Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 12 de 54

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Baratas

Capítulo 10

 

 

SÁBADO, 11 de JANEIRO

 

A inspetora Crumley não estava na delegacia quando Harry chegou, mas Nho ergueu o polegar em um sinal positivo como resposta ao pedido educado do investigador para que entrasse em contato com a operadora de telefonia e conferisse todas as chamadas realizadas e recebidas pelo celular do embaixador no dia do assassinato.

Eram quase cinco horas quando Harry finalmente conseguiu encontrar a inspetora. Como já estava tarde, ela sugeriu que eles fossem até o rio para “fazer de uma vez o passeio turístico obrigatório”.

No ancoradouro, foram abordados com uma oferta de um passeio em um dos barcos compridos por seiscentos baht, mas o preço não demorou a cair para trezentos depois da reprimenda em tailandês que Liz passou no barqueiro.

Foram descendo o rio Chao Phraya antes de pegar um dos canais estreitos. Barracos de madeira construídos sobre palafitas que pareciam prestes a desabar a qualquer momento exalavam um odor de comida, esgoto e gasolina. A sensação era de que estavam passando no meio da sala de estar das pessoas. Só o que os impedia de espiar o interior dos barracos eram as fileiras de vasos com plantas, mas ninguém parecia particularmente incomodado; pelo contrário, todos acenavam e sorriam.

Sentados em um píer, três meninos vestindo apenas calções e molhados após um mergulho na água marrom gritaram para eles. Liz acenou para eles em uma resposta bem-humorada, e o barqueiro riu.

— O que estavam gritando? — quis saber Harry.

Ela apontou para a própria cabeça.

— Mâe chii. Quer dizer mãe, padre ou freira. As freiras raspam a cabeça aqui na Tailândia. Se eu estivesse de túnica branca provavelmente seria tratada com mais respeito — comentou a inspetora.

— É mesmo? Tenho a impressão de que respeito é o que não falta por parte do seu pessoal...

— Sim, porque eu os respeito — interrompeu ela. — E porque sou boa no que faço. — Ela pigarreou e cuspiu na água. — Isso surpreende você porque sou mulher?

— Não foi isso que eu disse.

— É comum os estrangeiros ficarem surpresos ao ver que mulheres conseguem se dar bem neste país. Não é um lugar tão machista quanto parece. Na verdade, meu maior problema aqui é ser estrangeira.

Uma brisa leve trouxe uma trégua refrescante à atmosfera úmida; de um amontoado de árvores emergia a cantoria chilreante de gafanhotos, e a paisagem que viam agora era a do mesmo pôr de sol vermelho-sangue do dia anterior.

— O que fez você mudar pra cá?

Harry sentiu que talvez tivesse passado do limite, mas ignorou a impressão.

— Minha mãe é tailandesa — respondeu a inspetora, depois de uma pausa. — Meu pai serviu em Saigon durante a Guerra do Vietnã e a conheceu aqui em Bangkok, em 1967. — Liz riu e ajeitou uma almofada nas costas. — Minha mãe jura que engravidou na primeira noite deles juntos.

— De você?

Ela confirmou com um movimento de cabeça e continuou:

— Com a capitulação dos Estados Unidos, ele nos levou pra Fort Lauderdale, onde serviu como tenente-coronel. Ao voltarmos pra cá, minha mãe descobriu que ele era casado quando os dois se conheceram. Ele escreveu pra casa pedindo o divórcio quando descobriu que minha mãe estava grávida. Meu pai teve todas as chances do mundo de fugir e abandonar a gente em Bangkok, se quisesse. E no fundo talvez quisesse isso. Vai saber.

— Você nunca perguntou a ele?

— Não é o tipo de pergunta pra qual a gente necessariamente quer uma resposta honesta. Enfim, eu nunca conseguiria arrancar uma resposta dele. Era o jeito dele.

— Era?

— Sim, ele já morreu. — Liz virou-se para Harry. — Você acha incômodo eu falar da minha família?

Harry levou o cigarro à boca.

— Nem um pouco.

— Pro meu pai, fugir nunca foi uma opção. Ele tinha essa fixação com responsabilidade. Quando eu tinha 11 anos, me deixaram ficar com um gatinho que eu tinha ganhado de uns vizinhos em Fort Lauderdale. Depois de muito insistir, meu pai deixou que eu ficasse com o bichinho, mas impôs a condição de que eu seria a responsável por ele. Duas semanas mais tarde, eu tinha perdido o interesse no gato e perguntei se podia devolvê-lo. Meu pai me fez levá-lo até a garagem e disse: “Você não pode fugir de uma responsabilidade. É assim que as civilizações são destruídas.” Aí ele pegou o rifle e meteu uma bala na cabeça do gatinho. Depois me obrigou a esfregar o chão da garagem com água e sabão. Esse era o jeito do meu pai. Foi por isso que... — Ela tirou os óculos de sol e, com a barra da camisa, limpou as lentes enquanto observava o sol poente com olhos semicerrados. — Foi por isso que ele nunca conseguiu aceitar a retirada das tropas americanas do Vietnã. Minha mãe e eu nos mudamos pra cá quando eu tinha 18 anos.

Harry assentiu.

— Posso imaginar que não deve ter sido fácil pra sua mãe ir viver em uma base militar americana depois da guerra.

— Na base não era tão ruim, mas outros americanos, aqueles que não tinham estado na guerra, mas acabaram perdendo um filho ou um namorado no Vietnã, nos odiavam. Pra eles, qualquer um que tivesse olhos puxados era vietcongue.

Sentado em frente a um barraco que tinha sido destruído pelo fogo, um sujeito de terno fumava um charuto.

— E aí você entrou pra Academia de Polícia, virou investigadora e raspou a cabeça?

— Não nessa ordem. Não raspei o cabelo. Caiu todo em uma semana, quando eu tinha 17 anos. Um tipo raro de alopecia. Mas é prático nesse clima.

Ela passou a mão pela cabeça e exibiu um sorriso abatido. Também não tinha sobrancelhas, cílios, nada.

Outro barco emparelhou com o deles. Ia carregado de chapéus de palha, e uma senhora apontou para as cabeças dos dois e para os chapéus. Liz sorriu, educada, e disse algumas palavras. Antes de seu barco tomar outro rumo, a mulher se debruçou na direção de Harry e lhe ofereceu uma flor branca. Então apontou para Liz e riu.

— Como é “obrigado” em tailandês?

— Khop khun khráp — informou Liz.

— Certo. Diga isso a ela.

Seguiram deslizando pelo canal. Passaram por um templo, um wat, que ficava junto à margem e, pela porta aberta, conseguiram ouvir o murmúrio dos monges lá dentro. Havia gente sentada nos degraus do lado de fora, as mãos postas em oração.

— Pelo que eles estão rezando? — quis saber Harry.

— Não sei. Paz. Amor. Uma vida melhor, aqui ou no além. O mesmo que todo mundo deseja em qualquer lugar.

— Não acho que Atle Molnes estivesse à espera de uma prostituta. Acho que o encontro era com outra pessoa.

O murmúrio dos monges aos poucos foi ficando para trás.

— E com quem seria?

— Não faço ideia.

— Por que acha isso?

— Como o embaixador tinha dinheiro suficiente apenas para alugar o quarto, eu apostaria que ele não tinha intenção de pagar pelos serviços de uma prostituta. Mas não havia motivos pra ele estar no hotel se não fosse pra se encontrar com alguém, certo? De acordo com Wang, a porta não estava trancada quando o encontraram. Não soa meio estranho? Quando se fecha a porta de um quarto de hotel, ela é trancada automaticamente. Molnes deve ter pressionado o botão na maçaneta que a deixa destravada. O assassino não teria motivos pra fazer isso. Imagino que ele ou ela não sabia que a porta estava destrancada. Então por que Molnes teria feito isso? A maioria dos frequentadores desse tipo de estabelecimento deve preferir trancar a porta antes de dormir, não?

Liz balançou a cabeça negativamente.

— Talvez ele temesse não escutar a chegada da pessoa que estava esperando.

— Exatamente. E ele não tinha motivos para deixar a porta aberta pra Tonya Harding, porque o combinado com o gerente era que ele ligaria antes de ela seguir pro quarto. Certo?

Em sua empolgação, Harry acabou indo para a lateral do barco, e o barqueiro gritou para que voltasse a se sentar no centro, ou poderiam virar.

— Acho que ele não queria que ninguém soubesse com quem ia se encontrar. Provavelmente por isso tinham marcado o encontro em um hotel de beira de estrada nos arredores da cidade. O lugar adequado para um encontro secreto, onde não haveria um livro de registros oficial com informações sobre os hóspedes.

— Humm. As fotos. É nelas que você está pensando.

— Impossível não pensar nelas, não?

— É possível comprar esse tipo de coisa por toda parte em Bangkok.

— Talvez ele tenha ido além disso. A gente pode estar lidando com prostituição infantil aqui.

— Talvez. Mas não temos qualquer pista disso além de uma foto que, sério, a gente encontra em todo canto dessa cidade.

Tinham percorrido um longo caminho rio acima. Liz apontou para uma casa diante de um amplo jardim.

— É um norueguês quem mora aí — disse ela.

— Como você sabe?

— Foi um verdadeiro escândalo nos jornais quando ele construiu a casa. Como você pode ver, ela parece um templo. Os budistas ficaram indignados com o fato de um “gentio” ir morar ali; chamaram de blasfêmia. Pra piorar as coisas, veio à tona que o cara tinha usado na construção materiais de um templo birmanês que ficava em uma área de fronteira em conflito. A situação estava um pouco tensa lá na época; depois de vários tiroteios, a população fugiu do local. O norueguês comprou o templo a preço de banana e, como tudo nos templos do norte da Birmânia é feito em madeira de teca, ele desmontou a parada toda e a trouxe pra Bangkok.

— Estranho — falou Harry. — Qual é o nome do sujeito?

— Ove Klipra. É dono de uma das maiores empreiteiras que atuam em Bangkok. Se ficar aqui algum tempo, acho que você vai acabar ouvindo falar dele.

Liz mandou que o barqueiro desse meia-volta.

— Curte comida pra viagem?

Harry olhou para a sopa de macarrão na cumbuca de plástico. As coisas brancas ali dentro eram uma versão pálida e mirrada de espaguete, e ele sentia certa inquietação ao perceber movimentos inesperados em pontos da superfície líquida quando atacava o macarrão com os pauzinhos.

Rangsan entrou na sala para avisar que Tonya Harding estava na delegacia para fornecer suas impressões digitais.

— Você pode falar com ela agora, se quiser. E mais uma coisa: Supawadee disse que está checando a cápsula encontrada no carro. O resultado deve estar aqui amanhã. Estão dando prioridade máxima ao teste.

— Diga três tigres tristes — falou Harry.

— Diga o quê? — perguntou Liz.

— Diga farofa.

Harry sorriu, acanhado, e Liz, ao tentar falar, cuspiu arroz para todo lado.