Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 51 de 54

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Baratas

Capítulo 49

 

SEXTA-FEIRA, 24 de JANEIRO

 

Quando Harry estava prestes a desligar, ouviu um clique e um novo tom de discagem e se deu conta de que a chamada estava sendo transferida da casa de Løken para o celular. Esperou, deixou tocar sete vezes e, por fim, desistiu, agradecendo a moça de tranças do caixa por tê-lo deixado usar o telefone.

— Temos um problema — falou ao voltar para a sala.

Liz tinha tirado os sapatos e inspecionava a pele seca do pé.

— O trânsito — disse ela. — Sempre o trânsito.

— A ligação foi transferida pro celular, mas ele não atendeu. Não estou gostando disso.

— Relaxa. O que pode ter acontecido com ele aqui, na pacífica Bangkok? Deve ter esquecido o celular em casa.

— Cometi um erro — constatou Harry. — Disse a Brekke que a gente ia se encontrar hoje à noite e pedi que ele descobrisse quem estava por trás da Ellem Ltd.

— Você fez o quê?

Liz tirou os pés de cima da mesa. Harry cerrou o punho e deu um murro na mesa, fazendo pular as xícaras de café.

— Merda, merda, merda! Queria ver como ele ia reagir.

— Reagir? Harry, isso não é um jogo!

— Eu não estava fazendo o jogo dele. Meu plano era ligar pra ele depois da reunião e marcar um encontro em algum lugar. Tinha pensado no Lemon Grass.

— Aquele restaurante aonde fomos?

— Fica perto daqui, e era melhor do que correr o risco de uma emboscada na casa dele. Seriam três contra um, e imaginei uma prisão à la Woo.

— Mas aí falou da Ellem e disparou o alerta — concluiu Liz com um gemido.

— Brekke não é burro, já tinha sentido a coisa feder bem antes disso. Voltou a falar aquela baboseira de me convidar pra padrinho do casamento. Estava me testando; queria ver se eu o tinha na mira.

Liz bufou.

— Quanta besteira! Se vocês dois estão levando a coisa pro lado pessoal, por favor, parem agora mesmo. Pelo amor de Deus, Harry, eu o considerava profissional demais pra isso.

Harry não respondeu. Sabia que ela estava certa: tinha se comportado como um amador. Por que diabos havia mencionado a Ellem Ltd? Podia ter inventado uns cem outros pretextos para o encontro. Talvez tivesse a ver com o que Jens lhe dissera; algumas pessoas gostam do risco pelo risco. Talvez ele fosse um desses especuladores que Brekke considerava tão patéticos. Não, não era isso. Ou pelo menos não só isso. Seu avô certa vez havia lhe explicado por que nunca se atirava em uma perdiz pousada no chão: não era bonito.

Teria sido essa a razão? Uma espécie de ética de caçador: alertar a presa antes de abatê-la em voo, dar a ela a chance simbólica da sobrevivência?

Liz interrompeu seus pensamentos.

— E aí, o que fazemos agora, detetive?

— Esperamos — respondeu Harry. — Vamos ver se Løken aparece em meia hora. Se não aparecer, vou ligar pro Jens.

— E se ele não atender?

Harry respirou fundo.

— A gente telefona pro chefe de polícia e mobiliza toda a força policial.

Liz cerrou os dentes e praguejou.

— Já contei a você como é ser guarda de trânsito?

Jens deu uma olhada no visor do telefone de Løken e soltou uma risada. O aparelho tinha parado de tocar.

— Bem legal esse seu telefone, Ivar. A Ericsson tem caprichado, você não concorda? Dá pra ver o número da pessoa que está ligando; então, se for alguém com quem você não queira falar, não precisa atender. Ou muito me engano, ou alguém está se perguntando por que você não apareceu no encontro. Não deve ter um monte de amigos seus querendo falar com você a essa hora, não?

Jens arremessou o aparelho por cima do ombro e, com um passo ágil para o lado, Woo o pegou no ar.

— Descubra de onde é o número. Agora.

Jens foi se sentar ao lado de Løken.

— Essa cirurgia está começando a ficar meio que urgente, Ivar. — Ele tapou o nariz e olhou para o chão, onde uma poça havia se formado em torno da cadeira. — Sabe, sério mesmo, Ivar.

— Millie’s Karaokê — disse Woo em inglês, cada sílaba bem pronunciada. — Eu sei onde é.

Jens afagou o ombro de Løken.

— Desculpe, mas a gente precisa ir agora, Ivar. Vamos ter que deixar o hospital pra depois, quando voltarmos.

Løken conseguiu ouvir o som dos passos ecoando e desaparecendo ao longe; esperou pelo deslocamento de ar da porta batendo. Mas isso não aconteceu. Em vez disso, ouviu o eco distante de uma voz em seu ouvido.

— Ah, sim, quase ia me esquecendo, Ivar.

Sentiu o hálito quente na têmpora.

— A gente vai precisar de alguma coisa pra amarrar os dois nos postes. Será que você poderia me emprestar esse torniquete? Eu trago de volta. Prometo.

Løken abriu a boca e soltou um urro, sentindo o muco se soltar da garganta. Outra pessoa tinha assumido o controle de seu cérebro, por isso sequer percebeu as tiras de couro sendo tiradas com um puxão enquanto via o sangue empoçar na mesa e ser absorvido pelas mangas da camisa até ficarem totalmente vermelhas. Não chegou a ouvir a porta se fechar.

Harry teve um sobressalto com as leves batidas na porta.

A careta foi involuntária quando ele viu que não era Løken, mas a moça de tranças que trabalhava no local.

— Sr. Harry? — Ele assentiu. — Telefone.

— Não falei? — disse Liz. — Cem baht como foi o trânsito.

Seguiu a garota até o telefone, o subconsciente registrando que ela tinha os mesmos cabelos muito negros e o mesmo pescoço esbelto de Runa. Ficou olhando para os pelinhos pretos na nuca. A moça se virou, um breve sorriso iluminou seu rosto, e ela estendeu a mão, indicando o aparelho. Ele assentiu e pegou o fone.

— Pois não?

— Harry? Sou eu.

Naquele momento, Harry pensou que podia sentir os vasos sanguíneos se dilatarem à medida que o coração bombeava sangue cada vez mais rápido para o corpo. Respirou fundo uma, duas vezes, para enfim poder falar com calma e clareza.

— Onde está Løken, Jens?

— Ivar? Ele está com as mãos ocupadas e não vai conseguir chegar pra reunião.

Pela voz do outro lado da linha, Harry percebeu que a máscara tinha caído; era Jens Brekke quem falava agora, o mesmo com quem tinha conversado no escritório naquela primeira vez. O mesmo tom zombeteiro e provocador de um sujeito que sabe que vai ganhar, mas antes quer se divertir, curtir os momentos que antecedem o golpe de misericórdia. Harry tentava adivinhar o que teria virado o jogo contra ele.

— Estava esperando sua ligação, Harry. — Aquela não era a voz de um homem desesperado, mas de alguém que estava no banco do motorista, com ar indiferente, dirigindo com uma mão só no volante.

— Bom, você está ganhando o jogo, Jens.

Jens riu.

— Parece que eu sempre ganho, Harry. Como se sente?

— Cansado. Onde está Løken?

— Quer saber o que Runa falou antes de morrer?

Harry sentiu o rosto formigar.

— Não — ouviu sua própria voz dizer. — Só quero saber onde está Løken, o que fez com ele e onde podemos encontrar você.

— Ah, esses são três desejos de uma vez só, Harry!

A risada de Jens fez vibrar o microfone interno de seu telefone. Mas alguma outra coisa disputava a atenção de Harry, algo que ele não conseguia identificar o que era. Jens parou de rir de repente.

— Você faz ideia do quanto me sacrifiquei pra executar um plano desses, Harry? Checar as coisas uma, duas vezes, pensar até nos menores imprevistos pra ser infalível? Isso sem falar do desconforto físico. Matar é uma coisa, mas você acha que eu gostei de passar aquele tempo todo na cadeia? Você pode não acreditar em mim, mas o que eu disse sobre ficar preso é verdade.

— Então pra que se preocupar até com os menores imprevistos?

— Já disse a você: eliminar riscos tem um custo, mas vale a pena, sempre vale. Botar a culpa no Klipra exigiu um trabalho árduo.

— Por que não tornar as coisas mais simples? Você poderia ter dizimado todos e botado a culpa na máfia?

— Você pensa como os fracassados que normalmente caça por aí, Harry. É igualzinho aos viciados em jogos de azar: perde a noção do cenário maior, das consequências. Claro que eu podia ter matado Molnes, Klipra e Runa com métodos mais simples sem deixar vestígios, mas isso não teria sido suficiente. Porque, quando eu herdasse a fortuna dos Molnes e a Phuridell, ficaria bastante óbvio que eu tinha motivação pra matar os três. Três assassinatos e um suspeito cuja motivação servia pra todas as vítimas. Até a polícia resolveria um caso desses, não acha? Mesmo sem conseguir encontrar qualquer porcaria de prova, vocês seriam capazes de tornar minha vida bem desagradável. Então precisei criar um cenário alternativo pra vocês, um cenário no qual uma das vítimas fosse o assassino. Uma solução que não podia ser tão difícil que você não chegasse a ela, nem tão fácil a ponto de deixá-lo insatisfeito. Você devia me agradecer, Harry. Melhorei muito sua imagem quando estava no encalço de Klipra, não?

Harry não estava escutando; tinha voltado no tempo, à ocasião em que ouviu a voz de outro assassino. Daquela vez, o barulho da água havia sido a pista definitiva para encontrá-lo, mas agora tudo que Harry conseguia ouvir era o zumbido débil de uma música que poderia estar tocando em qualquer lugar.

— O que você quer, Jens?

— O que eu quero? Ora, o que eu quero? Acho que só bater um papo.

Pra me segurar do outro lado da linha, ocorreu a Harry. Ele quer me manter ocupado falando ao telefone. Pra quê? Ouviu o som de uma bateria sintetizada e um clarinete.

— Mas, se quer que eu seja mais exato, só liguei pra dizer...

Harry distinguiu “I Just Called to Say I Love You” ao fundo.

— ... que sua amiguinha vai querer muito uma plástica no rosto. O que você acha, Harry? Harry?

Balançando de um lado para o outro, o fone desenhava um arco no espaço logo acima do chão.

A passos largos pelo corredor, Harry sentiu a doce descarga de adrenalina como se tivesse sido injetada em suas veias. A moça das tranças se encostou na parede, assustada, quando ele deixou cair o fone, sacou a Ruger SP101 emprestada do coldre na panturrilha e destravou arma com um movimento ágil. Será que ela entendeu quando ele gritou para que ligasse para a polícia? Não tinha tempo de pensar naquilo agora; Jens estava bem ali. Harry arrombou a primeira porta com um pontapé e se deparou com quatro rostos sobressaltados sob a mira do revólver.

— Perdão.

Ao abrir a porta seguinte, sentiu tanto medo que quase deu um tiro. No centro da sala de karaokê, um tailandês baixinho de pele morena, usando um terno prata brilhante e óculos escuros de filme pornô, fazia uma pose com as pernas afastadas e as mãos nos quadris. Harry demorou alguns segundos para entender o que ele estava fazendo, mas, a essa altura, o Elvis tailandês já tinha engasgado no meio de “Hound Dog”.

Harry deu uma olhada na direção do corredor. Deviam ser pelo menos umas cinquenta salas no total. Um alarme soava dentro de sua cabeça, em algum lugar, mas, de tão sobrecarregado, o cérebro ignorava o alerta. Agora Harry podia ouvi-lo em alto e bom som. Liz! Merda, merda, merda. Jens o fizera perder tempo com aquela conversa ao telefone.

Disparou pelo corredor e, ao dobrar a esquina, viu que a porta da sala onde ele e Liz tinham esperado Løken estava aberta. Não pensou em mais nada; não teve medo nem esperanças, apenas correu, ciente de que havia chegado àquele ponto em que não hesitaria mais em matar. Não parecia mais um pesadelo; não era como tentar correr com água pela cintura. Irrompeu na sala e viu Liz caída atrás do sofá. Voltou-se com a arma em punho, mas era tarde demais. Alguma coisa o acertou nos rins; ele soltou todo o ar de uma vez só e, no instante seguinte, sentiu o aperto forte de uma gravata, viu de relance o cabo de um microfone e sentiu o cheiro do hálito avassalador.

Harry desferiu uma cotovelada e acertou em alguma coisa; ouviu um gemido.

— Tay — disse uma voz, e em seguida Harry sentiu o punho vindo de trás, atingindo-o logo abaixo do ouvido, deixando-o zonzo. Percebeu que o estrago na mandíbula tinha sido sério. Logo o cabo do microfone voltou a apertar seu pescoço. Enfiou um dedo entre o cabo e o pescoço, mas era inútil. A língua, inerte, parecia estar sendo expulsa da boca. Talvez nem precisasse pagar a conta do dentista; tudo já começava a ficar escuro.

Seu cérebro zunia. Harry não aguentava mais, tentou decidir-se pela morte, mas o corpo não lhe obedecia. Instintivamente, ergueu um braço no ar, mas não haveria redinha de limpar piscina capaz de salvá-lo desta vez. Só lhe restava rezar, como se, de pé sobre a ponte em Siam Square, implorasse pela vida eterna.

— Para!

O cabo em torno do pescoço afrouxou, e o oxigênio desceu para os pulmões feito uma enxurrada. Mais, ele precisava de mais! Parecia que o ar na sala não era suficiente; Harry tinha a sensação de que seus pulmões estavam prestes a explodir dentro do peito.

— Solta ele!

Tendo conseguido com esforço ficar de joelhos, Liz apontava a Smith & Wesson 650 para Harry. Harry podia sentir Woo escondendo-se atrás dele e voltando a asfixiá-lo, mas tinha conseguido colocar a mão esquerda entre o cabo e o pescoço.

— Atira nele — grunhiu Harry, com voz de Pato Donald.

— Larga! Agora!

As pupilas de Liz estavam escuras de medo e fúria. Um filete de sangue escorria do ouvido dela, descendo pelo pescoço decote adentro.

— Ele não vai largar. Você vai ter que matá-lo — sussurrou Harry, a voz rouca.

— Agora! — insistiu Liz, gritando.

— Atira! — berrou Harry.

— Cala a boca!

A mão de Liz vacilou enquanto ela tentava manter o equilíbrio.

Harry se reclinou para trás, recostado em Woo. Era como se apoiar em uma parede. Liz tinha lágrimas nos olhos, e a cabeça pendia para a frente. Harry conhecia aqueles sintomas. Era uma concussão grave, e eles tinham pouquíssimo tempo.

— Liz, me escuta agora!

O aperto tornou-se mais forte, e Harry ouviu o som do cabo cortando a pele da mão.

— Suas pupilas estão muito dilatadas, Liz; você não vai demorar a entrar em choque! Escute o que estou dizendo! Você precisa atirar agora, antes que seja tarde demais! Já, já vai perder a consciência!

Um soluço escapou dos lábios dela.

— Vai se foder, Harry! Eu não consigo. Eu...

O cabo do microfone entrava na carne como se ela fosse manteiga. Ele tentou cerrar o punho, mas talvez alguns nervos tivessem sido rompidos.

— Liz! Olha pra mim, Liz!

Ela piscou uma, duas vezes, e olhou para ele com os olhos embaçados.

— Maravilha, Liz. Você só precisa errar o tiro em mim pra acertar nele!

Ela olhava para Harry de boca aberta, então baixou a arma e caiu na risada. Harry tentou segurar Woo, que avançou na direção de Liz, mas era como querer parar uma locomotiva. Já estavam em cima dela quando alguma coisa explodiu no rosto de Harry. A dor lancinante viajou por seus canais nervosos; uma dor diferente dessa vez, que queimava. Ele sentiu o perfume de Liz e o corpo dela cedendo sob o peso do chinês, que os esmagou no chão. Um estrondo ecoou pela porta aberta e pelo corredor. Depois, silêncio.

Harry estava respirando. Preso entre Liz e Woo, sentia o peito subir e descer. Isso só podia significar que estava vivo. Algo gotejava continuamente. Tentou reprimir a lembrança; não tinha tempo para aquilo agora, para a corda molhada, o frio, a água salgada pingando no convés. Não estava em Sydney. Os pingos caíam na testa e nas pálpebras de Liz. Foi quando ouviu a risada dela novamente. Os olhos de Liz se abriram; eram duas janelas negras em molduras brancas numa parede vermelha. Seu avô empunhava um machado, golpes surdos, abafados, o baque de quando a madeira tombava na terra dura e repisada. O céu era azul, a grama fazia cócegas em suas orelhas, uma gaivota voava, entrando e saindo de seu campo de visão. Ele queria dormir, mas o rosto ardia, podia sentir o cheiro da própria carne na pólvora que havia queimado seus poros.

Com um gemido, rolou de lado, saindo daquele sanduíche humano. Liz gargalhava, os olhos abertos, e ele deixou que ela continuasse a dar risadas.

Virou Woo, deitando-o de costas. O rosto tinha a expressão paralisada de surpresa; o queixo caído protestava contra o buraco de bala na testa. Mas o barulho dos pingos continuava. Voltou-se para a parede e viu que não era sua imaginação. Madonna tinha mudado a cor do cabelo. A trancinha de Woo, agora grudada no alto do pôster, dava à cantora um visual punk, gotejando o que parecia uma mistura de eggnog e suco de frutas vermelhas. Era aquilo que caía no tapete grosso e respingava de leve.

Liz ainda ria.

— Dando uma festa? — Harry ouviu uma voz dizer da porta. — Nem convidaram Jens? E eu pensando que a gente fosse amigo...

Harry não se virou; seu olhar perscrutava desesperadamente o chão à procura da arma. Com o golpe de Woo por trás, ela devia ter ido parar debaixo da mesa ou atrás da cadeira.

— Está procurando isso aqui, Harry?

Claro. Girou o corpo lentamente e se viu encarando o cano de sua própria Ruger SP101. Fez menção de abrir a boca para dizer alguma coisa quando percebeu que Jens estava prestes a atirar. Ele segurava a Ruger com as duas mãos e já tinha se inclinado um pouco à frente, preparando-se para absorver o coice da arma.

Harry lembrou-se do policial caindo da cadeira, no Schrøder’s, os lábios úmidos, o sorriso desdenhoso que ele guardou apenas para si, mas que estava ali. O mesmo sorriso invisível com que a comissária de polícia pediria um instante de silêncio.

— A brincadeira acabou, Jens — ouviu-se dizer. — Você não vai conseguir se safar dessa.

— A brincadeira acabou? Quem ainda diz isso? — Jens soltou um suspiro e balançou a cabeça. — Você anda vendo muito dessas merdas de filmes de ação, Harry.

Ele colocou o dedo no gatilho.

— Mas certo, tudo bem, agora acabou mesmo. Você apenas tornou as coisas muito melhores do que eu tinha planejado. Quem você acha que vai levar a culpa quando encontrarem um capanga da máfia e dois policiais mortos por balas que saíram de suas armas?

Jens semicerrou um olho para mirar em Harry, algo bem desnecessário a uma distância de três metros. Esse cara nunca deixa nada para o acaso, pensou Harry, fechando os olhos e respirando fundo inconscientemente, preparando-se para o tiro.

Seus tímpanos foram estraçalhados. Três vezes. Nada para o acaso. Harry sentiu o baque das costas contra a parede ou o chão, não sabia dizer, e o cheiro de pólvora penetrou em suas narinas. Cheiro de pólvora. Não entendeu mais nada. Jens não tinha disparado três vezes? Por que ainda sentia o cheiro?

— Merda!

Parecia alguém gritando debaixo de um edredom.

A fumaça se dissipou, e ele viu Liz sentada, as costas apoiadas à parede, uma mão segurando a arma fumegante, a outra na barriga.

— Meu Deus, ele me acertou! Você está aí, Harry?

Estou?, perguntou-se Harry. Lembrava-se vagamente de ter sentido um impacto no quadril, o qual fez seu corpo girar.

— O que aconteceu? — gritou Harry, ainda surdo.

— Eu atirei primeiro. Acertei ele. Tenho certeza de que acertei, Harry. Como ele escapou?

Harry se levantou, derrubando as xícaras de cima da mesa até finalmente conseguir se firmar de pé. A perna esquerda estava dormente. Dormente? Apalpou o quadril e viu que as calças estavam encharcadas. Não quis nem olhar. Estendeu a mão.

— Me dá a arma, Liz.

Seus olhos estavam fixos na porta. Sangue. Um rastro de sangue no chão. Por ali. Por ali, Hole. É só seguir a trilha que ele deixou para você. Virou-se para Liz. Uma rosa vermelha brotava entre os dedos dela, manchando a camisa azul. Merda, merda, merda!

Ela gemeu e passou ao detetive sua Smith & Wesson 650.

— Pega esse cara, Harry.

Ele hesitou.

— E isso é uma ordem!