Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 19 de 54

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Baratas

Capítulo 17

 

SEGUNDA-FEIRA, 13 de JANEIRO

 

— Como está suas costas? — quis saber Liz, preocupada, quando Harry entrou mancando

no escritório para a reunião matinal.

— Melhor — mentiu ele, jogando-se em uma cadeira.

Nho lhe passou um cigarro, mas Rangsan tossiu atrás do jornal, e Harry não o acendeu.

— Tenho algumas notícias que vão deixar você de bom humor — disse Liz.

— Mas eu estou de bom humor.

— Primeiro, decidimos prender Woo. Pra ver o que conseguimos arrancar dele se o ameaçarmos com três anos de cadeia por agredir um policial em serviço. O sr. Sorensen alega que não tem visto Woo. O capanga aparentemente trabalha como freelancer. Não temos um endereço onde procurar, mas sabemos que ele costuma comer em um restaurante perto do Ratchadamnoen Stadium, a arena de boxe. As lutas atraem grandes apostas, e os agiotas ficam à espreita pra encontrar novos clientes e vigiar pessoas que ainda não pagaram suas dívidas. A outra boa notícia é que Sunthorn vem realizando diligências em hotéis suspeitos de atuar no agenciamento de acompanhantes. O embaixador aparentemente frequentava um deles; o pessoal do estabelecimento se lembrou do carro por causa da placa do corpo diplomático. Dizem que apareceu lá acompanhado de uma mulher.

— Certo.

Liz ficou um pouco decepcionada com a reação desanimada de Harry.

— Certo?

— Molnes levou a srta. Ao a esse hotel para uma rapidinha. E daí? Pra casa é que ela não ia levá-lo, né? Na minha opinião, tudo o que podemos tirar disso é um possível motivo pra Hilde Molnes ter matado o marido. Ou o companheiro da srta. Ao, se é que ela tem um.

— A srta. Ao também teria motivos para matar Molnes, caso ele estivesse querendo abandoná-la — acrescentou Nho.

— Várias boas hipóteses — retomou Liz. — Por onde começamos?

— Verificando álibis. — A resposta veio de trás do jornal.

Na sala de reuniões da embaixada, a srta. Ao ergueu os olhos na direção de Harry e Nho, e eles estavam vermelhos de tanto chorar. Ela sequer havia hesitado ao negar que frequentava hotéis daquele tipo e contou que morava com a irmã e a mãe, mas que estivera fora na noite do assassinato. Não tinha saído com ninguém, afirmou, e voltara para casa bem tarde, depois da meia-noite. Foi quando Nho tentou forçá-la a dizer onde havia estado que começaram as lágrimas.

— É melhor nos contar tudo agora, srta. Ao — falou Harry, fechando as persianas para isolar a sala do corredor. — Você já mentiu pra gente uma vez. O negócio aqui é sério. Você disse que saiu na noite do crime, mas não se encontrou com ninguém que possa confirmar onde esteve.

— Minha mãe e minha irmã...

— Podem confirmar que você voltou pra casa depois da meia-noite. O que não a ajuda em nada, srta. Ao.

Lágrimas corriam pelo rosto delicado de boneca. Harry soltou um suspiro.

— Vamos ter que levá-la conosco — anunciou. — A menos que você mude de ideia e nos diga onde esteve.

Ela balançou a cabeça, e Harry e Nho trocaram olhares. Nho deu de ombros e pegou a moça pelo braço, mas ela deitou a cabeça na mesa, soluçando. Nesse momento, ouviram uma leve batida na porta. Harry abriu uma fresta. Sanphet estava parado ali fora.

— Sanphet, estamos...

O motorista levou um dedo aos lábios.

— Eu sei — sussurrou, sinalizando para que Harry saísse da sala.

Harry fechou a porta atrás de si.

— O que foi?

— Vocês estão interrogando a srta. Ao. Querem saber onde ela estava no momento do assassinato.

Harry não respondeu. Sanphet pigarreou e empertigou-se.

— Eu menti. A srta. Ao esteve no carro do embaixador.

— Ah, é? — Harry foi pego de surpresa.

— Várias vezes.

— Então você sabia do caso dela com Molnes?

— Não era com o embaixador.

A ficha demorou alguns segundos a cair, então Harry encarou o velho com descrença.

— Com você, Sanphet? Você e a senhorita Ao?

— É uma longa história, e acho que talvez você não consiga entendê-la. — O motorista lançou um olhar escrutinador para Harry. — A srta. Ao estava comigo na noite em que o embaixador morreu. Ela jamais vai admitir isso, porque, se o fizesse, poderíamos perder o emprego. Não são permitidas intimidades entre funcionários.

Harry passou a mão na cabeça.

— Sei o que você está pensando, detetive. Que sou um velho e ela é uma menina.

— Bom, acho que não consigo mesmo entender tudo isso, Sanphet.

O outro exibiu um meio sorriso.

— A mãe dela e eu fomos amantes há muito, muito tempo, bem antes de ela engravidar e ter Ao. Na Tailândia, existe uma coisa chamada phîi. É o que a gente pode traduzir por “senioridade”, quando uma pessoa mais velha ocupa um lugar mais alto na hierarquia do que uma mais jovem. Mas esse conceito vai muito além disso. Significa também que a pessoa mais velha fica responsável pela mais nova. A srta. Ao conseguiu o emprego na embaixada por recomendação minha, e ela é uma moça muito afetuosa e agradecida.

— Agradecida? — rebateu Harry, sem conseguir se conter. — Quantos anos ela tinha...? — Ele fez uma pausa. — O que a mãe dela tem a dizer a respeito disso?

Sanphet sorriu com tristeza.

— Ela tem a minha idade e entende a situação. Só estou pegando Ao emprestada por um tempinho. Até que ela encontre o homem com quem vai formar uma família. Não é algo tão incomum...

Harry soltou o ar dos pulmões com um gemido.

— Então você é o álibi dela? E sabe que não foi a srta. Ao que o embaixador levou àquele hotel que costumava frequentar?

— Se o embaixador foi a algum hotel, não foi com Ao.

Harry pôs o dedo em riste.

— Você já mentiu uma vez, e eu podia prendê-lo por obstruir uma investigação policial de assassinato. Se tem mais alguma coisa a dizer, que diga agora.

Aqueles olhos velhos e castanhos encararam Harry sem piscar.

— Eu gostava de herr Molnes. Era um amigo. Espero que a pessoa que o matou seja punida. E ninguém mais.

Harry esteve a ponto de dizer algo, mas mordeu a língua.