez da noite.

— Errado — retrucou Nho. — Essa é a mesma gravação que a gente viu da última vez, é do dia do assassinato, 7 de Janeiro. A data está no canto da imagem.

Harry soprou um anel de fumaça, mas havia uma corrente de ar vinda de algum lugar, e o anel desapareceu quase que de imediato.

— É a mesma gravação, mas a data estava errada desde o início. Acho que deve ser fácil alterar a data e a hora no aparelho e, consequentemente, na imagem, e nosso amigo que perdeu a cueca pode confirmar isso.

Nho olhou para o homem, que deu de ombros e concordou.

— Mas isso não explica como você sabe quando a gravação foi feita — disse Nho.

Harry fez um gesto com a cabeça na direção do monitor.

— Eu me dei conta disso quando fui acordado essa manhã pelo tráfego na ponte Taksin, que fica bem perto do apartamento onde estou hospedado — respondeu. — Há pouquíssimo tráfego nessa imagem. Esse é um estacionamento de seis andares em um complexo comercial bastante movimentado. A gravação aponta um horário entre quatro e cinco da tarde, e vemos apenas dois carros passando no intervalo de uma hora.

Harry bateu a cinza do cigarro.

— E vou mostrar o que pensei em seguida. — Ele se levantou e apontou na tela para as linhas pretas que apareciam no cimento. — Marcas de pneus molhados. Dos dois carros. Quando foi a última vez que as ruas estiveram molhadas em Bangkok?

— Faz uns dois meses, ou mais.

— Errado. Três dias atrás, em 13 de Janeiro, entre dez e dez e meia, caiu uma chuva de verão. Sei disso porque minha camisa ficou ensopada.

— Tem razão — concordou Nho, fechando a cara. — As gravações nunca são interrompidas. Bom, se essa gravação não é a de 7 de Janeiro, e sim a do dia 13, então a fita com a gravação que queremos não é essa aqui.

Harry pediu ao funcionário que encontrasse a fita que trazia a etiqueta de 13 de Janeiro e, trinta segundos depois, viram que a gravação tinha sido interrompida às nove e meia da noite. Depois de cinco segundos de chuvisco na tela, a imagem apareceu mais uma vez.

— A fita foi apagada aqui — concluiu Harry. — As imagens que aparecem depois do chuvisco na tela são de uma gravação antiga. — Ele indicou a data. — Primeiro de Janeiro, cinco e vinte e cinco da manhã.

Harry pediu ao atendente que pausasse a imagem, e os dois policiais se sentaram, observando-a fixamente, enquanto Harry terminava seu cigarro.

Nho pressionou as mãos, palma contra palma, em frente à boca.

— Então alguém alterou a gravação pra parecer que o carro do embaixador nunca esteve no estacionamento. Por quê?

Harry não respondeu. Observou o horário. Cinco e vinte e cinco. Trinta e cinco minutos antes de o Ano-Novo ser celebrado em Oslo. Onde ele estava naquele dia? O que tinha feito? Teria ido ao Schrøder’s? Não, estaria fechado. Devia estar dormindo. Não se lembrava de ter visto fogos de artifício, de qualquer forma.

A empresa de segurança confirmou que Jim Love estivera no turno da noite no dia 13 de Janeiro e ofereceu o endereço e o número de telefone do empregado sem muitos questionamentos. Nho ligou para a casa de Love, mas ninguém atendeu.

— Mande uma viatura verificar — disse Liz, parecendo satisfeita por finalmente ter uma pista concreta a seguir.

Sunthorn entrou no escritório e lhe entregou uma pasta.

— Não temos nenhum registro de Jim Love — falou. — Mas Maisan, um dos infiltrados da Narcóticos, reconheceu a descrição. Se for o mesmo cara, foi visto no Miss Duyen várias vezes.

— O que isso significa? — perguntou Harry.

— Que ele não era tão inocente nessa história de ópio quanto dizia ser — respondeu Nho.

— Miss Duyen é uma casa de ópio em Chinatown — explicou Liz.

— Casa de ópio? Isso não é, tipo, ilegal?

— Claro.

— Desculpe, foi uma pergunta idiota — disse Harry. — Mas pensei que a polícia combatesse esse tipo de coisa.

— Não sei como as coisas funcionam lá de onde você vem, Harry, mas aqui tentamos ser práticos. Se fecharmos o Miss Duyen, outra casa de ópio vai aparecer em outro lugar na semana seguinte. Ou os caras vão simplesmente vender ópio na rua. A vantagem do Miss Duyen é que lá temos tudo sob controle; nossos infiltrados podem entrar e sair quando querem, e as pessoas que decidem ficar doidonas podem fazer isso em um ambiente relativamente respeitável.

Alguém tossiu.

— Além disso, o Miss Duyen provavelmente paga bem — murmurou uma voz vinda de trás do Bangkok Post.

Liz fingiu não escutar.

— Se o cara não apareceu para trabalhar hoje e não está em casa, aposto que está em uma das esteiras de bambu do Miss Duyen. Que tal você e Harry darem uma olhada, Nho? Fale com o Maisan, talvez ele possa ajudar. Pode ser bom para o nosso turista ver esse tipo de coisa.