Baratas
Parte Cinco
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QUARTA-FEIRA, 22 de JANEIRO
Hilde Molnes estava definitivamente bêbada demais para tomar um calmante. Estava bêbada demais para a maioria das coisas, exceto para ficar ainda mais bêbada.
Jens não se dava conta disso. Parecia um animal perseguido, vindo correndo da cozinha trazendo água com gelo.
Harry sentou no sofá, ouvindo, distraído, as lamúrias de Hilde.
— Ela acha que algo terrível aconteceu — disse Jens.
— Explique que mais de oitenta por cento das pessoas desaparecidas reaparecem sãs e salvas — pediu o detetive, como se o que dizia precisasse ser traduzido por Jens na linguagem lamurienta de Hilde.
— Já expliquei, mas ela fala que tem certeza de que fizeram alguma coisa com Runa. Que é o coração dela que está dizendo.
— Bobagem!
Jens sentou-se na beirada da cadeira, torcendo as mãos. Parecia totalmente incapaz de pensar ou agir e olhava suplicante para Harry.
— As duas vinham discutindo muito recentemente. Fiquei pensando se talvez... se Runa não fugiu pra punir a mãe. Não é lá muito improvável.
Hilde Molnes tossiu, dando sinal de vida no sofá. Sentou-se e tomou mais uns goles de gim. Fazia um bom tempo que a tônica tinha sido deixada de lado.
— Ela às vezes fica desse jeito — justificou Jens, como se a mulher não estivesse presente. E de certa forma não estava, pelo que Harry podia ver. Hilde estava de boca aberta e roncava baixinho. Jens olhou para ela.
— No dia em que a gente se conheceu, ela me disse que bebia tônica pra não contrair malária. Tônica contém quinino, sabe? Mas o sabor fica tão sem graça sem gim... — Ele exibiu um sorriso cansado e novamente tirou o telefone do gancho para conferir se estava funcionando. — Para o caso de ela...
— Entendo — falou Harry.
Sentaram-se no terraço e ficaram escutando a cidade. O ruído das britadeiras sobrepujava o do tráfego.
— São as obras do novo elevado — comentou Jens. — Estão trabalhando nisso dia e noite agora. Vai atravessar o bairro bem ali. — Ele apontou.
— Ouvi dizer que tem um norueguês envolvido no projeto, Ove Klipra. Conhece?
Harry olhava para Jens de canto de olho.
— Ove Klipra, sim, claro. Somos seu principal corretor. Já fiz um bocado de operações de câmbio pra ele.
— Ah, é? E você tem ideia do que ele anda aprontando no momento?
— Aprontando? Ele vem comprando uma porção de empresas, se é a isso que você se refere.
— Que tipo de empresas?
— Na maior parte pequenas, familiares. Klipra quer aumentar sua participação nas licitações de transportes com a aquisição de empresas subcontratadas.
— É uma jogada inteligente?
Obviamente aliviado por poder pensar em outra coisa, Jens se animou.
— Sim, contanto que ele seja capaz de financiar essas aquisições. E contanto que as empresas não quebrem antes de ele ganhar as licitações.
— Você conhece uma empresa chamada Phuridell?
— E como conheço. — Jens riu. — Klipra nos pediu uma auditoria da empresa, e recomendamos a aquisição. Mas a questão é: como você conhece a Phuridell?
— Não foi uma recomendação muito feliz, certo?
— Não, não exatamente... — Jens parecia perplexo.
— Ontem pedi a uma pessoa que vasculhasse informações sobre a empresa, e parece que, pra todos os efeitos, ela está bem falida.
— É isso mesmo, mas por que esse interesse na Phuridell?
— Vamos dizer que estou mais interessado em Klipra. Você deve ter uma ideia aproximada do patrimônio total dele. Nesse caso, qual deve ser o tamanho do estrago nas contas por causa da Phuridell?
Jens deu de ombros.
— Em circunstâncias normais não seria um problema, mas, nesse processo das licitações, Klipra pegou tantos financiamentos pra essas aquisições que a coisa toda é um castelo de cartas. Basta uma brisa pra vir tudo abaixo, se é que você me entende. E ele vai junto.
— Então o cara comprou a Phuridell por recomendação da sua corretora, ou melhor, por sua recomendação. Três semanas depois, a empresa quebra, e agora é possível que tudo que ele construiu desabe por causa do conselho de um corretor. Não manjo muito de auditoria de empresas, mas três semanas é um tempo muito curto. Ele percebeu de que tinha comprado um carro usado sem motor. E que o lugar de aventureiros como você é atrás das grades.
Jens de repente se deu conta de onde Harry estava querendo chegar.
— Você não está dizendo que Ove Klipra...? Está de brincadeira!
— Bom, eu tenho uma teoria.
— Qual?
— A de que Ove Klipra assassinou o embaixador no hotel e armou pra ter certeza de que todas as suspeitas recaíssem sobre você.
Jens ficou de pé.
— Agora você está viajando de vez, Harry.
— Senta e me ouve, Jens.
O outro desabou de volta na cadeira com um suspiro. Harry se debruçou sobre a mesa.
— Ove Klipra é um cara agressivo, certo? Um homem de ação?
Jens hesitou.
— É.
— Imagine que Atle Molnes soubesse de algum segredo e estivesse exigindo uma grande soma em dinheiro justamente quando Klipra lutava pra suas finanças não afundarem.
— Que tipo de segredo?
— Digamos apenas que Molnes precisa de dinheiro e tem em mãos um material que pode complicar bastante a vida de Klipra. Em uma situação normal, Klipra talvez fosse capaz de dar um jeito na questão, mas, naquele momento difícil, ele não aguenta a pressão. Ele se sente como um rato encurralado. Está acompanhando?
Jens assentiu.
— Eles saem da casa de Klipra no carro do embaixador, pois o empresário deve ter insistido que a troca do material comprometedor pelo dinheiro deveria ser feita em um lugar mais discreto. O embaixador tem boas razões pra não se opor. Não acredito muito que Klipra já tivesse você em mente quando, ao chegar à agência bancária, sai do carro e despacha o embaixador pro hotel. Toma essa providência pra que depois, ao chegar lá, possa entrar despercebido. Mas então começa a pensar. Quem sabe não pudesse matar dois coelhos com uma cajadada só? Ele sabe que mais cedo, naquela mesma tarde, você e o embaixador tinham se encontrado, e que por isso você acabaria sendo um dos alvos da investigação policial. É aí que passa a cogitar a ideia: quem sabe o amável herr Brekke não tenha um álibi pra essa noite?
— Por que ele pensaria isso?
— Porque ele tinha pedido a você um relatório de auditoria para o dia seguinte. Você é o corretor dele há um bom tempo, o que significa que Klipra conhece um pouquinho dos seus hábitos no trabalho. Talvez até tenha ligado de um telefone público pra confirmar que você não estava recebendo ligações e que ninguém poderia dar a você um álibi. Fisgado pela ideia de incriminá-lo, ele quer ir mais longe e convencer a polícia de que você estará mentindo.
— As imagens do circuito interno?
— Como você presta serviços a ele regularmente como consultor de câmbio, ele deve ter feito várias visitas ao escritório e conhece o funcionamento do estacionamento. Talvez Molnes tenha mencionado de passagem que você o havia acompanhado até o carro, e Klipra sabia que isso apareceria em seu depoimento à polícia. Qualquer detetive que se preze também daria uma conferida nas imagens.
— Então Ove Klipra subornou o manobrista do estacionamento para, em seguida, matá-lo com ácido cianídrico? Desculpe, Harry, mas, pra mim, imaginar que Ove Klipra possa ter negociado com um garoto negro, comprado ópio e misturado com ácido cianídrico na própria cozinha já é pedir demais.
Harry pegou o último cigarro do maço; vinha guardando-o pelo máximo de tempo possível. Deu uma olhada no relógio. Não havia nenhuma razão para acreditar que Runa fosse ligar às cinco da manhã. Mas reparou que ainda assim Jens fazia questão de manter o telefone no campo de visão. O outro sacou o próprio isqueiro antes de Harry ter a chance de encontrar o seu próprio.
— Obrigado. Você sabe alguma coisa do passado de Klipra, Jens? Sabia que a vinda dele pra cá como megainvestidor foi, na verdade, uma fuga da Noruega depois que alguns boatos chocantes começaram a se espalhar por lá?
— O que eu sei é que ele nunca terminou o curso de engenharia que estava fazendo na Noruega. O resto é novidade pra mim.
— Você acha que um expatriado como ele, alguém que não faz parte dessa sociedade, tem algum escrúpulo em usar os meios que forem necessários pra se dar bem, especialmente quando esses meios são relativamente tolerados em toda parte? Faz mais de trinta anos que Klipra está em um dos negócios mais corruptos do mundo em um dos países mais corruptos do mundo. Nunca ouviu aquele ditado: “Em Roma como os romanos”?
Jens balançou a cabeça negativamente.
— O que estou dizendo é que, sendo um homem de negócios, Klipra joga com as mesmas regras de todos. E esse pessoal precisa se certificar de que não vai sujar as mãos, por isso contrata gente que faça o serviço sujo. Meu palpite é de que Klipra nem sabe como Jim Love morreu.
Harry deu uma tragada no cigarro. O gosto não lhe pareceu tão bom quanto imaginou que seria.
— Entendo — falou Jens, por fim. — O que não entendo é por que ele me culparia, se há uma explicação pra falência. Compramos a Phuridell de uma empresa multinacional que não tinha fixado o valor de suas dívidas em dólares, uma vez que recebia dólares de outras subsidiárias.
— Como é?
— Resumindo: Klipra assumiu a empresa justamente quando o dólar passou a ficar sob enorme pressão. Era uma bomba-relógio. Falei pra gente fazer logo a correção da dívida pela venda de dólar futuro, mas ele disse que ia esperar porque a moeda estava supervalorizada. Sob condições normais de flutuação cambial, daria pra dizer que era um risco, caso se confirmasse o pior cenário. Mas a coisa foi pior do que o pior cenário. Quando, em um período de três semanas, o dólar quase dobrou de valor em relação ao baht, a dívida da empresa dobrou junto. A falência não aconteceu em três semanas, mas em três dias!
Jens pronunciou a última palavra com tanta ênfase que Hilde Molnes teve um espasmo e murmurou alguma coisa dormindo. Ele olhou para ela, preocupado, e esperou até que ela tivesse virado de lado e voltado a roncar.
— Três dias! — sussurrou, mostrando com o polegar e o indicador que era mesmo muito pouco tempo.
— Então você acha que não seria razoável da parte dele colocar a culpa em você?
Jens negou com a cabeça. Harry apagou o cigarro; tinha sido um anticlímax.
— Pelo que conheço de Klipra, ele não sabe muito bem o que significa “razoável”. Você não devia subestimar a irracionalidade da natureza humana, Jens.
— O que você quer dizer?
— Quando está pregando um prego e acerta o polegar, o que você joga contra a parede?
— O martelo?
— E aí, como é a sensação de ser um martelo, Jens Brekke?
Às cinco e meia, Harry ligou para a delegacia de polícia e precisou ser transferido para três pessoas até encontrar alguém que falasse um mínimo de inglês. Essa pessoa lhe disse que não sabiam de nada e não haviam recebido qualquer informação a respeito do paradeiro de Runa.
— Ela vai aparecer — completou a pessoa.
— Com certeza vai — respondeu Harry. — Imagino que esteja hospedada em algum hotel. Daqui a pouco deve ligar pra pedir o café da manhã.
— Como é?
— Imagino que... deixa pra lá. Obrigado pela atenção.
Jens o acompanhou escada abaixo. Harry olhou para o céu; estava amanhecendo.
— Quando isso tudo tiver terminado, gostaria de pedir um favor a você — falou Jens. Respirou fundo e sorriu, acanhado. — Hilde aceitou meu pedido de casamento, e preciso de um padrinho.
Harry precisou de alguns segundos para se dar conta do que o outro queria dizer. A surpresa foi tão grande que, por alguns momentos, não soube o que responder.
Jens examinava as pontas dos próprios sapatos.
— Sei que parece estranho a gente se casar assim, logo depois da morte do marido dela, mas temos nossas razões.
— Sim, mas...
— Você vai dizer que me conhece há pouco tempo? Eu sei, Harry, mas eu não seria um homem livre agora se não fosse por você. — Ele ergueu o queixo e sorriu. — Enfim, pense no assunto.
Relâmpagos iluminavam o céu sobre os telhados a leste quando Harry conseguiu um táxi. O nevoeiro provocado pela fumaça dos escapamentos, que, imaginara Harry, desaparecia durante a noite, tinha apenas se assentado entre as casas. Agora se elevava com o sol nascente como parte de uma magnífica e avermelhada aurora. O carro seguia pela Silom Road, e os pilares do novo elevado projetavam sombras compridas e silenciosas, feito dinossauros adormecidos, sobre o asfalto tingido de vermelho-sangue.
Sentado na cama, Harry olhou para o criado-mudo. Apenas naquele momento lembrou-se das cartas, das quais tinha esquecido completamente. Apanhou o envelope mais recente e o abriu, usando sua chave para rasgar o papel. Talvez tivesse deduzido que as cartas eram de Runa pelo fato de os dois envelopes serem idênticos. A mensagem, digitada e impressa em uma impressora a laser, era breve e ia direto ao ponto:
Harry Hole. Posso vê-lo daqui. Não se aproxime. Ela será entregue de volta sã e salva quando você estiver no avião a
caminho de casa. Sou capaz de encontrá-lo onde quer que esteja. Você está sozinho, totalmente sozinho. Número 20.
Sentia-se como se alguém estivesse lhe dando uma gravata e precisou ficar de pé para respirar.
Isso não está acontecendo, pensou. Não é possível que esteja acontecendo — não outra vez.
Posso vê-lo daqui... Número 20.
Ele sabe que eles sabem.
Você está sozinho.
Alguém tinha dado com a língua nos dentes. Tirou o telefone do gancho, mas o colocou de volta no lugar. Pense, pense. Woo não levara nada dali. Voltou a apanhar o fone e desencaixou o bocal. Ao lado do microfone que devia estar ali, havia um pequeno objeto preto semelhante a um chip. Harry já tinha visto um daqueles antes. Era um modelo russo, provavelmente melhor que os grampos usados pela CIA.
O chute no criado-mudo foi tão violento que mandou o móvel pelos ares, e a dor no pé que agora latejava neutralizou todas as outras que Harry sentia.